Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

30 março 2015


... Não porque ache que ela não é capaz, não por pena, não por complacência, não condescendendo, mas pela entreajuda, pela partilha, pelo querer fazer parte e estar perto. Pela amizade que é a base onde o amor faz a cama, donde ao mesmo tempo se alimenta e serve de alimento. 
Há poucos verdadeiros homens, concluo. Infelizmente.
... O meu destino deve ser tão extraordinário, que deve ser extraterrestre... Só pode.

Bom dia 

29 março 2015


..."tira a mão do queixo, não penses mais nisso"... Canta Jorge Palma e tem razão. Aproveita os últimos raios de sol. O sol que descobre os ombros como gostas. O sol que aquece a pele por fora. Esquece o sol que falta para descobrir os ombros da alma, o sol que falta para à tirar da sombra das lágrimas que ficaram por chorar. Chora-se por dentro o que por fora não se diz e pelo que nunca se devia ter dito.
O café amargo, bem mais doce que a vida dormente de que não se desperta, é para beber e já chegou. ..."tira a mao do queixo e não penses mais nisso"... Que ninguém mais pensa, e a vida é coisa de viver e fazer, não de pensar ou pensar em fazer. 

... De manhã olho o espelho e pergunto-me se é ele que tem raiva de mim e me devolve assim, se sou eu que tenho raiva dele por eu ser assim. Mas a raiva é indiscutível. Como a raiva que não me deixou calçar durante meses umas botas que voltei a calçar há dias, não sei porquê, calcei-as, talvez as tenha visto de maneira diferente. Quando de madrugada as descalcei foi outra vez com raiva, muita. E essa raiva não descalcei, e vi tudo outra vez da mesma forma. 
Não há condescendências: a raiva também alimenta, mesmo que envenene os dias.
separou-se
foi demasiado longe na sua solidão
e soube – teve de saber –
que dali não se regressa

afastou-se – afastei-me –
não por desprezo (claro está que o nosso orgulho é infernal)
mas porque uma pessoa é estrangeira
uma pessoa é de outra parte,
eles casam-se,
procriam,
veraneiam,
têm horários,
não se assustam com a tenebrosa
ambiguidade da linguagem
(Não é o mesmo dizer Boa noite que dizer Boa noite)

Alejandra Pizarnik
(Tradução de Miguel Filipe M.)


[há solidões de que não se regressa, mágoas que não se curam, desilusões de que não se recupera, perde-se a esperança e a crença. A distância aumenta ainda que não nos mexamos, que não saiamos do mesmo sitio. Há algo que sai de nós sem pedir licença, sem aviso, sem cerimónia - abandona-nos. Às vezes sai e bate a porta com estrondo, outras de mansinho. Nem sempre é fácil saber se realmente saiu, que já não nos habita - às vezes parece que sim, outras descobrimos que não, que ainda cá temos tudo despedaçado à espera de ser colado. Uma coisa sabe-se, dói, porque a distância que aumenta é a ferida que abre, que rasga, por onde nos esvaímos. E deixamos. Mas às vezes é a purga que cura. Às vezes, outras só nos esvaímos. Somos estrangeiros de outras longínquas fronteiras, a língua que falamos ninguém entende, o que sentimos sem fronteiras não é pátria de ninguém. Os outros passeiam,  riem, falam, estanques, parece que vivem. Dentro das suas fronteiras seguras, confortáveis e estéreis, o que não sentem - onde todos estão -  não é casa de ninguém.]

Boa noite

28 março 2015

... É mesmo. 
Alguém dizia que ninguém que ama vai dormir sem ver, sem se assegurar, que o outro está bem. Que não há cansaço ou falta de tempo que impeça isso. Penso que é verdade, que quem ama, de alguma forma o faz ou arranja maneira de fazer o mais parecido, seja pensar na pessoa, seja procurar saber dela e como está, seja ir-lhe aconchegar os cobertores e dar um beijo de boa noite. Há uma intenção, uma preocupação, um estar com, mesmo que se esteja sem, que é comum e revela uma mesma coisa. E há pouco esta frase tomou uma nova dimensão quando ouvi "está frio...Será que tem frio?". Coisas que se dizem em delírios que acontecem nos extremos em que a vida nos põe sem aviso ou preparação. Delírios, ainda assim, de amor; dum amor profundo que não dorme sem pensar se quem se ama estará bem.

Boa noite

27 março 2015

Sento-me à janela, ao lado do mundo. Do lado de dentro do vidro, do lado de fora do mundo. Olho e não vejo chover. Abro a janela um pouco para entrar ar e percebo que chove. Chuva molha tolos, os que pensam que nao chove porque não vêem, ou melhor, vêem chover sem saberem que chove. Há coisas que sem sabermos acontecem enquanto olhamos, porque olhamos mas não vemos. Os olhos enganam, como tantas vezes enganam os ouvidos quando ouvem o que não há, ou quando não ouvem o que há. 
Há olhos surdos e ouvidos cegos. Assim toda a gente se molha. Ou então só os tolos. 
Tola sou eu, aqui sentada a olhar a rua molhada sem ver chuva cair sabendo que cai, e a pensar nestas idiossincrasias estranhas dos sentidos que me fazem questionar o sentido daquilo a que chamamos razão. A razão ensina-nos a ver e a ouvir, a interpretar, descodificar o que se vê e ouve, mas nem sempre tem razão. Às vezes está a chover e os olhos não o vêem.
De repente fico-me a pensar: e a pele? A pele sabe sempre. Sabe até de olhos fechados e ouvidos tapados - a pele sabe. Razão tem a pele. O que a pele sente acontece. Sempre. Existe. Toca. Molha. 
Talvez a pele seja a melhor razão. O que a pele sente não engana. Talvez até seja melhor ser racional assim...

Boa noite

26 março 2015

"(...) dá porque gosta, porque ama e mais não interessa e isso é raro, demostra que é uma pessoa com um coração enorme e quando gosta é "arrasador" tanto para o outro como para si. é muito intenso, tão intenso que muitas vezes nos deixou sem palavras. quando aquelas não são precisas para as pessoas se perceberem e perceberem que amam, são cumplices, podem estar sozinhas, afastadas que nunca estão, o outro está sempre presente, lá, e isso só existe quando alguém não quer nada em troca (não exige nada em troca) (...) no princípio até me meteu algum medo devo dizer pois já me tinha esquecido do que é amar com toda a inocência que isso implica de parte a parte (...) não me lembrava do que era amar no verdadeiro sentido da coisa. sabe acho que é a sensação mais bonita do mundo e não a viver por muito tempo maltrata muito as pessoas. escondemo-nos numa capa de ferro, pesada, que nos tira os movimentos e que nos deixa sem aquela elasticidade que só se encontra quando as pessoas estão felizes, acordam felizes e adormecem felizes."
(apanhado por aí, que me tocou, que fala por mim em muita coisa...)

Amar é cuidar, é querer ver o outro bem, estar perto quando sabe que não está bem, ser o sorriso no fim das lágrimas que não se podem evitar que o mundo nos faça verter. É querer ser a parte boa e doce que dá força para aguentar as amarguras e as dores que não se podem evitar, mais que tudo é (como dizem no texto por outras palavras), ser perto. 
Ser perto quando não se pode estar perto, mas estar perto sempre que se puder.

25 março 2015


(foto @thislittlecorner)

Preciso dum café ao sol e que me devolvam as palavras, 
mas sei que a vida nada devolve, tenho de ser eu a recuperá-lo.

Bom Dia

23 março 2015

As mãos, sempre as mãos. Aquelas nunca tinha percebido serem feitas de dedos compridos, magros, de tanto andarem sempre enroladas em si mesmas, e vi hoje, tão perto para tocar tão longe para lhes chegar a vida que as faz mexer. 
As mãos por onde a vida passa, as mãos com que não a conseguimos agarrar, inúteis quando escorrem impotência. As minhas, que agora recordam o que o dia inquietou, o que tentaram aquietar sem darem paz, e que escrevem outras, mais cansadas da vida que lhes foge, a vida que enruga a pele que veste o sangue; mãos que querem proteger - querem continuar a proteger -, que tentam segurar a vida que deram, e agora tremem face ao medo quando tocam em desespero outras mãos, de dedos compridos, adormecidas, distantes, quase noutro mundo. 
E os meus olhos vagueiam pelo espaço, olham números que não se somam mas subtraem vida a conta gotas. Enquanto fogem do olhar demasiado brilhante de quem contém o que não sabe gritar, vêem outras mãos que se fecham em punho fechado, de revolta calma, de racionalidade que pensa poder ordenar um mundo sem ordem, onde a racionalidade se afoga em lágrimas por chorar. A vontade de ter as coisas nas mãos, de controlar, de poder fazer onde tudo parece desfeito. Fecham-se as duas mãos em punho fechado, vazio de força e cheio de dor lenta que não explode. Punho fechado que esconde o vazio enquanto o segura. E as minhas, as minhas mãos, cheias de não saber para que servem, que procuram agarrar, chegar às que restam, que procuram consolar o que consolo não pode ter. Mãos que esperam por agora para se abrirem em palavras. Mãos vazias que acumulam perdas. Mãos a que tudo foge, como a água escorre por entre os dedos abertos, e que foge se os tentamos fechar.
Mãos, sempre as mãos - talvez a vida se resuma aos momentos em que são úteis e fazem, aqueles em que são inúteis e nada podem fazer, e aos momentos em que servem afectos e são amor com pele.

22 março 2015




(foto de Nick Walters)

Fala-se
Mobila-se o cenário vazio do silêncio.
Ou, se há silêncio,
este transforma-se na mensagem.
– Porque está calada? Em que pensa?

Alejandra Pizarnik
(Tradução de Miguel Filipe M.)

[hoje -ou melhor dizendo, ontem - foi dia da poesia e eu gosto muito desta Alejandra tão assombrada.]


Boa Noite

21 março 2015

(foto @vorosmate)
Não gosto dos fins de semana em que já sei que não tenho pelo menos um dia para mim, sem nada marcado, sem horas a cumprir, onde o dia corre ao nosso ritmo e do que queremos. Se quisermos combinar alguma coisa combina-se no dia, se apetecer, mas se a ronha estiver mais apetecível, fica-se no sofá enrolada numa manta com um livro e um chá, ou sai-se sem destino marcado, numa volta que se vai fazendo ao sabor do momento e da vontade de passeio. Fim de semana sem esta liberdade de não fazer nada - ou de escolher o que não fazer, se calhar... deixa-me um bocadinho neura, como se entre duas semanas houvesse mais uma semana mais curta, mas onde o tempo não é meu para decidir.... 
Bom Dia.

Hoje, em diferentes momentos do dia, a memória rasgou-me os pensamentos uteis de quem quer esquecer o que mais ninguém lembra. De manhã lembrei-me, sem descortinar o porquê, dos pequenos grandes terramotos que me vinham morrer nos braços e que tremem agora longe da minha pele. Já não os sei, perderam-se no tempo das memórias que quero desbotadas e enterradas por me incendiarem a raiva que dói por dentro - raiva de mim mesma, misturada com mágoa que retorce as entranhas. Depois, ao fim do dia, ao olhar para as minhas próprias mãos a navegar desertos de afecto, quase consegui ouvir outra vez quando me disseram que a maneira como toco seria bastante para me reconhecer, às escuras ou de olhos fechados. Sem me verem, viam-me nas pontas dos meus dedos. Agora, mesmo que me vissem, nada lhes toca o olhar que sente de olhos fechados e às escuras. Nada lhes treme. Por mim. A mim, mesmo às escuras nada me aquieta este olhar que os olhos tentam fechar.

Boa noite

20 março 2015


... Pois, é isto...
Nada de ninguém acordar, viver e adormecer comigo, a pensar em mim, mesmo que sem mim... Nada de sem mim nada fazer sentido e nada mais parecer importar... Nada... Aliás, eu é que não importo mesmo nada. Nadinha.
(Valha-me a minha maezinha... )

A culpa da infelicidade é da felicidade, como a culpa da sombra é a luz.
Se fugirmos da felicidade evitamos a infelicidade.
Mas não é fugindo de ser infeliz que se encontra a felicidade. Apenas não perdemos nada porque nunca chegámos a ter nada. Onde não há o que perder não há risco. 
O maior risco é cruzarmo-nos com a felicidade, mesmo que por instantes. Há instantes que duram a eternidade toda em sombras. Há instantes de luz onde cabe a eternidade toda.

Boa noite.

18 março 2015


... É, também é.
Estupidez é amar sozinho. 
(... Ou também é)
E hoje em conversa com um amigo.. em vez de "pois".... o telemóvel escreveu "pipi"... ora como era de esperar houve galhofa, pois claro. Lá tive eu de dizer que se calhar alguma parte de mim estaria a pensar nisso... àquela hora da manhã, o que enfim... já diz muito da desgraça que por aqui vai... Vai daí que o moço me culpa a mim, pergunta-me então a quantos já eu dei para trás??(heinnn??)... porque há-de haver muito homem a querer pilotar este avião. E eu juro que não sei onde vão buscar estas ideias... avião?? (por acaso esta do avião lembra-me um dos piropos mais engraçados e oportunos que me lembro de ouvir, mas não estava sozinha quando o ouvi, e não o entendi para mim, sequer...) esta gente está maluca, só pode. E de qualquer maneira também só quero ser pilotada por quem me apetecer pilotar... e dei por mim a pensar nessa brincadeira que é pilotar e ser pilotada e tal... e daqueles jogos de computador e afins que se jogavam com um joystick... e, de repente, fez-me muito mais sentido a palavra e a sua adequabilidade - de facto, a parte do "joy" para alguns pilotares de stick faz todo o sentido... pode trazer muitas alegrias realmente, mas eu continuo a mesma: há jogos que não sei jogar. Sinto falta de ser pilotada por alguém que eu queira muito pilotar também, é um facto. Mas isso não me faz ir a jogo de qualquer maneira, ou talvez precisamente por isso não vou a um qualquer jogo. E ele, esse amigo malandro que me fez começar logo a enganar-me no "pois" tornando-o "pipi" logo de manhã, diz que eu querer o homem mais do que o "joystick" é bom, que no fundo aprecia esta minha maneira totó de ser, que o resto deixa um grande vazio... mas bom, ser assim também deixa, respondo-lhe eu...

Bom Dia

"A dor é estranha. Um gato matando um passarinho, um acidente de carro, um incêndio... A dor chega, BANG, e aí está ela, instalada em você. É real. Aos olhos dos outros, parece que você está de bobeira. Um idiota, de repente. Não há cura para a dor, a menos que você conheça alguém capaz de entender seus sentimentos e saiba como ajudar."

Charles Bukowski

[... Não precisa saber ajudar, só deixar encostar, fazer aproveitar o silêncio do que não se resolve, do que não se pode ajudar. Não é preciso saber nada, só talvez a perfeição do silêncio que é deixarmo-nos ser sem ter de pedir que nos entendam. Se partilham o nosso silêncio com calor e descanso de alma entendem tudo o que deve ser entendido, ajudam toda a ajuda que se pode ter e querer. 
Este silêncio que ouço é frio e não descansa.]

16 março 2015

(foto @ryanmuirhead)

"Amuralhar o próprio sofrimento 
é arriscar que ele te devore desde o interior.”
Frida Kahlo.

[as muralhas levantam-se para nos proteger. Protegem. Talvez.
Protegem-nos do bem entrar e do mal sair. Também.]

Boa Noite