Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

29 janeiro 2015





Quando uma pessoa não consegue dormir, não arranja posição, dá voltas e revoltas, e o conforto lhe foge de todas as maneiras, dá por si sem querer a lembrar-se das vezes sem fim que teve nas costas o calor dum peito que era o toque do conforto, da intimidade, do enrolar os corpos e as almas se misturar em. E, de repente, percebe que o conforto que a alma foi à procura sem querer nas sensações vivas dessas memórias adormecidas, dão uma saudade desconfortável do que talvez não tenha existido assim para toda a gente. Apenas para mim, apenas nas minhas costas, apenas na imaginação da minha alma. Mas o desconfortável, percebo, não é saber isso, mas sim descobrir saudades onde já não as quero. Sentir, ainda, o desconforto do nunca mais para sempre.
Hoje, de tão exausta, não me lembrarei de nada; e espero sonhar com o futuro, para o futuro. Onde partilharei memórias hoje ainda por fazer, memórias partilhadas ao adormecer no conforto dum abraço, a duas peles, que nos veste a alma. Aos dois.

Boa Noite

Uma fachada antiga cheia de janelas a espreitar entre os toldos.
Gosto.
É preciso abrir janelas, arejar, deixar o sol entrar.

Bom Dia




Cabeça quase encostada ao vidro, pelos olhos passa o mundo a correr, mas deixo de o ver, o meu olhar faz ricochete no vidro a fazer-se de espelho, devolve-me o olhar - vejo-me. Algo em mim mudou, não sei precisar, não consigo explicar, mas o mundo lá fora passa a correr e eu, no espelho disfarçado de vidro,vejo uma mulher. Quase não me reconheço, nao sei do paradeiro da miúda que me emprestava o cartão de visita, e pergunto-me por ela. Vejo-me mulher no vidro que vira espelho. Nunca cheguei a ser bonita, mas chegaste a fazer-mo sentir. Pouca gente o conseguiu, muito pouca. E só nessas alturas desejei mesmo sê-lo, para que não te enganasses ao enganar-me. Para que estivesses certo, se era isso que gostarias de ver, que gostavas de ver. E eu gostava que gostasses de ver, e de to ver no olhar e ler na ponta dos dedos, na temperatura da pele, e na falta de espaço entre eu e tu. Esse espaço que agora sobra e não é nada, sendo o mundo todo que corre desenfreado na noite lá fora, e o vidro a fazer-se espelho que não engana.
Às vezes o espaço da distância parece coisa que a vista alcança mas ao olhar não chega. Há olhares que fazem ricochete. E cá dentro não há espaço. Mesmo que tudo esteja vazio.

Boa noite

28 janeiro 2015

...sim, é isto...
%&!#?%$#$&%?... caramba já chegava, não?
 o dia ontem esboçou-me um sorriso....
...e pimbas o hoje já me lembrou que os dias sorrirem-me 
é assim coisa para não se tornar um hábito... irra!
Karma, estimo que te fod@s! 
(porque a mim estás farto de me lixar...)
Pronto era isto.

Bom Dia aos restantes mortais mais abençoados!


Hoje ouvi uma frase que me explica e que explica tanta coisa nos meus últimos anos. Já aqui disse e repeti essa mesma ideia, mas ouvi-lo fez-me bem, como se alguém percebesse o que tento dizer e ninguém que me conhece parece entender quando o digo. Como se não encaixasse, como se não encaixasse no que entendem de mim - e eu entendo que deveria entender de mim, mas entendo porque não o consigo entender assim... Foi a propósito do filme sobre a vida de Stephen Hawking, baseado no Iivro que a sua primeira mulher escreveu, a quem perguntavam como é que ela aguentou os tempos em que tinha os filhos pequenos, o marido já com um grau avançado da doença e ainda a fazer o seu doutoramento sobre poesia medieval espanhola (acho que era isto, mas não interessa em quê, eu fiquei a pensar que no meio daquilo era o escape dela), e ela respondeu simplesmente: "porque não tinha alternativa! Que havia de fazer? Matar-me? E o que seria dos meus filhos? e do meu marido? Não podia. Não tinha alternativa".
E é isto. Não conceber alternativa. Eu também não conseguia conceber, a alternativa era matar um eu que eu gostava, que me fazia - que me deixava - ser quem eu gosto de ser. E era sempre matar uma parte de mim com as minhas próprias mãos. Não conseguia conceber essa alternativa, logo não era alternativa. Não havia hipótese de ser considerada alternativa. A única coisa possível era aguentar como podia e me permitia, de acordo com o que sou, com o que penso, e sob a luz dos princípios que me fazem. Não magoar ninguém, não obrigar ninguém a nada, não provocar situações complicadas, mas fazer entender o que sentia e como sentia. Deixava-me no meu canto e aguentava o que houvesse para aguentar, enquanto eu quisesse aguentar, enquanto não concebesse outra alternativa. E se concebesse não era ameaça, não era jogo, não era estratégia, era porque genuinamente tinha, e sentia, uma alternativa àquele aguentar. Como agora não tenho. Agora é só outro aguentar, aguentar coisas diferentes, outras, e mais. Infelizmente mais, e tristes, e complicadas. Mas alternativa não se avista. Atirar-me da ponte não posso - a noção de deixar sobrecarregadissimo alguém quem gosto muito e não merece, só porque não me apetece mais aguentar, é pesada demais para o egoísmo de que sofro. Então não há alternativa senão aguentar. O que me lembra uma frase que alguém me disse há dias, quando perguntei a meia dúzia de pessoas que me conhecem de formas e intensidades diferentes como me descreveriam (as características comuns que atravessam as frases de quem nunca me viu senão pelas letras, e de quem muito me viu, são engraçadas...Mas isso agora não interessa para aqui, pode ser que dê um post um dia) e que dizia
"tu és uma idealista estóica que precisa que lhe ensinem a ser feliz. estoicismo é, acima de tudo, a capacidade de aguentar. de aguentar calado, geralmente. tu aguentas mais calada do que parece. isso do blá blá e da resmunguice é fachada. as coisas a sério tu aguenta-las calada. depois mandas vir é com tudo o resto."
E eu fiquei a pensar nisto por várias razões. Primeiro, nunca me tinha passado pela cabeça que alguém me pudesse tomar por estóica. Depois acho que não me calo muito, e escrever, escrevo até demais de mim, e finalmente porque foi uma coisa que eu ouvi muitas vezes acerca de outra pessoa: que era estoico, que aguentava, e que aguentava cada vez mais, tantas vezes calado, sem se queixar. No fundo, que era obrigado a aguentar. Mas não era. Havia alternativa, e estava nas mãos dele. Acho que ele também nunca concebeu a alternativa. Como eu nunca consegui conceber a alternativa de matar a parte de mim onde ele estava. Onde eu estava com ele, onde estavam estas e outras conversas, onde estava muito do tudo que eu consigo conceber como o todo.
O que é que eu podia fazer? Aguentar.

(o que me lembra uma resposta minha a uma pergunta - "enquanto tu quiseres e eu aguentar." Mas também é daquelas coisas que só eu me lembro, e estou sentada agora precisamente no sítio em que disse isto, só não tenho a lareira à frente, e falta-me o olhar que recebi depois da frase)

Boa Noite

27 janeiro 2015


Gosto de fotografia, gosto principalmente a preto e branco, e talvez por isto: as fotografias com cor enganam mais porque as tomamos pelo real. Engano, umas vezes para melhor, outras para pior. Neste caso acima para pior. O céu, como os meus olhos vêem a realidade, está em tons de rosa, vários tons, entre o calor e a doçura, entre o sorriso cândido e o atrevimento malandro, quente. E aqui não se vê nada disso, mas eu vejo. Mas eu vejo tanta coisa que não há, que nunca houve... A preto e branco sabemos sempre que a realidade tem mais tons, mais cor, mais ruído; é talvez mais teatral, mas enquanto representação parece-me mais verdadeira por assumir completamente o não querer reproduzir de forma fidedigna o que os olhos vêem, mas uma realidade própria. E eu prefiro. As realidades próprias. Sabendo que o são. Sem pretensões a uma verdade única, a uma realidade que nunca engana. Como se cada um não tivesse a sua própria paleta de cores nos olhos.

Bom dia

...A lua para companhia do último cigarro.
... e o frio que se embrulha em nós difíceis de desfazer.

BoaNoite

"Deixa-me ficar só assim, vamos ficar só assim, e o teu corpo ajeitava-se naquele espaço, encostado ao meu, sabíamos que existia mundo lá fora mas não queríamos saber dele, e na verdade, alheio a nós, girava como sempre. E porque não? O nosso sofá tinha rodas, levava-nos para todos os sítios, e eu acho que tu só querias carinho, naquele momento só querias as minhas mãos a dizer-te que tudo estaria bem. Sabias que eu falava muito com as mãos, pelos desenhos que elas faziam em ti. Deixa-me ficar só assim, aninhada em ti, e às vezes conseguias, outras não. Às vezes era só uma intenção, mas cedo se cedia ao desejo, que não se guarda muito tempo uma fechadura que tem chave certeira. E se isto faz parte de nós, se nos é próprio, resiste, aguenta a passagem do tempo, da água, do vento, de todas as coisas que nos orbitam."


Palavras a falar por mim...
...deixa-me ficar só assim... antes de se ceder ao desejo, ou depois, antes do cansaço ceder ao sono, em descanso, naquela que foi a minha melhor almofada de sempre. só não para sempre.

26 janeiro 2015

... E vontade de jantar?.... Nenhuma... Nicles.

(já a lua estaria boa para se comer...)
Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.

António Franco Alexandre
in Duende

[...coração demente e dormente... Onde andas tu? que não te sinto? Os lugares onde te deixei estão vazios.]
... quando esta música começa e estamos precisamente a entrar na via rápida, com o sol a bater de frente e a aquecer a vista por trás dos óculos de sol, algo em nós se alvoroça para se acabar num sorriso que nos faz crer que a música tem razão, ou queremos - e queremos tanto, tanto - acreditar que sim. Quase sem pensar, como resposta automática, carregamos no pedal, não por pressa de chegar, mas com pressa de sentir a pressa de alguma coisa, duma urgência que nos queima os lábios como um sorriso que já não sabíamos ter há tempos demais. Pedal a fundo, a velocidade na ponta dos pés, e logo um engraçadinho (não cheguei a ver se era...mas vamos crer que sim, que tem mais piada...) que se pica com a nossa urgência, também tem pressa de alguma coisa, ou não, sei lá... ultrapassou-me, e depois, eu já quase a duzentos à hora, passei-o de novo, pouco depois ele acabou por cortar na saída seguinte (ohhhh....)... e eu continuei até onde a estrada deixava, a velocidades tão pouco recomendadas... lembrei-me quando há dias me montei em 325 cavalos, deram-me essa oportunidade, sabem que adoro conduzir e que gosto da adrenalina da velocidade, fizeram-me o gosto e sei que tiveram gosto nisso. E aí, bom, aí devo dizer que se o meu carro demora um bocadinho a chegar aos 200, aquele chega lá só enquanto pensamos nisso... o que dá aquela sensação arrepiante das costas se colarem ao banco e o sorriso à pele que o sol hoje resolveu aquecer... 
(nunca poderei ter um carro daqueles, matava-me num instante...o que me parece uma boa desculpa para não o comprar... o facto do preço ter dígitos a mais para mim, não tem nadinha a ver...eheheh)
... a música dura uns minutos, e a nós apetece-nos tanto acreditar que sim, que estes dias acabaram, enquanto o ritmo e a sonoridade ainda se passeia pelos ossos e nos mastiga a alma devagar nesse sabor doce, mas a música dura só uns minutos... e seja quanto for, nesses minutos esteve-se bem, houve uma espécie de felicidade que nos invadiu, e se se pode aproveitar mesmo que só uns minutos, e não prejudica ninguém, tem de se aproveitar até ao tutano, mesmo que acabe logo a seguir. Os momentos que não se aproveitam não existem, há que aproveitar o que nos faz sentir bem. Eu sempre fui assim, ainda que tenha tantos momentos sombrios, também esses os aproveito à minha maneira, tantas vezes também até ao tutano - é um problema de intensidades. Para os dois lados. E hoje, hoje o dia começou bem... mesmo que possa acabar mal, ou que amanhã comece pessimamente, não sei. Agora não me interessa, só me interessa agora  o agora. Hoje o sol já me entrou nos ossos, mesmo que (só) por uns minutos.

Bom Dia!
(The Lovers, Rene Magritte)

"Não preciso de te ver, encontro-te os passos pela língua, descubro-te o corpo pelo toque. Dizem-me que sou cego porque me inspiro no amor, digo-lhes que de mim sou tudo o que levo para a morte. Carrego prédios inteiros do que não se vê..."

Daniel Camacho 

Boa Noite

25 janeiro 2015



Afinal tens razão - estragaste-me a vida. Só não tens a razão que pensas, porque não me estragaste a vida que tinha, essa só eu e quem fazia parte dela a poderia estragar. Não padeço dessa falta de inteligência que comodamente inverte o sentido entre causa e consequência. Não sofro dessa, mas sofro doutras, e como sofro por elas... Estragaste-me pela vida que vi, a vida que me mostraste, que me deste, que vivemos. Estragaste-me, e agora não há vida que me encaixe, que me sirva, que me reste, porque tudo me sobra. Sobra-me espaço, sobra-me vazio. O Lobo Antunes diz que as pessoas são como casas, nem todos os quartos estão habitados. Eu tinha quartos que não sabia até os escancarares, e juntos os habitarmos. Entrámos, despojámo-nos, abrimos janelas com vistas conversadas de mundo, daquele que se via fora das janelas e janelas adentro, tivemos o prazer da pele ao sol, dos banhos de luar quente, do silêncio que era só paz, dos beijos que encostavam as almas. Agora, tudo desabitado - a lua fugiu do céu, o sol veste-se de luto e o silêncio enche-se de vazio por ser. Bateste a porta por fora, carregas as chaves num bolso esquecido da alma que emprestaste, ou que devolveste à morte que sobrevive. Não, não tens a razão que pensas, não me estragaste a vida, apenas aumentaste a extensão de vazio que ocupa espaço. Estragaste-me a mim, desarrumaste-me uma casa que não sabia ter, trancaste o sol num roupeiro e arrumaste a lua numa gaveta sem estrelas, embrulhada num papel escrito na língua do silêncio - desabitaste-me. Desabitada, estragada na arquitectura que não sei viver, sobrevivo, sobreviverei, como sempre. Só me soçobra espaço ocupado de vazio. Sobrevivida ao vazio -um dia quiçá -, sairei mais bem apetrechada se alguém me entrar em casa, me invada sem aviso, de chave mestra nas mãos feitas para só tratar bem, com um sol desempoeirado pendurado em cada gesto quente, um luar em cada olhar que me banhe, e cheio de beijos de alma que me habitem. E que fique, e que eu queira que ele fique tanto ou mais do que ele queira ficar. Que me habite sem hábito de certezas, na certeza que esse querer não é um hábito. Talvez, talvez, possas não ter razão nenhuma, afinal.
Cores do outono tão minhas todo o ano...
Sons do Outono debaixo dos pés - há tanto que não os ouvia -, a acordarem o Inverno que mora em nós e a infância que não queremos deixar adormecer e ainda não esquecemos. Como os dias frios com sol.

Bom dia.
E o sono que teima em não aparecer.
E as memórias em desaparecer.
Vamos fechar-lhe os olhos e fingir que dormem...
Fingir...

Boa Noite

24 janeiro 2015

(Foto @thislittlecorner)
Modo fim‑de‑semana. Pijama, meias grossas, trincar alguma coisa na cozinha, deixar-me ficar a beber o chocolate quente... A muito custo decidir que temos de nos arranjar e deixar o sol ver-nos. Mas antes que alguém nos veja falta um banho, quente como se quer... Depois segue-se um café "à pinha", esperando, que tal como na foto (foi a legenda que me ocorreu, que querem... Tontices...), não esteja apinhado de gente e se reduza ao essencial. Café, silêncio, boa companhia, sol, e uma pinha para atirar à pinha de alguém nao desejado que mexa com estes essenciais...
Reduzirmo-nos ao essencial é sempre coisa traiçoeira... Saberemos avaliar bem o que é essencial para nós? E o nosso essencial? A nossa essência...sabemos? Saberemos? Será?

Bom dia.



Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
...
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.

Eduardo Galeano

[... que não fique dentro por lhe trancarem as portas, mas por, de porta escancarada, gostar de ficar dentro, estar dentro, ser dentro.
ser dentro em cada canto guardado  dessa casa, na voz do segredo quente sussurrado, que é fantasma para quem é de fora.
quem é de dentro é da casa.]

Boa Noite



23 janeiro 2015


"O que é determinante aqui é que nenhuma das opções se destaca isoladamente como uma vencedora a milhas de distância. Muito bem, que fazem então as pessoas que se encontram perante tais opções? Possivelmente, congelam. São reduzidas a um imobilismo em que não conseguem decidir no estrito domínio da razão. Podemos no entanto isolar dois tipos de pessoa. Quem não queira ou seja capaz de traçar cenários na sua cabeça, vivendo o imediato e pouco além, talvez se lance por ímpeto para uma delas. Quem queira e consiga traçar cenários, vivendo o imediato e o depois disso, poderá ter dificuldade acrescida em decidir. Não decidindo, acontece aquilo que muitos dizem: a vida decide por ti. Em rigor, a vida não é uma entidade viva, não é uma coisa que pense e actue sozinha, sabemo-lo todos. O que isso significa é que se ficamos imóveis perante duas (ou mais) opções sobre as quais não tomamos uma decisão, somos ultrapassados pelos eventos. Tudo aquilo que continua a acontecer à nossa volta enquanto estamos a pesar prós e contras, vai acontecendo, e as variáveis alteram-se, e as nossas opções podem muito bem ser-nos retiradas no processo, e quando chegamos a uma conclusão, abrimos a gaveta e a gaveta está vazia. É isso que significa a vida decidir por nós.
(...)
Há uma reflexão ligeira sobre a escolha, sobre como a todos é fácil optar entre coisas muito desequilibradas, e sobre como se torna tão complexo decidir quando o plano entre opções é menos inclinado e custa isolar uma em detrimento da outra. E sobre como isso diz, verdadeiramente, algo sobre nós. Porque se num plano muito inclinado a decisão é simples, num plano pouco inclinado a luta pessoal é muito mais complexa, e jogamos todo um conjunto de valores que nos definem, e nem sempre fazemos aquilo que nos dará a maior satisfação mas podemos ver-nos empurrados para aquilo que julgamos ser um dever, independentemente de ser permanente ou transitório. Numa escolha pode residir um profundo paradoxo. Uma escolha pode nem sequer ser uma escolha, pode ser uma imposição, uma situação de necessidade, de sobrevivência, ou uma ultrapassagem. Numa escolha de plano pouco inclinado provavelmente nem existem soluções win/win, é muito natural que sejam sempre lose/lose (resisti ao duplo ‘oo’, um lapso meu muito frequente, ando sempre a pensar em loose), particularmente se a demora ou a incapacidade de decidir fizer a vida passar-nos por cima dado o nosso imobilismo. É certo, quero crer, que nenhum imobilismo dura para sempre. Ou as opções desaparecem, e com elas o imobilismo – o que sempre deixará um lamento e amargura, excepto se o sujeito da experiência nunca tiver verdadeiramente desejado optar, o que também dirá muito sobre ele, e não creio que de bom -, ou inevitavelmente uma das opções – das originais ou novas – prevalecerá. O imobilismo toda uma vida é insustentável porquanto a dado momento o sofrimento de ficar imóvel torna-se superior ao sofrimento de optar. E aí, sempre se opta. Mesmo que tarde."

Sobre as curvas das/nas escolhas, vale a pena ler, aqui, o geógrafo João.

Ficou-me esta frase "sempre deixará um lamento e amargura, excepto se o sujeito da experiência nunca tiver verdadeiramente desejado optar, o que também dirá muito sobre ele" - e pus-me a pensar... e eu, fiz as minhas escolhas? ou deixei a vida decidir? pergunto-me, e penso que sempre decidi não abandonar o que queria, e de todas as vezes decidi não ir atrás quando me abandonavam. decisões minhas. aparentemente. olho, penso e parece-me que decidi, que fiz as minhas escolhas. mas sempre deixei que voltassem... e isso não é imobilismo? nunca houve uma acção do meu lado, nem de abandonar - porque não tenho por feitio abandonar aquilo que quero, e luto por isso como posso, e segundo os princípios que tenho, mas só assim, não de qualquer maneira - nem de ir atrás, de insistir,  de tentar vencer pelo cansaço, de tentar interferir, de tentar convencer a ficar, ou ao que fosse. Mas sempre estive onde me deixaram quando voltavam. Eu continuava lá, no mesmo sitio, a querer a mesma coisa, que não era aquela que se calhar - bom, de certeza, na verdade - me queriam dar quando me procuravam. Escolher estar no mesmo sítio, da mesma forma, foi uma escolha?  ou foi apenas reconhecer que não conseguia escolher outra coisa, que não conseguia escolher? e deixava que alguém resolvesse voltar ou ir embora, retirando-me a mim de qualquer decisão? 
Na verdade eu nunca quis que a decisão fosse minha, porque não estava nas minhas mãos decidir, eu sabia o que queria e como queria, mas não dependia de mim. Então esperei, nunca provoquei situações limite, nem encostei ninguém à parede (bom, para decidir o que fosse, bem entendido, já noutras situações, encostei e que bem decidido que isso era... bom, adiante que não são coisas para me lembrar agora... ai) para decidir sob pressão uma coisa que acho que tem de se chegar a uma resposta pelos seus pés e tempo próprio. As decisões que tive de tomar na minha vida, tomei-as antes de tudo isto, no meu tempo ao meu ritmo, não as entreguei a ninguém porque eram escolha minha, afectavam a minha vida, o que queria dela e o que não queria mais nela, e estavam nas minhas mãos decidir. Escolhi, ou melhor reconheci a escolha que me estava já feita por dentro, e decidi. Depois não, eu só podia decidir entre virar costas e abandonar - indo contra o que queria e quem queria e gostava -, ou esperar que quem tinha a decisão nas mãos decidisse, ainda que também a minha vida saísse afectada e decidida. De cada vez que decidiu aceitei a decisão, fiquei no meu canto, e deixei a vida correr. Não decidi nada, ou decidi que não queria fazer nada. Apenas ficar onde estava a roer razões e porquês sem resposta. Não me mexi, não corri, não fugi, não fui atrás. Fiquei-me. E deixei-me ficar de cada vez que voltaram. Decidi sempre deixá-lo decidir. E agora não sei se isto é imobilismo. Deixou-me a pensar isto.
(é por estas coisas que me dizem que eu penso demais... se calhar têm razão)
(foto de Jens-Wilhelm Janzen, roubada aqui)

Está decidido. Vou voltar ao Yoga... já andava a pensar nisso e vou voltar; preciso, sinto os ombros pendurados nas orelhas de tanta tensão, preciso de me mexer, esticar, "elasticar"... 
só ainda não sei para onde vou... mas vou. Tenho de mudar algumas coisas na minha vida, começar a tratar do corpo que anda tão esquecido é um bom ponto de partida, isso e ver se consigo ganhar uns kilitos... temos de começar por algum lado e gosto do yoga, faz-nos mexer e não andamos aos saltos com o coração a saltar-nos pela boca e os bofes de fora... not my type...
Bom Dia
Fui agora, por acaso, até aos posts de final de Junho de 2012 e é incrível... Tudo. Eu lembrar-me da cena que deu origem a certo post, que acabava com alguém a dizer "tenho de me ir embora daqui", como aliás depois está escarrapachado nos comentários ao post. Lembro-me até exactamente do toque no braço com a ponta dos dedos que me fez voltar a lembrar que o manto que tenho em cima do esqueleto é pele, e que a pele sente. É suposto sentir. Lembro-me de ouvir que tinhas de ir embora dali, lembro-me que não te disse para não ires, como nunca to disse, como nunca pedi para ficares. Há coisas que não se pedem porque não devem ser feitas para fazer a vontade a alguém, têm de ser vontade, sim, mas apenas do próprio, não são próprias para se fazerem concedendo, ou cedendo a pedidos de ninguém. Leio, e lembro-me das brincadeiras, de como tudo se tornava uma brincadeira em que acabávamos a rirmo-nos juntos, e tantas vezes agarrados, colados, nariz com nariz, respiração a passo, silêncio a par. Lembro-me dos nossos nomes parvos, de te chamar tanto mula sem cabeça como coisa boa, e de tu me chamares biscoito. Lembro-me de passares no café onde tínhamos ido tomar café num domingo à  tarde, de te ver à  distância passar de carro, quando uns dias antes estavas sentado comigo na mesa, com um café à frente e muita conversa no meio. Depois apanhámos a estrada impedida, um cortejo ou uma procissão, disso não me lembro, e fomos um atrás do outro a mandar mensagens enquanto os carros não podiam andar.  Lembro-me de me falares dessa tarde muitas vezes, de me dizeres que tinhas gostado tanto...Lembro-me de me adorares, e não sei como isso é possível, como poderá ser possível lembrar-me disso, que nunca foi... Lembro-me de tudo. Como? Ainda sei as tuas mãos de cor. Porquê? Ainda sinto o calor dos nossos beijos. Para quê?