Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)
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21 outubro 2014



"Mas não dizíamos que todo o blogger escreve para ser lido?
(...)
Sabendo de antemão tudo isto, o blog do Menino De Sua Mãe posiciona-se desde o seu início num terreno “difícil”: falar de forma séria e desassombrada sobre sexo, sobre a vida, sobre amor, sobre literatura, ser, portanto, um blog “de autor” porque o fio condutor, o que une os textos, é a visão do autor sobre o mundo. Ao mesmo tempo, o autor não dá a cara, esconde-se atrás de um personagem, do Menino, sem idade, sem rosto, sem profissão definida, sem amores assumidos nem lugares a que chama seus. 
(...)
Mas, ao mesmo tempo, é um blog cheio de imagens de gente nua, mesmo quando se fala de poesia, um blog com palavrões, um blog que não se pode recomendar aos amigos, um blog que não se pode partilhar no Facebook.
(...)
Se calhar, o Facebook tem razão: se calhar o Menino é um blog perigoso, neste mundo onde é cada vez mais perigoso ser a ovelha fora do rebanho, neste mundo onde é cada vez mais perigoso ter ideias, cada vez mais mal visto pensar pela própria cabeça."


E só agora é que eu vi isto!!!!!!

Ohhhhh Menino e eu a pensar que tu não escrevias para ser lido, e que pedias para caridosamente ocultarem a autoria dos teus textos, do personagem que criaste para poder escrever, para poder ter um blog de autor, ainda que sob anonimato da verdadeira pessoa por trás do Menino... sabes, como pessoa inteligente que sou e que és, e que tanta gente - mesmo que não muito dotada dessa coisa chamada inteligência -, percebe é que se se cria um personagem é para proteger a pessoa real que lhe veste a pele, não prejudicando o feedback e o poder ser reconhecido como autor do que escreve (bom ou mau, opiniões cada um tem a sua)... afinal como dizes tens um blog de autor. E eu sabia disto, até de já o termos comentado em conversas casuais das desonestidades intelectuais que por aí pairam... e agora que vejo este teu post relembro-me do que uma certa vez me ri pela soberba presunção de certas pessoas da estupidez alheia (e valente lata, para não dizer uma coisa mais feia..) de dizer que, depois de copiar (não partilhando da fonte, como é suposto ou normal numa situação destas, e numa plataforma global como o facebook pretende ser...) omitiu a autoria "a vontade do próprio", não por falha ou esquecimento ... o que eu me ri quando me contaram isso, a sério... ri-me do ridículo da coisa, mas todos os casos semelhantes me irritam, acho muito feio, mesmo. E já me aconteceu a mim - uma página do facebook que sigo, de repente, começar a pôr trechos de textos aqui do blog sem a respectiva autoria ou link... passei-me... outra vez houve que reconheci outros textos de outros blogs, e na caixa de comentários pus o link para a origem; e doutra vez ainda vi numa dessas páginas textos  duma blogger que adoro ler e avisei-a, e hoje até falamos e trocamos mensagens, conhecemo-nos por causa desse episódio. Detesto realmente estas cenas tristes... No teu caso, soube-o mas nada fiz, nem podia, mas no que eu puder evitar, ou repôr a justiça das autorias, farei.  Bem sei que não mudo o mundo, mas pronto... apedrejem-me.

Acerca disto devo ainda dizer  que eu (quem é de facto a Eva da vida real) também não partilho links do teu blog no facebook sítio onde tenho contactos desde profissionais a pessoais, mas também não copio ( mas copio aqui no blog - e muito - e sempre com a autoria e respectivo link, tudo o que não tem autoria é meu mesmo), e já recomendei a viva voz o teu blog a vários amig@s, aqueles que me conhecem e sei que podem apreciar a extraordinária escrita e reflexões várias que me fazem ler-te amiúde.

16 setembro 2014



"Fazer dois barcos seguir juntos implica, a cada momento, que se decida o que é importante: se ir para onde queremos, se ir com quem queremos. Quem não decide acaba por ir na corrente, não vai parar onde quer, e quando olha para trás está sozinho.

O amor, como os caminhos no mar, não está escrito – escreve-se todos os dias."
Do Menino 

Boa Noite

15 setembro 2014


“Estou perdido; e já não sei o que querias para mim com isto; se querias mostrar-me o que tinha de fazer ou se querias mostrar-me o que não tinha de fazer; se querias mostrar-me o amor conseguiste; agora sei o que é o amor; sei que é esta coisa que não sei dizer; este aperto que não consigo desapertar; esta precisão que não consigo saciar; esta saudade maior do que nunca tive; este abraço maior do que todos os que apertei; se querias mostrar-me o que era o amor conseguiste.”

"In Sexus Veritas", de Pedro Chagas Freitas

[...e agora faz-se o quê com isto?]


13 setembro 2014


"(...)
Sai dos teus sentidos, vai
até ao limite da saudade;
sê o meu corpo.

E por trás de cada coisa, arde em chamas
e que as sombras que se alastram
sejam a minha roupa.

Permite que tudo te atinja: a beleza e o terror.
Apenas tens de ir:
nada do que sintas será demasiado longe.
Não te deixes nunca separar de mim."
(...)

Rainier Maria Rilke

12 setembro 2014


"Parece estranho que alguém possa ter medo de ser feliz, que queira mudar sua vida em busca do novo, queira sucesso e alegria, mas só consiga fracasso e frustração nessa busca. Inconscientemente temos outro "eu" que não quer esse nosso sucesso. E assim, nós mesmos nos boicotamos sem saber.

São condicionamentos nossos que nos acompanham pela vida, fruto de nossa educação, do medo de fazermos algo que não é o que esperam de nós. E esses condicionamentos podem ser uma pesada herança emocional que carregamos e que nos impede de gozar a vida plenamente.

Ao buscarmos felicidade e satisfação de nossos desejos, entramos em um conflito sem nem mesmo imaginarmos que ele exista, muito menos o porquê. E criamos um verdadeiro monólogo interno que questiona nossas mudanças... "E se eu gostar? E se eu for feliz? E se der certo? Que medo!"

Em nossa zona de conforto, sentimo-nos seguros. Está tudo certo. Nossas vidas estão tranquilas, em ordem, estamos sem problemas. Mudanças trazem consigo riscos. E isso tudo nos causa angústia e ansiedade.

E se não conseguirmos vencer esse embate inconsciente, no sentido de satisfazer nossos desejos, podemos fazer com que esse medo nos paralise.

Viver é correr riscos, assumir responsabilidades e ter consciência de que não temos o controle sobre nossa vida - o que é a grande angústia do ser humano.

Todos nós temos nas mãos todas as condições para aproveitar a vida ao máximo, mas talvez prefiramos não fazê-lo, por uma espécie de medo de ser feliz. Freud já falava sobre isso, em 1916, em um artigo intitulado "Os que fracassam ao triunfar". Uma parte de nós quer mudar, quer satisfazer desejos, quer ser feliz; outra quer manter-se segura como está.

O que precisamos é descobrir esse conflito interno para modificar nossas atitudes. Somos seres com a tendência a repetir, confirmar e concretizar todas as crenças que adquirimos em família, sem questionarmos se fazer exatamente o que nossos pais e avós também fizeram é o que queremos para nós.

Vamos buscando os mesmos modelos de vida, buscando os mesmos tipos de relacionamentos por acharmos que são os certos para nós. E caímos em nossas próprias armadilhas. Não fazemos o que realmente desejamos por sentirmos culpa ou medo de certo tipo de rejeição.

Quanto antes tivermos consciência disso, maiores as possibilidades de mudar nosso rumo, assumindo o que queremos para nós, indo em busca do que nosso "eu" realmente quer para si.

Vivemos num mundo em que se dá valor a determinados "modelos" de felicidade que vemos ao nosso redor e, muitas vezes, desejamos uma tal felicidade que não é a que temos e que não está em nós.

Buscamos ser interessantes, ricos, bonitos e inteligentes como outros - um modelo que enxergamos - e esquecemos quem realmente somos e todas as nossas possibilidades.

Portanto, repensar nossas próprias posturas pode nos ajudar a interromper esse verdadeiro ciclo de autossabotagem, pois felicidade é ter coragem de viver sem medo e sem culpa."


11 setembro 2014

[na verdade, as pontes não são para unir as margens e o tempo viu-me partir num dia de sol, pela berma fora, descalço, sem procurar mais espaço neste lugar. parti, destinado à ideia de estar só, metamorfoseei-me da invenção do amor. respirei fundo até ao fundo de mim e cuspi fogo. escrevi uma curta crónica sobre o meu corpo e apaguei-a depois. talvez por medo, talvez por estar em branco como as insónias que me dizem o que não quero ler. torna-se tudo tão nítido de noite. as sombras, o vento, o choro. não quero que a memória me traia, mas penso que me demorei nos gestos e agora já não sou daqui. sou um outro animal desconhecido e conto o agora através dos dedos dos pés, à espera que a luz se apague de vez. não quero reconhecer a escravidão dos dias, já não trato o tempo por tu. era preciso uma ilha. trinta de junho. era preciso não saber nadar. respirei fundo e cuspi uma onda de mar. o silêncio está a meio da vida e pouco resta do meu nome. deixei a porta aberta. no fim do azul a chuva cairá.]

10 setembro 2014


"pegas-me na mão, abres a porta, ligas a música e o candeeiro do chão. suspiro-te ao ouvido que estás linda nesses saltos, aperto-te a cintura com um braço e com o outro prendo-te o pescoço. o beijo demora mais, a respiração fica mais intensa, o teu corpo cola-se ao meu. a roupa cai e deixa nua a tua pele. deito-te na cama e percorro cada bocado de ti com a minha mão. lentamente. o teu peito, os teus braços esguios, o teu pulso do tamanho da minha mão, a palma da tua mão na minha. lentamente. o teu pé, de curva inclinada perfeita, as tuas pernas longas, a tua coxa próxima, quente. quase louco o magnetismo que o teu corpo solta quando lhe toco. depois beijo-te, aperto-te, rodo-te, puxo-te. toco-te. amo-te. em vagas de ritmo. às vezes mais lento, outras vezes mais demorado. paro no teu olhar sempre que tenho a ideia mais louca. solto um riso, gozo com a tua cara de espanto maroto, e fico-me ali, a ver-te no prazer do que te faço. dizes que é o meu sorriso safado, de boca mordida no gemido baixo, que te excita o desejo.

entre cada vaga de ritmo louco, de safadice doce, o teu olhar cruza o meu. e não vejo só prazer. e não vejo só amor. vejo mais, vejo aquilo que não se explica, a intensidade do que não se sabe onde nasce, apenas sabe que se vive ali. naquela fusão de dois corpos que se entregam, que se deleitam no prazer, que se amam, não pela carne, não pelo desejo, mas pela alma. como quando no meio do ritmo mais louco, paramos. quietos. imóveis. o silêncio da música, apenas o meu respirar ainda ofegante na tua cara. e as palavras que saem lá do fundo, sem filtros, nuas, como nós. e a lágrima de emoção que escorre, que cai lentamente enquanto te abraço, enquanto te aperto, enquanto te amo mais uma vez. e ficamos ali, horas, entre risos safados, prazer sôfrego, e paixão lânguida. dizes que é o meu sorriso doce, de brilho nos olhos, que te emociona o desejo."


Momentos daqui

...mas só dali, porque destes não moram cá.

Boa Noite

09 setembro 2014



"O que os amantes fazem é gostar um do outro.

Se gosto do teu corpo, quero-te; se gosto dos teus olhos, olho-os; se prezo a tua opinião, peço-ta; se valorizo os teus conselhos, conto-te a minha vida para que mos possas dar; se me agrada a tua companhia, escolho-a; se quero ter coisas em comum contigo, procuro-as; se te quero bem, cuido-te; se quero os teus beijos, dou-tos; se me interessas por dentro, ouço-te; se te quero foder, digo-to; se te quero menos cansada, ajudo-te; se me quero menos ocupado, e mais livre para ti, explico-to; se gosto de te ouvir rir, rio contigo; se gosto de te sentir perto, abro-te a porta e chego-me a ti, chego-te a mim.

São estas as coisas que fazem os amantes; e são estas as coisas de que se alimenta o amor – não é só de viagens nem de jantares, de corpos magros, de prendas caras ou de vontades feitas.

O que os amantes fazem são estas coisas parvas do dia a dia, e é preferirem-se um ao outro para estas coisas."


Mas este não dá para resistir... coisas parvas, estas coisas parvas de se preferirem um ao outro para rir, para fazer rir, para se encostarem um ao outro, para conversarem, para pensarem em conjunto de tudo o que é a vida e do que devia ser e do que não queremos que seja, para se cuidarem por dentro e por fora - e às vezes cuidar por dentro é agarrar por fora. Querer por dentro é colar por fora. É uma coisa parva de encostar a pele do avesso, de dentro para fora, numa gargalhada, num abraço ou num beijo que às vezes só se sonha.

É preferirem-se, sempre. Escolherem-se todos os dias para as coisas parvas, e para as outras também. Escolherem escolherem-se. 
Escolherem-se.

Sou terrívelmente parva, o que me faz lembrar do título dum livro que transcrevi muito aqui no tasco: O Amor é para os parvos.

Boa Noite

04 setembro 2014

(...)
"Porque és Tu. A minha queda-livre.
E não te sei parar em mim.
Segura-me. Amparo-te.
Controla-me a loucura. Sossego-te os medos.
Pede licença para ficar. 
Não podes ser tanto.
Vou perder-me em ti. Vou querer ficar. 
Não vou querer sair. 
Nem daqui a mil anos."
(...)

Do miúdo que gosta de me chamar grande...
:)
... e olha miúdo a melhor maneira de te encontrares é perderes-te em alguém que encontre em ti o homem que podes ser. sem medos.





03 setembro 2014


"nos dias que correm, cada vez mais imediatos, partilhados e padronizados, a tendência é para o afunilamento de padrões. uns são nerds dos computadores, outros são intelectuais das letras, outros fito-desportisto-atletas. há ainda os viajantes profissionais, os preguiçosos intencionais, os mil fashionistas, os swagger's emprestados e os novos ginlovers. para mim, não passam de uma cambada de ovelhas que seguem todas o mesmo caminho, todas com a mesma lã, a mesma cor, o mesmo gosto. cansam-me. porque o que gosto mesmo são dos outros, dos que mantêm o que são, seja qual for a moda. daqueles que tem um toque que é a sua marca. não é só o que são, como são, ou como vivem, mas aquele toque especial que lhes dá uma piada única, ou um estilo próprio, ou até mesmo aquela irritação boa, quase de estimação. porque as pessoas verdadeiramente interessantes tem um toque que se adivinha, que se percebe, que se antecipa. um toque que não se vê, que não se consegue descrever, mas que se sente..
gosto daquelas pessoas que tem sempre o seu estilo, estejam na festa mais deslumbrante, ou apenas caídos, ali na relva de um jardim. as que dançam a música, não por quem canta, mas pelo que canta. que sabem conversar horas, de todos os assuntos, mas sem nunca se levarem muito a sério. que são bonitas, não pelo que exibem, mas pelo que guardam em si. e, gosto ainda mais das que sabem reconhecer - e apreciar - esse toque nos outros. porque não há nada que me deixe mais feliz, do quando me dizem 'vê-se logo que foste tu que fizeste', ou 'tinhas de ser tu a descobrir isso'. e isto, não é porque somos melhores ou únicos. é o contrário, é mesmo na nossa imperfeição, nos nossos defeitos, termos sempre um vinco que deixa a nossa marca boa. seja a forma de rir quando estamos a dizer parvoíce, ou a forma de abraçar quando dizemos que gostamos, até a forma de ocultar (por carinho), quando fugimos aos problemas. ou aquela forma de cuidar, sempre atenta aos pequenos sinais, cheia de pequenos gestos que se tornam grandes, pela simples forma se saber estar: presente.
hoje, sei que o que distingue os grandes amores é a sintonia nestes pequenos toques, que fazem do mais normal dos dias, um momento sempre especial. é saber que se tem uma pessoa bonita e especial à nossa frente, mas que são os grandes detalhes que a fazem nossa paixão. coisas simples, como a forma de tomar café, ali meio a cair do balcão entre pernas encruzadas, seja em que casa for. ou ir às compras, e fazer sempre daquilo uma diversão, seja na loja mais in, ou no supermercado mais out. é haver sempre uma musica nova que é tão nossa, seja de quem for. é o cheiro da pele fresca da manhã, sempre familiar, seja em que banho for. é a forma como adormeces no meu peito, seja em que cama for. é o brilho do olhar no outro, que se reconhece quando está feliz, seja a que distância for. e sabes, é o nosso toque, que nos deu esta forma tão improvável de sermos iguais. porque somos almas que vivem da mesma forma: entregue. não apenas ao outro, mas ao tanto que sabemos que vamos viver com o outro.."


...haja alguma coisa que descubra gostar cada vez mais... quero muito acreditar nisto que estes textos transmitem, este toque, esta essência, que seja realidade para alguém, que me façam acreditar que é possível.... que ainda é possível. Que este toque de vida na vida ainda me é possível. Que um dia ainda vou respirar vida pelos poros. Todos. 

Bom Dia

13 agosto 2014


Eu vou tirar do dicionário
A palavra você
Vou trocá-la em miúdos
Mudar meu vocabulário
e no seu lugar
vou colocar outro absurdo

Eu vou tirar suas impressões digitais
da minha pele
Tirar seu cheiro
dos meus lençóis
O seu rosto do meu gosto
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática

Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos “nãos” se faz um sim
Eu vou tirar o sentimento
do meu pensamento
sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento
a qualquer momento
Procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz
dos meus ouvidos

Eu vou tirar você e eu de nós
o dito pelo não tido
Eu vou tirar você de letra
nem que tenha que inventar
outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que descobrir
com quantos “nãos” se faz um sim

Alice Ruiz

[ahhh eu vou!!...]

“Dançava como um títere, tendo os cordéis dentro dela, atados na alma. Depois tomou-me nos seus braços e, sem pedir, desapegou-me das roupas. De todas as roupas. Colocou-me a outra coroa e convidou-me para dançar com ela, os dois nus. O meu corpo não tinha cordéis na alma, apenas acanhamento; sentia-se vazio de música. Mas ela pegava-me nos braços, endemoninhava-me o corpo, arrastava-me no seu bailado revolto. E ria. Um sorriso que se media a palmos como se mede o diâmetro do mundo, redondo, grávido, imenso. E eu entrei dentro desse sorriso, onde coube nu e sem vergonha. E dancei com ela como dança um louco, como se não houvesse amanhã, como se o hoje fosse pouco. E quando os nossos corpos caíram na cama, despidos e cansados, dormimos como dormem as flores, caídas umas sobre as outras, a partilhar o calor, a dividir o luar. Só quando tudo dormia já, senti que havia música dentro de mim. Finalmente. Música…”

João Morgado

[...lembro-me de dizeres que eu beijava como quem gosta, lembro-me de dizeres que gostavas quando tinha pressa na vontade, quando a força do desejo se notava nos gestos, lembro-me de dizeres que gostavas de tudo em mim e de ficares a olhar para mim a dizer que eu era linda, lembro-me de dizeres que até da minha gargalhada gostavas e de ficares muitas vezes a olhar para a minha boca enquanto falava, lembro-me de a meio duma conversa qualquer me calares com um "adoro-te" ou com aquele "olá" da praxe que faz recomeçar tudo e começar pelo beijo que faltava, lembro-me  de quando me querias desconcertar perguntares-me se hoje já alguém me tinha dito que sou linda, lembro-me de me chamares fera e bruxinha e cobra porque te enrolava nas minhas pernas, mesmo a dormir, lembro-me de dizeres que sabia dançar, que usava cada músculo como queria, lembro-me das conversas à lareira, ou com a porta da varanda aberta a ver o céu que restava para nós, lembro-me de dançar contigo à luz de copos de vinho, sentados no chão enquanto o teu braço nos fazia um só corpo e o balançar era o nosso silêncio a dizer o que as palavras não sabem.
Lembro-me ainda de tanta coisa, tanta coisa onde coubemos sem vergonha e inteiros (ou só eu), como se não houvesse amanhã, porque só havia o agora, e o agora era o nosso mundo, e a música era o silêncio dos olhares que conversavam, e em que as almas que se entendiam.
Quando é que o mundo acabou se ainda há música dentro de mim, mas o agora já era?
...não me lembro... ]

Boa Noite

12 agosto 2014


Cansa-me ser quem serei
Porque em tudo esse outro
Se parece com o que sou.
Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.
Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
Terra ardendo,
Chão de água e fogo
Abraça-me.
Abrasa-me.

Mia Couto

[Terra ardida,
chão de cinzas que não voam.
Cansa-me ser, cansa-me ainda ser,
Carvão onde era ardente a brasa que me queimou.
Cansa-me já o futuro que serei.
Cansa-me ser a todas as horas,
Cansa-me até o que fui já
e nunca cheguei a ser,
Sou o cansaço que respira
o que não se viveu.]

Boa Noite

11 agosto 2014


Durante o sono retiraram-me uma costela
Ficou-me no peito um vazio que não consigo preencher
Custa-me a respirar
Eu quero de volta a minha costela
quero de volta todas as costelas
Quero de volta o paraíso
quero de volta o silêncio rumorejante
quero de volta as poluições nocturnas
e diurnas
Quero uma mulher
feita de chuva
e vento
e fogo
e neve
e luz
e breu
e não de argila
como eu.

Jorge de Sousa Braga

[... dou-te a minha costela se me levares para o tempo antes do paraíso, e da maçã e de eu ser uma costela tua, de eu ser tua. Antes de tudo, antes de mim; porque o depois é sempre tarde, e é vazio, e torna-se - e torna tudo - em nada.]

30 julho 2014



Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

Mia Couto

E por hoje acho que já chega de dia... deitar e dormir seria bom, melhor seria encostar-me e sentir o mimo que me falta, enrolar as pernas noutras e puxar um braço para eu agarrar. Melhor seria, mas dormir sem sonhar e não sonhar acordada se calhar era melhor... "porque me enamorei de caminhos por onde não fui e regressei sem ter nunca partido"... ainda não, ainda não regressei. os sonhos que o sonho sonha não deixam.

Boa Noite

23 julho 2014


"Antes de ti eu estava cheia de certezas. Plena das minhas convicções.
Antes de ti eu gostei. Mas não amei. Gostei até muito, mas não amei.

E depois de ti? Depois de ti não existe. Quando se aprende a amar não se esquece e não se troca só por um gostar. Ou por um gostar muito. Fica-se eternamente ligado."

Rita Leston 

[...sim, fica-se eternamente ligado. Ligações que não conseguimos cortar, coisas a que não sabemos dar nome, ou não queremos nomear, talvez seja difícil conjugar o verbo em voz alta e consciente. Mas deve ser isso, se não se conseguem cortar deve ser amor, o resto, o que se corta, é companhia, com sorte poderá até  chamar-se uma espécie de gostar, mas não amar.]




17 julho 2014



"Por vezes parece que Platão tinha razão, que há quem nos suplemente de forma ideal, como se de um arquétipo de gente se tratasse. Ao contrário de Platão, ou talvez concordando com ele de uma forma que nem ele previu, esta pessoa arquetípica é alguém que não se procura, só se encontra. Platão reduziu isto à “busca de uma alma gémea”, sobresimplificando, dando-lhe um carácter de odisseia e de procura que na verdade a coisa não tem. É o próprio Platão que explica, sem querer, a verdade, na alegoria da caverna. Antes de encontrar, não sabes o que procuras. Depois de a achar, não sabes nem como viveste tanto ano antes disso, nem consegues sequer explicar a alguém o que encontraste e como é diferente. As palavras saem-te da boca mas não tens a certeza que ninguém te entenda.

Se tiveres sorte, encontrarás quem te faz sentir que voltaste a casa – a uma casa que nem sabias que tinhas. O melhor amor é feito de momentos “eureka”, e amar assim é uma sucessão de descobertas científicas, de “afinal a vida é isto e ninguém me tinha dito?”. Dás por ti a descobrir coisas em que nunca tinhas pensado, a descobrir ângulos diferentes para ver coisas que achavas que conhecias.
(...)

Penso por vezes (não o pensamos todos?) “porque dei tantas voltas para chegar onde estou?”, “porque passei tanto tempo a fazer coisas distintas destas, das que me fazem feliz?”; e depois lembro-me que Ulisses levou dez anos, depois de Tróia, a voltar a casa, a voltar a Penélope. 
(...)

As nossas vidas são, como a Odisseia, uma história sobre o voltar a casa, cheia de aventuras mais ou menos dignas, de enganos, de tentações e de tempo aparentemente perdido. E por vezes lamentamos, há quem lamente, esse tempo que se passou a fazer outras coisas – há quem ache que o destino é um lugar onde se pode chegar mais cedo, onde se pode chegar antes da hora marcada.

Mas não pode.

Provavelmente faz falta passar por uma Circe, por um voluntariado nas mãos de alguém que não é quem procuras, embora te saiba bem.

Provavelmente há que passar por uma Calypso, pela prisão, pelo ser subjugado e controlado, por te fazerem sentir impotente e sem saída, pela esquizofrenia de quem te quer mas não te ama, apenas te quer controlar.
(...)

A casa de Ulisses é Penélope, e evolui e cresce e muda, dia a dia, até ela ser a casa que ele encontra quando volta a casa, quando procurando quatro paredes encontra dois braços, melhores e mais seus do que alguma vez esperara, braços e uma mulher inteira que ele nem sabia que existia, uma mulher das que não se procuram, só se encontram.

Estava escrito."

Escrito pelo Menino para mim, só pode, é que se não foi passa a ser. 
Esta ideia de que as coisas têm de acontecer como acontecem é coisa que me diz muito, mesmo que às vezes me irrite muito o percurso, me magoe muito tudo, olho para trás e sinto que para estar onde estou tinha de estar a olhar precisamente para este passado; talvez por isso tenha sempre compreendido tanta coisa incompreensível, talvez por isso não tenha a tentação de querer mudar o passado ou arrepender-me dele, mas sim de saber que cheguei onde cheguei porque vim pelo caminho que vim. Isso dá-me talvez a noção de para onde quero ir, onde quero ir agora, mesmo que lá atrás não o tenha feito, ou tenha feito doutra maneira, ou tenha percebido que aquele não era o caminho, se não o tivesse feito não saberia. 
O passado é passado para podermos ter futuro. 
O passado é para aprender, não é para impedir o futuro que quisemos ter no passado e não tivemos, ou estaríamos noutro ponto de vida, é para pegar no ponto em que estamos e fazermos o que percebemos que já devíamos ter feito e não fizemos, ou para não fazer mais o que percebemos que não queremos.
O futuro é sempre voltar a (nossa) casa. Está escrito.

( e isto, ironicamente, estamos fartinhos de saber, demais, até à exaustão. depois lembro-me duma frase de há não muito tempo "aquele abraço fez-me sentir em casa, regressado a casa".... giro, muito giro, ser não fosse tão tragicamente ridículo eu me lembrar disso. mas sei que tem de ser para eu chegar onde vou chegar. um dia. um dia a vida encontra-me, entretanto vai acontecendo-me.) 

08 julho 2014


"O amor pode matar, pode levar à implosão dos amantes, à sua transformação em algo mais, numa amálgama de corpos em que já nem um nem outro se reconhece, da qual se acabam por afastar ambos, desiludidos por deixar de ver o corpo amado, por deixar de se ver a si mesmos. O amor não é uma colisão mas uma órbita, um bailado, uma sucessão de movimentos de dois corpos em torno de um ponto invisível que lhes serve de fulcro, em movimento permanente. Achar este ponto é difícil; mas talvez a solução seja não o procurar – seja cada um dos astros seguir o seu caminho próprio, nem que pareça afastá-lo do outro, e deixar que o amor, como a gravidade, os puxe na direcção um do outro e os mantenha juntos à medida que fazem o seu caminho. Sabendo que se podem afastar irremediavelmente; procurando até aproximar-se deliberadamente quando isso for necessário; mas sabendo que não ter destino que não seja o outro é uma rota para uma colisão inevitável, inexorável, e fatal. O universo é um lugar cruel, mas é o único que temos."

Do Menino.

[O amor é uma órbita sim, dois corpos que brincam e se atraem mutuamente, que se deliciam do outro, pelo outro, com o outro, numa força invisível que não sabem explicar, de gravidade sustida em leveza, à volta do que os une aos dois - esse centro de órbita, não é um ou o outro, é que são os dois -, é o que são os dois juntos que é o Amor, e é à volta dele que a vida se vai dando a bailar.  Só à volta dele a vida se baila sem saber de música ou de passos, é apenas a harmonia do estar, do saber estar a dois na vida de cada um. Só se afastam realmente quando saem de órbita, e então é porque já não há nós, já não há aquela força invisível que os mantém juntos.]

07 julho 2014


"Ainda em desamor, tempo de amor será.
Seu tempo e contratempo.
Nascendo espesso como um arvoredo
E como tudo que nasce, morrendo
À medida que o tempo nos desgasta.
Amor, o que renasce."

Hilda Hilst