Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

06 outubro 2015

É com agrado que constato a melhoria de qualidade dos espelhos em algumas casas portuguesas. De facto, denota-se nessa grande plataforma social, emoldurada em tons de azul o melhor, o mais bem aproveitado uso das distâncias nas fotos. Ou da distância entre a máquina que captura o momento e o objecto do momento (neste caso a própria pessoa que se identifica na dita plataforma através da referida fotografia), ou, em igualmente lúcida alternativa, da distância temporal entre o momento actual e o momento que há anos ficou registado. Em ambos os usos da distância ficam os objectos beneficiados, ainda que mais das vezes não favorecidos nos impiedosos registos fotográficos.
Apraz-me conferir que não faço estes usos das distâncias (nem sempre com bons resultados...).
Não me apraz perceber que poderá haver um "ainda" latente na frase anterior...

E ao escrever isto dou por mim a pensar que espero francamente que os espelhos de minha casa, onde me  vejo e avalio longe dos olhos alheios, continuem a reflectir sem mentiras o que vêem e que isso não mude, ainda que a imagem reflectida se vá alterando. E que sempre me veja de perto, não me esconda em distâncias que me disfarcem os defeitos. Mas isto já nada tem a ver com fotografias públicas e sim com o aceitar da fotografia que nos tiramos em frente ao espelho,  não tanto com o gostar ou não da estética do que vemos, mas de o aceitar pacificamente enquanto conjunto de defeitos e virtudes, que nos fazem, que somos, e que não foge nas distâncias. Ou se calhar até tem.
...humm... tipo euzinha?
mas é só tropeçar, sim?!
ehehehe

Bom Dia!

05 outubro 2015

(desenho @unskilledworker)
Com o Outono nos olhos
ela Primaverou o cabelo.

Bom Dia

... É melhor ir para a cama já, antes que dêem as três badaladas,
para ver se me livro de alguma das acusações....



Ontem, num serão de boa conversa e cheio de músicas, surgiu esta, e de repente transportei-me para outra noite, outra sala, quase outra vida. Uma música que tocava no escuro, que não lembro, que não era esta, mas que este som me fez lembrar, pelo que diz, pelo tom quente em que é cantada, não sei. Alguma coisa trouxe à tona o calor dum abraço que não se dançou, mas que me enlaçou, que me ficou, tanto que ontem me veio à ideia... I got ideas (too), é o que é.
Hoje fui à procura e deixo-a aqui, adoro.

Boa Noite

04 outubro 2015


Domingos de Outono. 
Em casa, melancólicos, cinzentos.
Apenas com o silêncio da chuva a bater nos vidros, o arfar do vento que não se cansa, o rosnar quente da lareira que não nos morde e outros silêncios que não se dizem...

(Mas hoje só depois de votar, ou antes.)

Bom dia


03 outubro 2015

...ronhaaaaa....
Ainda na cama cheia de lentidão no corpo, a luz entra pela janela, amolece no cortinado fino e lembra-me que há sol apetitoso lá fora mas que os meus apetites estão todos cá dentro. Fico mais um bocado, dou mais uma volta ao corpo na cama, penso no banho, no que hei-de vestir e que já vou chegar atrasada. Não gosto de fim‑de‑semana com compromissos que tenham horas, não gosto. Acho que devia haver um cortinado para as horas no fim‑de‑semana se esbaterem, como a minha vontade de me apressar.
Tenho de ir. 
Ainda não sei o que vestir depois do banho, acho que vou aqui ficar a pensar só mais cinco minutinhos. Está-se taaaaaaoooo bem. Sou tão preguiçosa, pois sou. Paciência, preciso destes bocadinhos ensonados e lentos para me equilibrar a semana.

Bom dia
Não se procura o que só te agarra se te surpreender. 
Agarra-me.

Boa Noite

02 outubro 2015

eheheheheh
Bom conselho... mas pouco seguido, pelo menos pelas pessoas que conheço 
que se enquadram nas características de excepção... 
estão-me sempre a surpreender na forma como se superam excepcionalmente nesta matéria...

Bom Dia

Na varanda com o meu último cigarro, oiço música ao fundo, concertos não muito longe. Fui ver, parece que há vários concertos pela cidade, parece que é o dia da música e passou-me ao lado. Acendi o cigarro e penso que às vezes a melhor música é o silêncio. E de certa forma, a música que oiço ao fundo não me perturba o silêncio. Há muitas espécies de silêncio como o há de música. Este meu silêncio hoje não se perturba com a música de fundo, sabe-me bem, é um silêncio sem gente indesejada que nos quebra o silêncio sem nos acrescentar nada. Só para dizer que bonito, que bom, que profundo, sublime, que intenso, que especial e outros que tais. É melhor deixar esses comentários em silêncio e deixarem-nos fazê-los para nós, apreciando realmente os momentos por dentro. Os instantes que mais nos tocam são silêncios intensos, cheios de mensagens onde as palavras não cabem, onde o som fere a comunicação. Poucas pessoas se entendem em silêncio, têm de falar a mesma língua, onde o silêncio é o espaço exíguo em que se tocam sem se sentirem confinados e onde o vazio não tem lugar. Apenas a música que os faz.

01 outubro 2015


...olha este nao sabe para onde quer ir...
Lembra-me alguém que eu conheci, só não tinha brevet nem deixava rastro... 

... Parece-me bem.
Bom dia.

30 setembro 2015

E às vezes necessidade de sermos olhados pelo toque
e tocados com o olhar.
Ver com as mãos, tocar com o por dentro dos olhos.
Com tudo o que temos guardado.
Com tudo o que temos medo de dar.
Eu hoje, sim. Assim.



29 setembro 2015


(foto @andreatomasprato)

(...)A luz é o meu túmulo.

Em tempos, os meus gestos tiveram o rigor da abelha que rouba o pólen à flor.
Com esses gestos quis construir um espaço para o silêncio. Uma morada onde fosse possível ignorar o mundo, ou esquecê- lo.

De vez em quando, aceito ainda o mistério das palavras que me cercam e não coincidem, em nada, com a realidade. Eu só quis celebrar a vida. Encontrar o esconderijo onde fosse possível um derradeiro acto de paixão.

O esconderijo onde pudesse, de novo, tocar teu rosto
e recusar a aridez da calúnia.
Mas a luz é o meu túmulo.

A pouco e pouco incendiaram-se os negros profundos, o círculo luminoso aprisionou-me, e as mãos gesticularam sem sentido. O interior das paisagens guardou a tua ausência. E numa última visão a madrugada irrompeu do mar adormecido.

As mãos abriram-se novamente,
quando o dia começou a devorar a nudez do corpo.
Comovido, perdi a voz.
Não podia chamar-te, lembro-me, por isso desatei a escrever o teu nome nas paredes da cidade. Tempo perdido. Já não podias ouvir-me nem ler-me.

(...)

Al Berto, "O Esconderijo do Homem Triste"

[Já não podias nada porque podendo tudo nunca quiseste. Faltou-te sempre a derradeira paixão, onde coincidem as palavras e os dias. Onde o esconderijo surge porque é preciso tocar um rosto tanto como respirar, e o respirar é apenas o tempo entre a vida de tocá-lo. Tocar aquele rosto, aquele e não outro, aquele e nenhum outro, suspende os dias, o mundo, a luz, a escuridão, tocá-lo dá-nos vida, alimenta-nos. O respirar mantém-nos ao correr dos dias para poder tocá-lo. 
Faltou-te a derradeira paixão, por isso não guardas ausências, se não olharmos o lugar vazio não lhe vemos o vazio, nem sequer o lugar. Se não formos à procura do que já não encontraríamos a ausência não se faz presente, nem sequer existe, como a derradeira paixão que te faltou. 
A mim falta-me a voz e as mãos fecham-se-me. Já não me comovo.]

... Caso para dizer: dane-se! 
Dane-se, que passa...

25 setembro 2015

A lua enorme, quase à minha frente, brilhante, branca. Ilumina, mas só reflecte, a verdadeira luz não vem dali, não nasce ali. A lua dá a luz que recebe. Não seria bom tudo ser assim?

24 setembro 2015

Aceitam-se candidatos para me sussurrar 
isto ao ouvido quando eu chegar a casa.
(isto é obviamente um anúncio 
virtual - convenhamos, nem devia ser preciso dizer... - é 
só uma tontice, 
mas foi o que me lembrei quando vi isto...)


Aproveitar um bocadinho a primeira noite de Outono na varanda, ainda sem mantas. Estamos já a ver o outono, é um instante entre o seu cumprimentar de longe e o chegar-nos aos ossos, com toda a melancolia, toda a nostalgia da minha estação preferida, ou aquela com que mais me identifico. Engraçado, agora, pensar nisto que digo, porque o outono é o morrer de tudo o que nasceu na primavera, a transformação que dará lugar, depois, a coisas novas e verdejantes. São as despedidas,  os fins a que se seguem os lutos, os frios cerrados, a noite mais escura antes do amanhecer da primavera. São os pores de sol quentes ao longe. E talvez eu seja isso mesmo, feita de fins, de folhas que caem para que venham outras, que se despegam dos braços das árvores, que tombam nos caminhos por percorrer já despidas do verde de vida. De mim tudo se despega, se despede, despem-se de mim como a um casaco coçado, gasto, sem serventia. Folhas mortas no chão. As primaveras moram noutras paragens, não na minha. Na minha só as despedidas, o que antecede o gelo e o recolhimento a casa. Nunca tinha pensado nisto, mas sou realmente feita de outonos, a estação onde todos páram e se apeiam. Continuam outras viagens, eu fico-me pelo recolhimento de todos os lutos que a vida me tem servido de bandeja, e com que luto para que um dia me floresça a Primavera no olhar, na alma, no espírito. Na vida. Mas eu sou feita de Outono... E já poucas folhas me restam, nenhuma verde. 
Mas depois do Inverno, o verde nascerá em todas, vivo, mesmo que não se acredite.

23 setembro 2015



"... e ele dizia-me 
se tu fores um poema de amor
eu apaixono-me por ti 
e eu desaparecia
 boca fora para dentro dele"

Valter Hugo Mãe

..como se a alma despisse a pele
e mergulhasse
sem palavras
no abismo
dum amor
só poesia.

21 setembro 2015

I know you've suffered,
But I don't want you to hide,
It's cold and loveless,
I won't let you be denied

Soothing,
I'll make you feel pure,
Trust me,
You can be sure

I want to reconcile the violence in your heart
I want to recognize your beauty is not just a mask,
I want to exorcise the demons from your past,
I want to satisfy the undisclosed desires in your heart

You trick your lovers,
That you're wicked and divine,
You may be a sinner,
But your innocence is mine
(...)


Era a música que estava a tocar quando hoje de manhã cheguei ao trabalho. Fiquei a ouvir ainda um bocadinho, atenta na letra... 
Gosto especialmente do "You may be a sinner, But your innocence is mine" 
Gosto de ouvir as letras das músicas, sempre gostei, às vezes apaixono-me pelas letras primeiro, e desta gosto especialmente E hoje disse-me mais do que costuma, ou hoje quero mais alguém que me diga tudo isto do que noutros dias, que me reconcilie, que me cole os cacos despedaçados de mim, que me veja por dentro, que assuste os fantasmas que me habitam amando-me, que me descubra os desejos do coração, que me descubra, em quem possa confiar, que me faça sair dos refúgios em que me aninho. Que me faça ser eu de braços abertos - porque eu sou assim mas esqueci-me. Preciso de quem me esqueça a memória para voltar a lembrar-me de ser quem sou.

Bom Dia