Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

19 agosto 2011


"Estar-se cheio, tenso, farto, às vezes no limite da loucura. Cintado de moral, da vigilância dos princípios, do "parece mal". E da cobardia, decerto, e do comodismo. E uma vontade oculta de se rebentar com tudo. Ser-se livre, como quem já nada tem a arriscar. O mais difícil, é que tudo seria fácil. Porque, se fosse difícil, era mais fácil de aguentar, (...) Foi possível, porque já nada havia a perder. O cálculo do futuro não entra já no seu cálculo."

"Cansado. O futuro restrito. A vontade de chegarmos à beira e atirarmo-nos. A monotonia dos dias fiscalizados, a sedução do diferente. Digo diferente. Só o pecado é diferente. Ou sobretudo. Será talvez útil regressar ao pecado de vez em quando, para que a virtude seja mais suportável? Mas não é fácil. É preciso coragem. Coragem? Que é isso de coragem? Em todo o caso, não propriamente pelo pecado em si (para subdesenvolvidos morais como eu, ele pesa), mas porque não é fácil equilibrar o prazer dele com as chatices anteposteriores." 

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente I
Parece que escreve para mim em tanta coisa, e faz-me parar muitas vezes a pensar, e dar por mim a sorrir por entender tão bem, e por me sentir menos diferente. Há quem goste de ser diferente, eu não, e pelos vistos tenho razão, porque " só o pecado é diferente", e só serve para se prosseguir a pureza das virtudes... apoiada no pecado.

17 agosto 2011

"As gerações futuras deverão desembaraçar-se do tempo. Parece que já o tentam. Vida em superficies lisas, desinfectadas, vida no instantâneo presente."

"Aliás a sua razão não funciona (nenhuma razão) no que é a quase totalidade da vida humana. O que nos importa passa por outro lado. Quando a razão lá chega, já tudo está decidido"

Vergílio Ferreira, Conta-corrente I
Algo me diz que vou gostar muito de ler este senhor, e ainda agora comecei.

14 agosto 2011

"Ah! bem sabia que me amavas. Os teus primeiros olhares, esses olhares cheios de alma, o teu primeiro aperto de mão, disseram-mo, e todavia quando te deixava, ou que via Alberto a teu lado, tornava a cair nas minhas devoradoras dúvidas."

Goethe, Werther

Mesmo findo o livro, não, não sei se ela o amava na verdade, sei que não o queria amar, sei que se queria convencer que não, que a ser amor seria amor fraterno, compaixão, amizade. Ainda assim, concluído o livro e as últimas reacções da bem amada de Werther, não sei se ele era, de facto, amado ou não por ela. Uma dúvida, no entanto, não tenho, não o amava como ele a ela. Disso não há dúvida, ele morreu por isso. Dela diz-se apenas nas últimas linhas, que se temia também pela sua vida desde a morte dele.
"O que é o homem, esse semideus tão gabado? Não lhe faltam as forças precisamente no momento em que lhe são mais necessárias? E quando ele toma voo na ventura, ou que se abisma na tristeza, não será então ainda limitado, e sempre reconduzido ao sentimento de si próprio, ao triste sentimento da sua pequenez quando contava perder-se no infinito?"

Goethe, Werther

12 agosto 2011

" «Ou tens alguma esperança de êxito junto de Carlota ou não tens. Bem! No primeiro caso procura realizar essa esperança e obter a realização dos teus desejos; no segundo, robustece a tua coragem e livra-te de uma desgraçada paixão que acabará por consumir as tuas forças.» Meu amigo, isso é bem dito... é fácil de dizer!
E esse desgraçado, cuja vida se apaga minada por uma lenta e incurável doença, podes tu exigir dele que ponha fim aos seus tormentos com uma punhalada?, e o mal que lhe devora as forças não lhe tirará ao mesmo tempo a força de se libertar dela? "

Goethe, Werther
Não importa a época, o ser humano é igual e intemporal. Eu já pensei isto, e já no século XVIII o pensaram e o escreveram.
A humanidade persiste no sentir, no viver que toca o que de mais fundamental temos, aí somos todos iguais. Quando sentimos somos todos muito iguais, quem assim não for, não sente.
"Que figura de parvo eu tenho na sociedade quando me falam nela! Se tu visses quando me perguntam com gravidade se eu gosto dela! Gostar! Odeio esta palavra até à morte. Que homem será aquele de quem Carlota gostar, ao qual não encha ela todos os sentidos e todo o ser. Gostar! Ultimamente alguém me perguntou se eu gostava de Ossian!..."
          Goethe, Werther

Percebo perfeitamente, mas comigo é simpatizar.

10 agosto 2011

"(...) em um elefante há dois elefantes, um que aprende o que se lhe ensina e outro que persistirá em ignorar tudo, Como sabes tu isso, Descobri que sou tal qual elefante, uma parte de mim aprende, a outra ignora o que a outra parte aprendeu, e tanto mais vai ignorando quanto mais tempo vai vivendo, Não sou capaz de te seguir nesses jogos de palavras, Não sou eu quem joga com as palavras, são elas que jogam comigo "



José Saramago, A viagem do elefante
A mim acontece-me precisamente o mesmo, há uma parte que nunca aprende, e com as duas as palavras brincam. 

[o que é que aprendeste a ignorar que aprendeste?]

08 agosto 2011

Não sei que fazes,
 não sei que fazes ou por onde fazes,
sei que não me vês, não me falas, não me sabes.
Aí com os pés enfiados na água refrescas as ideias, em que eu não estou, nem nas novas, nem nas velhas.
E ontem o teu nome na minha boca, tantas, mas tantas vezes. Depois refresco as ideias e penso, sei, que eu não estou na tua, e não sei porque não te afasto duma vez, não te tiro de dentro duma vez. De alguma maneira, não importa como.

07 agosto 2011

"As vacas têm história, tornou o comandante a perguntar, sorrindo, Esta, sim, foram doze dias e doze noites nuns montes da galiza, com frio, e chuva, e gelo, e lama, e pedras como navalhas, e mato como unhas, e breves intervalos de descanso, e mais combates e investidas, e uivos, e mugidos, a história de uma vaca que se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as  cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, Ao fim de doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais. "

José Saramago, A viagem do elefante
Moral da história???  hummmm??
Isto fez-me pensar e pensar, e ainda não consegui descortinar uma conclusão lógica, uma qualquer conclusão moral que me agrade, ou pelo menos, que me responda à pergunta...com uma conclusão.

06 agosto 2011

"(...) a quem talvez não vejamos mais, ou talvez sim, porque a vida ri-se das previsões e põe palavras onde imaginámos silêncios, e súbitos regressos quando pensámos que não voltaríamos a encontrar-nos."

José Saramago, A viagem do Elefante

[e que palavras vão nesse silêncio? que previsões ou regressos?]

15 julho 2011

Mas não parece que esteja a chover... e o guarda chuva está a mais...

13 julho 2011

Voltei, tinhas desligado a luz e acendido duas velas, sorri com uma luz que se acendeu em mim, e tu perguntaste:
- Gostou?
Acho que não te respondi com palavras, mas percebeste-me, de certeza, na perfeição de estarmos juntos.
As palavras são tão imperfeitas.

12 julho 2011


OK vamos lá animar isto...
 Pode ser um destes para a mesa 5? que isto reuniões a manhã toda não está com nada... Pode ser? Ok obrigadinha.

08 julho 2011


Are you talking to me??

Sim, sim, tu.
Portaste-me mal, fechaste-te outra vez na casota onde eu não caibo, e para onde foges sem eu saber porquê. Ficas sozinho a roer o teu osso e deixas-me do lado de fora de ti.
Não gosto.
Não gosto da tua resposta tonta, nem de agradecimentos daquilo que não tem agradecimento. E também não é uma dádiva, é uma inevitabilidade sem qualquer alternativa aparente. Pelo menos para mim.

07 julho 2011

Acho que já até aqui falei neste assunto, mas depois de ler isto voltei a debruçar-me sobre ele, e continuo a gostar mais de adoro-te do que de amo-te, ainda que ache que os dois não se anulam. Aliás, dependendo da situação um encaixará melhor do que o outro, se quisermos realmente traduzir em palavras o que se sente em cada momento. Porque há uma palavra para cada momento, mesmo que essa palavra seja tantas vezes o silêncio dum olhar que diz tudo o que nenhum adoro-te ou amo-te consegue dizer.
Adorar alguém tem, para mim, algo de selvagem, de irreprimível, de louco, de desenfreado, basicamente implica sempre a pimenta que vem com a paixão, é, como dizia Camões, "Um não querer mais que bem querer" é algo que ainda nos mexe com os fusíveis, que nos faz duvidar das coisas mais certas, que nos surpreende.
O amo-te é a plenitude trazida pela tranquilidade de se amar, e de se saber amado, é forrado dum sentimento consistente, mas mais meigo, mais contínuo e de menos erupções emocionalmente destravadas.
Agora, acho que é possível adorar alguém que amamos, mas parece-me difícil adorar alguém por muito tempo, sem que se tenha também de dizer inevitavelmente amo-te. Mas, para mim, uma relação completa tem de, de vez em quando, ter essa loucura incontida da paixão, de adoração pura do outro, como se às vezes olhássemos para ele como se fosse a primeira vez, como se nunca o tivéssemos visto assim, como que surpreendidos por estar ali, connosco, admirados por podermos adorá-lo enquanto o amamos.
O amo-te sem a adoração, sem a raça do gostar com ganas, parece-me sempre um amor morninho, um (a)marasmo pacifico e tranquilo, confortável, bom, muito bom, mas a quem falta um choque enérgico de vez em quando para nos acordar para a vida, para a paixão pela vida.

05 julho 2011



Some things fall apart
Some things makes you hold
Some things that you find
Are beyond your control

I love you and you're beautiful
You write your own songs
What if the right part of leaving
Turned out to be wrong

If I could kiss you now
Oh, I'd kiss you now again and again
'Til I don't know where I began
And where you end

(...)
Moby (where you end)

Ahh poizé!! Deviam pensar que não servia para nada. Enganaram-se, e olhem que não é para todas, é só para algumas. As mães não querem sempre que os filhos sejam um exemplo? Ora, eu não desiludi a minha (espero é que a minha me desiluda a mim nisto...)!!

26 junho 2011

Quando chegamos à última página dum livro, viramos uma página de vida, vida que não vivemos, mas que fica a fazer parte de nós. Sem frases, sem vírgulas, sem pontos finais, mas segue connosco de alguma forma. Seja bom ou mau o livro, aliás, eu acho que meço a qualidade pelo tempo que demoro a despedir-me dele, fecha-se o livro mas parece que continuamos a flutuar num mundo que não é nosso, que nos obriga a virarmo-nos para dentro e para nós. Este ensinou-me, ou confirmou, que o medo está dentro de nós, nunca vem do exterior. Só o eliminamos quando nos confrontamos connosco, e com o que tememos em nós, não nos outros. Eu descobri que tenho medo de me descobrir. Talvez por isso ande sucessivamente a testar limites que não sei onde ter.

O mais importante, no que diz respeito à vida por estas bandas, é o facto de as pessoas se deixarem absorver pelas coisas.
- Absorver pelas coisas? Que quer isso dizer?
- Acontece o mesmo quando estás na floresta. Tornas-te parte da floresta. Quando estás à chuva, tornas-te parte da chuva. Quando é manhã, tornas-te parte da manhã. Quando estás comigo, tornas-te parte de mim.
Haruki Murakami, Kafka à Beira Mar