Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

24 fevereiro 2015

E há pouco, de repente, sem pensar - sem saber que o pensava -, vi-te naquela cama, moribundo, mas não eras tu que sofrias, não eras tu que morrias, era eu em ti. Deixavas-me morrer e senti-me sofrer por isso, morrer nisso. Eras tu que eu via nesta cama, mas era eu que me sentia morrer mais um pouco. Como se houvesse sempre mais para morrer do que se sabe viver. Sempre mais um pouco de morte, das mortes que não sabemos ter, mas nos encontram. De repente foste tu naquela cama, mas quem morre sempre sou eu. Morro em ti mas sobrevivo para o ver - para te sentir a indiferença de deixares-me morrer em ti por nunca te ter sido vida. Posso morrer-te que nada em ti morre. Só em mim, só eu. 
[finalmente dorme, e eu despejo-me.]
... O Kafka espera-me...

Boa Noite.
" Nunca estiveste realmente onde não te tenhas perdido, onde não tenhas amado nem beijado nem sofrido, onde não tenhas sorvido o frio da noite, o céu da manhã. 
São diferentes os lugares que se aprendem dos lugares em que o corpo se ensopou."


[Talvez quem não se ensope não saiba perder-se, não saiba que só perdido se reconhece na alma a casa onde somos. Onde sofremos, amamos e beijamos; onde nos aquecemos, porque sentimos o frio da noite, mas não medo. Onde acordamos por podermos adormecer ensopados em nós, no que somos, onde estamos.]

23 fevereiro 2015

Há finais de dia que são vontade de pegar no telefone e ouvir a voz que queríamos do outro lado, e sentirmos assim alguém ao lado, do nosso lado. Mas não o fazemos, nunca o fiz e não farei, não serei mulherzinha para descer a esse ponto. Não mo permito e não quero, mas a vontade, o impulso, grita-me por dentro dos ouvidos, só o consigo calar dizendo-lhe, com a calma da razão, que se alguém quisesse estar ao meu lado, do outro lado da minha voz, estaria. Se eu estivesse entranhada no lado de dentro de alguém, estaria.  Se não está, se não me sabe, nem quer saber, não tenho vontade de ouvir voz nenhuma. Ao meu lado não está ninguém, ou estaria. Saberia que hoje ao fim da tarde teria vontade de ligar e falar. Simples. Não posso querer falar com quem não me quer saber. Claro. A vontade cala-se, mas esperneia. Eu fico quieta. Calada.
Boa Noite.
(que traga um bom dia... que não traga mais coisas más e tristes,
 e nos ensine a lidar melhor com as que temos... se não for pedir muito...)

22 fevereiro 2015


Chegou ao quarto e já não estava na cama, encontrou-o em frente aos roupeiros no chão, a fazer flexões.
Ela ainda de cabelo despenteado e descalça, naquele ar matinal desarrumado, chega de mansinho com um sorriso domingueiro e deita-se no chão ao lado dele que se deu conta dela sem saber o que contar...
-a exercitar o corpinho hoje, é? Não há preguiça por aí?
- preguiçoso ando eu...
E continuava, já com meio sorriso. Ela rasteja para debaixo daquele corpo, encaixa os ombros entre as maos dele apoiadas no chão, entre o vai vem dos exercícios com falta de preguiça. Ele chama-lhe jibóia, e ri-se a um palmo de distância da boca de peixe pedinchona dela:
- vá, faz de mim uma mulher sem preguiça no corpo... Vamos lá exercitar...
Abraça-o com pernas, braços e mergulha-lhe nos olhos enquanto o puxa para ela...
-olha o preguiçoso...

(Eheheh tontices, pois sim, já sei, coisas parvas e doces que só as palavras lambem. Ainda não aprendi a descoser a pele da doçura tonta que já não se usa. Pode ser que um dia consiga separar as águas...)





Ando com uma cena na cabeça desde manhã, nao sei porquê apareceu-me, passou à frente dos meus olhos, entrou-me alma adentro e dei por mim a sorrir... Feita estúpida, pois. Ainda não a escrevi, é uma coisa meia tonta, mas que me fica a bailar na cabeça e nos dedos enquanto não a deixar escrita. Só é pena que estas minhas imaginações macacas só dêem para escrever, em vez de as coser com linhas da vida à alma, aos dias que me escapam pelas mãos sem rir, sem fazer rir, sem abraçar e encher de beijos... 
E ainda não vai ser agora que a escrevo, parei hoje pela primeira vez agora, vou beber o meu café no silêncio dos barulhos que me rodeiam. Estou cansada, doem-me agora os ossos debaixo do olhar já cansado há tanto tempo...

Bom Dia

Boa Noite.
(ou...assim seria...com um beijo destes de fim de noite...
ou de começo de noite, ou de dia, ou de vida, ou de qualquer coisa...)

21 fevereiro 2015

A noite tem uma pestana que lhe enche o olhar de melancolia.
(é o que dá dar voltas na cidade sem destino debaixo deste céu, aparecem-me frases que tenho de deixar nalgum lado... talvez seja essa a minha chegada ao destino)
Já se respira. O friozinho até sabe bem a acompanhar o cigarro. Percebo que tenho fome e ponho-me a pensar nas pessoas que têm uma vida normal, entraram no ano sem chamar para dentro nomes a ninguem, que celebraram a esperança dum novo ano, dum recomeço, e depois outras comemorações, o dia destinado aos apaixonados e os jantares apinhados de normalidade corrente, o carnaval e os risos, o aproveitar cada coisa e todas as coisas. As pessoas que não chegam ao fim do dia a tentar fazer sentido dum ano que começou sem coisa nenhuma ter acabado, um ano que por mim acabaria já, e tarde. A normalidade essa coisa de toque diário e corrente ou o que seja esse conceito redondo que rebola para onde o mandarmos, ou quase, essa não se aproxima desta Eva, que acende mais um cigarro depois do descafeinado bebido, esperando que a cafeína acorde o ano que dizem que é novo, ou era. Não sei quando é que a normalidade dirá que o ano já não é novo...
Aqui o ar é pesado, dum quente ressequido, saturado, e eu saturada de o respirar. Quase a acabar o turno. Quase. Apetecia-me tratar de mim, um bocadinho que fosse. Ando a sonhar com uma tarde de ficar de papo para o ar a tratarem de mim: cara, mãos, pés, se puderem tratar da alma também agradeço, mas isso duvido... Mas no fim uma massagem. Isso sim era uma tarde. Depois ir para casa, para a lareira com uma garrafa de tinto, boa música e um livro que nos afunde nele, sem deixar levantar cabeça. Precisava disto tudo, à falta de tudo o resto, isto agora servia-me. Está quase a acabar o meu turno, preciso de pelo menos espairecer, fumar um cigarro, dar voltas na cidade, qualquer coisa que pareça assemelhar-se com descanso ou da família... Também vinha a calhar um jantar bem disposto com quem gosta de nos usufruir a companhia com uma conversa pós repasto e uma garrafa de vinho, ou duas, na loucura. Enfim sonhar ainda não paga imposto. E eu ando mesmo a precisar duns dias longe daqui, e nem sonhar consigo de quando o poderei fazer... Enfim, o turno deve estar quase a acabar. Preciso dum cigarro e de ar. De respirar e sentir ar...

... Ronha....
E o resto da vida à espera. E eu espero até à última para ignorá-la... E agora chega, não pode ser mais. E hoje, hoje, vendo bem as coisas nem é fim de semana, ou quase não é. Acabou agora.

Bom dia!
... Terá sido isso?
Também isso?

20 fevereiro 2015


"Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas.
Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da conha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão.
No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa?
Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.)
Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço.
Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.
Meu nome é Caio F.
Moro no segundo andar, 
mas nunca encontrei você na escada. " 

Caio F. Abreu

[preciso, e talvez precise porque conheço. Ou talvez tenha conhecido porque precisava. E nem sabia... Agora sei e conheço e preciso. E podia ser assim - um colo, mas no sofá com a chuva lá fora e a lareira cá dentro. Sei que podia.]





Paradoxo da pele : precisar tanto de ser tocada e não suportar a ideia de alguém me tocar.

Li algures que a pele tem memória, e é verdade, só pode ser verdade - ainda que nem para todos, ou cada um terá a sua memória selectiva, talvez. Tenho esperado a amnésia da pele, o perder o norte dos caminhos que a ponta dos meus dedos percorria de olhos fechados, o desbotar dos trilhos que me sulcaram a memória, que por tantas vezes terem sido percorridos na pele ficaram lá, ainda os sei e quase os sinto. Não fui abençoada com essa amnésia, bem com muitas outras, ao contrário de tanta gente que tão facilmente, tão rapidamente, muda a pele que toca, que nem a ponta dos dedos chega a notar diferença, como se já nada sentissem, ou como se tudo fosse o mesmo - todas as peles, todos os corpos, o mesmo corpo indistinto, que não lhes mergulha na memória, no ser, não invade a casa e a torna sua. Como deve ser triste não ter um rosto de que sentir saudades, como deve ser pobre, em tanta pele não sentir nenhuma como casa. Deve ser uma solidão cheia de gente sem rosto, sem pele com alma, sem ternura para beber na ponta dos dedos. Prefiro a minha solidão cheia de saudades, o meu corpo esculpido de memórias, ainda que anseie pela amnésia que me deixará, pé ante pé, sair da solidão e permitir conhecer novos caminhos, que não fujam de mim e me deixem na saudade da minha pele - de a sentir-, e da pele que não é minha. Que não me levem aquele recanto no meio do peito que reclamei para mim, onde os meus dedos se perdiam na inconsciência de terem chegado a casa, bocadinho que elegi universalmente para mim, e que declararam meu, mas que terá sido tão meu como de toda a gente que não deixou saudades. Que não deixou nada. Bendita amnésia do que não precisa de ser esquecido.

Boa Noite



19 fevereiro 2015

(... Não viro princesa mas quem sabe insistindo...)

Estas tardes assim dão-me tempo para divagar de pensamento em pensamento. E dou por mim a achar que certas coisas não terem dado me livra de preocupações, preocupações estúpidas, mas ainda assim preocupações (ciumeira, pronto). Sempre que vejo alguma mocinha interessante dou logo por mim a mentalmente chamar nomes a alguém, e não, não é a elas. Há dias estive com uma dessas criaturas e dá-me para pensar que, realmente, entre uma e outra não haveria dúvidas. Eu não teria. O que me chateia, porque assim nao dá para criticar condignamente (mas dá para chamar nomes, muitos). É que há mulherões do caraças (em todos os sentidos) e depois há uns caraças de mulherzinhas (peço desculpa pela terminologia, mas não me apetece pensar noutra maneira de dizer o que se diz assim). E perceber que isso é fácil de perceber por quem não nos apetece que o perceba, dá para dar largas ao vocabulário cabeludo português... Que até tem enriquecido nos últimos dias, nesses termos tão finos e lisonjeadores, tais são as coisas que oiço a uma distância de metros... Hoje  a meio da tarde, ouvi de tudo, o que vale é que entre o espanto e o nojo dá-me para rir... E para chamar muitos nomes nos entretantos...

Há dias em que se consegue fechar os olhos à  vida. Fechar os olhos e não ver o que nos rodeia, onde estamos. Fechar os olhos, e ver só o que por dentro temos de mundo, como se fosse a realidade, para fugir à realidade. Há dias em que se fechar os olhos me consigo rir, e ver luz, e achar que as coisas não estão tão más assim. Nunca dura muito, nunca fecho os olhos muito tempo, a realidade tem uma maneira de nos acordar. Ou nós uma maneira de não nos deixarmos adormecer profundamente. Umas vezes mais cruel, outras menos. Nem sempre sabemos como, ou por que, nos acorda, mas de repente já o riso nos escapou e a luz se esfumou. Como agora, ao pensar em amanhã, e nos dias que se seguirão, e não me apetece; não apetece ser invadida e acordada por dentro por este mundo, onde a luz apagada faz abrir mais os olhos para melhor discernir a nossa escuridão.

Boa Noite 

18 fevereiro 2015


... E isto lembra-me uma pergunta que eu costumava fazer, e a resposta que dava quando me diziam que não... Sinto falta dessas brincadeiras, dessas, e doutras, de todas... E daquelas mãos, e daquela cara a olhar para mim com olhos a sorrir, enquanto a ponta dos meus dedos, vagarosamente, faziam o reconhecimento daquele território, daquela pele. Decoraram o mapa todo, tenho na ponta dos dedos todos os caminhos onde me perdi, e donde ainda não voltei inteira. Talvez ainda ecoe em mim aquela outra pergunta, parecida com esta, que me faziam, e que nunca deixava de me fazer rir. E não, há tanto tempo que não me dizem nada disso. Tenho saudades, também, de me rir com essa pergunta, mesmo quando era feita para distrair as atenções doutras coisas nada lindas... Ou principalmente nessas alturas.
ahahahahah...
... temos de rir, temos de rir, senhores..
e eu já me mascarei várias vezes de bruxinha... 
é para variar do docinho que sou ihihiihih
e não, nunca sai de moda, 
quem é bruxa todos os dias é do mais fashion que há, deve ser isso... eheheh

Bom Dia!

What about??
Hummmm??...
Nummm  hááá!!....
....buáááaaaaa...
Snif Snif
(depois dos últimos dias, só tentando brincar mesmo é que se aguenta... para aliviar... E agora o último cigarro da praxe, sem luz, a ver se o cansaço dos ossos e dos olhos fraqueja e me dá uma trégua...)

Boa noite