Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

13 abril 2014


...Menos um dia.
... Mais um anoitecer.
Olá, lua.
Tu és sempre a mesma, também.

Olá.


...Banho de lua.
Luar quase nú.
Alma quase despida.

Boa Noite

12 abril 2014


Amei Demais

Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
todas as coisas que na vida eu emprenhei.
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais.
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei
está espalhado pelos sítios onde vais
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais.
E os milhares de versos que rasguei
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

[.. a minha companhia: um cigarro fumegante e uma vela ruidosa, debaixo do silêncio do luar ( e que luar, caramba). A lua enorme e espreitar por entre ramos... A natureza devolve-me sempre um pouco de mim, como se chegasse às raízes mais fundas para as tentar acordar... e eu só quero adormecer. Um adormecer de mim, do que trago, que seria acordar de ti, do estado adormecido em que me embalaste, onde me aninhei, em que me inebriei, e  tanto me enganei. 
Amei demais. 
Não sei gostar assim assim, por isto ou aquilo, por esta ou aquela razão, porque dá jeito e até nos damos bem. Eu só sei gostar assim: demais. Ou nada, que às vezes é quase nada, mas para mim é o mesmo - não sendo tudo, com tudo, é banal, é nada, por muito bom que seja. Depois de se verem certas coisas, sentirem certas coisas, viverem certas coisas, o resto é banal sobrevivência, ainda que boa. Mas uma sobrevivência só minha, só para mim, porque só eu as vi, as senti, as vivi. Sempre só eu. E continuo. ]

11 abril 2014

- "Sevilha jantar e passear pela zona velha, sentar numa esplanada a ouvir guitarra cigana, os cheiros, as cores, as laranjeiras, os espectáculos de rua das escolas de dança, é lindíssimo." - caramba isto é a sua cara... e é a minha cara. é por isso que me apaixonava se já não estivesse, percebe?

- e consigo consigo ter isso.
às vezes parece que consigo entrar dentro de si sabia?

- não consegue, já conseguiu, está cá dentro, acho que isso que sente é só o reconhecer-se...

- e sentir a sua sensibilidade, uma energia tipo electricidade
igual à minha.

[Novembro de 2013, incrível, surreal se calhar... incompreensível de certeza. conversas nossas, coisas lindas. ainda bem que escritas para reler quando se quer...]

...afinal é noite de baú, de músicas e conversas, tudo do baú...
Boa Noite

10 abril 2014



"(...)
Well I know I make you cry
And I know sometimes you wanna die
But do you really feel alive without me?
If so, be free
If not, leave him for me
Before one of us has accidental babies
For we are in love

Do you come
Together ever with him?
And is he dark enough?
Enough to see your light?
And do you brush your teeth before you kiss?
Do you miss my smell?
And is he bold enough to take you on?
Do you feel like you belong?
And does he drive you wild?
Or just mildly free?
What about me?
What about me?"

[..noite de músicas...]



... este homem é brutal...
"A coisa estranha e terrível que estava a tornar-se-lhe clara sobre aquele mundo do futuro, ao imaginá-lo agora, é que nele ela não existiria. Limitar-se-ia a andar por lá, e a abrir a boca e a falar, e a fazer isto e aquilo. Não estaria realmente lá. "

Alice Munro, in Fugas

08 abril 2014


"Não te apaixones por uma mulher que lê, por uma mulher que tem sentimentos, por uma mulher que escreve...
Não te apaixones por uma mulher culta, maga, delirante, louca. Não te apaixones por uma mulher que pensa, que sabe o que sabe e também sabe voar, uma mulher que confia em si mesma.
Não te apaixones por uma mulher que ri ou chora, que sabe transformar a carne em espírito; e muito menos te apaixones por uma mulher que ama poesia (estas são as mais perigosas), ou que fica meia hora contemplando uma pintura e não é capaz de viver sem música .
Não te apaixones por uma mulher que está interessada em política, que é rebelde e sente um enorme horror pelas injustiças. Não te apaixones por uma mulher que não gosta de assistir televisão. Nem de uma mulher que é bonita, mas, que não se importa com as características de seu rosto e de seu corpo.
Não te apaixones por uma mulher intensa, brincalhona, lúcida e irreverente. Não queiras te apaixonar por uma mulher assim. Porque quando te apaixonares por uma mulher como esta, se ela vai ficar contigo ou não, se ela te ama ou não, de uma mulher assim, jamais conseguirás ficar livre..."

Martha Rivera-Garrido

[...não te apaixones por uma mulher... ao menos este conselho eu ainda consigo seguir!! 
Mas fico a pensar que não há mulheres reais assim, tão completas, tão mistura fatal, global e globalizante. Acho que haverá uma mistura fatal para cada ser, e não tem de ser isto tudo, pode até não ser nada, é só uma sensação de plenitude e de se estar bem com alguém, como se bastasse um sorriso que nos dirige para acender uma luz do lado de dentro de nós, que depois se mostra e brilha no nosso olhar para fora... não é preciso tanto predicado... basta que nos faça sentir o melhor que podemos ser. Ser a ponte para o nosso melhor.]

Bom Dia!
Boa Noite

06 abril 2014

E depois, não se sabe bem porquê, acorda-se com uma frase na cabeça:
"consigo tem de ser tudo ou nada."
E lembramos-nos do exacto momento em que numa conversa em frente à lareira o ouvimos pela primeira vez. Depois foi muito repetido, mas lembro-me daquele primeiro momento em que o ouvi como estreia. E hoje acordei a ouvi-lo de novo, quase como estreia à luz desta coisa que vivo, que podia ser o tudo, mas parece que é quase nada. Ninguém entende. Afinal comigo pode ser de qualquer maneira e tudo o resto foi paleio, mentira, fabulação sei lá. Sentido é que não foi, nem é. E isso eu sinto muito. Sinto muito tudo o que este nada é. 

...sempre fui do género de confiar desconfiando;
quando me mentem e me tentam fazer de parva, passo ao modo de desconfiar sempre, 
mesmo que vá tentando confiar. 
Mas quanto mais mentiras, quanto mais se acumula em desconfiança, mais difícil.
...acho que é fácil de perceber, não?

05 abril 2014

[foto da página do Facebook "Paradoxos"]

...se conseguires,
Bom Dia
...
vem meu amor, vem para mim
me abraça devagar
me beija
e me faz esquecer
...
bem que se quis
depois de tudo ainda ser feliz
...

[adoro]

Boa Noite

04 abril 2014


Morde-me com o querer-me que tens nos olhos
Despe-te em sonho ante o sonhares-me vendo-te,
Dá-te vária, dá sonhos de ti própria aos molhos
Ao teu pensar-me querendo-te…

Desfolha sonhos teus de dando-te variamente,
Ó perversa, sobre o êxtase da atenção
Que tu em sonhos dás-me… E o teu sonho de mim é quente
No teu olhar absorto ou em abstracção…

Possue-me-te, seja eu em ti meu spasmo e um rocio
De voluptuosos eus na tua coroa de rainha…
Meu amor será o sair de mim do teu ócio
E eu nunca serei teu, ó apenas-minha?

Fernando Pessoa

Boa Noite

02 abril 2014


"É o primeiro beijo o único beijo que importa.
É tudo. É quente e deixa marcas nos lábios da alma.
É o mais forte, o mais intenso.
É o primeiro beijo que conta.

O primeiro beijo não se esquece, não se perde no tempo. Tem sabor a eternidade e não é perfeito na sua perfeita forma de ser.
O primeiro beijo é tão mais que o primeiro beijo. São os toques no cabelo, são os olhos que se encontram de perto pela primeira vez. É o sorriso nervoso e o «quero-te» em silêncio. É a explosão que se dá, é o que damos a quem se dá.
É o medo, é a pressa, é o toque na cara, a mão na cintura e um querer louco que cada segundo dure um pouco mais de um tempo que, a correr, passa tão devagar.

O primeiro beijo nunca é "só" interessante para quem o sente. Nunca é suficiente mas nunca sabe a pouco. É tudo o que importa e é quando tudo acontece. É quando sei que te vou amar uma vida inteira mesmo que dure só uma noite. É a minha boca na tua, o teu calor com o meu, sem nada nos entretantos.
São momentos de vida. Ali. Nossos."

Do miúdo.

Cheio de razão.


Começo a ter disto...mesmo que soubesse explicar, às vezes já não apetece...

[foto de Claudio Montegriffo]

"Não podemos ser o super-herói de alguém que está perdido. Não podemos curar alguém que está quebrado. Não podemos completar alguém que está incompleto. Não podemos realmente salvar alguém. Por muito grande e sincera que seja essa vontade de o fazer. Tomar para nós essa tarefa é uma luta inglória da qual dois seres saem exaustos e confusos. Algumas batalhas tem de ser travadas dentro de nós. Não podemos salvar alguém, podemos apenas amar alguém. Amparar a queda, secar as lágrimas, oferecer o calor de um abraço… e esperar que essa pessoa encontre em si, um dia, a vontade de se curar. Podemos apenas amar alguém… e esperar que aprendam a amar-se também."

Quem tenta ajudar uma borboleta 
a sair do casulo mata-a. 
Quem tenta ajudar um broto 
a sair da semente destrói-o. 
Há certas coisas que não podem ser ajudadas. 
Tem que acontecer de dentro para fora.

Rubem Alves

Roubado ipsis verbis, à semelhança dum crime quase-perfeito :) , DAQUI, texto e citação. 


[...infelizmente parece-me que é verdade, porque estava muito precisada dum super-herói, muito mesmo.]




Preciso de alguém com quem me entenda e me entenda, que pense em mim, 
com quem me dê bem e que me saiba ouvir e me falar, 
preciso de alguém que comunique bem comigo- é o mais importante, dizem.
preciso de quem me varra as angústias com beijos e sussurros que se sentem por baixo da pele, 
preciso de quem me murmure amores aos sentidos da alma.
preciso dum olhar seguro que me aconchegue de Amor.
preciso dum colo que me carregue até voltar a saber andar ao seu lado pelo meu pé.
preciso de alguém que perca o Norte por mim e que me dê um Norte, 
preciso que seja a minha bússola, a apontar sempre, certa e confiante, para o mesmo horizonte: o seu Amor por mim
preciso dum perdidinho por mim que se perca em mim, nunca de mim.
preciso de alguém que não é quem eu quero.
querer é tudo, precisar é pouco.
Agora quero querer pouco.
É preciso.

Boa Noite



Hoje dói-me pensar,
dói-me a mão com que escrevo,
dói-me a palavra que ontem disse
e também a que não disse,
dói-me o mundo.

Há dias que são como espaços preparados
para que tudo doa.

Só deus não me dói hoje.
Será porque ele não existe?

Roberto Juarroz
in Poesia Vertical


[... há dias assim. Há alturas em que só me apetece adormecer sem compromisso de acordar, em que uma pessoa se sente morrer, sem saber se é de dentro para fora ou de fora para dentro, depois percebo que estou pior que morta - muito pior - por ter sobrevivido a tantas mortes sucessivas, e que o que resta não encontra cordão umbilical que me agarre à vida, nem vontade de o agarrar se houvesse. ]

30 março 2014

"Era como se tivesse uma agulha assassina num certo sítio dos pulmões e se respirasse com cuidado podia evitar senti-la. Mas de vez em quando tinha de inspirar fundo, e ainda lá estava."

Alice Munro, in Fugas
... E assim de repente lembro-me duma vez em que disseste que te foste deitar mais cedo para ficar a falar comigo por mensagem. Lembro-me, lembro-me bem desse dia - noite, melhor dizendo-, lembro-me onde estava e que tu estavas aí. Lembro-me bem, mas às vezes acho que me devo enganar, e deve ser só uma leve ideia de qualquer coisa, de uma outra vida. 

28 março 2014



Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes.

Geraldo Bessa Victor
in As raízes do nosso amor

[...sem me prenderes, sem te agarrar,sem me quereres agarrar.]

27 março 2014


"Porque nos apaixonamos?

(...)
De cada vez, pensas que estás apaixonado pela mulher, mas depois percebes que estavas apaixonado por outra coisa.
Apaixonas-te pela idéia de estar apaixonado, pela idéia de Amor; pela simplicidade das relações sem compromisso; ou pela imagem que os têm de ti, pelo facto de quase te idolatrarem; por uma sintonia de gostos e de poetas e de autores e de coisas que gostam de fazer; por uma idéia e um conceito e um plano de “família”; por uma afinidade de histórias de vida e pela capacidade de rir juntos.



E um dia percebes que te apaixonaste e desta vez não sabes porquê. Um dia, se tiveres sorte, estás apaixonado sem o saber explicar. Sem perceber porque aconteceu nem como aconteceu, sem conseguir pensar em uma ou em três ou em cinco razões para sentires o que sentes.
E o tempo não te ajuda a perceber razões – porque nessa altura o tempo não te dá distância, apaixonas-te novamente todos os dias.
Talvez as coisas que não têm razões sejam as que são feitas de todas as razões.
Talvez estejas realmente apaixonado por alguém exactamente quando não saibas escolher uma ou duas ou três coisas de que gostas nela. 
Talvez seja mesmo assim quando se ama; não é por causa “disto”, nem apesar “daquilo”."


Já tantas vezes disse isto, do gostar sem razão, gostar sem saber qual a razão, sem saber enumerar as razões, e essa, ser a melhor razão de todas. Aliás, acho que a única quando se fala em estar realmente apaixonado, quando se fala em gostar realmente de alguém. Mas a sério. Gostar a sério.
É por isso que fico tão triste quando me apontam qualidades, quando gostam de mim por isto ou aquilo, porque gostam de estar comigo, porque dizem que nos damos bem, porque comunicamos, porque assim e assado - em vez de dizer "eu gosto dela, ponto final", espraiam-se em razões (que mais parecem justificações) tão gizadas a regra e esquadro, e racionalizam o que se quer selvagem e sem fronteiras definidas, porque quando se gosta, se barreiras havia, desfizeram-se no caminho, caíram por terra. E o que se ergue em força, de pedra e cal, é isso: o gostar, ponto final.
Amar, afinal.

25 março 2014

Sim, voto nisto.
E faço por isso.
E tu?


Um dia,
quando a única regra
for a ternura da manhã
acordarei entre
os teus braços,
a tua pele será
talvez demasiado bela,
e a luz compreenderá
a impossível
compreensão do amor.

Um dia, quando a chuva
secar na memória,
quando o inverno
ficar tão distante,
quando o frio responder
devagar com a voz
arrastada de um velho,
estarei contigo e cantarão
pássaros no parapeito
da nossa janela.

Sim,
cantarão pássaros,
haverá flores,
mas nada disso será culpa minha,
porque eu acordarei
nos teus braços e não
direi nem uma palavra,
para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luís Peixoto

[...quero a minha perfeição da felicidade... e é parecida com esta... "quando a única regra for a ternura".
Não preciso do inverno distante, de pássaros ou flores, ainda que goste, só quero não conseguir distinguir os meus braços dos teus, ou a minha boca do teu sorriso, ou o teu beijo da minha pele. Não distinguir a realidade da felicidade, pelo menos pela manhã e ao anoitecer. Pelo menos todos os dias. Pelo menos.]
Bom Dia!!

24 março 2014


"O amor não tem de cumprir critérios, só tem de nos fazer felizes. Mas se encontras com quem ser pleno, abre-se dentro de ti uma porta que nunca mais vais conseguir fechar: depois de encontrares alguém em quem consigas ver o arco-íris, a escala musical, todas as matrioshkas ao mesmo tempo, nunca mais nada vai ser igual na tua vida, nem nunca mais vais conseguir ver ninguém com os mesmos olhos**.

E esse amor com as notas todas é coisa para te fazer feliz, e é coisa para fazeres durar."

** é o efeito descrito por Platão no livro VII da República, na chamada Alegoria da Caverna


E o Menino sempre a lembrar-me o que quero esquecer que sei, e não consigo. 

Há coisas que depois de sentidas, vividas, não dá para apagar da alma; ficam gravadas, e mesmo o tempo que passa apenas as torna mais esbatidas, mais escondidas em nós, mais ilegíveis aos outros, mas sabemos sempre - pior, sentimos -,o que são aquelas inscrições que nos ficaram gravadas por dentro do código genético da vida, da nossa vida. 
A mais pequena memória afunda-nos em recordações, em comparações sempre perdidas, em sorrisos tristes avessos ao presente, em vontades sempre desfeitas. Deixamos de acreditar que o impossível é possível, porque vivemos esse impossível, porque o conjugamos no passado, e curiosamente, vamos deixando de acreditar nele, mas mais nada nos serve, nos servirá,  "nunca mais nada vai ser igual na tua vida, nem nunca mais vais conseguir ver ninguém com os mesmos olhos". 
E é uma pena, e ao mesmo tempo, hoje em dia, penso ser uma bênção também. 
Aceita-se melhor a vida depois de desistir dela.
O impossível - a plenitude-, rouba-nos todas as outras possibilidades, o possível - o comezinho-, torna-se para nós impossível de viver, torna-se sobrevivência. Mas sobreviver é instinto, viver é vontade. 
É mais fácil sobreviver (ou assim me ando a convencer...).

23 março 2014

"Aquele amor sem libertinagem era para ele qualquer coisa de novo, e que, fazendo-o sair dos seus costumes fáceis, lisonjeava ao mesmo tempo o seu orgulho e a sua sensualidade. A exaltação de Ema, que o seu bom senso burguês desdenhava, parecia-lhe, no íntimo, encantadora, pois se dirigia à sua pessoa. Então, certo de ser amado, deixou de se constranger, e insensivelmente as suas maneiras mudaram.
Já não tinha, como outrora, daquelas palavras tão meigas que a faziam chorar, nem daquelas veementes caricias que a enlouqueciam; de modo que o grande amor em que vivia mergulhada pareceu diminuir no seu íntimo, como a água dum rio que fosse absorvida pelo próprio leito, e Ema avistou o fundo lodoso. Não queria acreditar; redobrou de ternura; e Rodolfo escondia cada vez menos a sua indiferença."

Gustave Flaubert, in Madame Bovary

18 março 2014


— É pecado sonhar?
— Não, Capitu. Nunca foi.
— Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?
— Divindade não destrói sonhos, Capitu. Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer.

in Dom Casmurro, Machado de Assis

14 março 2014


Ama.
Lavar os dentes ao lado de quem amas.
Apalpar-lhe descaradamente o rabo.
Comer chocolates até te fartares.
Passar a noite a dizer asneiras.
Beijar sempre de língua.
Passar o dia a dizer asneiras.
Mandar o chefe bugiar.
Passar a vida a dizer asneiras.
Deixar declarações de amor escondidas pela casa.

(...)

Beijar incansavelmente.
Não te levares minimamente a sério.
Dispensar quem te chateia.
Tocar um instrumento qualquer.
Perdoar quem é humano.
Desistir do que não te serve.
Lutar pelo direito à parvoíce.
Escrever um livro.
Dar prioridade ao prazer.
Ler um livro.
Nunca desistir de quem amas.
Aprender desvairadamente.
Fazer cadeirinha com quem amas.
Ensinar desvairadamente.
Perder a respiração pelo menos uma vez por dia.
Nascer pelo menos mais uma vez do que as vezes em que morreres.
Viver desvairadamente.
Te.


Pedro Chagas Freitas

[era isto. e mais umas coisas. nossas, só nossas. 'tá bem. Te.
mas nada, nada em ti, para ti, te faz dizer Te. este Te. um Te de ti que seja só meu, só possa ser meu. como o meu Te de ti. namorar-Te. viver-Te. amar-Te. ser-Te.  Te.]

08 março 2014

" O que a exasperava, era que Carlos não parecia ter a mínima suspeita do seu suplício. A convicção em que ele estava de a fazer feliz parecia-lhe um insulto imbecil, e a segurança que afectava, uma ingratidão. 
(...)
Desejaria que Carlos lhe batesse, para poder detestá-lo com justiça, vingar-se dele. Por vezes surpreendia-se com as conjecturas atrozes que lhe vinham ao cérebro; e era preciso continuar a sorrir, ouvir-se a si própria dizer que era feliz, fingir que o era, deixar que os outros acreditassem?
entretanto, repugnava-lhe essa hipocrisia. Assaltavam-na desejos de fugir com Léon para qualquer sitio, muito longe, onde tentaria um novo destino; mas logo na sua alma se cavava novo abismo, cheio de escuridão.
-Afinal, ele já não me ama - pensava ela -; que fazer? Que socorro esperar, que consolação, que alívio?"

Gustave Flaubert, in Madame Bovary

[... e para apaziguar a alma, acalentar o coração, aliviar a angústia, pergunta-se se se perdeu a pessoa??... e depois? ]

"Teriam só aquilo para dizer? Nos olhos de ambos, todavia, desenhava-se um dialogo mais serio; e enquanto se esforçavam por encontrar frases banais, sentiam a mesma languidez invadi-los aos dois; era como um murmúrio da alma, profundo, ininterrupto, que dominava o das vozes. Tomados de espanto por aquela nova sensação de suavidade, não pensavam em comunica-la nem em descobrir-lhe o motivo. As felicidades futuras, como as margens dos rios tropicais, projectam na imensidade que as precede a sua indolência natural, espécie de brisa perfumada, e nessa embriaguez adormecemos, sem nos inquietarmos com o horizonte que ainda se não vê."
(...)
" Quanto a Ema, não perguntava a si própria se o amava. O amor, pensava ela, deveria chegar de repente, no meio de esplendor e fulgurações - tempestade celeste que se abate sobre a vida, a subverte, extirpando as vontades como folhas e arrastando para o abismo os corações. Ema ignorava que, nos terraços das casas, a chuva forma lagos quando as goteiras estão obstruídas; e assim se convenceu de estar em segurança, quando, subitamente, descobriu uma fenda na parede."

Gustave Flaubert, in Madame Bovary

06 março 2014


gostar é estar junto
até quando não.

gostar é estar junto
nem que seja no passado,
o passado presente,
escondido debaixo da pele,
onde o sol não desbota
e a chuva não lava,
onde o fora não chega.

gostar não é precisar,
é não precisar de gostar,
porque se gosta
sem saber precisar como

precisar é subserviente à utilidade
gostar é selvagem,
serve-se a si próprio
e não serve para nada,
não é escravo de nada
senão de si mesmo

as melhores coisas da vida
não servem para nada,
sobrevive-se sem elas,
mas só essas fazem viver.

gostar é estar junto
até quando não se precisa.

14 fevereiro 2014


Eu já sabia o que ia fazer hoje. 
Ia enviar-me fotografada a retalhos... um ombro, a linha do pescoço, a curva da anca, a sobrancelha, aquela curva que segue o contorno onde as costas mudam de nome, as pernas e a boca em beijo... Ia mandar-lhe de quando em quando, pelo telemóvel, pedaços de mim, a preto e branco - sempre a nostalgia melancólica do preto e branco - ia sorrir enquanto o fazia, ia imaginar o momento quando chegasse ao destino e fosse aberto. Ia salpicar o dia assim, de coisas que esperava que gostasses... e que te fizesse esse sorriso lindo e malandro. 
Não fiz, não foi este ano, mas farei ao que for meu próximo namorado. Enviar-me-ei em retalhos fotográficos, a conta gotas, durante o dia, para me dar-lhe inteira ao fim do dia quando lhe cair nos braços à espera que a vontade de me abraçar cada bocadinho daqueles de mim seja tão grande, tão boa e tão doce como aquela que sinto agora por quem nada sente. 
Bem sei que sou tonta, que se calhar não arranjarei um tonto que goste destas tontices, que ache tontices parvas, que diga que não liga ao dia - e eu também não ligo, mas às vezes dá-me desculpa para fazer umas tontices mais tontas (este dia, ou aniversários, ou datas que me marcam por alguma razão, ou só porque me apetece, pronto)... Porque a vontade de abraçar, e querer ser abraçada em cada pormenor, em cada riso e sorriso, ao fim do dia, isso - felizmente, ou não tão felizmente - tenho-a todos os dias. É essa a minha prenda de enamorada todos os dias, o dia do bêbado do cúpido só me dá asas para coisas mais parvas e que não se encontram em lojas.
Dou por mim a pensar, a projectar o fim do dia... quando, finalmente sozinhos, enroscados um no outro em frente à lareira íamos murmurar parvoíces e rir enquanto nos contássemos a tontice do dia na primeira pessoa de cada um. Onde estava quando viu a primeira foto, o que pensou, o que pensei... enfim aquelas coisas parvas que me fazem estar a sorrir feita estúpida agora, antes de fechar a janela do blogger e voltar à vida e à casa vazia, à lareira sem calor junto, aos meus dias e à minha realidade. 
Enfim... um dia a vida acontece. Acontece-me. Um dia. 

P.S. - os telemóveis são um potente aliado do namoro desavergonhado, desde fotos a trocar, a mensagens a trocar para lá de malandras e nos limites da decência de cada um (e cada um tem os seus, e nós tinhamo-los parecidos)...revela-se uma grande invenção se bem aproveitada... foi o que também conclui quando me lembrei de fazer isto... aproveitem!
P.S. 2 - curiosamente nunca penso ou imagino que alguém me pudesse fazer a mim uma tontice deste género, ou doutro, uma brincadeira qualquer... e nunca ninguém (mentira, acho que uma percebeu pelo embrulho brincadeira do meu dia de anos...) percebeu que prendas não me fazem nascer o sorriso de dentro que só me sai pelos olhos. Sou esquisita, ou exigente demais, se calhar.
...eu acho que isto é MESMO assim...
...é lindo, mesmo...
se for assim.


"Houve um ano em que entendi o que é olhares para alguém todos os dias e pensares “eu era capaz de olhar para estes olhos todos os dias da minha vida”. E, ao pensá-lo, isso te preencher de tal forma que a única coisa que te importa é fazer por isso,(...)"

Escrito pelo Menino (bem sei que ando a abusar, sempre a roubar o moço, mas que fazer, quem o manda escrever estas coisas?) e a lembrar-me - a sentir, a reviver - que já me disseram exactamente isto, mas nunca fizeram isso... 
...por isso...
...Só me ocorre dizer asneiras... porra!! $%&@#?&%@#$
...ahhhhh... e mais uma coisinha: QUEM RAIO ANDAR A EMBEBEDAR O MEU CUPIDO HÁ ANOS PARE COM ESSA MERDA SEFAXAVOR!!!, DESINTOXIQUEM O GAJO À FORÇA , AFINEM-LHE A PONTARIA E DÊEM-LHE UNS ÓCULOS, QUE EU 'TOU FARTA DESTA MERDA, SIM??
Agradecida. 
Fico à espera. Sentada para não me cansar, já sei... bahhhhhh

12 fevereiro 2014


"(...) E houve um ano em que entendi que podes levar as pessoas onde quiseres mas não lhes podes pôr amor dentro. Que há, mais que um cansaço, uma atitude existencial por dentro que não consegues tirar com mais mimos ou mais spas que lhe atires contra. Houve um ano em que entendi que há cansaços que não são desculpa para nada e são desculpa para tudo. Houve um ano em que entendi que há cansaços que, no alfabeto de alguém, são anagramas para falta de amor.

Houve um ano em que compreendi pela negativa que o resultado pode ser ortogonal ao esforço. Por mais que faças, não consegues que entendam ou apreciem porque o fazes, ou, mesmo que entendam isso, não interessa nada, porque não te correspondem, acham que não precisam de te corresponder.

Houve um ano em que entendi que as palavras não significam nada. Quem há quem diga amor e ache que isso quer dizer conforto, ou estabilidade, ou acomodamento. Houve um ano em que entendi que um bilhete de avião para ir a Londres on Valentine’s Day ter com alguém não significa nada senão uma oportunidade de passear, e que é possível chegar ao fim do dia cansada e a querer dormir porque no dia seguinte te vais querer levantar cedo para ir às compras. (...)"


Coisas do Menino...

Quanto a mim, houve um ano em que percebi o que é ter-me enganado tantos anos acerca do que é ser amada, porque nunca fui. Um ano em que o dia de S. Valentim me lembra que todos se empolgam por assinalar um dia com grandes coisas, que eu só queria comemorar todos os dias com pequenas coisas, mas que nem vontade para isso agora tenho. Não quero nada. E que, na verdade, é o que tenho: nada. 
É o ano em que recuo à minha adolescência para me lembrar dum beijo a meio dumas escadas enquanto chovia, para depois correr de mão dada e sorriso aberto até ao abrigo mais próximo e aí, acabar  a seco, o beijo molhado e prolongado e colado como todos os primeiros beijos devem ser. Lembro-me dessa paixão que me queimou e me doeu e me matou e me refez, sem nunca se calhar me ter completamente refeito, e que não me deu nada - nem de perto-, do que o amor que dei e senti nos últimos anos, que era Amor, mas era um Amor apaixonado muito doce, muito bom e muito completo, que me fazia sentir inteira e completa.  Lembro-me duma surpresa que fiz, dumas fotografias que tirei para à distância dizer que estava aqui, e que era ainda tua, como sempre. Lembro-me de saber que tudo isso deitaste ao lixo, sem complacência. Lembro-me de pensar há algum tempo que tolice iria eu fazer este ano para te pôr um sorriso nos lábios, que apesar de tudo, quero sempre provocar e regalar-me só a imaginá-lo. Lembro-me como sou triste na minha estupidez tão alegre... lembro-me que tudo é, invariavelmente, um desperdício de vontade e tempo. E que desisti. Lembro-me que desisti e tenho de mo relembrar de tempos a tempos. Desisti.
Lembro-me este ano - principalmente este ano - que tudo acaba e que os dias não são nada. E que não gosto deste dia que aí vem de S. Valentim, lembra-me que as minhas paixões acabam mal e que o Amor não é para mim. 

09 fevereiro 2014

Sabedoria de filme de Domingo (muito) chuvoso à tarde: 
"nunca saberás o que é o amor se não te renderes completamente a ele."
...e esta da banda sonora ficou-me no ouvido...
mais esta (a última do filme):


...can't...

Boa noite...

07 fevereiro 2014

fico só, sabendo
que todos os objectos têm a
forma do teu corpo, e
todos os sons se reconduzem
à tua voz. não deambulo
pela casa – excessiva de ti – fujo-lhe
na ausência de movimento e
no desejo de ficar absolutamente
só. lembro-me de como não gostas
de me ver chorar.

valter hugo mãe

Boa Noite
...hum hum...
...e de que maneira!!!

06 fevereiro 2014


Iupiiii!!!! Ye ye ye!!!!
Consegui!!!
Lá lá lá...
(as vezes não sou tao burra como pareço... Estou contente eh eh)
... Já tenho signo!!
Sou Sagitário, está visto!!
Só pode!!

...com raiva, sim.
Talvez...
Nunca experimentei.
Talvez experimente um dia destes, 
com raiva de ti, mas não contigo...
(sim, irritou-me, deu-me raiva, nunca é comigo. nada.)

Boa Noite


04 fevereiro 2014

"(...) Aqui, a olhar para ti, os teus ombros, os teus pés, as tuas mãos.
A ti que te amo porque me olhas nos olhos e és da minha altura. A ti que te amo porque quando damos as mãos é como iguais e a tua mão busca a minha tantas vezes como procuro a tua. A ti que te amo por milhares de razões minúsculas que somadas são maiores que o mundo. 
A ti, que sei que te amo por este facto tão simples que é saber que me apetece ser velho ao teu lado.
E quando te olho adormecida és ao mesmo tempo tudo o que és, princesa e loba, demónio e anjo, senhora dos meus castelos, guerreira indomável e sempre menina em meus braços.
(Murmuro em silêncio palavras antigas que nunca me ouviste, e falo a coisas antigas dos meus braços à tua volta, meu coração atado ao teu, amar-te, honrar-te, proteger-te do mal.) 
É aqui, a olhar para ti, que percebo que a minha respiração se acertou pela tua.
E dou por mim a pensar que nunca ergueria por ti um Taj Mahal. O meu amor, não quero que o recordem, mas sim que o sintas e que o saibas. Noite a noite, dia a dia, beijo a beijo, mão na mão."

Perfeito para dizer o que penso, o que sinto, o que gostaria de saber dizer assim. Como amo e como gostava que me amassem.

Boa Noite

03 fevereiro 2014

...porque hoje precisava muito de me sentir perto dum qualquer amor que me fizesse sentir bem, protegida, amparada, volto às papoilas da minha infância, e à mão que procurava para agarrar a minha, uma mão forte, quente, cheia de ternura e protecção. Não eram mãos bonitas - de tão esquisita sou com as mãos -, mas eram umas mãos que me faziam sentir bem, mãos que tantas vezes espreitei, de soslaio, noutras mãos que me faziam lembrar essas, que me levavam no tempo até elas, mas também essas já cá não estão, e toda a segurança, a protecção, o sentir que às vezes há mãos que se podem procurar para nos agarrar e não nos deixar cair, tudo isso acabou. Alguém me devia ter avisado que eu devia ter crescido antes disto. Procuro nessas mãos da memória a memória duma segurança que não tenho, e que preciso tanto. E colo, esse colo que me ampara e repara de todos os males, porque os faz num passe de magia desaparecer de mim enquanto semeia de dentro um sorriso que já não sei sorrir.
Tenho saudades, saudades de tudo, de tanta coisa que é o meu tudo, de tantas pessoas que me são e que me faltam... tenho saudades de estender a mão e procurar uma mão como a minha filha procura a minha quando caminhamos lado a lado, e mesmo sem qualquer perigo aparente, ela procura a minha mão, e encontra-a, e segura-a. 
Eu também quero estender a minha mão, mas ninguém ma segura.
Alguém me devia ter avisado que eu devia ter crescido quando as papoilas morreram naquele canteiro.

Bom Dia

01 fevereiro 2014


"Não é preciso mais desculpas. Há que encarar os factos. Chega o dia em que o amor acaba. Finito. The end. E essa sim, é a verdadeira razão para o término das relações. Não é por surgir alguém mais interessante, por irmos viver para outra cidade a km de distância, nem tão pouco por querermos estar sozinhos nesta nova etapa da vida. Todas estas desculpas que damos a nós próprios - estejamos nós em que papel estivermos na relação que agora finda - são apenas uma, ou várias, das muitas desculpas para a verdadeira realidade - a morte do amor. Talvez porque o amor seja um saldo que se esgote, talvez porque as relações necessitem de um esforço mútuo contínuo, talvez porque as pessoas por quem nos apaixonamos - ou a imagem que construímos delas - acabam um dia por morrer. E com elas, o amor. 
Não ocorre de um dia para o outro, não. Também ninguém se apaixona de um momento para o outro. O desejo sim, nem sempre; a mim excitam-me as pessoas inteligentes, por isso talvez goste de pessoas caladas. E com óculos, mas isso talvez seja por querer que me vejam melhor. Também o amor quando morre vai desfalecendo, um sufoco imperceptível, sou eu que não quero perceber os sinais - já não me olha nos olhos quando diz que me ama, agora já nem diz, o sexo tornou-se numa actividade mecânica, marcada pelo compasso do relógio à espera que algo aconteça como que por milagre, a cumplicidade deixa de existir nos pequenos gestos, há quanto tempo não me deixas escrito um bilhete dentro da minha pasta?
O amor morre. Não tenhamos medo, não arranjemos mais desculpas para o nosso fracasso, o excesso de trabalho, o nascimento dos filhos, a boazona do decote pronunciado, o colega carente e mal fodido.
Foram precisos... dez? dez anos para meter na cabeça que o amor acaba. Finalmente posso terminar aquele dia de Setembro (ou foi Agosto?) - talvez antes até, eu estava de manga curta, sem mangas, sem roupa, sem ti, o meu mundo tinha acabado e eu tinha tido o meu primeiro grande desgosto de amor. Hoje, volto a casa, a outra casa, nunca conhecerás esta casa. Deito-me na cama, sei que me deixaste de amar. Apago a luz e sei que já nada disso me importa."


Pergunto-me como se recuperam dez anos que se demoram a perceber o que não quisemos perceber logo, mas estava já percebido. Há tempo demais na constatação das coisas mais óbvias - aliás acho que, quando doem, quanto mais óbvias mais se demora, para tentar adiar o que na verdade já foi. Tentar ver um futuro  diferente no que já é passado. Só o recomeço se adia, mais nada.

31 janeiro 2014

Às vezes apetecia-me começar o dia a dizer isto.
E acabar a dizer o mesmo.
Ainda que calada.

Bom Dia

29 janeiro 2014

...chegaste?
... ou estás de partida?

Boa Noite

...está mesmo um frio do caraças!!
...se ao menos não tivesse tanta preguiça de ir buscar lenha...
Tenho mesmo de arranjar um lenhador....
que só as meias, para aquecer, não chegam...
ehehheheh



Espero-te
Mas conto apenas até dois
Receio o depois
Dizer três
E não chegares
Perder-te de vez.

José Gabriel Duarte

Boa Noite

28 janeiro 2014


(...) o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário Pedreira

[... o sorriso que chamas meu, só obedece ao teu chamar, não é meu: é teu. Começa e acaba em ti. Esse sorriso que dizes gostar, e que nunca ninguém mais viu, é teu, já te disse. É o meu espelho de ti. E, sim, é do "tamanho do medo de te perder", porque o sorriso não sou eu: és tu. Não é meu: é teu, como eu. Não sei se já te disse.]


...ia já para aqui.
Dois ou três dias...
Vinha como nova.
mais nova, vá...
... e com menos um livro na fila dos "para ler".
Maravilha, era mesmo isto.
...houvesse verba!!

Boa Noite

27 janeiro 2014

"O silêncio é uma outra maneira da palavra viver, 
porque há coisas que não podem ser ditas de outra maneira"

Mia Couto

[Há silêncios que são vida, silêncios cheios de vida. Silêncios que dizem coisas que as palavras não sabem dizer, coisas que se sentem sem palavras, que nos deixam sem palavras. Depois há coisas que dão sentido à vida, que, se se vivem, não se conseguem silenciar. Aí, quando alguém se remete ao silêncio é porque não as vive, não as sente, estão-lhe silenciadas, mudas por dentro do que não existe, trancadas no vácuo de coisa nenhuma. É um silêncio sem vida, é o silêncio que pode até ser falado de todas as maneiras, não dizendo nada, é só vazio, como a vida que não nos fala, como quando não sentimos, não precisamos da voz do outro. A sua ausência não nos fala, e nós nada dizemos. Deixamos vazio o vazio, e silencioso o silêncio que não pode ser dito doutra maneira, senão com a ausência (até das palavras).]

Boa Noite 

25 janeiro 2014


... Quando acordo e sem aviso te espreito a espreitares-me desavisado. E aviso-me que te gosto cada vez mais, fecho os olhos ao sono com um sorriso meu de ti.
Bom Dia!

23 janeiro 2014

[Foto de Bartosz Tylinski]

Nunca um olhar me seduziu tanto quanto o dela. Dois continentes da mais pura sensualidade, do mais terno acolhimento, da mais devassa cumplicidade. Há duas semanas que não saio de casa: só a ideia de deixá-la sozinha é um sacrilégio. Trocá-la por quê? Pela porra do emprego? Pela companhia dos amigos, essa corja de mal-amados? Pela vidinha, a expediência lamacenta das obrigações e dos compromissos? Deixo-me ficar. A ideia de estar a faltar ao trabalho, de cortar ligações com as pessoas, de responder mal a quem me telefone, de, enfim, deitar tudo a perder, erotiza ainda mais os nossos jogos de amor.

J.P. Simões, O vírus da vida

[o que eu gosto deste homem.... e agora ainda gosto mais, danadinho... sabe o que importa e o que não interessa (exageros literários aparte, obviamente...).
A ser-se louco - ou mesmo doido varrido -, que se seja pelas melhores razões. E ele é-o, ou parece.]

22 janeiro 2014

"Eu acho que não amamos apenas alguma coisa porque ela é bela, 
mas que ela é bela porque nós a amamos."

Robert Musil

[há coisas que só consigo entender assim, e entendendo assim, não entendo nada...]
Boa Noite

21 janeiro 2014

tenho os olhos feitos à medida da tua cara
e só tenho olhos para ti
quando não estás sou invisível e quase invisual
a visão não me serve de nada
vejo mas sem cor e é pior que a preto e branco
é desfocado
é esbatido
e sem chama
e sem cheiro
contigo cheira bem
sabe bem.

João Negreiros

[sabe muito bem, por pouco que seja, nada cheira tão bem, nada que eu conheça é tão bom.
É pouco, mas é tudo.
Quando o pouco é tudo, o tudo não é pouco, mas com pouco sente-se tudo.
Por pouco temos tudo, falta pouco. E no entanto falta tudo.
Faltas-me.]

Bom Dia

19 janeiro 2014

"O mundo fantasmal é o mundo que não foi completamente conquistado. É o mundo do passado, nunca o do futuro. Avançar agarrado ao passado é como arrastar uma corrente e uma bola de ferro. O prisioneiro não é aquele que cometeu um crime, mas sim o que se agarra ao seu crime e não deixa de o reviver. Somos todos culpados de um crime, do grande crime de não viver a vida na sua totalidade. Mas também somos todos potencialmente livres. Podemos deixar de pensar naquilo que não fizemos e fazer o que quer que se encontre ao nosso alcance."

Henry Miller, in Sexus