Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

26 dezembro 2014


"podes levar os dias que trouxeste

os pássaros soterraram agosto
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue

podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois

daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido

não, é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites

as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca

podes levar os dias que trouxeste"


Pedro Sena-Lino

[... "Nunca foi tão tarde ser depois", tarde até para levares o que for, nada do que pudesses levar me parece teu, e tu nunca trouxeste nada. hoje - particularmente hoje, amanhã não sei - parece-me que nunca trouxeste nada, apenas vieste buscar tudo o que tinha, tudo o que tinha de melhor, tudo o que tinha meu de teu, talvez. Levaste tudo, não me restaste nada, não me trouxeste nada, apenas, qual sanguessuga, vieste à procura do que precisavas, do que querias, e nunca fui eu, mas a vida que me corria nas veias, o brilho que iluminava o olhar de quem ama. Era sempre a tua sobrevivência, o teu equilíbrio, as tuas faltas, as tuas sedes, as tuas fomes. O que levaste foi-se daqui e nem tu o guardas, esfumou-se. Já desapareceu no sorriso que agora sorris e trocas por dias-a-dias, nas mãos que dás, nos abraços que apertas, e trocas por amnésias de noite, ou insônias a toda hora, não sei. Não quero saber, hoje não quero saber nada. Só sei que podias levar os dias que trouxeste, se não os tivesses enterrado antes de nascerem, levaste dias que eu pensava que trazias, tiraste noites que eu pensava que me davas, esgotaste-me as perguntas sem resposta, e nunca me perguntaste nada, não trouxeste nada, não quiseste nada, deixaste ficar tudo, foi sempre tudo meu. Nada teu. ]

Boa Noite

25 dezembro 2014


A primeira lareira feita em minha casa este inverno. 
Algum dia tinha de ser. Foi hoje. 
Pés quentes e leituras, silêncio e chá. 
No silêncio cabe tudo, hoje até eu.

"gostos de filmes que são espelho. daqueles em que me vejo no ecrã. daqueles filmes que nos fazem pensar na nossa vida, em que passamos mais tempo dentro das personagens, do que apenas a olhar a história. no ultimo que vi, mr jarvis cocker sai-se com uma observação filosófica: 'a vida é igual para todos, o que nos distingue é a dose de imaginação que cada um põe nela'. tão simples. e é para isso que servem os filmes, quase uma forma de nos vermos nas palavras dos outros, na forma de viver de outros. e, se pensar um pouco, se calhar é assim que faço nos dias: ando sempre por perto dos espelhos em que gosto de me ver. é um bom conceito.
com o que vemos no reflexo das pessoas, definimo-nos, não pelo que queremos ser, mas pelo que somos de verdade. não pela intenção, mas pelo resultado dessa coisa tão delicada que se chama intimidade. são mais tristes as pessoas que não têm espelhos. ou que os evitam porque não se querem ver. ou pior, porque não gostam de se ver. porque custa confiar no vidro. é frágil. e às vezes os espelhos partem, e por mais que se cole, que se remende, fica lá sempre aquele risco, feito cicatriz, a cortar a imagem limpa. faz parte do jogo. aliás, é aqui que entendo que muito do que somos, devemos aos outros. porque há pessoas que me fazem mais - mais divertido, mais leve, mais homem. há pessoas que me tornam um ser melhor, apenas pela forma como me entendem, me percebem, pela forma como tornam fácil partilhar essa intimidade. são espelhos em que nos fazemos bonitos. deve ser por isso, que gosto tanto de te dizer: 'és tu, quem me faz mais inteiro..' 
mas, o que vibro mesmo, é ser o espelho das pessoas que gosto. saber que em mim sorriem, choram, descobrem, emocionam-se, excitam-se, amam. vivem. quase vício, é um privilégio sermos o reflexo de alguém. quase emoção, é ver alguém a ganhar expressão por nós, a ter aquele briho nos olhos quando nos vê, a soltar aquele sorriso tonto, feito berro, quando dizemos uma tolice. a escorrer uma lágrima por nossa causa, daquelas boas, quando se sabe que não se pode ser mais feliz, do que ali, naquele momento. mas curioso, nos espelhos "humanos" não vemos o nossa imagem reflexo. pelo contrário, vemos apenas o que a nossa presença provoca nos outros. é menos narcísico e muito mais doce. porque é isso amar: é projectar no outro todo o bem que lhe queremos. e sermos realizados assim. "em ti, faço-me feliz!" - deve ser a frase mais bonita, não de se dizer a alguém, mas de se sentir em alguém.."


[... E se nos rodearmos de pessoas que não são o nosso espelho? Onde não nos vemos? Onde não nos sentimos? Começaremos o tornar-nos espelhos do que nos rodeia? Dos que nos rodeiam? Para que a imagem que vemos reflectida se torne real? Ainda que não realmente nós? 
Penso que isto me aconteceu durante muito tempo, tentar ser o que me viam, ou queriam ver. Corresponder ao que deveria ser o meu espelho sem o ser, tornar-me uma imagem de mim que não me abarcava, pelo menos não o todo que sou, que posso ser. Ainda que quisesse ser como queriam que eu fosse, porque me faziam crer, ou eu pensava, que aquele reflexo era o melhor de mim, mas o melhor de mim tem partes que me queriam abafar, ou então, asfixiavam-no, mesmo sem querer. Não sei, sei que continuamos o processo para não desiludir, para não partir o (suposto) espelho, porque parece mais seguro sermos quem esperam que sejamos. E evitamos o olhar de desilusão de não sermos o que esperavam, o medo de sermos piores, de nos acharem piores, sem perceber que diferente do que esperam pode não ser pior, apenas diferente, mas verdadeiro porque mais inteiro, mais nós. E que aquele não é o nosso espelho, enganaram-se, enganámo-nos nós também se o pensámos ser. E um dia abrimos brechas, ficamos riscados, partidos, sentimo-nos aprisionados nesse espelho que não é nosso afinal, no entanto, a quem nos vê, parecemos intactos, mas por dentro, em nós, percebemos que é o espelho intacto em que nos têm que nos faz partir, prender, perder partes de nós que precisamos, abdicando da inteireza do ser. Normalmente é quando nos deparamos com um espelho que de facto nos vê, nos vê inteiros, e de repente podemos ser felizes assim: inteiros e nós, com espelhos à volta que nos vêem, que nos querem ver, e que nos fazem mais e melhor. 
Hoje, e desde que voltei a escrever, penso que me rodeio muito mais dos espelhos que me reflectem, e espero que vejam o mesmo em mim, que os faça verem-se a si mesmos no melhor que têm e são, e que é também por isso que os mantenho perto. Porque essa intimidade mo pede e mo permite. Porque me vêem como sou, como quero ser, e ficam. Os que ficam. ]

24 dezembro 2014

Fumar um cigarro à janela, a ver as antigas árvores novamente despidas. Despedem-se todos os anos das folhas que deixam de ser novas, e que todos os anos nascem novas embora diferentes, e sempre na mesma as perdem. E eu aqui, a fumar outro cigarro como há muitos anos atrás, na mesma janela mas com um copo de vinho a acompanhar o cigarro de refúgio na solidão apetecida. Acaba-se o cigarro com as árvores um pouco mais despidas e o copo um pouco mais vazio. Tudo o resto na mesma. Ou quase.

... Coisa mais doce...
Queria isto assim, um dia. Esta doçura cheia de ternura.

... Haja um bocadinho de sol para se tomar um café no meio das sombras.
Sombras onde me refugio das minhas.
Bom Natal a todos. 
Que o partilhem com quem gostam e querem, com saúde e boas gargalhadas.
Que aproveitem tudo à que têm direito.
E pronto, o meu espírito natalício não dá para mais que isto. Estou falida de palavras e sentimentos bons, espero que aqueles a que eu teria direito, e não chegaram cá, ou eu os perdi, ou pronto, desapareceram-me, tenham ido para alguém que os mereça e os aproveite.

Bom dia, Feliz Natal.

23 dezembro 2014


Uma pessoa tenta, tenta acreditar naquela coisa do pensa positivo, do bom atrai o bom, aquilo a que eu chamo treta de optimistas, o não querer ver a realidade e substitui-la por uma coisa mais bonitinha e menos amarga, e quando tenta fazer isso percebe que era melhor, muito melhor, a racionalidade dos pessimistas, em que se espera o pior, preparamo-nos para o pior, e talvez a vida não nos consiga arranjar pior que isso, e então lidamos com o que contamos, se tivermos um bocadinho de sorte, com melhor do que o que contávamos. São menos desilusões, menos baldes de realidade amarga pela goela abaixo. Mas eu caí nesse erro, de esperar o melhor, de achar que a vida me daria uma trégua, que me deixaria respirar e restabelecer, que me deixaria voltar a abrir um sorriso sentido antes de me pôr a chorar outra vez, antes de me fazer desabar de novo. E no meio de lágrimas, choradas e por chorar, vem-me à ideia uma frase, completamente fora de contexto, completamente fora do tema que as lágrimas choram, mas de longe a frase sussurra-me perto "se é para tentar tudo, tem de ser tudo, tenho de fazer tudo." É  então que percebo que a vida não é só cruel e péssima de timings, é abusadora e de mau carácter, trai e pisa quem já está no chão, lembra-nos o que queremos esquecer em alturas que só nos apetece fugir. Fugir do sítio para onde vou agora, tenho de ir, é minha obrigação. E só queria um peito onde encostar a cabeça, e uma cabeça para encostar ao meu peito, e esquecer-me que existe vida, cruel, amarga ou o que for, esquecer apenas. Como quem deixa de existir.


“Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. (…) Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. (…) Pretendia apenas lhe contar o meu novo carácter, ou falta de carácter. (…) Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu… em que pese a dura comparação… Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. (…) Uma amiga, um dia desses, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou essa calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinquenta anos. (…) o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.”

Clarice Lispector | Carta a Tânia - Irmã de Clarice - 1947

[... O nó vital, aquele que não deslaça e enlaça o ser. Não se desfaz às circunstâncias, não se faz pelos outros nem nos outros, prende-nos ao que somos, não nos permite desistirmos de nós mesmos. Depois de nos encontrarmos, de olhos abertos nos vermos, nos sabermos, nada fica como dantes, e o nó aperta ainda mais o nós à consciência do que somos e do que queremos. Descobrimos o nó que nos faz nós. E mais nos prende quanto mais se aprende (de nós). ]

Boa noite

22 dezembro 2014



"A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável."

Eugénio de Andrade, in Rosto Precário

[bem a propósito da solidão, como eu a vejo. Há dias em que não é bem assim, mas mesmo nessas alturas, a companhia que se deseja é sempre da pessoa que se deseja, que se quer perto, de quem ansiamos estar junto, e não encobri-la com uma companhia que apenas faz número e gasta as horas... a parte de gastar as horas é sempre assim: insuportável...]

Bom Dia

21 dezembro 2014

"-Hoje até fiz a barba..
- Ahh estou a ver, vai sair, é?
- Fiz para si, sua parva!"

(as memórias são tramadas e traiçoeiras, sem noção de tempo, de lugar ou de conveniência... Coisas boas, coisas boas que fazem sorrir com um travo amargo. )
.... Pois....
(Não sei quem é está moça, mas tem umas frases giras sim senhora eheheh)

Bom dia 
(...hoje está tanta luz porquê? Que falta de timing pahh...)

20 dezembro 2014


Uma pessoa fica na ronha até esta hora e agora percebe que o sol na varanda está bom, que o frio aqui também não se sente. E continua-se uma espécie de ronha no cadeirão da varanda, de pijama e roupão, e os olhos piscos da luz. E a vontade de mundo: a mesma: nenhuma. 
Mas daqui a nada terá de ser, por enquanto aproveita-se. Como tudo na vida, quando se pode aproveita-se.

Bom Dia!

19 dezembro 2014

Amén.

(Se bem que, na verdade, eu acho que é melhor para selar as pazes, ou para cerimónia inaugural de conversações... pazes, pazes, é a conversar sem ser uma conversa só de pele, que também é conversa - e da boa -, mas em que o único argumento é a vontade do outro e de estar bem; se nas outras conversas houver o mesmo, as pazes fazem-se bem...)

Bom Dia!

Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
parámos ambos como se parasse o tempo

Pedro Barroso

[...e parou.
E agora quem o põe a andar?
Quem mata o tigre?]

Boa noite

18 dezembro 2014


"Cala-te, a luz arde entre os lábios,

e o amor não contempla, sempre

o amor procura, tacteia no escuro,

essa perna é tua?, esse braço?,

subo por ti de ramo em ramo,

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme,

nunca o amor foi fácil, nunca,

também a terra morre."


Eugenio de Andrade

[..só não acho que o amor não seja fácil. Não há nada mais fácil que o amor, sente-se e pronto, não se faz nada para sentir, nem sequer pode haver esforço nisso, é e pronto. O amor é fácil, a relação é que pode  não ser; e não raramente a nossa própria relação com o amor, e com o que sentimos, não é pacífica, principalmente quando o tentamos contrariar, quando nos tentamos contrariar... porque se o que sentimos não se controla, tentar contrariar é só frustrarmo-nos... e isso é que nunca é fácil... ]
Pois sim...
mas espero que não seja aquele género de olhar 
e desejar que eu desapareça... assim por magia, sei lá...
Se for isso, nunca tive, mas também é uma ignorância que aprecio... e espero manter.
Se for da outra magia, da que dá estrelinhas no estômago, ou no olhar, ou onde quiserem (cada um com as suas estrelinhas, né?), dessa também nunca tive, mas nessa ignorância não quero morrer... aceitam-se candidaturas, portanto... mas não de ilusionistas, ok?

Bom Dia!

[devia haver uma etiqueta de "como estragar boas frases..." esta era etiquetada de certeza...]


Não tenho tudo, mas não me falta tudo. 
Não tenho tudo o que quero, mas quero tudo o que tenho*.
Daquilo que a vida nos deixa escolher querer ou não querer, de tudo o que não queria livrei-me. Fui deixando pelo caminho, abri a mão deixando cair, ou atirei. O que fica não é tudo o que quero, mas sei que quero o que tenho, e isso, vendo bem, já é alguma coisa, e não é tão pouco como isso. 
Nem toda a gente o pode dizer. 

(* não sei de quem é a frase, não é minha, li-a nalgum sítio e ficou-me, e hoje percebi que a sinto - que hoje senti isto -, e que isso dá uma tranquilidade doce. Como a noção de se ter feito tudo o que estava ao nosso alcance para caminhar para o horizonte que queremos. Que vamos querendo, que acompanha o caminho e o nosso olhar. Não cheguei lá, mas o que guardei, de tudo o que fui recolhendo ao longo do caminho, sinto meu, é meu, e quero-o.)

Boa noite.

17 dezembro 2014


... Lambuzo-me, sim, sempre que puder, e se o caso der até lambo os dedos. E o acaso que me lambuze.
E os acasos, esses grandes malucos, que me dupliquem os dedos para lamber, façam meus mais dedos e façam os meus de mais alguém. Os acasos fazem as vidas encaixar para nos lambuzarmos, se soubermos.

Bom dia!
E há momentos de que se tem saudades, momentos que se recordam com precisão de relógio, como quem esperava a meia-noite para para um beijo sem tempo e umas palavras desfeitas em sorrisos. Momentos em que se lembram os gestos exactos, as palavras no sítio certo dos silêncios, os silêncios correctamente aquecidos na paz do estar, de estar bem. E lembrarmo-nos como se fosse agora, aqui, como foi, como é? Será?... Há momentos em que as saudades são de momentos precisos, no resto do tempo tem-se saudades de tudo. No resto é sempre. E é tudo.

Boa noite

16 dezembro 2014

... e eu que ainda não montei a árvore de Natal este ano....
acho que podia ponderar montar esta, mas dispenso as luzinhas, 
ainda fundem, sei lá...
eheheheheh
Bom Dia!!

(agradecida à B pela ideia ;) ... é bom saber que me rodeio de pessoas tão tontas como eu, sempre rimos juntas, enquanto as árvores não aparecem... )

Há vezes, como hoje, em que uma pessoa sente tanto algumas coisas que parece sentir as paredes da alma arranhadas por um grito mudo a rasgar um momento desavisado, que se prolonga nas garras da memória pelo dia adentro. Como hoje. Sente-se tanto que dá a sensação de que não o estamos a sentir sozinhos, como se parte daquilo não fosse nosso mas chegasse a nós a sentir, como  se do outro lado do grito houvesse outra boca faminta, outra alma que rasga. Sente-se tanto que parece que sentimos por nós e por quem não sente, mas sentimos como se sentissem. É uma coisa que abalroa de dentro, que não se trava, mas que nos cristaliza. Quando ao fim do dia se expõe tudo à luz que o dia engoliu, percebe-se que a sensação é uma realidade inventada, que a sensação é só um engano. Um engano, que de tão sentido, se enganou anos a fio à procura da outra ponta do fio, onde o engano se desenganava e a realidade não se inventava. Vivia-se, a par, num grito de sentir tanto. Tanto engano, afinal.

Boa Noite

15 dezembro 2014

[...pelo menos.]

"O fato é que muita gente já morreu alguma vez e nunca desconfiou disso. Inclusive você, não obstante eu. Porque a gente morre quando levanta da cama e já corre para olhar o celular. Morre de monotonia, de inércia, de marasmo, de falta de sonhos e de sonhos não realizados. A gente morre de medo de por o dedo em riste na cara do próprio medo e de pegar a coragem e seguir caminhando.

Morremos de medo de trocar hábitos, de mudar de ideias, convicções, de ver as coisas por outra perspectiva e damos um repeat automático nos comportamentos viciados e ranzinzas. Morremos de medo de olhar para o espelho da consciência e encarar os olhos nada atrativos das verdades de nossa alma, pois os reflexos geralmente são indigestos e desagradáveis. Morremos de medo de colocar em pratos limpos as mazelas de uma relação corroída, mas sustentada, apesar do visível desgaste, devido à insistência do amor que já não é mais o mesmo, mas que poderia voltar a ser ainda melhor se fossemos viscerais e honestos com nós mesmo e com o outro. Morremos na reincidência infinita de conhecidos ranços e defeitos, dos outros, e nossos. Morremos quando não somos coerentes com o que sentimos.
(...)
Na verdade, vivemos cercados de óbitos commoditizados, sem cara nem desejos. E não sabemos de que forma sair de tão grande e paraplégica falta de competência de atitudes. Morremos de frio na alma e de falta de verdades. De amor encoberto e não depurado pela falta de coragem e por excesso de orgulho. De afeto endurecido e estancado. De gentileza não manifestada numa fala que deveria ser doce. Morremos de egoísmo e de falta de sensibilidade. Morremos de silêncios e escapismos. (...) Morre também quem permite que a paixão morra no sexo e que faz amor fingindo prazer, como quem come um mil folhas com o nariz completamente entupido. (...) Urgente! É preciso ter coragem e força de personalidade para olhar para dentro de si e, identificar essas pequenas mortes diárias. Fazer delas o combustível para catarses existenciais que melhorem cada um como ser humano. Que nos possibilite ver e ter uma vida com mais honestidade, ética, sensibilidade, poesia, densidade e amor".


[...é preciso tão pouco para ganhar o dia... e tão pouco para perdê-lo. Basta um olhar para ganhá-lo, ou perdê-lo.]

...deve ser o que estou a precisar...
...sinto a cabeça vazia (sim, é normal, já sei...) 
e à roda ( e não, não bebi nada com álcool, se bem que a ideia é tentadora, muito tentadora...)...
É certo que só fui almoçar, vulgo um folhado e um sumo (sim, sim, foi mesmo sumo)  às três e meia da tarde,
mas não sei se o problema será esse...
O meu único pedido é que se cair para o lado me arranjam um mocinho jeitoso, alto e espadaúdo que me leve a casa e me deposite no leito. Qualquer coisa menos que isso, não quero, e recuso-me a cair para o lado... enquanto puder, pelo menos.
A única vez que caí para o lado, acordar foi uma sensação muito boa, não me importava nada de repetir... mas nem vale a pena pensar nesse acordar, vou pensar é em ir emborcar um café, e ver se a cabeça deixa de rodar, irra!!

(isto anda tudo um bocado maluco, mas pronto, é o que se arranja por aqui, estou farta de tudo, mesmo. Há que animar as hostes, e ainda não é hora de beber uns copos, por isso, só com parvoeiras mesmo... e uma cabeça à roda...)

eheheheheh
... é uma maneira de ver as coisas!!
torna o cônjuge/respectivo uma espécie de meia de lã que aquece os pés...
...e hoje isto está demais de frio!!
está, está!!
...dava jeito assim uma meia quentinha... dava, dava

Bom Dia



"Entender e aceitar todas as dores da existência dá muito trabalho. Pensar resulta em incertezas, falta de respostas e consequentemente em angústias. Quem sofre com tudo isso é a psique, que de tão atormentada, pode posteriormente afetar o comportamento e a personalidade. Nietzsche diz enxergar a vida de forma tão profunda que se sente completamente sozinho. Com quem ele discutiria suas questões provenientes de uma visão tão reflexiva sobre a vida? Quem não tem esse mesmo nível de profundidade também não tem capacidade de viver com pessoas como Nietzsche.(...)
Tendo em vista pessoas pensantes como Nietzsche, é possível fazer uma relação com a sociedade pós-moderna, permeada por indivíduos que tem extrema dificuldade de ficarem completamente sozinhos. Hoje, com o avanço tecnológico, as pessoas tem o costume de estarem 24h por dia conectadas e em momentos em que seria essencial a solidão para reflexão, rapidamente recorrem a um aparato tecnológico, uma mensagem a um amigo ou uma foto que consiga likes o suficiente com o objetivo de suprir essa carência e mal-estar. Estar realmente sozinho chega a ser uma raridade de poucos atualmente.
Essas pessoas que dificilmente tem um momento de reflexão solitário, diferente dos Nietzsches, parecem ser mais leves, despreocupadas e até mais felizes - talvez por mascararem suas angústias ou simplesmente por nunca terem se deparado com elas. Refletir sempre vai resultar em dor e descontentamento. Quem pensa, se dá conta de que muita coisa na vida não tem sentido nenhum e pensar mais e mais pode só aumentar a agonia. É por esse motivo que os Nietzsches que andam por aí muitas vezes são vistos como pessoas amarguradas e estranhas. Na verdade, encarar as verdades da vida torna esses indivíduos mais críticos, pois continuam numa busca incessante por respostas que podem nunca alcançar. Dessa forma, se isolam da maioria por se sentirem completamente incompreendidos e desencaixados num mundo onde parece que ninguém os acompanha."

© obvious

...pois, ter demasiadas perguntas não é nada cómodo, não. Mas suponho que até isso poucos entendem de tantas respostas que têm. E sim, acho que as pessoas têm de ter níveis de profundidade parecidos para falarem a mesma língua e se entenderem no mesmo comprimento de onda de vida. 

[e não, não me estou a comparar aos "Nietzsches" de que o texto fala, apenas sei - e dizem-mo muitas vezes... -  que tenho muitas perguntas, e que penso muito sobre coisas demais, ou penso demais sobre muitas coisas, e isso de facto, se não o soubermos compartimentar e dosear no tempo, cria algum distanciamento de maior parte das pessoas, que não têm tantas perguntas nem gosto pelas interrogações, pela busca da verdade mais próxima... sim, como alguém me apelidou, eu sou um ponto de interrogação ambulante, mas vou andando assim, contribuindo para as minhas respostas e para novas perguntas... porque às vezes as novas perguntas respondem a alguma coisa das perguntas antigas, mas é preciso querer ver.
Algumas perguntas, se não são respostas completas e inteiras, acabadas, são contributos importantes que nos apontam uma direcção... é um caminho incerto, não é uma resposta certa. Mas também podemos dizer muito das pessoas pelas perguntas que fazem. E tanto, tanto, pelo que nunca perguntam, ou ao que fecham os olhos sabendo.]



Muitas pessoas confundem sexo com intimidade.
Há casais que vivem ‘juntos’ durante décadas, ‘dividem’ a mesma cama, fazem sexo diariamente e não são íntimos.
No entanto, há pessoas que se encontram por alguns minutos, trocam um olhar e, sem mesmo se ‘despirem’ ou ‘tocarem’, criam uma relação de intimidade.
Viver junto, não é morar na mesma casa.
Dividir não é partir ao meio.
Despir-se não é tirar a roupa.
Tocar-se não é encostar um corpo no outro.
Quando somos íntimos.
Mesmo com roupas, estamos despidos.
Mesmo à distância, estamos unidos.

Catarina Castro

[E é isto. Mesmo. Intimidade, cumplicidade, partilha, sentir-se perto, trocarem-se e tocarem-se num olhar que fala onde as palavras apenas ouvem onde não conseguem chegar. É encontrar no outro o caminho para aquela parte de nós que sozinhos não habitamos. E a paz que esta plenitude namora. ]

Boa Noite



14 dezembro 2014


O relógio marca
quarenta e oito horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer.

Alice Ruiz

[...marca?... Terão sido? Quarenta e oito? Ou setenta e duas? Ou cem?....
 Sem tempo nem horas.... o meu relógio tem as horas partidas... e os minutos todos chegados.
esqueço-me sempre que não tenho relógio, e que o meu tempo não se mede em segundos.
Não servem os relógios para contar infinitos.
O infinito, como o amor, é uma questão de fé.]

Bom Dia

"(...) Fecho os olhos e vejo-te como sei ver: os traços toscos com que tento pintar-te dentro de mim, sem nunca te abarcar. És sempre mais que isso, mais do que vejo, mais do que sei, és sempre mais. És sempre mais inteira e mais completa que os meus traços vagos, os meus traços toscos. Talvez nunca ninguém saiba outro alguém completamente. Talvez nem a nós nos saibamos, que é difícil ver-se inteiro visto de dentro. Pinto cada traço teu a cada gesto, a cada curva, a cada volta, cada traço teu que há por dentro. Dentro de ti és maior que por fora, dentro de ti és um universo e um futuro, dentro de ti és, dia a dia, uma surpresa, a surpresa das coisas pequenas, das coisas grandes, das coisas novas e das coisas repetidas, como um fractal de gente. Por vezes nem sei que te dizer, nem sei que te mostrar para não ser fosco, aborrecido, previsível. Por vezes não sei se sentes o que sinto, o conforto dos silêncios, se encontras calor nos hábitos, nos gestos repetidos.
(...)
Fecho os olhos e vejo-te dormir, a cada respiração és nova, vejo um pormenor de ti que me encanta de novo, como se te visse sempre pela primeira vez. E sei, intimamente sei, que quanto mais me foco em ti menos terei, do mundo externo, coisas para te trazer. Não te sei dizer palavras novas, porque as palavras que aprendo e invento são palavras sobre ti. Sou como um homem que explora um labirinto, e o labirinto apropria-o e consome-o, e à medida que ele aprende caminhos e meandros, é cada vez mais um com o labirinto e cada vez menos um consigo; à medida que os meus olhos se focam mais em ti menos interesse vês em mim, e eu sinto que não sei dizer-te mais sobre mais nada que não sejas tu.(...)"


[fecho os olhos e vejo-te. Sempre foi como te vi melhor. De olhos fechados. Abertos de cegueira. Abertos de mim fechados de mundo. Vê-se o que se sente, o que sinto, o que me fazes sentir, quando de olhos fechados estás à minha frente. É aí que te vejo melhor e talvez não te veja, talvez seja só eu a ver-te.
Fecho os olhos e vejo-te dormir enquanto durmo encostada a ti, com a cabeça no teu peito, a melhor almofada do mundo. E eu de olhos fechados. E vejo-te. Ou sinto-te. Ou sinto, só. Não sei, não quero abrir os olhos.]

Boa noite

13 dezembro 2014


Coisa boa.
Coisa boa pensar-se assim.
Ou tentar.

"Engana-te de propósito a fazer as contas. Falha o golo em frente à baliza. Despenteia-te. Escreve “sapo” com cê de cedilha: çapo. E também “sopa”: çopa. Inventa combinações de números quando o multibanco te pedir o código. Contraria o GPS. Põe sal no café. Telefona à tua mãe e diz que querias ligar para as finanças. Despede-te quando chegares e diz olá quando partires. Senta-te no chão. Veste a camisola ao contrário. E, por favor, calça o sapato do pé esquerdo no pé direito e calça o sapato do pé direito no pé esquerdo. Verás que não é assim tão desconfortável, que o calçado ortopédico é um exagero e que há muito mais do que aquilo que esperas naquilo que não esperas."

José Luís Peixoto

[...çerá?? ]

Bom Dia!!

12 dezembro 2014


Afinal, quem é que tem a pretensão
de não
ser louca?...
Loucos somos todos,
e livre-me Deus dos
verdadeiros ajuizados,
que esses são piores que o diabo!

Florbela Espanca.

[... exacto! Palavras sábias. E hoje foi um dia de dar largas à loucura boa e a deixar-me gargalhar, porque há muito ando a precisar. disso e de tantas coisas... mas esta resolve-se com um pouco de disposição e um sítio onde se podem escrever todos os disparates, e rir-me sozinha enquanto o escrevo, e o penso... e então se tiver quem alinhe na brincadeira, o dia alegra.
É isso, livrem-me dos verdadeiros ajuizados... eu gosto é dos falsos loucos, daqueles loucos que me fazem rir com vontade, os que sabem brincar, que têm um humor no mesmo comprimento de onda do meu, mesmo quando é tonto, ou acriançado, ou a ironia mais fina, ou o sarcasmo mais acutilante - os que (me) entendem. Aqueles com quem se pode brincar com tudo e falar de tudo, sério ou tontices, sem ter medo de julgamentos parvos ou bacocos, o à vontade duma cumplicidade que só vive na intimidade. E a intimidade é tantas vezes a partilha do riso genuíno, da gargalhada verdadeira.]

... já que é Natal e coiso e tal,  aquela ideia do espírito natalício, 
o bem da humanidade, o calor humano e o amor ao próximo 
(principalmente isto do Amor ao próximo faz aqui todo o sentido, só vos digo...)
... podiam-me dar um champô destes, era coisa para me dar jeito (muito mesmo)...
e de uma utilidade indiscutível no natal, passagem de ano, carnaval, páscoa, eu sei lá... sempre. É coisa boa de se ter à mão... às mãos, melhor dizendo, que só uma é muito desperdício por agarrar - coisa inadmissível num tratamento que se preze, e este eu parece-me que ia prezar 
(e sim, as vogais também, assim de repente, se me baralharam, mas estão na ordem certa,embora, convenhamos, a outra ordem, se calhar - ou mesmo de certeza -, ainda era mais certa: era na mouche, mesmo!!... ai ai)...
Não sei se tira "ex" da cabeça ou de algum outro sítio possível, ou até imaginário, 
mas se não tirar insiste-se... dizem que se insistirmos muito as coisas acontecem, sei lá, 
ou então pomos cara de que aconteceram, felizes e contentes, com tudo perfeito e maravilhoso,
 e toda a gente se convence, com sorte até nós... e sim Tuserve, Tuserve.... e se não servir insiste-se e persiste-se, que dado o calibre do tratamento não me parece assim um grande sacrificio... digo eu...
Tuserve, tuserve... anda cá que eu esfrego... 
só não se se se me esfrego se te esfrego... mas algo me há-de ocorrer!!! 
ehehehhee



.... Dizem que é Natal e eu ainda não dei por nada, e acho que vou continuar assim. Dantes gostava da época de Natal, agora não. Parece-me uma coisa cada vez mais pequena apesar de em todo o lado a queiram esticar mais e mais no tempo. Mas a magia parece encolher... Ou a mim parece. Já o café quentinho a aquecer este frio, é bom.

Bom dia 

11 dezembro 2014

Ainda não acendi a lareira este ano, coisa estranha em mim, muito estranha, porque adoro a luz da lareira, da nostalgia que nos aquece, das memórias que ainda queimam. E ainda não é hoje. Não ainda. Hoje são meias grossas até aos joelhos, um camisolao quente e uma manta para me embrulhar. Uma manta que me cobre e tanto me descobre... Os olhos a poisarem no par que me acompanha: um chá e um livro. Um  chá bem doce e morno, embrulhado numa caneca baptizada com uma frase que gostei mal bati os olhos. Por isso a escolhi. E o livro, o livro para ler e parar de ler para pensar no que se lê, e tantas vezes a reler e voltar a ler até me fazer sentido, porque não se entende à primeira, ou eu não. E depois moer e remoer ideias, mastigar e restar algo que me acrescente. É sempre para isso que acordamos: para nos acrescentarmos mais alguma coisa que não apenas um dia.

(Eu até podia dizer "Bom dia", mas é um bocado tarde, né?)

10 dezembro 2014





(...)
el corazón a veces nos despierta a los gritos
y uno se vuelve sordo de ternura
(...)

Mario Benedetti


[a alma a queimar gritos
a pele a derreter sussurros

lábios que não vêem
olhares que não ouvem.

palavras que não falam,
sonos que não dormem

beijos que despertam,
almas que fogem.

tempos que passam,
eternidades que ficam.

onde a saudade se demora
a ausência não mora.

se a distância aparece
de amor não se padece.


( leio duas linhas deste homem e o que não queria sair começa a correr-me pelos dedos...) ]
Porque às vezes as noticias não são tão péssimas como se estava à espera,
ficamos quase felizes. Quando o menos bom nos tira muitos quilos de peso de cima não há nada que esteja bem, mas temos a certeza de que poderia estar pior. Ou vamos acreditar que sim. Não sou uma mulher de fé, nem de esperança, nem de optimismos, acho que sou - ou tento ser - tão realista que me torno pessimista, porque a realidade tem essa coisa de normalmente nos tirar o tapete da pior maneira e nos enfiar um balde de água fria pela cabeça abaixo na pior altura. Depois há quem ache que dá a volta a tudo, que tudo acabará por correr bem e às mil maravilhas, e há quem sucumba perante a falta de chão, andando à procura dos pés durante uns tempos. Eu penso pertencer ao segundo grupo, caio, ando  uns tempos à procura não sei de quê, acho tudo uma valente merda, mas no caminho percebo que estar no chão não melhora nada, e depois de me deixar cair obrigo-me de alguma maneira a levantar. Mas não encaro normalmente as coisas com a ideia de que tudo vai correr pelo melhor, isso não, apenas de que vou fazer o melhor que possa, e depois logo se verá o que a vida me responde. Sendo que raras vezes ela não se tenha mostrado duma educação muito duvidosa... Portanto, não gosto de esperar grande coisa. Desde que me conheço que sou assim, e os anos só me têm reforçado a (des)crença.
Mas hoje estou uns quilos mais leve que ontem, e gostei deste mocinho quando lhe pus os olhos em cima... gosta do ar sério de gaiato traquina, a armar em solene só porque tem um ramo de flores entre os dentes e vontade de parecer grande.... a mim desarma-me. Dá vontade de dar festinhas e brincar com o gaiato e fazê-lo rir naquele ar solene que tenta pôr...Deve ser um grande parvo, é o que é. Normalmente são esses que me desarmam e nem precisam de vir com flores...
Bom Dia!
... E agora era isto. Colo. Estar perto e estar junto.
Voltar a respirar fundo, sem nós na garganta.
A aflição afrouxa e o espírito descansa, contentando-se com o melhor do pior, quando já só esperávamos o pior do pior. E, então, com o fim do dia, o sofá, e a descompressão, a vontade da paz do colo em silêncio aparece inteira. Ter alguém, não para nos aliviar do que não é bom na vida, do que é nossa responsabilidade, mas para nos fazer aproveitar o que é bom e vale a pena, e nos permite equilibrar o peso de aguentar tudo o resto. 
E aproveitar o que é bom também é responsabilidade nossa. 
Se tivermos calor para dar, e paz, e colo. 

Boa Noite

09 dezembro 2014

Hoje de manhã, tal era o frio, enquanto andava perdida em busca de cumprir uma missão, deixei de sentir as mãos, e dei por mim a pensar que não eram só as mãos que deixavam de sentir, de sentir o que tocavam, o que por fora lhes chegava, o que agarravam e deixavam até cair, sair de mim e deixá-las ir. Toda eu parece que deixei de sentir, a alma congelou algures nestes tempos recentes, cristalizou num momento que não recordo, mas que chego a agradecer. Gelaram-me as mãos de afectos, os lábios de sorrisos sentidos, o olhar do que o fazia brilhar quente, cabreirinho ou meigo. Agora o que surge parece não nascer. As mãos perderam os gestos, ou perderam-se dos gestos que escrevem afectos, perderam-se na mecânica dos movimentos que nos sobrevivem. Que não sentem nem fazem sentir. Nada. 
Cheguei a pensar, enquanto navegava o frio, que tinha dúvidas se o frio que me adormecia as mãos vinha de dentro ou de fora. Melhor, se hoje em dia eu tenho ainda um dentro e um fora. A fronteira já não sei onde fica, ou se existe.
 A alma está tão gelada como a pele. 
Dormente duma dor que mente porque se cala.
Gela como se não doesse.

... Nós não controlamos nada, ou quase nada, do que realmente importa.
Saber lidar com essa impotência é aprender a viver.

Boa Noite

07 dezembro 2014


... Sento-me aqui, com o frio a comer-me as mãos e refastelado na alma, e penso que não sei a que horas despontaram os primeiros raios de luz, que fazem o céu alto de azul bebé que para mim não nasceu. É o fim dum dia sem noite, ou com uma noite esburacada, desdentada sem dentes que mordam, mas que me espapaçam os ossos e me tiram o sangue que não dei. Sangue. Pilhas novas para dois ou três dias, ouvi é fiz por não escutar. E dou por mim a lembrar-me que me pus a lavar a loiça, não sei porquê, não é coisa que me dê, mas tinha de fazer alguma coisa, ou parecer-me que estava a fazer alguma coisa, que podia fazer alguma coisa. Lembro-me do que pensei na altura, da associação de ideias, e de pensar como a vida é estúpida. E agora aqui recordo a frase de quem não me lembro de ver chorar, a não ser há praticamente um ano, e passado um ano, eis que o vejo de novo assim, por minutos rendido ao que nos derruba, e diz apenas "há coisas na vida que podemos escolher, outras não temos escolha". E a lua a esconder-se e o sol que não se vê.

06 dezembro 2014

E de repente o chão falta, os olhos não vêem porque só vêem para a frente e tudo nos foge. O que virá por aí? Que tempestade me espera? Que mais me espera? Quantos mais me fugirão? Como me resto? Em que apoio me posso cair? Que força para ser eu o apoio? Onde está o chão?
Hoje o sol pôs-se às quatro e cinquenta e seis minutos na minha varanda, até lá estava-se bem aqui, de pijama e roupão, meias até ao joelho, uma manta e as mãos frias. A preguiça consegue estas coisas, apanhar o exacto minuto em que sombra se instala onde estamos, em que sol se esconde por trás do horizonte das casas. O exacto instante a partir do qual o frio se instala e a única luz que resta é a que tivermos e nos refugiamos onde encontramos calor.
... Ronha quentinha, que lá fora o sol está frio e aqui o calor aconchega-se a mim. 
Depois de trincar alguma coisa que cale a barriga vou calar a cabeça voltando a fechar os olhos.
(bem sei que a foto não é muito convidativa com o frio que se faz sentir, 
mas há pessoas que nos despem o frio com a roupa, sei disso com a certeza de quem o viveu.
Enquanto não encontro outro desses espécimes ando de meias até as orelhas...
 Mas continuo a gostar das fotos. E de despir o frio com vontade.)

Bom Dia


"A felicidade é uma questão de pontaria."
Mia Couto

Mas se não atirarmos nunca saberemos da nossa pontaria.
A minha é péssima. E péssima comprovada. 
Também é certo que quando (me) atiro é sempre de olhos fechados. 
Exupery não dizia que o essencial é invisível aos olhos? Pois parece que à pontaria também. 
... Ou não. Se calhar o alvo certo ainda não apareceu e a pontaria acertou em errar o alvo.

Boa Noite

05 dezembro 2014


"(...)E não são as palavras que apagam as distâncias, e não são as respostas que apagam as perguntas. Gosto do enigma de não saber da infância, do milagre de um beijo. Até o paraíso precisa de morte. Gosto do toque perigoso do teu suor, da respiração de víbora do desejo. A catástrofe é o abraço. E só as catástrofes me fascinam."

António de Deus-Rosto

[...deve ser isso, eu devo ser catastrófica, uma queda para a catástrofe, digamos assim. 
A verdadeira catástrofe, para mim pelo menos, é todos acharem uma catástrofe essa queda, em vez de caírem em mim e eu numa outra catástrofe parecida de alguém. Mas não, eles caem sempre neles, e eu sou obrigada apenas a cair em mim. E uma catástrofe que podia ser uma queda tão boa... uma queda no abraço que se sente casa, no beijo que nos esfuma os dias, no desejo que morde os sorrisos por dentro, no suor de tocar a pele certa. O desejo explodido como uma pequena morte feita paraíso. Uma catástrofe.]

"Eu a amava, em suma.
E era infeliz.
Mas como poderia ela algum dia entender essa minha infelicidade?
Há aqueles que se condenam ao cinzento da vida mais medíocre porque tiveram alguma dor, alguma desgraça; mas há também aqueles que o fazem porque tiveram mais sorte do que poderiam suportar..."

Ítalo Calvino

[Não consigo entender esta lógica, este princípio de vida que me parece mais um fim da vida, lento e em agonia. Cinzento por opção, paz podre por escolha cómoda, zona de conforto infeliz. Não entendo, ainda não entendo, e tenho esperança de nunca, mas nunca, vir a entender. Ainda menos quando o fazem por medo de serem felizes, de não saberem se conseguem, ou sabem, ser felizes. Pelo medo de poderem descobrir que afinal tudo era uma ilusão que um dia nos cai pela cabeça abaixo, feita desilusão que nos arrasta, como se escolher a agonia não fosse já essa certeza, essa desilusão já mais que amargada, medida, testada e assegurada. Essa miséria bem encaixilhada, não mais que uma miséria em que nos habituámos a viver, a lidar, onde já não esperamos perder nada, porque simplesmente já não esperamos nada. De nada. Onde a cobardia de fugir à possível dor da desilusão se torna na coragem mal maquilhada do sacrifício duma vida por viver, em nome de algo que não conhecemos nem pelo nome.

Adquiri dois livros deste senhor, um para oferecer (à espera de o ler na mesma, claro...), e outro para consumo pessoal. Aconselharam-me este senhor, que era bom e eu ia gostar... depois digo. Agora ainda ando aos saltos no Rayuela, que gosto, gosto muito. Anda-me a apetecer outra vez ler, ler muito. É sempre a mesma coisa... mergulhar na vida onde a há, se não na minha na que vivo através das histórias que alguém escreve e que vivemos pela mão de alguém mas na primeira pessoa. Aprende-se na mesma, sofre-se também, e pensa-se, pensa-se muito sobre aquela história e a nossa e as que não chegaram a ser nossas, mas de as pensarmos já o são, um pouco pelo menos. E pensamo-nos e conhecemo-nos, e às vezes somos felizes fora de nós, ainda que por dentro da nossa visão duma história que fazemos nossa pelo olhar, e que nos faz fechar o livro e os olhos tantas vezes para nos imaginarmos, nos pormos na história, sermos a história sem deixarmos de ser quem somos. E eu voltei a isso. Sem vida é que não sei viver. Cada um a arranja onde pode, é o que é!!...]
... uma vez disseram-me:
"virar a mesa é muito diferente de virar apenas um guardanapo. 
E o que tu estás a querer é virar a mesa..."
Há uns tempos voltei a falar com ele sobre esta frase, e disse-me que quando mo tinha dito nunca pensou que eu o fizesse realmente, que o conseguisse, fizesse e assumisse.
Fiz, virei a mesa. 
Virei a vida do avesso. 
Ouvi os conselhos sensatos dos outros e  optei  pelos meus conselhos, ainda que pouco sensatos, de mesas viradas e vidas do avesso e corações de pernas para o ar.
Fiz, fiz o que sentia, e gosto muito da mesa virada e o avesso é talvez o meu direito,
 e o direito de o ser. Permiti-me, não fugir dos conselhos sensatos, não, não foi isso, foi apenas seguir-me, seguir o que sentia, ser eu. Onde estava não era mais eu, não me sentia mais eu.
 Arrisquei a felicidade, não a ganhei, 
mas o que perdi também não foi felicidade. 
E ganhei-me, ainda que para me perder, mas ganhei-me.  Inteira.
Às vezes temos de nos encontrar perdidos para nos descobrirmos inteiros e autênticos.
Vale a pena. Ainda assim, vale a pena tentarmos viver como somos, tentar agarrar a felicidade que nos faz felizes.
E enquanto for assim ainda estamos vivos e acreditamos que podemos viver melhor. E vivemos esse sonho, de arriscar realidades.

Bom Dia


"O amor é – tem de ser – presente com esperança de futuro; preferir e bastar; não é passado."

Preferir e bastar. 
Preferir o presente porque o passado já não se sujeita a preferências. É o que foi, preferência acabada, e basta-se assim. 
Para o futuro ser bastante não basta preferir no presente, mas preferir o presente.
Preferir e bastar, é isso, isso basta. 
Basta-me.
Preferir-me presente.
Fazer-me futuro.
Presente com futuro.
Amor.]

04 dezembro 2014

... não, mas se também for é melhor. 
Muito melhor...
É estar perto junto.
Uma sem a outra é ficar a meio caminho de lado nenhum.

Bom Dia!


03 dezembro 2014

Vejo-a chorar à minha frente e apercebo-me de que se me gastaram os abraços. Já não tenho braços para tanto tamanho, para tamanha vida. Quando os braços eram mais pequenos eu ainda achava que lá cabia tudo, talvez eu fosse maior quando era pequena, ou ao contrário do que dizem, o mundo me parecesse mais pequeno e menos avassalador de dor,  e os abraços não se gastavam, nem se cansavam, nem se desistiam, como as lágrimas parecem nunca se cansar. Uma pessoa pensa que a vida nos gasta as lágrimas mas arranja-nos sempre mais. A vida só nos gasta a nós em tantos nós que nos faz engolir. Seca-nos nos intervalos de tantas lágrimas.

02 dezembro 2014

...preciso tanto de me pirar daqui, deixar a estrada pegar-me e segui-la sem pensar no onde ou no porquê. Eu, um bom livro e alguma coisa para escrever. Tenho tantas palavras para me gastar, e ando a guardá-las para me desperdiçar no tempo de nunca as chegar a entender. Tenho coisas para tentar escrever, assim consiga vencer a preguiça da inércia e convencer-me que me despejarei nesse por escrever depois de escrito. 
Preciso de me pirar daqui, só comigo, e trazer um sorriso cheio de palavras por dentro da boca que quebraram o silêncio pelos dedos.... Ahhhh 2015 se te apanho fujo contigo. Contigo, comigo, com um livro na mão e palavras nascidas por nascer. 

... sim, e então o ressabiamento aparece. E bolas, um homem ressabiado é 1000 vezes pior que uma mulher, e uma mulher ressabiada já é insuportável mesmo à distância, imagine-se ter de lidar com um homem ressabiado, que de repente se acha.. se acha tanto, se acha melhor, se acha tanto que nunca chegou a ser, mas tenta atirar para cima dos outros o que pensa que é, em contraposição às grandes falhas que gostaria de ver, ou que acha que vê, nos outros.... e onde estava ele quando tinha medo da própria sombra? onde estava ele quando acreditava mais no Pai Natal do que nele próprio e nas suas capacidades? onde estava ele quando não sabia que a sua cabeça era uma coisa que funcionava autonomamente? Caramba, porque é que me dou ao trabalho de fazer crescer as pessoas, de as tentar fazer ver o que são e o que valem, e valem sempre mais do que pensam, e a paga que tenho numas é umas costas voltadas e indiferença e desprezo, e noutras é o ressabiamento que me quer esfregar na cara que são tão melhores, mais responsáveis, mais zelosos do que eu... eu, a irresponsável que o ajudei a crescer e a chegar donde agora me fala com sobranceria, e eu só tenho pena, na verdade não tenho mais nada senão pena de as pessoas serem assim e não terem vergonha disso. Tenho tantos, tantos defeitos, mas irresponsável não me parece que seja um deles, e que fosse, talvez merecesse que mo fosse apontado com menos ressabiamento e ar de superioridade. Afinal de contas tanto zelo extremoso agora, que só se revelou depois de conhecerem a porta apenas do lado de fora. De eu a ter fechado por dentro, com o que não queria mais a ficar trancado do lado de fora... deve ser difícil de compreender por quem se acha tanto, tendo tanta dificuldade em encontrar alguma coisa (se se desse ao trabalho de procurar) daquelas coisas que não se vendo, fazem toda a diferença no que encontram em nós. Lamento não ajudar, já não me atinges, só me feres de pena de ti e dos teus ares de superioridade tão ocos e bacocos.  És melhor do que isso - ou quero continuar a acreditar que sim-, pena que não o vejas e principalmente que não o pratiques, mas falta-te alguém que te faça ver o que não se vê, mas que faz crescer. Maturidade, equilíbrio, estabilidade, densidade no ser. E a mim, a mim também me falta alguém ao lado para me colmatar os defeitos, me fazer sentir que não serão tão graves assim, que tenho coisas boas, fazer-me rir de mim, alguém que valorize, sem sombra de dúvidas, muito mais as qualidades que eu possa ter (ou ele vê-las), do que as falhas que me falham a cada dia, tanto e tanto, e eu não nego. Alguém que possa ser às vezes o apoio que parece ser o que todos vêem em mim, antes de virar costas, por opção ou obrigados. Alguém que me faça crescer, rir, amadurecer, tranquilizar e equilibrar, que goste de gostar e de ser gostado, e que me dê paciência para aturar meninos ressabiados com ares de adultos ofendidos. Não há pachorra.

01 dezembro 2014

... E assim sem aviso olha-se para o lado a acabar um cigarro e vê-se isto... Coisa mai'linda... Gostar assim de alguém com o mimo a comer letras. E as letras a comerem-me a alma de inveja. É feio, pois é, mas "goto mto de ti" é lindo. E o sorriso guardado nas gavetas da memória também. A minha inveja presente do pretérito perfeito que ainda guardo. E que ainda me guarda de amargar.