Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens

28 agosto 2014

"Não estou bem seguro de nada. Susana sim deixar-me-ia. E vá, importa-me tanto que Susana me deixe ou não me deixe? A paixão acabou-se, acabou-se de tal forma, que agora não sei se alguma vez existiu, mas a minha memória, não o meu corpo, a minha memória diz que existiu. Pode ser. Quanto ao amor, o amor sem paixão digamos, é um conceito tal abstracto e geral, que se calhar continua a existir, mas sem importar muito. Estou acostumado a ela, à ordem que impõe em casa, ao seu modo frio de dialogar, ao seu estilo um pouco histérico para enfrentar as preocupações, à cara adormecida de sonhos, ao seu riso metálico, aos seus cremes, à sua pele, aos murmúrios, às suas depressões, às suas impertinências, às suas nádegas. Mas costume não é necessidade. Antes precisei dela, agora não. O que se passa então entre ela e eu? Paixão já não, quiçá amor lasso; necessidade já não; quiçá costume. Que palavra pode resumir tudo isso? Carinho? Estima? Apreço? Simpatia? Indiferença? Fastio? Aborrecimento? Raiva? Na realidade eu deixo-me viver. Não vamos investigar demasiado. Nem sequer em mim. Até um míope poderia dar-se conta de que isto não é a felicidade.
(...)
Sim, é quase seguro que a prudência fácil, este continuar como até agora, é quase seguro que isso seja o disparate. Não sou herói nem nada que se pareça. Bastou que Susana não acreditasse que eu falava sério, para que eu mesmo me levasse a brincar. Não estou para piadas, disse, e foi o suficiente para que as minhas palavras me soassem vazias. A verdade é que sei que não vou mudar, que não vou tomar nenhuma decisão abrupta, dramática. Enquanto se trata só de pensamentos, de um simples jogo mental, então sinto-me com ânimo, tenho a impressão de que vou decidir-me, de que vou dar o salto, mas quando chega o momento de criar os factos e enfrentar a sua responsabilidade, então dá-me um medo irracional, um pânico semelhante ao que me assaltava em pequeno (...) Não sei exactamente se é medo à miséria, à insegurança ou ao desprezo dos outros. Talvez seja menos digno que tudo isso. Talvez seja simplesmente medo ao incómodo, à falta de conforto. Porque quando penso que a minha vida é cinzenta, aborrecida e rotineira, não me escapa que a rotina inclui uma série de coisas insignificantes mas agradáveis.
(...)
Pode ser-se feliz junto a uma pessoa frívola, mas desde que se pertença ao mesmo grupo sanguíneo. E Dolly não. Dolly tem vida interior. É profunda quando quer. A sua simpatia baseia-se particularmente no que não diz: silêncios, gestos, olhares, etc. (...) Dolly querida. Vi-a pela primeira vez quando eu já levava dez anos de casado. Era aquilo, claro, o que eu tinha andado à procura, e agora tinha-a Hugo. Casei-me com Susana porque pensei que Aquilo não existia, ou melhor, resignado a que Aquilo não existisse. E, naturalmente, se uma pessoa pensa que Dolly não existe, então Susana parece bem. Mas existe. Por exemplo, agora, ali, no jardinzinho.
(...)
"Bem, agora está claro. Acabaram-se os sonhos. Mas deixa-me às vezes que fale contigo. Sinto que com ninguém, nem sequer quando estou sozinho, estou tão próximo da verdade. Da minha verdade, entendes-me? (...) como é que posso falar com ela, assim, de qualquer coisa, cães, mendigos e Cristina Jorgenssen? Creio que a amo mais, agora que estou seguro de que não acontecerá nada. Porque não a vi antes? Porque é que não levei a melhor ao Hugo? Com ela sim, sentir-me-ia valente. Ou isto será uma boa desculpa para me sentir cobarde?"

Mario Benedetti, in Obrigada pelo lume

[ existir o que não pensávamos existir, sentir o que achávamos só pertencer a telas e a páginas de romances bem escritos, depararmo-nos com o que procurávamos quando já não estávamos à procura, ou à espera. Nada nos prepara para isso, e nada nos salva disso. A conjugação perfeita, o estarmos com o outro como connosco próprios, sem reservas ou medos: inteiros. E a impossibilidade. As razões que se vão acrescendo para validar as cobardias, para as justificar e quase legalizar como quem moraliza. 
O livro não é o que esperava, escreve em prosa tão diferente do que se sente na sua poesia, mas o giro é que se sente a mesma sensibilidade, só não descrita na prosa, apenas através de alguns pequenos pormenores que só os atentos atentam, e a sensibilidade, a humanidade profunda da história, principalmente das reflexões dos personagens, da sua bagagem psicológica, de medos, traumas e desejos. Os personagens são muito humanos, muito frágeis, muito reais, e por isso profundos. E a parte política reflectida como fenômeno sociológico mas também psicológico do indivíduo. Interessante, mas não o que esperava. Ainda assim não me desilude. E isso é bom, e bolas muito raro nos dias que correm... ]

27 agosto 2014

"Mas o reconhecimento de que uma necessidade seja peremptória nem sempre significa que a solução seja iminente.
(...)
A maturidade não se adquire por decreto. Se rebentarmos, não por própria convicção, mas pura e exclusivamente porque rebentam os nossos vizinhos e o fogo se propaga, o mais provável é que as chamas recebidas não nos sirvam de nada, a não ser para nos destruirmos. Enquanto não fabricarmos o nosso próprio rastilho e a nossa própria pólvora, enquanto não adquirirmos uma consciência visceral da necessidade da nossa própria explosão, do nosso próprio fogo, nada será fundo, verdadeiro, legítimo, tudo será uma simples casca, como agora é casquinha (...)"

Mario Benedetti, Obrigada pelo lume

[... Verdade, enquanto não tivermos a nossa verdade e a sentirmos até à medula, nada se incendeia, nada muda, não há revoluções, políticas ou outras.]
"(...) acabou-se o mundo lá fora. Ele conta-lhe tudo, pormenoriza-lhe os capítulos em que esteve dividido o dia. Sobre isso não há dúvida: é sincero com ela. Porque lhe conta coisas feias, coisas sujas, coisas terríveis. Como se soubesse que o amor dela é capa de aceitar esse lado negro do seu ser, essa zona do diabo que nunca mostra a ninguém totalmente.
(...)
Quando decidi ser como sou, fi-lo com toda a lucidez. Não vale dizer: que pena, enganei-me, peço perdão à sociedade, à família e ao fisco. Dir-me-ás: e a consciência? Não penses, eu também faço a mesma pergunta. A diferença está em que tu a fazes a mim, e eu a faço a esse fantasma chamado Deus. É a consciência?, pergunto-lhe. A minha pergunta, porém, é uma reclamação, como quando vais a uma loja protestar porque te deram um artigo com uma peça a menos. E a consciência? Isso é tremendo. Eu não tenho. Ou se tenho, nunca à encontrei.
(...) tinha chegado a captar, no entanto, que ela era uma espécie de instrumento, insignificante instrumento daquele homem difícil, impenetrável, duro. Tinha chegado a captar que era gozada, mas amada; desejada mas não necessitada. Ela era o instrumento de gozo do homem, e tinha validade enquanto ele precisasse dela como provocação dos seus sentidos."

Mario Benedetti, in Obrigada pelo lume

[... Relações estranhas de um instrumento de gozo a quem se conta o lado mais feio porque se sabe que aquele amor aguenta tudo... Um instrumento de vários sons e propósitos, com serventia para tanta coisa, mas nunca para amar realmente, de facto, assumidamente... E no meio disto tudo: a consciência? Onde fica, onde está? Não há, ninguém sabe. 

25 agosto 2014

"- O problema é que estou farta do meu marido, senhor Budiño.
- Talvez esteja deprimida esta noite, senhora Ransom.
- Chame-me Mary, Ramon.
- Como é que sabe que me chamo assim?
- Está no folheto da agência.
- Você está deprimida esta noite, Mary. Isso acontece a muitas pessoas com o triste Carnaval. Deprimem-se.
- Não estou deprimida. Estou enfastiada do meu marido. Nada mais, é muito simples. 
- Só esta noite ou sempre?
- É sempre, mas especialmente esta noite. 
- E porque não se separa?
- Digamos que por preguiça. 
- É um bom motivo.
- É, não é? Fez-me rir, Ramon, e eu não me rio facilmente.
- No entanto, fica muito bem quando se ri.
- O seu escritório fica muito longe?
- Chegámos, senhora."

Mario Benedetti, in Obrigada pelo lume

[... E eu que sou tão, mas tão preguiçosa, não tenho destas preguiças. E destas facilidades, desta rapidez de arranjar um entretém. No entanto ao menos é capaz de ser mais sincera a resposta, é escusado complicar ou vestir a verdade de outras roupagens. Prefiro a sinceridade, mesmo que estúpida.]

23 agosto 2014

"Este é o momento, estou certo. Nos dias em que estive alegre, sempre me enganei, sempre acreditei no que não sou, na vida cor de rosa, etc. Nas noites em que me senti tão mal como que para chorar aos gritos, não chorei aos gritos, mas silenciosamente, tapado com a almofada. Mas aí também se exagera. Não se pode ser lúcido com o peito inchado de angústia ou desespero."

Mario Benedetti, in Obrigada pelo lume

[grande verdade, a angústia e o desespero não deixa a lucidez ver nítido. Absorve todos os sentidos, todos os sentires e abafa toda a razão, apaga todos os raciocínios bem intencionados de ordem. Talvez a sabedoria seja deixar passar a angústia e o desespero, reconhecer a sua ausência consciente,  para deixar a lucidez analisar e decidir.
E depois, o que se decide com lucidez não se duvidar, mesmo quando o desespero e a angústia nos faz faltar o chão e o ar, porque aí, decide o desespero o contrário da lucidez. E anda-se assim tempos sem fim.
E isto faz-me reformular: o que mais nos mostra o que realmente queremos? O que decidimos lucidamente, ou o que o desespero, no seu turbilhão, nos mostra? Se a lucidez assenta na razão e na calma de conseguir pesar e pensar, o desespero alimenta-se e encarna o medo extremo. O que é mais verdadeiro, maior? Não sei, não sei mesmo, porque o medo, o medo extremo do desespero, como todos os medos, serve para nos proteger; para ser tão intenso é porque protege alicerces fundamentais. Mas o medo, se nos protege do mal também nos protege de todo o possível bem que não chegamos a permitir possível. A lucidez raciocina demais e sente de menos. Algures no meio, onde se encontre uma lucidez sensível estará o melhor para nós.
Eu ainda estou no pós-desespero que queima. ]

22 agosto 2014

"- Por isso as grandes obras de arte se construíram sempre em redor do pecado.
- O que, no fundo, significa construí-las em redor de Deus.
- Naturslmente, porque sem Deus o pecado não existe. E construíram-se em redor do pecado, porque o pecado está proibido e tem castigo, e isso é o estético: o conflito entre a proibição e a culpa. Melhor dizendo, a arte é a faísca que resulta de friccionar a proibição com o castigo."

Mario Benedetti, in Obrigada pelo lume

[...que melhor começo para a Eva, do que uma conversa não pecaminosa sobre o pecado??... ]

Boa noite

21 agosto 2014

"Os cuidados de Matilde fizeram com que aquela gruta selvagem fosse ornamentada com mármores ricamente esculpidos em Itália.
A senhora de Rênal foi fiel à sua promessa. Não procurou de forma alguma atentar contra sua vida; mas três dias depois da morte de Julião, morreu beijando os filhos."

Stendhal, in Vermelho e negro

[acabou. E estas duas frases resumem bem estas duas personagens, e o amor para elas.]
"O entusiasmo e a felicidade de Julião provavam-lhe como ele lhe perdoava. Nunca estivera tão louco de amor.
(...) que o crime que cometo é horrível, e mal te vejo, mesmo depois de teres disparado dois tiros sobre mim... - e, neste momento, Julião, contra sua vontade, cobriu-a de beijos.
(...) ... Mal te vejo, todos os deveres desaparecem, sinto apenas amor por ti, ou antes, a palavra amor é fraca demais. Sinto por ti o que devia sentir unicamente por Deus: uma mistura de respeito, de amor, de obediência... Na verdade, não sei o que me inspiras...
(...) Explica-me isto, bem claramente, antes que eu te deixe, quero ver claro no meu coração; porque daqui a dois meses deixar-nos-emos... A propósito: separar-nos-emos? - disse-lhe sorrindo."

Stendhal, in Vermelho e negro

[... Tão pouca razão e nenhum raciocínio... Por isso o amor desgraça tudo, e é ao mesmo tempo a única graça de tudo, em tudo. Desgracemo-nos então, ou viveremos para sempre desgraçados. ]
"Teria sido sensível a uma ternura ingênua e quase tímida, enquanto que a alma altiva de Matilde necessitava sempre de ter a ideia dum público e dos outros.
No meio de todas as suas angústias, de todos os receios pela vida daquele amante, ao qual não queria sobreviver, ela tinha uma necessidade secreta de causar admiração no público com o excesso do seu amor e a sublimidade dos seus empreendimentos. Julião sentia-se de mau humor por não se comover com todo aquele heroísmo.
(...)
"É estranho", dizia para consigo Julião, um dia, quando Matilde saía da prisão, "que uma tão grande paixão de que sou objecto me deixe de tal forma insensível! E há dois meses adorava-a! (...) Sou portanto um egoísta?" E fazia a si próprio, a este respeito, as mais humilhantes censuras. A ambição tinha morrido no seu coração, uma outra paixão saíra das cinzas; ele chamava-lhe remorso, por ter tentado assassinar a senhora de Rênal. De facto estava perdidamente apaixonado por ela. Sentia uma felicidade estranha quando, deixado absolutamente só e sem receio de ser interrompido, podia entregar-se completamente à recordação dos dias felizes que passara em Verriéres e outras vezes em Vergy. Os menores incidentes desses tempos, tão depressa decorridos, tinham para ele uma frescura e um encanto irresistíveis. Nunca pensava nos seus êxitos em Paris; aborreciam-no."

Stendhal, in Vermelho e negro

Impressionante, vem tudo nos bons livros (até aquela curiosidade minha daquele prazo inexplicável dos dois meses, pelos vistos é universal e eu não sabia!!... Santa ignorância!), aquilo que se faz com um propósito, com um futuro, com um fito, deixa de existir quando estamos perante algo que nos obriga a fazer o balanço da vida, a recordar o que nos tocou e valeu viver. A vida que sentimos ao longo da vida. O que vivemos sem um propósito, o que vivemos sem razão alguma que não fosse apenas vive: quando vivemos o agora - sem futuro, ou sem pensar nele. Tudo se relativiza, e só sobrevive o essencial, o que nos fez sentir felizes e vivos, o resto enevoa-se e esquece-se. Quando o propósito ou a razão se dissipam, tudo isso desaparece com eles, fica o que se viveu por gosto e vontade de viver.
O que fica foi o que nos tocou, o resto foi  tempo que passou e que não tocámos, passou só.

19 agosto 2014

" "Nem sequer devo permitir a mim próprio apertar contra o coração este corpo maleável e encantador; ou me despreza, ou me maltrata. Que terrível carácter!"
E, ao amaldiçoar o carácter de Matilde, amava-a cem vezes mais; parecia-lhe ter uma rainha nos braços.
A impassível frieza de Julião redobrou o desgosto de orgulho que dilacerava a alma da menina de La Mole.
(...)
despreza-me, se quiseres, mas ama-me; não posso viver privada do teu amor! - e caiu desmaiada.
"Aqui está, enfim, esta orgulhosa a meus pés!", disse para consigo Julião. "

Stendhal, in Vermelho e negro 

[... E a isto se resume esta história, e tantas, tantas outras. O quebrar o orgulho de alguém. Não será apenas para refazer o próprio orgulho? Amor não será, digo eu... E para isso não olhar a meios, fingir amar outro alguém, fingir frieza e desprezo, acicatar o orgulho alheio para o seu triunfar, no fundo. Amor? Será? Ou apenas um jogo podre de poderes amargos? De subjugação de quem dizemos amar? De só sentirmos o amor que queremos do outro e sentimos por esse alguém, quando o tratamos mal, quando fingimos não amar, quando lhe quebramos o orgulho e o subjugamos a nós? Isto é amor?
Amor, para mim, não é uma relação de poder, é talvez aceitar não ter poder algum sobre o outro, sabendo que nos tem. É aceitar termos o coração noutro peito e esperar que no nosso habite o dele. ]
"Às vezes felicitava-se por desprezar aquela pessoa tão triste; mas, contra a sua vontade, a conversa dele cativava-a. Sobretudo o que à espantava era a sua completa falsidade; não dizia uma palavra à marechala que não fosse uma mentira, ou, pelo menos, um abominável disfarce da sua maneira de pensar, que Matilde conhecia tão perfeitamente a respeito de quase todos os assuntos. Este maquievalismo espantava-a. "Que profundidade!", dizia para consigo.
(...)
Quando, depois de uma longa divagação, conseguia retomar o raciocínio, pensava: "portanto, eu obteria um dia de felicidade depois do qual recomeçariam os seus rigores, fundados, infelizmente, sobre o pouco poder que tenho de lhe agradar, e não me restaria recurso algum: estaria arruinado, perdido para sempre... Que garantia me pode ela dar com um carácter assim? Ai! Falta com certeza elegância nos meus modos, a minha maneira de falar é pessoal e monótona. Santo Deus! Porque sou assim?"

Stendhal, in Vermelho e negro

[... Penso o mesmo, porque sou assim? E porquê estes jogos? Não sei jogá-los, não tenho paciência nem jeito, nem quero. E no entanto reconheço nestas linhas aquele efeito estranho que vejo por aí, desprezar o que se acha bom e se entende que verdadeiramente se procura, e ser-se atraído estupidamente pelo que se critica e se pretende afastar, apenas porque é o meio a que se está habituado, a que chamamos casa, ainda que sempre que se tem oportunidade se declare que é o que não queremos, é do que queremos fugir. Daí Matilde dizer do seu desprezo, mas a conversa teatral, e não sentida, de Julião a cativar, ainda que ela a saiba falsa. Gosta mais das genuínas ideias dele mas não resiste ao efeito que o teatro tem sobre si... Ou será sobre a sociedade? E por isso sobre ela?]
"Por seu lado, Julião achava que os modos da marechala eram um exemplo quase perfeito daquela calma patrícia que respira uma delicadeza exacta e ainda mais a impossibilidade de qualquer emoção viva.
(...)
Era tudo muito vago. Aquilo queria ao mesmo tempo dizer tudo e não dizer nada. "É a harpa eólica do estilo", pensou Julião. "No meio dos mais altos pensamentos sobre a morte, sobre o infinito, etc., a única realidade que vejo é um medo abominável do ridículo." 
(...)
Depressa compreendeu que para não ser vulgar aos olhos da marechala era preciso, sobretudo, não ter ideias simples e razoáveis.
(...)
Apesar do nosso herói fazer todo o possível para banir completamente o bom senso da sua conversa, esta tinha ainda uma cor antimonarquica e ímpia que não escapara à senhora de Fervaques. Rodeada de personagens eminentemente intelectuais, mas que, muitas vezes, nem sequer tinham uma ideia por noite, esta dama admirava-se imenso com tudo que se parecesse uma novidade; mas, ao mesmo tempo, julgava-se no dever de se sentir ofendida com ela. Chamava a este defeito conservar a marca da superficialidade do século."

Stendhal, in Vermelho e negro

... Muito bom, e tão intemporal...
"-Você tem o ar de um trapista. Exagera o princípio da gravidade que em Londres lhe incuti. O ar triste não pode ser de bom tom; é um ar aborrecido que se deve ter. Se está triste é porque qualquer coisa lhe falta, qualquer coisa que não lhe saiu bem. É mostrar-se inferior. Se, ao contrário, estiver aborrecido, é porque aquilo que em vão tentou agradar-lhe é que é inferior. Compreenda portanto, meu caro, como o engano é grave."

Stendhal, in Vermelho e negro.

[ de facto, grande engano e melhor observação, estamos sempre a aprender. Eu que ando tantas vezes triste, entendo agora que não se deve estar triste, ou melhor, parecer triste, porque revela inferioridade. Que é como quem diz revela que estamos na mó de baixo. E eu que sempre achei que se estivesse triste estava e pronto, embora nem a toda a gente se goste de mostrar - e eu não serei excepção -, também sempre achei que andar sempre a disfarçar é dar importância a mais a quem possa pensar em tirar conclusões sobre mim. Normalmente acabo por achar isso sim uma inferioridade, o dar importância a mais, e muitas vezes nem tento disfarçar, para quê? Estou-me a marimbar para o que pensem quando me olham para o trombil... Se estou na mó de baixo estou, não sou desgraçada por isso, é um estado, é passageiro, saber isso é saber-se não inferior. Disfarçar sempre é não se saber, e ter medo que seja mesmo inferioridade. Costumo dizer que a maior força é admitir as fraquezas, escondê-las é só mais uma das fraquezas.
Mas é uma reflexão e uma observação muito boa, e por isso aqui fica no meu registo.]

17 agosto 2014

"O amor feito de raciocínio tem realmente mais espírito do que o amor verdadeiro, mas é feito apenas de momentos de entusiasmo; conhece-se excessivamente, julga-se sem cessar, longe de desencaminhar o pensamento, é construído à força de pensamentos."

Stendhal, in Vermelho e Negro

14 agosto 2014

" "Contudo, tenho de lhe falar", disse para consigo; "é uso confessar tudo ao homem amado." E então, para cumprir um dever, e com uma ternura que estava bem mais nas palavras de que se servia do que no tom da voz, contou as diversas resoluções que tomara a seu respeito(...)"

Stendhal, in Vermelho e negro

Nunca está nas palavras, nem nas mais lindas e perfeitas e adequadas. Não ... A ternura está num gesto de um olhar que fala. A ternura fala pelo toque que nos chega à alma.
A ternura está no carinho que pomos na voz, no toque que mergulha além da pele, no olhar que respira como vemos o outro.
A ternura fala sempre muda, só a ouve quem a sabe falar.

05 agosto 2014

"Matilde esforçava-se por tratá-lo por tu; evidentemente dava mais atenção a esta maneira de falar estranha do que às coisas que dizia. Esse tratar por tu desprovido do tom de ternura não dava prazer algum a Juliao; admirava-se de não sentir felicidade; e, para a sentir, teve de recorrer ao raciocínio. Via-se estimado por aquela rapariga tão altiva e que nunca concedia louvores sem restrições; com este raciocínio conseguiu a satisfação do seu amor-próprio."

Stendhal, in Vermelho e negro

[... Para sentir felicidade teve de recorrer ao raciocínio? Engraçado como pelos vistos a felicidade pode ser pensada, convencida se agradar ao nosso amor-próprio!! Nunca tal me passaria pela cabeça. A felicidade para mim sempre foi sentida sem pensar, senão é talvez contentamento, satisfação. Felicidade não deixa espaço para pensar, não enquanto se sente, depois sim, pode-se pensar e até tentar entender ou justificar, sem grande resultado, provavelmente. Ser feliz talvez seja uma coisa que se possa analisar e pensar porque é um contínuo, estar feliz, sentir-se feliz é uma plenitude que anula o pensamento, talvez por isso seja o estado de felicidade pura.
E eu agora penso que talvez seja boa ideia dormir, porque a ideia de ir trabalhar amanhã não é lá muito boa... Eheh]

03 agosto 2014

"Eis a sedução das mulheres desta terra, tal como a senhora de Rênal as descreveu. Não fui amável para ela hoje de manhã, não cedi à fantasia que teve de conversar comigo. Aos seus olhos aumentei de valor. Com certeza que o diabo não perde nada com isso. Mais tarde, a sua altivez saberá vingar-se. Faço com que proceda pior. Que diferença do que eu perdi! Que encantadora simplicidade! Que ingenuidade! Sabia os seus pensamentos antes dela; via-os nascer. No seu coração o meu único antagonista era o receio da morte dos filhos; esse afecto era razoável e natural, agradável até, para mim, que sofria por causa dela. Fui um parvo. A ideia que eu fazia de Paris impediu-me de apreciar aquela mulher sublime.
"Que diferença, santo Deus! E que encontro eu aqui? Vaidade seca e altiva, todos os cambiantes do amor-próprio e nada mais.""
Stendhal, in Vermelho e negro


16 julho 2014

"Sentia-se bastante desorientado com a situação quase irremediável a que levara as suas aventuras. E, contudo, nada o teria embaraçado mais do que o triunfo."
Stendhal, in Vermelho e Negro.

E esta? Pois, quando se acha que se quer alguma coisa, sem se saber sequer bem porquê, e se anda desorientado, às vezes o pior que nos pode acontecer é conseguirmos o que supostamente queremos. Como diz o outro: "cuidado com o que desejas porque podes consegui-lo". Convém saber realmente o que se deseja, ou o triunfo torna-se na pior derrota.

10 junho 2014

"...porque trouxe para casa um homem de carácter, quando necessitava de uma alma de lacaio? Porque não sabia escolher o pessoal? O procedimento habitual do século XIX é: quando um ser poderoso e nobre encontra um homem de carácter, mata-o, exila-o, prende-o ou humilha-o de tal forma que o outro comete a parvoíce de morrer de dor."

Stendhal, in Vermelho e Negro

[...parece-me que no século XXI nada se alterou muito, só a nobreza do sangue azul está mais afastada destes tempos ditos modernos.]

24 maio 2014


" "O quê! Será amor", dizia para consigo. "Estarei apaixonada? Eu, mulher casada? Mas nunca senti por meu marido esta sombria loucura que faz com que não possa deixar de pensar em Julião. No fundo, é apenas uma criança cheia de respeito por mim. Esta loucura será passageira. Que se importa meu marido com os sentimentos que eu possa ter por este rapaz?(...) Nada lhe tiro para dar a Julião."
(...)
Tudo era imprevisto para ela. Contudo, depois de alguns instantes pensou: "basta, portanto, a presença de Julião para apagar todas as suas culpas?" Ficou apavorada; foi nesse momento que lhe retirou a mão.
Os beijos cheios de paixão, diferentes de todos os que recebera, fizeram-na esquecer, de repente, que ele amava, talvez, outra mulher. Pouco depois aos seus olhos já não era culpado. O cessar da dor pungente, vinda da suspeita, a presença de uma felicidade que ela nem sequer nunca sonhara deram-lhe exaltações de amor e de alegria louca. (...) Julião não pensava já na sua negra ambição, nem nos seus projectos tão difíceis de executar. Pela primeira vez na vida era arrastado pelo poder da beleza. Perdido num sonho vago e doce, tão estranho ao seu carácter, apertando devagarinho aquela mão que lhe agradava como uma beleza perfeita, escutava o movimento das folhas da tília, agitadas pela leve brisa da noite, e os cães do moleiro do Doubs, que ladravam ao longe. Mas esta emoção era um prazer e não uma paixão. "

Stendhal, in Vermelho e Negro

Há dois tipos de grandes autores, os que se destacam pela forma como escrevem, ou porque o fazem duma forma diferente e diferenciada, ou porque o tornam na verdadeira arte, dizendo qualquer coisa duma forma sublime, que nos faz parar, pensar, repetir, reler e por fim guardar sorrindo, mesmo que num sorriso triste tantas vezes. Depois temos os outros, os que não têm uma escrita que consideraria excepcional, mas que têm um conhecimento excepcional da psicologia humana, dos sentimentos e emoções mais recônditos, pessoas que criam personagens verdadeiramente reais, complexos, humanos.
Este livro que ando a ler encaixa neste segundo tipo. 
Neste pequeno trecho cabem aqui pormenores imensos do que é paradoxal e irracional, os dilemas internos e os esquemas mentais que tornam tudo inexplicável e expectável no ser humano, no que se sente, ou não se sente, a impotência, a consciência da irracionalidade, o absurdo do que se sabe sentir, e as pequenas diferenças imensas entre, por exemplo, a paixão e o prazer.