Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

25 janeiro 2015



Afinal tens razão - estragaste-me a vida. Só não tens a razão que pensas, porque não me estragaste a vida que tinha, essa só eu e quem fazia parte dela a poderia estragar. Não padeço dessa falta de inteligência que comodamente inverte o sentido entre causa e consequência. Não sofro dessa, mas sofro doutras, e como sofro por elas... Estragaste-me pela vida que vi, a vida que me mostraste, que me deste, que vivemos. Estragaste-me, e agora não há vida que me encaixe, que me sirva, que me reste, porque tudo me sobra. Sobra-me espaço, sobra-me vazio. O Lobo Antunes diz que as pessoas são como casas, nem todos os quartos estão habitados. Eu tinha quartos que não sabia até os escancarares, e juntos os habitarmos. Entrámos, despojámo-nos, abrimos janelas com vistas conversadas de mundo, daquele que se via fora das janelas e janelas adentro, tivemos o prazer da pele ao sol, dos banhos de luar quente, do silêncio que era só paz, dos beijos que encostavam as almas. Agora, tudo desabitado - a lua fugiu do céu, o sol veste-se de luto e o silêncio enche-se de vazio por ser. Bateste a porta por fora, carregas as chaves num bolso esquecido da alma que emprestaste, ou que devolveste à morte que sobrevive. Não, não tens a razão que pensas, não me estragaste a vida, apenas aumentaste a extensão de vazio que ocupa espaço. Estragaste-me a mim, desarrumaste-me uma casa que não sabia ter, trancaste o sol num roupeiro e arrumaste a lua numa gaveta sem estrelas, embrulhada num papel escrito na língua do silêncio - desabitaste-me. Desabitada, estragada na arquitectura que não sei viver, sobrevivo, sobreviverei, como sempre. Só me soçobra espaço ocupado de vazio. Sobrevivida ao vazio -um dia quiçá -, sairei mais bem apetrechada se alguém me entrar em casa, me invada sem aviso, de chave mestra nas mãos feitas para só tratar bem, com um sol desempoeirado pendurado em cada gesto quente, um luar em cada olhar que me banhe, e cheio de beijos de alma que me habitem. E que fique, e que eu queira que ele fique tanto ou mais do que ele queira ficar. Que me habite sem hábito de certezas, na certeza que esse querer não é um hábito. Talvez, talvez, possas não ter razão nenhuma, afinal.
Cores do outono tão minhas todo o ano...
Sons do Outono debaixo dos pés - há tanto que não os ouvia -, a acordarem o Inverno que mora em nós e a infância que não queremos deixar adormecer e ainda não esquecemos. Como os dias frios com sol.

Bom dia.
E o sono que teima em não aparecer.
E as memórias em desaparecer.
Vamos fechar-lhe os olhos e fingir que dormem...
Fingir...

Boa Noite

24 janeiro 2015

(Foto @thislittlecorner)
Modo fim‑de‑semana. Pijama, meias grossas, trincar alguma coisa na cozinha, deixar-me ficar a beber o chocolate quente... A muito custo decidir que temos de nos arranjar e deixar o sol ver-nos. Mas antes que alguém nos veja falta um banho, quente como se quer... Depois segue-se um café "à pinha", esperando, que tal como na foto (foi a legenda que me ocorreu, que querem... Tontices...), não esteja apinhado de gente e se reduza ao essencial. Café, silêncio, boa companhia, sol, e uma pinha para atirar à pinha de alguém nao desejado que mexa com estes essenciais...
Reduzirmo-nos ao essencial é sempre coisa traiçoeira... Saberemos avaliar bem o que é essencial para nós? E o nosso essencial? A nossa essência...sabemos? Saberemos? Será?

Bom dia.



Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
...
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.

Eduardo Galeano

[... que não fique dentro por lhe trancarem as portas, mas por, de porta escancarada, gostar de ficar dentro, estar dentro, ser dentro.
ser dentro em cada canto guardado  dessa casa, na voz do segredo quente sussurrado, que é fantasma para quem é de fora.
quem é de dentro é da casa.]

Boa Noite



23 janeiro 2015


"O que é determinante aqui é que nenhuma das opções se destaca isoladamente como uma vencedora a milhas de distância. Muito bem, que fazem então as pessoas que se encontram perante tais opções? Possivelmente, congelam. São reduzidas a um imobilismo em que não conseguem decidir no estrito domínio da razão. Podemos no entanto isolar dois tipos de pessoa. Quem não queira ou seja capaz de traçar cenários na sua cabeça, vivendo o imediato e pouco além, talvez se lance por ímpeto para uma delas. Quem queira e consiga traçar cenários, vivendo o imediato e o depois disso, poderá ter dificuldade acrescida em decidir. Não decidindo, acontece aquilo que muitos dizem: a vida decide por ti. Em rigor, a vida não é uma entidade viva, não é uma coisa que pense e actue sozinha, sabemo-lo todos. O que isso significa é que se ficamos imóveis perante duas (ou mais) opções sobre as quais não tomamos uma decisão, somos ultrapassados pelos eventos. Tudo aquilo que continua a acontecer à nossa volta enquanto estamos a pesar prós e contras, vai acontecendo, e as variáveis alteram-se, e as nossas opções podem muito bem ser-nos retiradas no processo, e quando chegamos a uma conclusão, abrimos a gaveta e a gaveta está vazia. É isso que significa a vida decidir por nós.
(...)
Há uma reflexão ligeira sobre a escolha, sobre como a todos é fácil optar entre coisas muito desequilibradas, e sobre como se torna tão complexo decidir quando o plano entre opções é menos inclinado e custa isolar uma em detrimento da outra. E sobre como isso diz, verdadeiramente, algo sobre nós. Porque se num plano muito inclinado a decisão é simples, num plano pouco inclinado a luta pessoal é muito mais complexa, e jogamos todo um conjunto de valores que nos definem, e nem sempre fazemos aquilo que nos dará a maior satisfação mas podemos ver-nos empurrados para aquilo que julgamos ser um dever, independentemente de ser permanente ou transitório. Numa escolha pode residir um profundo paradoxo. Uma escolha pode nem sequer ser uma escolha, pode ser uma imposição, uma situação de necessidade, de sobrevivência, ou uma ultrapassagem. Numa escolha de plano pouco inclinado provavelmente nem existem soluções win/win, é muito natural que sejam sempre lose/lose (resisti ao duplo ‘oo’, um lapso meu muito frequente, ando sempre a pensar em loose), particularmente se a demora ou a incapacidade de decidir fizer a vida passar-nos por cima dado o nosso imobilismo. É certo, quero crer, que nenhum imobilismo dura para sempre. Ou as opções desaparecem, e com elas o imobilismo – o que sempre deixará um lamento e amargura, excepto se o sujeito da experiência nunca tiver verdadeiramente desejado optar, o que também dirá muito sobre ele, e não creio que de bom -, ou inevitavelmente uma das opções – das originais ou novas – prevalecerá. O imobilismo toda uma vida é insustentável porquanto a dado momento o sofrimento de ficar imóvel torna-se superior ao sofrimento de optar. E aí, sempre se opta. Mesmo que tarde."

Sobre as curvas das/nas escolhas, vale a pena ler, aqui, o geógrafo João.

Ficou-me esta frase "sempre deixará um lamento e amargura, excepto se o sujeito da experiência nunca tiver verdadeiramente desejado optar, o que também dirá muito sobre ele" - e pus-me a pensar... e eu, fiz as minhas escolhas? ou deixei a vida decidir? pergunto-me, e penso que sempre decidi não abandonar o que queria, e de todas as vezes decidi não ir atrás quando me abandonavam. decisões minhas. aparentemente. olho, penso e parece-me que decidi, que fiz as minhas escolhas. mas sempre deixei que voltassem... e isso não é imobilismo? nunca houve uma acção do meu lado, nem de abandonar - porque não tenho por feitio abandonar aquilo que quero, e luto por isso como posso, e segundo os princípios que tenho, mas só assim, não de qualquer maneira - nem de ir atrás, de insistir,  de tentar vencer pelo cansaço, de tentar interferir, de tentar convencer a ficar, ou ao que fosse. Mas sempre estive onde me deixaram quando voltavam. Eu continuava lá, no mesmo sitio, a querer a mesma coisa, que não era aquela que se calhar - bom, de certeza, na verdade - me queriam dar quando me procuravam. Escolher estar no mesmo sítio, da mesma forma, foi uma escolha?  ou foi apenas reconhecer que não conseguia escolher outra coisa, que não conseguia escolher? e deixava que alguém resolvesse voltar ou ir embora, retirando-me a mim de qualquer decisão? 
Na verdade eu nunca quis que a decisão fosse minha, porque não estava nas minhas mãos decidir, eu sabia o que queria e como queria, mas não dependia de mim. Então esperei, nunca provoquei situações limite, nem encostei ninguém à parede (bom, para decidir o que fosse, bem entendido, já noutras situações, encostei e que bem decidido que isso era... bom, adiante que não são coisas para me lembrar agora... ai) para decidir sob pressão uma coisa que acho que tem de se chegar a uma resposta pelos seus pés e tempo próprio. As decisões que tive de tomar na minha vida, tomei-as antes de tudo isto, no meu tempo ao meu ritmo, não as entreguei a ninguém porque eram escolha minha, afectavam a minha vida, o que queria dela e o que não queria mais nela, e estavam nas minhas mãos decidir. Escolhi, ou melhor reconheci a escolha que me estava já feita por dentro, e decidi. Depois não, eu só podia decidir entre virar costas e abandonar - indo contra o que queria e quem queria e gostava -, ou esperar que quem tinha a decisão nas mãos decidisse, ainda que também a minha vida saísse afectada e decidida. De cada vez que decidiu aceitei a decisão, fiquei no meu canto, e deixei a vida correr. Não decidi nada, ou decidi que não queria fazer nada. Apenas ficar onde estava a roer razões e porquês sem resposta. Não me mexi, não corri, não fugi, não fui atrás. Fiquei-me. E deixei-me ficar de cada vez que voltaram. Decidi sempre deixá-lo decidir. E agora não sei se isto é imobilismo. Deixou-me a pensar isto.
(é por estas coisas que me dizem que eu penso demais... se calhar têm razão)
(foto de Jens-Wilhelm Janzen, roubada aqui)

Está decidido. Vou voltar ao Yoga... já andava a pensar nisso e vou voltar; preciso, sinto os ombros pendurados nas orelhas de tanta tensão, preciso de me mexer, esticar, "elasticar"... 
só ainda não sei para onde vou... mas vou. Tenho de mudar algumas coisas na minha vida, começar a tratar do corpo que anda tão esquecido é um bom ponto de partida, isso e ver se consigo ganhar uns kilitos... temos de começar por algum lado e gosto do yoga, faz-nos mexer e não andamos aos saltos com o coração a saltar-nos pela boca e os bofes de fora... not my type...
Bom Dia
Fui agora, por acaso, até aos posts de final de Junho de 2012 e é incrível... Tudo. Eu lembrar-me da cena que deu origem a certo post, que acabava com alguém a dizer "tenho de me ir embora daqui", como aliás depois está escarrapachado nos comentários ao post. Lembro-me até exactamente do toque no braço com a ponta dos dedos que me fez voltar a lembrar que o manto que tenho em cima do esqueleto é pele, e que a pele sente. É suposto sentir. Lembro-me de ouvir que tinhas de ir embora dali, lembro-me que não te disse para não ires, como nunca to disse, como nunca pedi para ficares. Há coisas que não se pedem porque não devem ser feitas para fazer a vontade a alguém, têm de ser vontade, sim, mas apenas do próprio, não são próprias para se fazerem concedendo, ou cedendo a pedidos de ninguém. Leio, e lembro-me das brincadeiras, de como tudo se tornava uma brincadeira em que acabávamos a rirmo-nos juntos, e tantas vezes agarrados, colados, nariz com nariz, respiração a passo, silêncio a par. Lembro-me dos nossos nomes parvos, de te chamar tanto mula sem cabeça como coisa boa, e de tu me chamares biscoito. Lembro-me de passares no café onde tínhamos ido tomar café num domingo à  tarde, de te ver à  distância passar de carro, quando uns dias antes estavas sentado comigo na mesa, com um café à frente e muita conversa no meio. Depois apanhámos a estrada impedida, um cortejo ou uma procissão, disso não me lembro, e fomos um atrás do outro a mandar mensagens enquanto os carros não podiam andar.  Lembro-me de me falares dessa tarde muitas vezes, de me dizeres que tinhas gostado tanto...Lembro-me de me adorares, e não sei como isso é possível, como poderá ser possível lembrar-me disso, que nunca foi... Lembro-me de tudo. Como? Ainda sei as tuas mãos de cor. Porquê? Ainda sinto o calor dos nossos beijos. Para quê? 

Deixa-me soltas as mãos
e o coração, deixa-me livre!
Deixa que meus dedos corram
pelos caminhos do teu corpo.
A paixão -sangue, fogo, beijos-
incendeia-me a labaredas trémulas.
Ai, tu não sabes o que é isto!
É a tempestade de meus sentidos
subjugando a selva sensível
de meus nervos.
É a carne que grita com suas
ardentes línguas!
É o incêndio!
E estás aqui, mulher,
como uma madeira intacta,
agora que voa toda minha
vida feito cinzas
para teu corpo cheio, como
a noite, de astros!
Deixa-me livre as mãos
e o coração, deixa-me livre!
Eu só te desejo, eu só te desejo!
Não é amor, é desejo que se
esgota e se extingue,
é precipitação de fúrias,
proximidade do impossível,
porém tu estás,
estás para dar-me tudo,
e para dar-me o que tens para
à terra vieste
como eu para conter-te,
e desejar-te,
e receber-te!

Pablo Neruda

[...o desejo. vai vem e esgota-se. quando é só desejo.
quando o desejo anda a par do amor, e do desejo de amar e ser amado, quando se ama amar com desejo, é amor embrulhado em desejo que não se esgota. enquanto não morrer o amor. depois morre tudo. distancia-se a proximidade do impossível para se aproximar a distância do possível. ]

Boa Noite

22 janeiro 2015


"Nunca tive um sítio a que chamasse casa, talvez por isso chamasse casa a tantos.
(...)
Só percebi mais tarde que casa é um lugar que se faz com as mãos. Que só chamas casa ao que abre os braços para te receber. Que só chamas casa ao que te faz sentir em casa do outro lado do mundo. Que casa é um lugar no peito de alguém. Que estar em casa é deitar a cabeça no teu colo. Tu a tua no meu. Que essa é a verdadeira casa. Que tudo o resto interessa pouco. Que a geografia, essa, não interessa nada."

Roubado ao Menino

[... casa. o que é aquilo a que chamamos casa? casa é onde estamos bem, onde somos nós sem medo de sermos o que somos, onde nos sentimos protegidos, onde nos refugiamos e de que não nos escondemos, é o sítio para onde fugimos e de que nunca escapamos. Não é onde precisam de nós, mas onde não sendo precisos, somos queridos, somos parte, nos sentimos parte e, ao mesmo tempo, todo.
Casa é uma noção independente de coordenadas geográficas.
Não é onde temos um lugar para nós - é onde nós somos o lugar, e o lugar somos nós. Sozinhos ou em partilha sem distinção de partes.
Sentimo-nos casa em casa. E casa não é um sítio com geografia, é o sítio onde sentimos poder aninhar a alma sem solidão.
...às vezes casa é uma pessoa que, em qualquer sítio, nos faz chegar a nós e não nos faltarmos.
e sentirmos que não nos falta...]

(Foto de Sophia Hsin)

Agora é o que eu preciso. 
O café arranjo não tarda muito.
O resto o tempo dirá, agora tenho mesmo é de ir ao banho e trincar qualquer coisa 
(depois do banho, entenda-se... se bem que não era mal pensado, não... Eheheh)

Bom Dia!

Mulher feita (ou quase) a assustar os medos. Alguns.
Fazendo o caminho certo hei-de chegar aonde chamamos casa. É fazê-lo. Sozinha.
Estrada deserta. Música. Sem sono. Ainda.

21 janeiro 2015


Vive-se sozinho, meio acordado, numa espécie de torpor. E no interior das pálpebras fazemos aparecer o rosto amado.
Gostaríamos que estivesse aqui, ao alcance das palavras que reinventamos para lhe sussurrar, ao alcance da mão e da boca, ao alcance dos sentidos e do desejo imediato.
Um ardor estranho sobre a pele e nos olhos impedem-me de continuar vivo. Morro sem pressa. Começo por cegar para conservar o teu sorriso (...)

Al Berto

[cada vez gosto mais deste senhor.. sombrio, é certo. mas intenso. denso. profundo de sentidos e significâncias. gosto. ofereci o livro e agora, de vez em quando, vão chovendo frases que me transcrevem, e eu convenço-me de que tenho de o comprar para mo oferecer. para ler as frases todas, não só as que retinem na cabeça de outro alguém que de manhã me deixa mensagem só a dizer que esta ou aquela frase não o larga. e eu oiço-o, leio as frases, e leio-as como quem reconhece uma vida que já teve, que já sentiu, que já teve aquelas frases a correrem-se no sangue quente de um sorriso que se vive. daquele sorriso que tenho de cegar para conservar. para nada me distrair, para nada mo levar. é que uma pessoa pode-se desapaixonar de repente, dizem-me. Apaixona-se, está apaixonada - muito, muito, não consegue esquecer nem viver sem - e depois, um mês, dois, depois já não está apaixonada por ninguém. por nada. será que se ouvissem estas frases as reconheciam? ou sempre foram cegos e não conservaram nada. de ninguém?
...e isso, isso, desapaixona-me também... a falta de densidade, de intensidade, da profundidade do que se sente, e a leveza do que se diz, sem nada se sentir, nem de leve... ]

20 janeiro 2015


Definitivamente preciso dum gajo, acabei de ficar sem modem ou o raio, achei que era o transformador, lá fui tentar enganar o bicho mas a entrada era diferente. Experimentei um modem antigo ligou as luzinhas todas e tudo, mas net ou televisão nicles... Lá abanei o outro, chamei-lhe uns impropérios, voltei a ligar et voilá... Deu. Estava só armado em parvo. E fiquei a pensar que realmente há coisas para que um gajo faz falta, se bem que estas coisas sempre fui eu mesma a fazer... Mas lembrei-me que tenho uns cortinados para pendurar e do berbequim fujo, penduro quadros, troco fios, faço quase tudo, desde que não meta aquele bicho ao barulho... Tenho medo dele, não lhe pego. Então lembrei-me disto http://maridoaodomicilio.com/... Pode ser que apanhe uma campanha, ou assim, com direito a bónus, sabe-se lá... Pode dar jeito... É que há coisas para que um gajo faz falta, e para pilotar o berbequim e abrir frascos teimosos, fazem alguma falta... Será que também fazem massagens ou só se dedicam a canalizações e Electricidade?... Pois sim, tenho de explorar melhor o site, 'tá visto.
(e arranjar uma foto a condizer com a falta de juízo do post não foi fácil... Há coisas para que não tenho mesmo jeito para procurar... Irra!! Só com ajuda mesmo...)

E hoje já chega de disparates... 
Boa Noite

... Apetece-me voltar aqui.
 Mesmo que aqui não seja este sítio, mas um lugar em mim, que de perdido não se perde. 
Apetece-me sair daqui e voltar ali, aquela paz, aquela paisagem de dentro, aquela companhia metade silêncio, metade letras. Do longe que está perto, do doce que aquece. 
A doçura que parece que me fugiu, que mesmo quando a tento dar se esfuma no ar, 
foge-me sem a chegar a agarrar para dar a quem ma merece.
Às vezes parece que nem me lembro de ter sido doce.
E do que me lembro nunca fui tanto eu.
Tenho de me pirar daqui.
(Só dispenso a tempestade no caminho, vá)
...e comer-te em cima da mesa,
da cadeira e/ou do sofá, o que calhar se se conseguir passar do hall entrada... 
e dar tempo de poisar os sacos.
(isto é que é programa, hein?? 
e pode-se alterar a ordem dos factores que o resultado resulta sempre...
até dava gosto ir a correr para casa... um dia destes apanho-me a ir a correr para casa assim... nunca se sabe, temos de ser optimistas, dizem-me...
e agora vou a correr, vou, mas só porque é tarde mesmo.)
ehehehhehe
Hoje apeteceu-me a varanda outra vez, mesmo com frio, enrolada na manta esburacada. O balanço do dia, o peso dos pensamentos que me correram no dia. Uma coisa boa, uma notícia que acalenta e me deu alguma esperança, e um funeral que me trouxe memórias de infância. Uma velhota que nunca foi nova aos meus olhos, que me faz recordar os brioches quentes para pequeno almoço, aquecidos no forno, dentro duma caixa de metal dourado com desenhos a cores. O açúcar por cima, meio derretido, o doce que aquece a boca e me faz um sorriso antigo. Ainda hoje. A sala era grande, as portas da varanda corrida enormes para o tamanho dos meus olhos. Lá fora, em baixo, o pátio onde corríamos e saltávamos. A casa do caseiro mais abaixo, onde uma vez um cão preso numa corrente me rasgou a roupa quase nova. Tinham-me avisado, eu achava que ele ia perceber que eu ia fazer-lhe festas para se esquecer da corrente. Achei mal... Os dentes não chegaram à carne, e eu não cheguei a ter medo, acho que percebi no fim que tinha mais medo de mim que eu dele. E agora que penso nisso talvez fosse uma lição para a vida que nunca aprendi... Quem tem medo é que ataca e morde. E o cão teve mais medo de mim que eu dele, mas quem ficou sem roupa nova fui eu, e ele deve ter continuado com o medo dele. Também me lembro do quarto com várias camas onde dormíamos, com soalho de tábuas largas corridas, e umas janelas antigas que sobem para abrir, e se sustentam num trinco. Janela aberta que alguém achou por bem fechar, um ano mais nova que eu, ficou com a mão entalada debaixo do peso da janela que não conseguiu segurar. Aquele ano a mais deu-me para achar que tinha de a salvar, e não vou de modas, consigo levantar a janela o suficiente para a mão dela se soltar e trocar pela minha, pela minha falta de inteligência... A janela era pesada, disso lembro-me e de lhe pedir para ir chamar alguém de juízo, enquanto a miúda chorava... Lembro-me de depois toda a gente me gabar o não chorar, e o ter tirado a outra mão mais pequenina de debaixo da janela... E hoje dei por mim a pensar que, se calhar, esta coisa de não chorar onde os outros vêem já é coisa do tempo das janelas antigas... e de me entalar também.
Cá fora, logo à porta de casa, havia um castanheiro enorme a dar as boas vindas com os ouriços no chão para fazer asneiras, depois um corredor enorme de mata a cheirar a eucalipto. Se fechar os olhos acho que ainda consigo cheirar aquele corredor, com um tanque a fazer de piscina de meninas a meio. No fim do caminho o começo duma vista deslumbrante, o Douro mesmo aos pés, um miradouro que adorava revisitar. E os brioches também. Doces, quentes.
Ao tempo que não me lembrava de nada disto, e de estar a jogar ao jogo das palavras, nós as duas e um tio, e era a minha vez, animais começados pela letra "L" e, já com umas rodadas de animais contadas, estava difícil. Alguém apareceu, e o comentário do meu tio para o senhor intruso foi "o que ele quer são lulas"... E eu safei-me. Dessa vez. Ele safou-me, também dessa vez.
(e está frio, está, sou uma doida, pois sim)

Boa noite.

19 janeiro 2015

(Foto de Máté)

Há alturas em que as palavras deixam de ser ponte e passam a ser casa.


As mãos. Quietas, sobressaltaram-me por dentro, sem poder assustar a calma por fora. Reconheci as mãos que tantas vezes vi nos extremos daquele olhar profundo de dor de alma e corpo, e intacta de dignidade madura, de fim de vida. Vi essas mãos hoje, outra vez, ao meu lado na mesa e não pude fugir de as lembrar, as que já não estão e agora se repetem. E agora aqui as deixo e ao sobressalto que me apertou dentro, apertando lágrimas sem consciência de as prender mas que se soltam quando as queremos largar. Soltam-se devagar, quase quietas, lambem a pele sem cair. Chorar, daquele chorar que limpa, que alivia, que nos soluça a alma, e depois de nos abanar e esgotar nos deixa mais leves, mais cheios dum vazio por preencher em vez dum vazio que nos preenche. Com esse ainda não fui abençoada. Mesmo quando vejo ainda, agora, na memória aquelas mãos. Quietas, inchadas, doentes por dentro. Eu só não estou inchada e a doença que trago dentro é só diferente. Nenhuma tem cura. Só se pede que se aguentem.

Pernoita-me.
Perdia-me.
Agora-me.
Sempre.

[só as palavras me escutam. só elas me falam]

Boa Noite