Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

29 março 2015


... De manhã olho o espelho e pergunto-me se é ele que tem raiva de mim e me devolve assim, se sou eu que tenho raiva dele por eu ser assim. Mas a raiva é indiscutível. Como a raiva que não me deixou calçar durante meses umas botas que voltei a calçar há dias, não sei porquê, calcei-as, talvez as tenha visto de maneira diferente. Quando de madrugada as descalcei foi outra vez com raiva, muita. E essa raiva não descalcei, e vi tudo outra vez da mesma forma. 
Não há condescendências: a raiva também alimenta, mesmo que envenene os dias.
separou-se
foi demasiado longe na sua solidão
e soube – teve de saber –
que dali não se regressa

afastou-se – afastei-me –
não por desprezo (claro está que o nosso orgulho é infernal)
mas porque uma pessoa é estrangeira
uma pessoa é de outra parte,
eles casam-se,
procriam,
veraneiam,
têm horários,
não se assustam com a tenebrosa
ambiguidade da linguagem
(Não é o mesmo dizer Boa noite que dizer Boa noite)

Alejandra Pizarnik
(Tradução de Miguel Filipe M.)


[há solidões de que não se regressa, mágoas que não se curam, desilusões de que não se recupera, perde-se a esperança e a crença. A distância aumenta ainda que não nos mexamos, que não saiamos do mesmo sitio. Há algo que sai de nós sem pedir licença, sem aviso, sem cerimónia - abandona-nos. Às vezes sai e bate a porta com estrondo, outras de mansinho. Nem sempre é fácil saber se realmente saiu, que já não nos habita - às vezes parece que sim, outras descobrimos que não, que ainda cá temos tudo despedaçado à espera de ser colado. Uma coisa sabe-se, dói, porque a distância que aumenta é a ferida que abre, que rasga, por onde nos esvaímos. E deixamos. Mas às vezes é a purga que cura. Às vezes, outras só nos esvaímos. Somos estrangeiros de outras longínquas fronteiras, a língua que falamos ninguém entende, o que sentimos sem fronteiras não é pátria de ninguém. Os outros passeiam,  riem, falam, estanques, parece que vivem. Dentro das suas fronteiras seguras, confortáveis e estéreis, o que não sentem - onde todos estão -  não é casa de ninguém.]

Boa noite

28 março 2015

... É mesmo. 
Alguém dizia que ninguém que ama vai dormir sem ver, sem se assegurar, que o outro está bem. Que não há cansaço ou falta de tempo que impeça isso. Penso que é verdade, que quem ama, de alguma forma o faz ou arranja maneira de fazer o mais parecido, seja pensar na pessoa, seja procurar saber dela e como está, seja ir-lhe aconchegar os cobertores e dar um beijo de boa noite. Há uma intenção, uma preocupação, um estar com, mesmo que se esteja sem, que é comum e revela uma mesma coisa. E há pouco esta frase tomou uma nova dimensão quando ouvi "está frio...Será que tem frio?". Coisas que se dizem em delírios que acontecem nos extremos em que a vida nos põe sem aviso ou preparação. Delírios, ainda assim, de amor; dum amor profundo que não dorme sem pensar se quem se ama estará bem.

Boa noite

27 março 2015

Sento-me à janela, ao lado do mundo. Do lado de dentro do vidro, do lado de fora do mundo. Olho e não vejo chover. Abro a janela um pouco para entrar ar e percebo que chove. Chuva molha tolos, os que pensam que nao chove porque não vêem, ou melhor, vêem chover sem saberem que chove. Há coisas que sem sabermos acontecem enquanto olhamos, porque olhamos mas não vemos. Os olhos enganam, como tantas vezes enganam os ouvidos quando ouvem o que não há, ou quando não ouvem o que há. 
Há olhos surdos e ouvidos cegos. Assim toda a gente se molha. Ou então só os tolos. 
Tola sou eu, aqui sentada a olhar a rua molhada sem ver chuva cair sabendo que cai, e a pensar nestas idiossincrasias estranhas dos sentidos que me fazem questionar o sentido daquilo a que chamamos razão. A razão ensina-nos a ver e a ouvir, a interpretar, descodificar o que se vê e ouve, mas nem sempre tem razão. Às vezes está a chover e os olhos não o vêem.
De repente fico-me a pensar: e a pele? A pele sabe sempre. Sabe até de olhos fechados e ouvidos tapados - a pele sabe. Razão tem a pele. O que a pele sente acontece. Sempre. Existe. Toca. Molha. 
Talvez a pele seja a melhor razão. O que a pele sente não engana. Talvez até seja melhor ser racional assim...

Boa noite

26 março 2015

"(...) dá porque gosta, porque ama e mais não interessa e isso é raro, demostra que é uma pessoa com um coração enorme e quando gosta é "arrasador" tanto para o outro como para si. é muito intenso, tão intenso que muitas vezes nos deixou sem palavras. quando aquelas não são precisas para as pessoas se perceberem e perceberem que amam, são cumplices, podem estar sozinhas, afastadas que nunca estão, o outro está sempre presente, lá, e isso só existe quando alguém não quer nada em troca (não exige nada em troca) (...) no princípio até me meteu algum medo devo dizer pois já me tinha esquecido do que é amar com toda a inocência que isso implica de parte a parte (...) não me lembrava do que era amar no verdadeiro sentido da coisa. sabe acho que é a sensação mais bonita do mundo e não a viver por muito tempo maltrata muito as pessoas. escondemo-nos numa capa de ferro, pesada, que nos tira os movimentos e que nos deixa sem aquela elasticidade que só se encontra quando as pessoas estão felizes, acordam felizes e adormecem felizes."
(apanhado por aí, que me tocou, que fala por mim em muita coisa...)

Amar é cuidar, é querer ver o outro bem, estar perto quando sabe que não está bem, ser o sorriso no fim das lágrimas que não se podem evitar que o mundo nos faça verter. É querer ser a parte boa e doce que dá força para aguentar as amarguras e as dores que não se podem evitar, mais que tudo é (como dizem no texto por outras palavras), ser perto. 
Ser perto quando não se pode estar perto, mas estar perto sempre que se puder.

25 março 2015


(foto @thislittlecorner)

Preciso dum café ao sol e que me devolvam as palavras, 
mas sei que a vida nada devolve, tenho de ser eu a recuperá-lo.

Bom Dia

23 março 2015

As mãos, sempre as mãos. Aquelas nunca tinha percebido serem feitas de dedos compridos, magros, de tanto andarem sempre enroladas em si mesmas, e vi hoje, tão perto para tocar tão longe para lhes chegar a vida que as faz mexer. 
As mãos por onde a vida passa, as mãos com que não a conseguimos agarrar, inúteis quando escorrem impotência. As minhas, que agora recordam o que o dia inquietou, o que tentaram aquietar sem darem paz, e que escrevem outras, mais cansadas da vida que lhes foge, a vida que enruga a pele que veste o sangue; mãos que querem proteger - querem continuar a proteger -, que tentam segurar a vida que deram, e agora tremem face ao medo quando tocam em desespero outras mãos, de dedos compridos, adormecidas, distantes, quase noutro mundo. 
E os meus olhos vagueiam pelo espaço, olham números que não se somam mas subtraem vida a conta gotas. Enquanto fogem do olhar demasiado brilhante de quem contém o que não sabe gritar, vêem outras mãos que se fecham em punho fechado, de revolta calma, de racionalidade que pensa poder ordenar um mundo sem ordem, onde a racionalidade se afoga em lágrimas por chorar. A vontade de ter as coisas nas mãos, de controlar, de poder fazer onde tudo parece desfeito. Fecham-se as duas mãos em punho fechado, vazio de força e cheio de dor lenta que não explode. Punho fechado que esconde o vazio enquanto o segura. E as minhas, as minhas mãos, cheias de não saber para que servem, que procuram agarrar, chegar às que restam, que procuram consolar o que consolo não pode ter. Mãos que esperam por agora para se abrirem em palavras. Mãos vazias que acumulam perdas. Mãos a que tudo foge, como a água escorre por entre os dedos abertos, e que foge se os tentamos fechar.
Mãos, sempre as mãos - talvez a vida se resuma aos momentos em que são úteis e fazem, aqueles em que são inúteis e nada podem fazer, e aos momentos em que servem afectos e são amor com pele.

22 março 2015




(foto de Nick Walters)

Fala-se
Mobila-se o cenário vazio do silêncio.
Ou, se há silêncio,
este transforma-se na mensagem.
– Porque está calada? Em que pensa?

Alejandra Pizarnik
(Tradução de Miguel Filipe M.)

[hoje -ou melhor dizendo, ontem - foi dia da poesia e eu gosto muito desta Alejandra tão assombrada.]


Boa Noite

21 março 2015

(foto @vorosmate)
Não gosto dos fins de semana em que já sei que não tenho pelo menos um dia para mim, sem nada marcado, sem horas a cumprir, onde o dia corre ao nosso ritmo e do que queremos. Se quisermos combinar alguma coisa combina-se no dia, se apetecer, mas se a ronha estiver mais apetecível, fica-se no sofá enrolada numa manta com um livro e um chá, ou sai-se sem destino marcado, numa volta que se vai fazendo ao sabor do momento e da vontade de passeio. Fim de semana sem esta liberdade de não fazer nada - ou de escolher o que não fazer, se calhar... deixa-me um bocadinho neura, como se entre duas semanas houvesse mais uma semana mais curta, mas onde o tempo não é meu para decidir.... 
Bom Dia.

Hoje, em diferentes momentos do dia, a memória rasgou-me os pensamentos uteis de quem quer esquecer o que mais ninguém lembra. De manhã lembrei-me, sem descortinar o porquê, dos pequenos grandes terramotos que me vinham morrer nos braços e que tremem agora longe da minha pele. Já não os sei, perderam-se no tempo das memórias que quero desbotadas e enterradas por me incendiarem a raiva que dói por dentro - raiva de mim mesma, misturada com mágoa que retorce as entranhas. Depois, ao fim do dia, ao olhar para as minhas próprias mãos a navegar desertos de afecto, quase consegui ouvir outra vez quando me disseram que a maneira como toco seria bastante para me reconhecer, às escuras ou de olhos fechados. Sem me verem, viam-me nas pontas dos meus dedos. Agora, mesmo que me vissem, nada lhes toca o olhar que sente de olhos fechados e às escuras. Nada lhes treme. Por mim. A mim, mesmo às escuras nada me aquieta este olhar que os olhos tentam fechar.

Boa noite

20 março 2015


... Pois, é isto...
Nada de ninguém acordar, viver e adormecer comigo, a pensar em mim, mesmo que sem mim... Nada de sem mim nada fazer sentido e nada mais parecer importar... Nada... Aliás, eu é que não importo mesmo nada. Nadinha.
(Valha-me a minha maezinha... )

A culpa da infelicidade é da felicidade, como a culpa da sombra é a luz.
Se fugirmos da felicidade evitamos a infelicidade.
Mas não é fugindo de ser infeliz que se encontra a felicidade. Apenas não perdemos nada porque nunca chegámos a ter nada. Onde não há o que perder não há risco. 
O maior risco é cruzarmo-nos com a felicidade, mesmo que por instantes. Há instantes que duram a eternidade toda em sombras. Há instantes de luz onde cabe a eternidade toda.

Boa noite.

18 março 2015


... É, também é.
Estupidez é amar sozinho. 
(... Ou também é)
E hoje em conversa com um amigo.. em vez de "pois".... o telemóvel escreveu "pipi"... ora como era de esperar houve galhofa, pois claro. Lá tive eu de dizer que se calhar alguma parte de mim estaria a pensar nisso... àquela hora da manhã, o que enfim... já diz muito da desgraça que por aqui vai... Vai daí que o moço me culpa a mim, pergunta-me então a quantos já eu dei para trás??(heinnn??)... porque há-de haver muito homem a querer pilotar este avião. E eu juro que não sei onde vão buscar estas ideias... avião?? (por acaso esta do avião lembra-me um dos piropos mais engraçados e oportunos que me lembro de ouvir, mas não estava sozinha quando o ouvi, e não o entendi para mim, sequer...) esta gente está maluca, só pode. E de qualquer maneira também só quero ser pilotada por quem me apetecer pilotar... e dei por mim a pensar nessa brincadeira que é pilotar e ser pilotada e tal... e daqueles jogos de computador e afins que se jogavam com um joystick... e, de repente, fez-me muito mais sentido a palavra e a sua adequabilidade - de facto, a parte do "joy" para alguns pilotares de stick faz todo o sentido... pode trazer muitas alegrias realmente, mas eu continuo a mesma: há jogos que não sei jogar. Sinto falta de ser pilotada por alguém que eu queira muito pilotar também, é um facto. Mas isso não me faz ir a jogo de qualquer maneira, ou talvez precisamente por isso não vou a um qualquer jogo. E ele, esse amigo malandro que me fez começar logo a enganar-me no "pois" tornando-o "pipi" logo de manhã, diz que eu querer o homem mais do que o "joystick" é bom, que no fundo aprecia esta minha maneira totó de ser, que o resto deixa um grande vazio... mas bom, ser assim também deixa, respondo-lhe eu...

Bom Dia

"A dor é estranha. Um gato matando um passarinho, um acidente de carro, um incêndio... A dor chega, BANG, e aí está ela, instalada em você. É real. Aos olhos dos outros, parece que você está de bobeira. Um idiota, de repente. Não há cura para a dor, a menos que você conheça alguém capaz de entender seus sentimentos e saiba como ajudar."

Charles Bukowski

[... Não precisa saber ajudar, só deixar encostar, fazer aproveitar o silêncio do que não se resolve, do que não se pode ajudar. Não é preciso saber nada, só talvez a perfeição do silêncio que é deixarmo-nos ser sem ter de pedir que nos entendam. Se partilham o nosso silêncio com calor e descanso de alma entendem tudo o que deve ser entendido, ajudam toda a ajuda que se pode ter e querer. 
Este silêncio que ouço é frio e não descansa.]

16 março 2015

(foto @ryanmuirhead)

"Amuralhar o próprio sofrimento 
é arriscar que ele te devore desde o interior.”
Frida Kahlo.

[as muralhas levantam-se para nos proteger. Protegem. Talvez.
Protegem-nos do bem entrar e do mal sair. Também.]

Boa Noite

Falei contigo - falei sozinha não sei se me ouvias. Fiz-te festas, disse-te que não sabia fazer mais nada - que não sabia, nem sei, que mais fazer. Nada está nas minhas mãos, nas minhas mãos só festas com carinho que posso dar, concluo e digo-to: não sei fazer mais nada, penso até que não sirvo para mais nada, nem me querem para mais nada. Sinto-te quente, olho para os números, não sei nada daqueles números, não daqueles. Não sei nada. Dei-te um beijo antes de vir embora. Não sei porquê, não o fiz das outras vezes. Só o percebi quando to dei. Não sei porque o fiz e fiquei a pensar nisso, não to devia ter dado. De repente parece-me uma despedida. Das outras vezes não o fiz. Saí com medo. 
Nada está nas minhas mãos, só as festas que não guardo de quem não quero despedidas. Mas dei-te um beijo, e fiquei a pensar nisso. Com medo.

15 março 2015


... Há gente que voa nas despedidas dos dias. 
Há gente que vê os outros a voar, mesmo nas despedidas. 
Há anoiteceres muito bonitos que trazem noites ainda melhores. 
Há quem não consiga apreciar as noites estreladas a pensar no sol que nos aqueceu durante o dia. 
Há gente que voa ao anoitecer e outra que quer voar sem tempo de sol ou lua, para quem voar é tirarem-nos os pés do chão porque nos soltam a alma, sem vento, sem sol ou sem lua, na verdade o que está à volta não interessa nada. 
Quando tudo o resto não interessa, voamos.
(Há um parapente minúsculo na fotografia...)

14 março 2015


Sábados destes... 
...hoje é dia de tratar-me um bocadinho... Tentar pelo menos. 
Só me faltava mesmo era a massagem e o cabeleireiro... 
Com alguma sorte pode ser que alguém se ofereça para a massagem...
(alguém que me apeteça, claro, e que me tire este peso dos ombros 
que sinto encolhidos, repuxados, até às orelhas...)

Bom Dia 

Mario Benedetti

[...sim as noites são mais frias, de tão vazias, ecoam nas paredes nuas da alma todos os pensamentos que não queremos sentir. Sentimos tudo o que não queremos pensar, repetidamente. As noites são mais difíceis, e os dias de suposto descanso cansam de tanto nos obrigar a contrariar o que queremos. As noites custam mais. Para alguns, só para alguns. Como eu, que só me lembro que dez dias é hoje outra vez, ou amanhã, ou agora. Mas que é. E numas horas pesam-me semanas nos ombros, anos em instantes que os olhos se vêem obrigados a fechar, como por uma dor lancinante, como se assim não vissem, ou não quisessem ver, o que sentem.]

Boa Noite

13 março 2015


“Às vezes te odeio por quase um segundo

depois te amo mais

teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo

tudo que não me deixa em paz.”

Cazuza

[já de mim a paz em ti abunda.
a tua memória esquece-se de me lembrar, entre um minuto e o outro, entre uma respiração e a outra, entre um dia e o outro, sempre.
não existo, não em ti.
se é tão fácil esquecer, porque não esqueço eu de me lembrar, e de me lembrar que me esqueceste (principalmente lembrar que me esqueceste, que não te sou, se te cheguei a ser...dói tanto isso, sei lá porquê), talvez, se pudesse escolher, eu escolhesse esquecer-me de te lembrar, de nos lembrar, de saber que respirar contigo é melhor, que rir contigo é melhor, que viver contigo perto é melhor - que me sinto melhor contigo, ao pé de ti. Talvez se me esquecesse de tudo o que senti, e senti que fomos, e que fui, e que posso ser, eu pudesse odiar-te em paz por mais de um segundo, de uma respiração, de um dia. talvez.]

Era uma ideia.
Uma boa ideia.
Digo eu...
... Mas eu não percebo nada disto...

Boa noite


12 março 2015


No... It's a crash!!...
Mesmo!... 
Não sei se foi, ou se ainda é, acidente, mas não deve ser e a culpa é só minha... 
(Esta ultima é a propósito dum post que vi ontem ali no Elasticidade do Tempo...)

Bom Dia

Na conversa até agora. Reparo nas horas, fecho o computador, e dou por mim a olhar para o lado, para aquele lugar no sofá, a pensar que dantes estava aqui, ao teu colo, e que já estaria a pensar que tinha mais poucas horas contigo. Não pensava nas poucas que iria dormir, nem se de manhã me iria custar acordar. Pensava em agarrar-te mais, em agarrar-me mais a ti e embrulhava-me, ainda mais, toda em ti. Quase que para o tempo não escapar, e tu com ele. Que tonta, nunca te agarrei, escapaste sempre, não estás. O tempo está, como se não tivesse escapado. Repousa nas minhas mãos vazias, embrulha-se na tua ausência sentada no sofá comigo ao colo.

Que coisa tão boa perceber a felicidade nas palavras de alguém de quem gostamos, nas cores da entoação com que se escreve, o ritmo da felicidade cheira-se nas letras, por poucas que sejam as frases que se trocam... e é bom, faz-nos renascer por dentro, acreditar que sim, que há coisas boas, que valem a pena. Fico feliz por eles e penso, como tonta assumida, que um dia alguém poderá ( se existe um dia pode-me calhar, sei lá, também pode ser que não, mas pode ser que sim... um dia) dizer de mim o mesmo, que me raptou para uns dias de namoro. Que quem o diga tenha o mesmo sorriso na cara que adivinho por trás das letras que leio, e que sei, sente-se, que será maior por dentro, como um brilho que reluz a toda a distância, e que eu faço de farol. Diz-me  que claro que está feliz, que sempre que estão juntos está feliz, estão, são felizes... 
É tão bom poder acreditar que a felicidade é um sítio certo e seguro para  que podemos correr de braços abertos, e donde nunca na verdade nos afastamos - e esse lugar é alguém onde estão os dois. 
É coisa boa, que me deixou a sorrir, estou aqui a escrever assim, de sorriso parvo na cara, a olhar para um ecrã que me deixa falar sozinha do bom que é a felicidade às vezes se espelhar, e me sobrar um bocadinho para ficar feliz por alguém. E por ainda me surpreender a acreditar nessa coisa de amar ser uma coisa boa e feliz. Sim, pode ser. É possível. Que bom... que bom saber que há felicidade genuína, imperfeita, mas talvez seja esse o toque da perfeição, porque é real.

Boa Noite

11 março 2015


"A primeira vez que dei por ti, foi quando dei pela tua falta. "

Miguel Esteves Cardoso

[é triste, mas acho que há muito quem seja assim... ]

Hoje liguei o bicho ao carro, aquele bicho que tem tudo, que quase podia contar a minha vida... e pus aquilo a tocar em aleatório... e saiu-me isto para abrir as hostilidades.. e eu gostei. É a minha música... ou é a minha música muitas vezes. É a música que uma mocinha que eu tenho aqui à frente tem no telemóvel para o meu numero... porque diz que é a minha música, porque eu dou em dançar quando isto passa no rádio, não consigo evitar... o que enfim dá direito a fornecer-lhe tesourinhos deprimentes que me impedem as ambições politicas que não tenho... 
Gosto, gosto da música, do tom, da vontade que me dá de dançar.... dançar: coisa que me falta há tanto tempo. Só conheço duas maneiras de libertar o  corpo e dançar é uma delas - e falta-me muitas vezes, é uma falta que se sente densa no corpo às vezes. Libertar o corpo, soltar cabelos, entregá-los ao vento, dar o corpo ao sol, mergulhar no ritmar do mar e fazer-me terra funda, onde se enterram os sonhos que voam alto e nos escapam, ou querem. Dançar e deixar o corpo ser o movimento que tem, mostrar o que é, respirar mexendo-se - fechar os olhos para ver por dentro a música a falar com o corpo, deixá-los conversar, rir, respirar, mexer juntos, gargalhar vivendo-se. 
Gosto, gosto da letra e do tom em que é cantada, talvez qualquer coisa naquele tom tenha algo que guardo na essência do que quase não mostro... e depois, depois, lembra-me o que me costumam apontar, os olhos, ou talvez mais o olhar expressivo que os olhos, o falar mais com os olhos que com a boca (alguém me dizia a rir há uns tempos "tu és tão expressiva, e tens tantas expressões diferentes, que às vezes, se uma pessoa se distrai, nem pareces tu mas és sempre muito tu"...), e a maneira como me mexo, que me lembra comentarem a forma como ando, coisa também reincidente nas pessoas que vão passando pela minha vida e que me ficaram de alguma forma... há coisas que ficam, e esta música lembra-me muitas delas, e por isso me acorda por dentro e dá vontade de mexer, de dançar, de sorrir com o corpo, e sim, pode não durar muito, mas dura o que durar... há que aproveitar o que mexe connosco e nos faz mexer! E eu hoje, mesmo a fazer figurinhas tontas, já dancei dentro do carro e por dentro de mim, e isso parecendo que não, é uma coisa boa, bem boa, mesmo...

Bom Dia.

Morro de ti, amor, de amor de ti,
da urgência da minha pele de ti,
da minha alma de ti e da minha boca,
E do insuportável que sou sem ti.

Jaime Sabines

[Falto-me na urgência de não me faltares.
Desalmada por um beijo roubado,
Tenho a alma a morar na tua boca
Em todas as palavras que o silêncio engoliu
E  tu calas em beijos que guardas de mim.
Matas-me por dentro dos teus lábios
Morro-te por dentro dessa pele
Que me prende a alma
E eu resto-me, insuportável, 
corpo oco,
De ser sem ti.]

Boa Noite


10 março 2015


e as duas coisas para a pessoa certa... 
...quem sabe?
(...eu não...)

Hoje em dia só quero dormir. Enquanto durmo não penso, não sinto, não sonho, nem medo tenho. Apago simplesmente, deixo de ser. Acordar é um suplício que suporto mal, tento olhar para o dia e pensar no que tenho de - ou devia - fazer. Nada me parece importante, não tão importante como fechar os olhos e apagar. Simplesmente. Isto não é bom, eu sei, mas também não faço mal a ninguém, não trato mal ninguém, não engano ninguém. De todos os males, talvez este, de só querer dormir, não seja o pior.
Mas temos que acordar, pior, temos de levantar e fazer alguma coisa que eu ainda não tenho quem me sustente, quem me banque alegremente, e não espero, nem quero, vir a ter. Por isso ainda há que fazer do coração tripas e tentar fazer alguma coisa...

Bom Dia

09 março 2015




" a mão presa no pescoço a subir pela cabeça, lentamente, mas de pulso forte, entre força e vontade, mas sempre carinho. fica-se ali na tensão, entre te quereres soltar, e gostares de sentir o aperto de quem te quer. mente e corpo em luta. coração e cérebro a discutirem-se entre a liberdade e a entrega. entre a quase dor e o quase prazer. maravilhoso, como o corpo fala ali mais que mil palavras. não há teorias, razões, ou perfis que encaixem melhor, que testem melhor uma relação: é o corpo. é a forma como se move, como se toca, como se entrega. e, se a forma como agarra, diz muito de um homem, diz mais de uma mulher a forma como se deixa agarrar. a forma como se deixa prender, como se entrega, como se confia aos braços do seu homem. como diz, sem falar: sou tua."


Talvez por este agarrar o meu fascínio por mãos. O toque certo com a firmeza exacta. O cheiro do desejo agarra-se à pele com paixão, entranha-se na vontade, no olhar, no respirar de cada som que nos enleva. Os corpos que falam enquanto se mexem, que se entregam à entrega, que agarram a vontade da pele com a pele. Os corpos que se chegam, aconchegam e se abandonam à essência despida de pele. 
Saudades de sentir isto, de me sentir assim. De me render, de confiar-me a alguém sem reservas, de deixar-me ser em alguém. Presa na mais genuína liberdade. Essencial, sentirmo-nos de alguém.

Boa Noite




Hum hum... 
Só se for a visão do precipício... Isso era coisa para me fazer saltar hoje em dia...

Bom Dia.

"Treme. Podes tremer. Desculpa se te fiz ter frio, mas podes tremer. Porque sabes que o meu corpo é quente. Porque sabes que as minhas mãos te aquecem, sabes que alcançarei o que houver, onde houver, para te cobrir, para te tapar, para te dar conforto, agarrar-te-ei, abraçar-te-ei com força para não tremeres mais ou então para tremermos os dois, para dividirmos e custar menos, até estarmos de novo quentes, prontos para mais, prontos para outra, para partilhar, sem achar que isso é lá contigo e eu satisfeito me afasto enquanto tu tremes a um canto como se nada disso me tocasse. Podes tremer, desculpa se te causei frio vezes demais, mas foram vezes a menos, e em todas elas o teu frio foi o meu, e nunca tremeste sozinha."


Nem de propósito, sobre o frio que não é sobre o frio, mas sobre não haver frio de quem se quer bem em que não se alcance o que houver para aquecer, ou para tremer junto. Não, não é sobre o frio, é sobre partilhar, e estar presente, é querer bem, e querer ver bem, seja o frio culpa nossa ou não, podendo aquecer ou não, é não achar que há coisas que "são lá contigo", é estar e ser de alguém com alguém. É ninguém ter frio sozinho. E isso ser quente, mesmo no frio. Ou apesar do frio.

(talvez eu não esteja tão errada em tanta coisa, há mais quem veja o que eu vejo, quem pensa como acho que se deve pensar, quem sente com o que vê e pensa)

Boa Noite

08 março 2015

Todo o dia angustiado, todo o dia tremendo de frio.
Todo o dia pareceu um século, um pesadelo.
Todo o dia uma tempestade me desassossegou, todo o dia me senti mal, uma espécie de dor que não começa nem acaba, persiste intensa, contínua, por todo o corpo.

Al Berto

[há frios que não se sabem aquecer. Tão dentro do por dentro onde a luz não chega, onde o sol não aquece. Há gelo que so se pode derreter pelo calor que nasce da alma. Se a alma dói em todo o corpo, o gelo algema o corpo, quieto, a si mesmo, numa tensão que cansa o dia até invadir a noite. Aguarda-se o sono para se fazer nosso dono, para nos libertar do que somos e queremos adormecer, ou pelo menos, fechar os olhos... só, sem sonhar, sem nada, só entregarmo-nos à escuridão vazia, que não pensa, nem sente. Que quase nos descansa porque nos larga. Pelo menos até amanhã. Pelo menos.]

(foto @allenandbear)

Outras das minhas flores preferidas.
Se uma pessoa se rodear do que gosta será mais fácil ser feliz?
Ou sendo feliz gostamos mais do que nos rodeia?
Eu gosto de coisas simples, despretensiosas, da preguiça que enche a alma, do deixarmo-nos ser o que somos. Do sol que nos basta e das sombras que nos descansam.
Tenho a cabeça cheia de coisas, pensamentos que não me largam, a vida cheia de sombras que não me descansam, antes inquietam e complicam. Sinto-me  carregada de coisa nenhuma e pesada de tudo. Sinto tudo tanto que parece que não sinto nada senão confusão. Só sei do que gosto, e gosto de coisas simples, do sorriso descomplicado, da varanda com sol, de fechar os olhos e sentir-me viva. Fecho os olhos e a vida foge-me. Não me encontra, não a encontro. As maos vazias o olhar sem destino.

Bom dia.
Outra vez aqui na varanda, sentada num degrau a meio caminho de sítio nenhum. Perdida, completamente perdida, de mim, da vida, dum sentido, que seja. Como se a vida tivesse mais maneiras de nos tirar o tapete do que as que nos conseguimos equilibrar. Sinto-me naquele momento preciso em que, por fracções de segundo, não sabemos se vamos cair ou aguentar-nos ao tropeção. Não sei o que pensar, como pensar. Não sei já o que esperar, ou o que esperam de mim. Não sei mais nada, só sinto. E no que sinto sinto-me perdida, sem amparo, sem companhia, sem eco de compreensão. Sem nada. E ao mesmo tempo tudo em turbilhão, num equilíbrio precário que me grita por dentro e me desfaz, que me rompe os dias dos olhos. Estou apavorada de medo nao sei de quê, sinto-me cair e combater a queda, exausta e sofrida, sei que nao aguento mais, nao aguento mais uma queda, sei, sinto que não me levantarei mais. 
Onde, onde é que estás? Se te grito toda por dentro e não me ouves? Onde é que estás, que não me estás se não te estou por dentro a gritar por ti? Onde é que te estou?

07 março 2015

"Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam"

Nuno Júdice

[...O que eu não esqueço, e porquê? Porque não se embacia a memória do que sinto, do que senti, do que fui e sou ainda às vezes? O beijo que não se desfaz do que nunca fez, do que nunca se fez dele - uma maré de promessas não prometidas que se sentem nos lábios que ainda beijam o que só embacia a memória. Tu não vens.]

Boa Noite

Esta é uma frase que eu adorava poder dizer. Que acho. Que acho que gosto de ti. Haveria uma esperança, uma esperança de poder estar errada, de poder não gostar. Pois não posso, não consigo dizê-la. 
Talvez o que nos define seja aquilo que sabemos e como sabemos, e o que não sabemos e vamos tentando saber, descobrir - ir achando, em tentativa erro. Talvez não sejam as atitudes, como todos dizem, que nos definem, mas sim o que sabemos e não sabemos, e o que fazemos da vida tricotando estas malhas. Ou as atitudes são afinal esse tricotar, se calhar. Eu sei poucas coisas, certezas então tenho poucas, perguntas tenho sempre  de sobra. Talvez as minhas perguntas e as minhas dúvidas me definam melhor do que o pouco que sei, ou acho saber. Mas do que sei, as dúvidas alheias não me abalam, se eu sei é porque sei como sei. As dúvidas que me põe não me fazem duvidar, principalmente sobre o que sinto (mas que é natural que noutras pessoas possa suscitar dúvidas, isso entendo). Talvez nem sempre saiba mostrar o que sinto, mas as dúvidas dos outros não me fazem questionar o que sinto. O que se sente é uma coisa que se passa por dentro de nós, é impermeável às dúvidas dos outros, embora tão permeável ao que eles nos mostram - porque é também fruto disso, ou ainda mais daquilo que lhes vemos mais do que mostram. 
Eu não acho que gosto, e não acho que sou teimosa, eu sei que gosto, se digo que gosto, e sei que sou muito teimosa. Não em tudo, mas em muita coisa se quero e gosto. Eu teimo se calhar tempo demais, mas agora de repente acho que dez dias é o mesmo que ontem, que é o mesmo que amanhã, ou já daqui a uma hora, porque há coisas que se acham que não importam. Acham. Mas eu teimo com esta ideia. Eu acho que há fomes que doem de vontade, sei que dói muito, porque a mim me dói todas as noites. Há fomes que são de pele, de qualquer pele, e há fomes que são de carinho e afecto e ternura e desejo de alguém - não alguém que engane a fome, alguém que seja a fome que não se cura, nem se engana. Eu acho que quando se tem uma fome dessas não há outra pele que nos alimente, que nos cure da vontade, que nos deixe descansar. Acho, mas estou com tanta, mas tanta vontade, de perceber essa coisa de enganar o estômago, de apaziguar a pele, de esvaziar a vontade, só para perceber se essa atitude diz de mim alguma coisa diferente, se isso diz alguma coisa. A alguém. Mesmo que eu continue a dizer o mesmo e que sou a mesma, que gosto e quero o mesmo, que o que interessa é quem temos por dentro, de quem gostamos - ou para alguns, de quem achamos que gostamos - e que o resto não tem importância  nenhuma. 
Afinal, no fim, talvez eu ache que não tem, e que não consigo achar que gosto de ti, na mesma, porque isso não muda - eu sei que gosto, mas a pele grita para que a esvazie de toque, de desejo, de tesão. Afinal é só uma atitude. Acho eu. Não tem de querer dizer nada. É enganar o estômago, ou alguém. Não achas?

06 março 2015

... apetece-me esta indumentária, este estar, este olhar. Ficar, assim, sem horas, sem tempo, o tempo suficiente para me recuperar, para me encontrar, para regressar-me. Ando a precisar muito duns dias assim, sem regras, relógios ou exigências, um dolce fare niente que agora seria tudo.
Ando a sonhar com isto há tempo demais...

Bom Dia

05 março 2015


... Meia hora não chegaria. 
Uma semana, para começo de conversa, ainda vá, 
menos que isso nem dá para introdução... Bahhhh

Boa Noite

04 março 2015

Há ritmos diferentes. No respirar, no mexer, no olhar, no viver. Agora dou por mim a pensar que até as faltas que se sentem têm ritmos de compassos tão diferentes, quando uns já estão no limite suportável que esgaça costuras na alma, outros nem dão pelas costuras, pela falta de coisa alguma que lhes diminua os dias ou a vida neles. Como se tudo lhes fosse distante e indiferente. Talvez a única falta gritante seja a falta de sentir que algo lhes falta, ter presente uma ausência aguda que não lhes é grave.

... Realmente pondo as coisas assim, tem alguma lógica, é até reconfortante a ideia. 
Seria bom se eu conseguisse ver nesta lógica a minha. Mas não consigo, para mim a pessoa certa é aquela de quem se gosta, de quem se gosta muito - só não digo demais, porque não acho que haja essa coisa de amar demais. Certo é aquele que tem o que nos faz amar, e gostar de amar, que nos faz o melhor de nós, sem razões ou porquês. Isso é que torna a pessoa certa, e não o contrário: declarar quem seria certo, cómodo e que daria jeito gostar, e depois dedicar-se a tentar amá-lo por ser a pessoa certa. Não resulta, infelizmente...
Pena é a pessoa certa para mim não me achar a pessoa certa, por não gostar de mim com a certeza que me faz certa... a certeza de não conseguir não me amar, não me querer, ficar sem mim, ficar longe.
Talvez nada seja certo afinal, ou a única coisa certa seja amar, e o resto ter de se acertar...
...apareceu-me isto à frente. Falava em fim de semana, para duas pessoas, claro.
Registei como forte candidato para a próxima saída em retiro. Começo a ter vontade de pelo menos planear, começar a procurar, como que já com um pé fora daqui. Parece-me que aqui só se podem começar coisas boas, e tenho uma para começar há algum tempo. Mas se não começar também não há problema, não vou com obrigações, vou para me deixar levar pelo tempo e pelo que apetecer a cada hora, gozar apenas a tranquilidade, o respirar que nos enche o olhar e lava a alma. E aqui, neste aparente sossego, com  vidraças para deixar entrar a cor e a luz, parece-me ideal. Preciso duns dias aqui, entre palavras, as minhas e aquelas que leio que me lêem por dentro, que me fazem sentido e sentir. Começo a perceber que há coisas em comum que procuro nestes sítios para onde quero fugir para me encontrar: paisagem funda, verde, vidraças, sossego e palavras. Talvez isso diga mais de mim do que pensava, talvez eu seja muito mais isto do que imaginava. E talvez eu esteja muito em paz comigo por ser assim e não doutra maneira.

Bom Dia.



A tristeza tem uma dimensão de silêncio tão vasta que engole as palavras na nascente, não chegam a nascer completas, rasgam-se a meio antes de me dizerem ao que vêm, o que lhes quero, como me querem. A tristeza não tem boca mas engole silenciosamente mundos inteiros, e tem o estômago cheio de mágoas e desesperanças várias que não aprendeu a digerir. A tristeza prende-nos inteiros sem correntes. Sem nos forçar, subtrai-nos movimentos calando a vontade; amordaça-nos por dentro dos sons sem sequer nos tapar a boca - apenas nos apaga de dentro dos olhos todos os significados e significâncias e submerge-nos, abandonados, na falta de tudo. Infinita falta embrulhada num escuro vazio denso, que quase parece poder escavar-se com as mãos, esgravatar-se a sobrevivência do grito com as unhas, mas que agarra a vontade antes que qualquer movimento consiga mexer-se, sobreviver-se.
Silêncio que asfixia sem matar. Sem mexer. Sem tocar. Sem morrer.

Boa Noite

03 março 2015


A vida é demasiado curta para beber mau vinho, costuma-se dizer. E é. E para companhias vazias, conversas ocas e pessoas que não temos dentro. Muito curta para falta de pele, racionamento de afecto, e economia de ternura. Tanta coisa para dar, por dar, e amanhã posso fechar os olhos para não mais os abrir... 
(e pergunto-me... tu lembrar-te-ias deles? E da pele? e do afecto? e da ternura? E aí, ias querer tudo o que agora desperdiças sem saber se queres?)
A vida é demasiado curta para amar mal.  E para dormir fria e sozinha também. Demasiado.

Boa Noite.

02 março 2015


True.
...quero sair na próxima paragem. Ou antes. 
Já não sei porque aqui continuo, para onde vou ou porquê. Saudade de quê, afinal? Saudade para quê? Se o que existiu nunca chegou a ser. Talvez como eu, afinal. 
Quero sair na próxima paragem, ou antes. Antes.
Há dias órfãos. Como hoje, não se sabem donde vêm ou como apareceram... Não lhes sabemos a origem ou a árvore geneológica do pedigree. Acorda-se triste e só se pensa em quando é que poderemos voltar para a cama para enterrar o dia, quando na verdade o que nos assusta não é o dia, mas os que se seguirão. O futuro como problema presente. Todos os futuros, porque temos muitos no mesmo - a vida sendo uma só tem muitas facetas, como nós. E eu estou com medo, e estou cansada, e sem forças para nada, mesmo que não possa estar assim, mesmo que a vida agora não mo permita, estou. E isso implica mais esforço para compensar a inércia, o cansaço, o desalento. E nada que puxe, nada que me puxe da cama. Nada, a não ser a obrigação. Nada faz sentido senão o sentido do dever que me obrigo a sentir.
Aqui sentada, sinto os ombros embrulhados nas orelhas de tanta tensão, de tanto cansaço, de tanto medo. Só me apetecia ir para um sitio destes, longínquo, desterrado, amplo, onde ninguém esperasse nada de mim, onde ninguém se pudesse desiludir, e onde a solidão é uma bênção de paz, de sossego, de tranquilidade. Há dias em que a única coisa má da solidão é  acabar antes de nós termos acabado com ela. Às vezes, o pior da solidão é saber que vamos ter de voltar ao mundo e enfrentá-lo. Quando na nossa solidão estávamos tão bem, tão aninhados, e quase protegidos dos outros a que não chegamos, mesmo quando queriamos chegar. Na solidão chegamos e bastamo-nos, chega a ser reconfortante não haver comparações, expectativas ou ansiedades de futuro. Somos, simplesmente. Sem medo de ser, ou medo de não ser. 
O pior da solidão é acabar onde começa um mundo que tememos e não dá trégua. E nos vence todos os dias.

Preciso tanto de fugir daqui, de fugir para mim.

Boa Noite 

01 março 2015


Pois sim... os olhos, a boca... 
Eu não sei dividir, compartimentar. 
É tudo.
Tudo o que falta.
Falta (-me) tudo.
Há alturas em que já só queremos estar sozinhos... Ou já só sabemos estar sozinhos, se calhar. À nossa volta nada parece fazer muito sentido, ou sequer, algum sentido. Vemos a vida de pijama e pantufas sem vontade de sair para lado nenhum, nem ver ninguém. Uma espécie de hibernação sem Primavera à vista. Se calhar é assim que estou bem, que não chateio ninguém e que, pelo menos, não tenho a sensação - ou a certeza- de não chegar, de não servir, de não ser eu a do "amei-te sempre muito". Escondida assim em casa acho que nem eu me encontro, na certeza de que a ninguém falto.

... Yeah right. Pois sim...
Devia ser. E o último também, não era?...
Dizer as coisas é fácil, fazê-las ou senti-las é que não é para todos.
E acreditar também não, e eu estou no clube dos descrentes actualmente.
Dantes ainda acreditava, agora olho para trás, e com muita pena minha,
 já  não. e talvez não seja mau, afinal acreditar, confiar, sempre me levou a lado nenhum, 
ou melhor, levou sempre a desilusões e mágoas.

Bom Dia

... Para quem conseguir e puder, é o melhor sítio para estar vivo. Ou o único.
Não serve para desapaixonados, para os que não estão
 (ou são?? Nuance engraçada, não?) 
apaixonados por ninguém.

Boa Noite 

28 fevereiro 2015


Uns ovos mexidos, cogumelos com ervas, umas torradas, iogurte e duas laranjas. Agora um café, à janela, a ver os carros passar e a chuva a cair, e eu quieta, a beber um café quente. Quente, ainda de pijama, de preguiça impregnada, de ronha entranhada. Depois do café, talvez um filme, talvez ler, manta de certeza, chá de certeza, sofá quase certo. Apetece lareira, mas a lenha é pouca e não posso ir buscar. E desta vez nem é preguiça... Podia ser, podia, mas não é. 
O pior pesadelo é a ideia do sonho, como a nossa infelicidade acontece pela ideia de felicidade. Falta-nos quando queremos mais, porque na verdade cada um só precisa do que tem para (sobre)viver. Mas há uma altura em que conhece mais, que vê mais, que sente melhor, e já nada menos que isso lhe serve. E com o mesmo com que não eramos os infelizes tornamo-nos miseravelmente infelizes, à custa da ideia de felicidade, ideia que experimentamos, que vivemos, que sentimos, mas que depois se tornou, ficou apenas, no campo das ideias e do coração - baú dos sonhos que acalentam mas doem.
Hoje à noite sonhei, sonhei coisas boas, lindas. Eu estava feliz e tu estavas feliz, estávamos bem, abraçados, a rir, virados para uma paisagem cheia de horizontes, eu nos teus braços, tu com o peito colado as minhas costas, os dois virados para o horizonte, abraçados, felizes, com vontade, a rir, a brincar, a conversar. Tínhamos chegado de viagem, saímos do carro e tu abraçaste-me por trás e ficámos assim. Depois virei-me para ti e deixámo-nos continuar como sempre na brincadeira e nos beijos. Acordei. Não sei porquê, mas acordei. E acordei cheia de vontade de estar assim, de estar bem, de brincar, de beijar, de namorar. E não quero, não quero esperar nada, não quero sonhos de que se acorda, não quero horizontes que fogem, que não são partilhados na mesma vontade, não quero a ansiedade que se transforma sempre em desilusão, não quero a expectativa de ser o que nunca serei, nunca fui, não quero. Porque custa, custa acordar e querer ver-te, querer ouvir-te, tocar-te, falar-te, beijar-te e não ter nada a que me agarrar, nem a esperança de algum dia ter. Aliás a certeza de que nunca te terei, e nunca sequer te cheguei a perder. Não quero sonhar porque a tua ausência dói mais assim, não quero sonhar porque sonho sempre sozinha, e acordo sozinha para esse pesadelo de não te ter, de nunca te ter tido, de te saber desapaixonado e distante noutra vida, que por momentos, enquanto sonhei, foi nossa. 
Não quero. 
Sonhar acorda-me em pesadelos de ansiedade de te querer, de te querer ao alcance das mãos, da boca, do abraço apertado, e não posso, porque não me queres. E eu agora só queria poder encostar-me a ti, e esquecer-me que isso é um sonho.

27 fevereiro 2015

E agora, por ver uma apresentação dum concerto, dei por mim à lembrar-me de outras ocasiões, de outros concertos, de outros programas, e de me dizerem - como se nada fosse, ou como se isso justificasse alguma coisa - "eu tenho de ter vida, não é?" É, pois é. Pois tens, tens de ter vida, é isso que se faz, escolher a vida que se tem. Tu escolheste. E depois lembrei-me doutra, talvez por isso, por me lembrar de programas a não perder e coisas que se gostam: "não tenho razão para dizer que não". E se tu não tens, não ia ser eu que tas ia dar. Não faria sentido. Mas estas frases tiram sentido a tudo o resto que me diziam...

(Foto @aurelycerise)
... O que me apetecia um café ao sol, sentir o sol na pele, 
com sossego por dentro e por fora, os óculos de sol a ajeitar o mundo 
e as mãos dadas a quem nos quer bem e quer estar perto. 
Por sermos tanto extensão dele como ele nossa.
Não pode ser, como sempre, não pode ser. 
Toma-se café sozinha na cozinha, 
a ver o sol lá fora e a desejar dias melhores...

Bom Dia
A vantagem do facebook é uma pessoa acordar as cinco e meia e não conseguindo dormir entreter-se a ler umas coisas, até que alguém na outra ponta do mundo está acordado e conversa-se um bocado, damos-lhes as últimas novidades de hoje, e depois dizem-me  que aguento tudo, que sou como a mãe dele. E eu tento explicar aquela coisa da falta de alternativa... Aguentamos o que temos de aguentar por falta de alternativa que possamos escolher, é simples!! Como agora, se pudesse escolher estava encostada no peito que eu quero a fazer barulhinhos de golfinho, que na verdade nunca fiz, mas pronto. Mas isto era se eu pudesse escolher... Não posso. Não posso, e não devia escolher assim, se esse peito escolhe não estar aqui, eu nem devia ponderar escolhê-lo se pudesse, mesmo que esteja muito a precisar desse miminho, desse carinho, desse encostar de alma. Mas a realidade é que nao posso escolher. Tenho de estar sozinha e aguentar-me. Ora pois. É perguntar-me o que virá a seguir...

26 fevereiro 2015


Quando se gosta de alguém - gostar a sério - e essa pessoa não está bem, fazemos tudo o que podemos para á ver melhor, para a pôr melhor, ou no mínimo, se nada se puder fazer, ficamos ao seu lado, acarinhamos, mimamos, cuidamos. Dizer que se gosta, e depois ficar longe, por escolha própria, quando o outro não está bem isso não é sequer gostar, quanto mais amar. Suponho que amor se escreve para todos com as mesmas letras, mas nem todos a pronunciam da mesma forma. Nem para todos quer dizer o mesmo. Devem pensar que são só letras...
...A sério até estou curiosa com o que a vida me irá trazer a seguir... É extraordinária a capacidade de a vida nos surpreender, de as coisas poderem sempre  piorar, por muito mal que estejam... Estou um bocado farto desta vida, estou. E nada melhora, não há nenhuma luz ao fundo do túnel, nada. Este ano, até agora, só me trouxe coisas muito más, até podia dizer que parece  que me rogaram uma praga, se isto ao menos fosse sobre mim só, mas não é. Enfim, um dia a  vida muda e melhora, é o que me dizem, eu só vejo o contrário... E sozinha, sempre sozinha no meio disto tudo. Tenho amigos, valha-me isso, gente que telefona e pergunta do que preciso, o que podem fazer, ajudar. Isso tenho é valorizo. Sempre os mesmos. Sempre os presentes, sempre os mesmos ausentes. Nada muda. Para melhor, pelo menos.
Boa Noite

25 fevereiro 2015

... Ora bolas!!  Sempre me disseram que eram maçãs!!!
Anda uma pessoa enganada uma vida inteira... E ninguém avisa!!...



... Preciso de mimo e colo e de não ter esta constipação, nem febre.
E de um Ben já agora... 
Ben-u-ron, Ben-u-ron, era isso....

Boa Noite

24 fevereiro 2015

E há pouco, de repente, sem pensar - sem saber que o pensava -, vi-te naquela cama, moribundo, mas não eras tu que sofrias, não eras tu que morrias, era eu em ti. Deixavas-me morrer e senti-me sofrer por isso, morrer nisso. Eras tu que eu via nesta cama, mas era eu que me sentia morrer mais um pouco. Como se houvesse sempre mais para morrer do que se sabe viver. Sempre mais um pouco de morte, das mortes que não sabemos ter, mas nos encontram. De repente foste tu naquela cama, mas quem morre sempre sou eu. Morro em ti mas sobrevivo para o ver - para te sentir a indiferença de deixares-me morrer em ti por nunca te ter sido vida. Posso morrer-te que nada em ti morre. Só em mim, só eu. 
[finalmente dorme, e eu despejo-me.]
... O Kafka espera-me...

Boa Noite.
" Nunca estiveste realmente onde não te tenhas perdido, onde não tenhas amado nem beijado nem sofrido, onde não tenhas sorvido o frio da noite, o céu da manhã. 
São diferentes os lugares que se aprendem dos lugares em que o corpo se ensopou."


[Talvez quem não se ensope não saiba perder-se, não saiba que só perdido se reconhece na alma a casa onde somos. Onde sofremos, amamos e beijamos; onde nos aquecemos, porque sentimos o frio da noite, mas não medo. Onde acordamos por podermos adormecer ensopados em nós, no que somos, onde estamos.]