Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

03 fevereiro 2015


... Há vezes, alturas, em que manter a boa disposição à tona é uma arte terrivelmente difícil...
Tenho mesmo de me pirar daqui. Uma semana só eu e palavras, escritas, lidas, sentidas, e uma paisagem que me possa abarcar, ou fugir comigo.
Boa noite.

02 fevereiro 2015


Como quase desconhecidos de todos os restantes, olharam-se no silêncio conhecedor do outro. Ela encurta a distância entre eles, inclinando-se para ele como quem vai sussurrar. Ele sente-lhe a respiração quente no pescoço e uma mordiscadela na orelha. Ela olha-o, mergulhando no olhar quase surpreso dele, habituado aquelas brincadeiras mas sempre surpreso com elas, e diz "estava aqui mesmo 'al dente' ". Ri-se com ar de menina endiabrada, cabreirinha. Ele, a aproveitar o canto afastado onde estavam e ela estar de costas para a parede, começa a rir-se por dentro em antecipação; inclina-se para lhe sussurar a resposta silenciosa, que ela sente, com uma mão naquele sítio onde as costas mudam de nome a agarrá-la com vontade firme, enquanto ouve em tom quente, quase ronronado, "estava aqui mesmo à mão". Riem-se no olhar atrevido que trocam, denso de urgência. Entendem-se nos olhares como nas pontas dos dedos, dos dentes, da pele. Entendimento só possível quando tudo o resto está entendido. 
Estão fartos de desconhecidos cansados de conhecer. Não se fartam de se reconhecerem, e a urgência rosna selvagem no olhar quase quieto. Quase.

[...bem sei que não são horas destas coisas, mas aparecem-me sem aviso de relógio, ou geografia de bons modos, a qualquer hora. Perseguem-me os momentos e fervilham-me também nos dedos, deixo-os aqui à falta de mais onde os despejar com vontade.]

Bom Dia

... Dorme-se melhor de dia, pela manhã. Quando a cama sabe melhor e nem nos lembramos de acordar para lembrar a pele que nos falta e o dia que não apetece. Todas as verdades que a manhã leva e que da noite não arredam pé: o que falta; o que não apetece; o que não queremos pensar nem lembrar, o que nunca tivemos e pensávamos ter tido. 
Os sonhos que não dormem e a noite que não acaba.

01 fevereiro 2015

...é, mas há tantas leituras para esta frase... Cada um terá a sua. Ou cada um escolhe a sua, a que quer ler. Ainda que não seja essa a leitura certa para o seu caso... No meu caso ainda não avisto, nem procuro, novas portas, mas também  não sei dos caminhos debaixo dos meus passos... Não sei nada, só que tudo me fugiu.
Bom dia!

31 janeiro 2015

(Catherine Deneuve, por Helmut Newton)

Para atrasar a morte vamos abrir a noite
com música de jazz
Percorrê-la depois
num barco de borracha
Celebrar o segredo
Enforcar a memória
Descobrir de repente
uma ilha que nasce dentro do teu vestido
Chamar-lhe Madrugada
Adormecer contigo

David Mourão-Ferreira

[sim, abrir a noite com música, melhor se daquela que se sente e não se ouve; percorrê-la com o ondular meigo, do mar enamorado da lua, nos lábios. Enforcar a memória que embriaga de realidade o que se quer sonhado. Explorar o corpo do meu vestido, território submerso das tuas mãos. Acordar contigo a pele e adormecer nos braços da tua alma.]
Isto sim, é que é programa...
.... Uiiiii preciso disto!! Café e sol...
... A caminho! (espero eu...)

Bom Dia!
... Parece que hoje, ou melhor ontem, foi o dia da saudade. Quem deu um dia à saudade não deve fazer ideia do que é... Quando há saudade, todos os dias são saudade, todo o dia. É uma coisa que se nos pega à pele e se cola ao olhar, que impregna o pensamento e toma conta de nós. É um estado de alma, não um dia de calendário... Quem dera que assim fosse. Um dia por ano sentirmos saudade, e depois da meia noite, qual sapato da cinderela, descalçar-se, perder-se, quebrar-se o encanto... 
Quem dera. Assim seria fácil para quem não quer sentir saudades, lembrar-se de ontem com vontade de hoje.

Boa noite

30 janeiro 2015


Ahahahahah.... 
O que eu já me ri com isto!!
Muito bom!!
É preciso rir e fazer rir!!...
....amorzinho!!!! 

Bom Dia!

29 janeiro 2015





Quando uma pessoa não consegue dormir, não arranja posição, dá voltas e revoltas, e o conforto lhe foge de todas as maneiras, dá por si sem querer a lembrar-se das vezes sem fim que teve nas costas o calor dum peito que era o toque do conforto, da intimidade, do enrolar os corpos e as almas se misturar em. E, de repente, percebe que o conforto que a alma foi à procura sem querer nas sensações vivas dessas memórias adormecidas, dão uma saudade desconfortável do que talvez não tenha existido assim para toda a gente. Apenas para mim, apenas nas minhas costas, apenas na imaginação da minha alma. Mas o desconfortável, percebo, não é saber isso, mas sim descobrir saudades onde já não as quero. Sentir, ainda, o desconforto do nunca mais para sempre.
Hoje, de tão exausta, não me lembrarei de nada; e espero sonhar com o futuro, para o futuro. Onde partilharei memórias hoje ainda por fazer, memórias partilhadas ao adormecer no conforto dum abraço, a duas peles, que nos veste a alma. Aos dois.

Boa Noite

Uma fachada antiga cheia de janelas a espreitar entre os toldos.
Gosto.
É preciso abrir janelas, arejar, deixar o sol entrar.

Bom Dia




Cabeça quase encostada ao vidro, pelos olhos passa o mundo a correr, mas deixo de o ver, o meu olhar faz ricochete no vidro a fazer-se de espelho, devolve-me o olhar - vejo-me. Algo em mim mudou, não sei precisar, não consigo explicar, mas o mundo lá fora passa a correr e eu, no espelho disfarçado de vidro,vejo uma mulher. Quase não me reconheço, nao sei do paradeiro da miúda que me emprestava o cartão de visita, e pergunto-me por ela. Vejo-me mulher no vidro que vira espelho. Nunca cheguei a ser bonita, mas chegaste a fazer-mo sentir. Pouca gente o conseguiu, muito pouca. E só nessas alturas desejei mesmo sê-lo, para que não te enganasses ao enganar-me. Para que estivesses certo, se era isso que gostarias de ver, que gostavas de ver. E eu gostava que gostasses de ver, e de to ver no olhar e ler na ponta dos dedos, na temperatura da pele, e na falta de espaço entre eu e tu. Esse espaço que agora sobra e não é nada, sendo o mundo todo que corre desenfreado na noite lá fora, e o vidro a fazer-se espelho que não engana.
Às vezes o espaço da distância parece coisa que a vista alcança mas ao olhar não chega. Há olhares que fazem ricochete. E cá dentro não há espaço. Mesmo que tudo esteja vazio.

Boa noite

28 janeiro 2015

...sim, é isto...
%&!#?%$#$&%?... caramba já chegava, não?
 o dia ontem esboçou-me um sorriso....
...e pimbas o hoje já me lembrou que os dias sorrirem-me 
é assim coisa para não se tornar um hábito... irra!
Karma, estimo que te fod@s! 
(porque a mim estás farto de me lixar...)
Pronto era isto.

Bom Dia aos restantes mortais mais abençoados!


Hoje ouvi uma frase que me explica e que explica tanta coisa nos meus últimos anos. Já aqui disse e repeti essa mesma ideia, mas ouvi-lo fez-me bem, como se alguém percebesse o que tento dizer e ninguém que me conhece parece entender quando o digo. Como se não encaixasse, como se não encaixasse no que entendem de mim - e eu entendo que deveria entender de mim, mas entendo porque não o consigo entender assim... Foi a propósito do filme sobre a vida de Stephen Hawking, baseado no Iivro que a sua primeira mulher escreveu, a quem perguntavam como é que ela aguentou os tempos em que tinha os filhos pequenos, o marido já com um grau avançado da doença e ainda a fazer o seu doutoramento sobre poesia medieval espanhola (acho que era isto, mas não interessa em quê, eu fiquei a pensar que no meio daquilo era o escape dela), e ela respondeu simplesmente: "porque não tinha alternativa! Que havia de fazer? Matar-me? E o que seria dos meus filhos? e do meu marido? Não podia. Não tinha alternativa".
E é isto. Não conceber alternativa. Eu também não conseguia conceber, a alternativa era matar um eu que eu gostava, que me fazia - que me deixava - ser quem eu gosto de ser. E era sempre matar uma parte de mim com as minhas próprias mãos. Não conseguia conceber essa alternativa, logo não era alternativa. Não havia hipótese de ser considerada alternativa. A única coisa possível era aguentar como podia e me permitia, de acordo com o que sou, com o que penso, e sob a luz dos princípios que me fazem. Não magoar ninguém, não obrigar ninguém a nada, não provocar situações complicadas, mas fazer entender o que sentia e como sentia. Deixava-me no meu canto e aguentava o que houvesse para aguentar, enquanto eu quisesse aguentar, enquanto não concebesse outra alternativa. E se concebesse não era ameaça, não era jogo, não era estratégia, era porque genuinamente tinha, e sentia, uma alternativa àquele aguentar. Como agora não tenho. Agora é só outro aguentar, aguentar coisas diferentes, outras, e mais. Infelizmente mais, e tristes, e complicadas. Mas alternativa não se avista. Atirar-me da ponte não posso - a noção de deixar sobrecarregadissimo alguém quem gosto muito e não merece, só porque não me apetece mais aguentar, é pesada demais para o egoísmo de que sofro. Então não há alternativa senão aguentar. O que me lembra uma frase que alguém me disse há dias, quando perguntei a meia dúzia de pessoas que me conhecem de formas e intensidades diferentes como me descreveriam (as características comuns que atravessam as frases de quem nunca me viu senão pelas letras, e de quem muito me viu, são engraçadas...Mas isso agora não interessa para aqui, pode ser que dê um post um dia) e que dizia
"tu és uma idealista estóica que precisa que lhe ensinem a ser feliz. estoicismo é, acima de tudo, a capacidade de aguentar. de aguentar calado, geralmente. tu aguentas mais calada do que parece. isso do blá blá e da resmunguice é fachada. as coisas a sério tu aguenta-las calada. depois mandas vir é com tudo o resto."
E eu fiquei a pensar nisto por várias razões. Primeiro, nunca me tinha passado pela cabeça que alguém me pudesse tomar por estóica. Depois acho que não me calo muito, e escrever, escrevo até demais de mim, e finalmente porque foi uma coisa que eu ouvi muitas vezes acerca de outra pessoa: que era estoico, que aguentava, e que aguentava cada vez mais, tantas vezes calado, sem se queixar. No fundo, que era obrigado a aguentar. Mas não era. Havia alternativa, e estava nas mãos dele. Acho que ele também nunca concebeu a alternativa. Como eu nunca consegui conceber a alternativa de matar a parte de mim onde ele estava. Onde eu estava com ele, onde estavam estas e outras conversas, onde estava muito do tudo que eu consigo conceber como o todo.
O que é que eu podia fazer? Aguentar.

(o que me lembra uma resposta minha a uma pergunta - "enquanto tu quiseres e eu aguentar." Mas também é daquelas coisas que só eu me lembro, e estou sentada agora precisamente no sítio em que disse isto, só não tenho a lareira à frente, e falta-me o olhar que recebi depois da frase)

Boa Noite

27 janeiro 2015


Gosto de fotografia, gosto principalmente a preto e branco, e talvez por isto: as fotografias com cor enganam mais porque as tomamos pelo real. Engano, umas vezes para melhor, outras para pior. Neste caso acima para pior. O céu, como os meus olhos vêem a realidade, está em tons de rosa, vários tons, entre o calor e a doçura, entre o sorriso cândido e o atrevimento malandro, quente. E aqui não se vê nada disso, mas eu vejo. Mas eu vejo tanta coisa que não há, que nunca houve... A preto e branco sabemos sempre que a realidade tem mais tons, mais cor, mais ruído; é talvez mais teatral, mas enquanto representação parece-me mais verdadeira por assumir completamente o não querer reproduzir de forma fidedigna o que os olhos vêem, mas uma realidade própria. E eu prefiro. As realidades próprias. Sabendo que o são. Sem pretensões a uma verdade única, a uma realidade que nunca engana. Como se cada um não tivesse a sua própria paleta de cores nos olhos.

Bom dia

...A lua para companhia do último cigarro.
... e o frio que se embrulha em nós difíceis de desfazer.

BoaNoite

"Deixa-me ficar só assim, vamos ficar só assim, e o teu corpo ajeitava-se naquele espaço, encostado ao meu, sabíamos que existia mundo lá fora mas não queríamos saber dele, e na verdade, alheio a nós, girava como sempre. E porque não? O nosso sofá tinha rodas, levava-nos para todos os sítios, e eu acho que tu só querias carinho, naquele momento só querias as minhas mãos a dizer-te que tudo estaria bem. Sabias que eu falava muito com as mãos, pelos desenhos que elas faziam em ti. Deixa-me ficar só assim, aninhada em ti, e às vezes conseguias, outras não. Às vezes era só uma intenção, mas cedo se cedia ao desejo, que não se guarda muito tempo uma fechadura que tem chave certeira. E se isto faz parte de nós, se nos é próprio, resiste, aguenta a passagem do tempo, da água, do vento, de todas as coisas que nos orbitam."


Palavras a falar por mim...
...deixa-me ficar só assim... antes de se ceder ao desejo, ou depois, antes do cansaço ceder ao sono, em descanso, naquela que foi a minha melhor almofada de sempre. só não para sempre.

26 janeiro 2015

... E vontade de jantar?.... Nenhuma... Nicles.

(já a lua estaria boa para se comer...)
Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.

António Franco Alexandre
in Duende

[...coração demente e dormente... Onde andas tu? que não te sinto? Os lugares onde te deixei estão vazios.]
... quando esta música começa e estamos precisamente a entrar na via rápida, com o sol a bater de frente e a aquecer a vista por trás dos óculos de sol, algo em nós se alvoroça para se acabar num sorriso que nos faz crer que a música tem razão, ou queremos - e queremos tanto, tanto - acreditar que sim. Quase sem pensar, como resposta automática, carregamos no pedal, não por pressa de chegar, mas com pressa de sentir a pressa de alguma coisa, duma urgência que nos queima os lábios como um sorriso que já não sabíamos ter há tempos demais. Pedal a fundo, a velocidade na ponta dos pés, e logo um engraçadinho (não cheguei a ver se era...mas vamos crer que sim, que tem mais piada...) que se pica com a nossa urgência, também tem pressa de alguma coisa, ou não, sei lá... ultrapassou-me, e depois, eu já quase a duzentos à hora, passei-o de novo, pouco depois ele acabou por cortar na saída seguinte (ohhhh....)... e eu continuei até onde a estrada deixava, a velocidades tão pouco recomendadas... lembrei-me quando há dias me montei em 325 cavalos, deram-me essa oportunidade, sabem que adoro conduzir e que gosto da adrenalina da velocidade, fizeram-me o gosto e sei que tiveram gosto nisso. E aí, bom, aí devo dizer que se o meu carro demora um bocadinho a chegar aos 200, aquele chega lá só enquanto pensamos nisso... o que dá aquela sensação arrepiante das costas se colarem ao banco e o sorriso à pele que o sol hoje resolveu aquecer... 
(nunca poderei ter um carro daqueles, matava-me num instante...o que me parece uma boa desculpa para não o comprar... o facto do preço ter dígitos a mais para mim, não tem nadinha a ver...eheheh)
... a música dura uns minutos, e a nós apetece-nos tanto acreditar que sim, que estes dias acabaram, enquanto o ritmo e a sonoridade ainda se passeia pelos ossos e nos mastiga a alma devagar nesse sabor doce, mas a música dura só uns minutos... e seja quanto for, nesses minutos esteve-se bem, houve uma espécie de felicidade que nos invadiu, e se se pode aproveitar mesmo que só uns minutos, e não prejudica ninguém, tem de se aproveitar até ao tutano, mesmo que acabe logo a seguir. Os momentos que não se aproveitam não existem, há que aproveitar o que nos faz sentir bem. Eu sempre fui assim, ainda que tenha tantos momentos sombrios, também esses os aproveito à minha maneira, tantas vezes também até ao tutano - é um problema de intensidades. Para os dois lados. E hoje, hoje o dia começou bem... mesmo que possa acabar mal, ou que amanhã comece pessimamente, não sei. Agora não me interessa, só me interessa agora  o agora. Hoje o sol já me entrou nos ossos, mesmo que (só) por uns minutos.

Bom Dia!
(The Lovers, Rene Magritte)

"Não preciso de te ver, encontro-te os passos pela língua, descubro-te o corpo pelo toque. Dizem-me que sou cego porque me inspiro no amor, digo-lhes que de mim sou tudo o que levo para a morte. Carrego prédios inteiros do que não se vê..."

Daniel Camacho 

Boa Noite