Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

12 julho 2015



"por muito que pareçam similares, "estar só", e "estar sozinho", são quase opostos.
quando se está só, sente-se uma tristeza imensa, uma falta de alguém que seja a nossa procura, o nosso objectivo de vida: uma amizade, um amor, ou uma família. quando se está só, pode-se viver o mais bonito dos momentos e continuamos a sentir o vazio de não ter alguém que, longe ou perto, presente ou ausente, seja a pessoa que gostávamos de partilhar aquele bocado de vida.
estar sozinho é diferente - porque é um estado de alma transitório. é quando se passam aqueles momentos apenas connosco, entre o jantar de amigos de ontem e o beijo de amor de amanhã. quando se está sozinho, especialmente quando é por opção própria, sente-se um alivio imenso de poder fazer o que se quer, como se quer, quando se quer, porque haverá sempre alguém que nos acompanha. para quem "está - apenas temporariamente - sozinho", mesmo no meio do vazio, sentimo-nos completos, realizados na forma como vivemos, como partilhamos, mesmo no silêncio.
na correria dos dias e das agendas cheias, pode-se disfarçar a falta do que queremos: entre risos e abraços amigos, tudo parece menos menos urgente. mas também é aí que realmente damos valor ao que precisamos. porque não é de um abraço, é daquele abraço. porque não é de quem nos faça rir, é daquele riso que é igual ao nosso. não é de um beijo de carinho, é daquele beijo em que se sente o ar a fugir. a certeza de uma paixão maior, é quando nos sentimos sozinhos, mesmo no meio dos nossos. é aí, que percebemos que a vida só faz sentido ao lado de quem amamos. que cada alegria vivida com os outros, é sempre incompleta, pela falta de partilha da nossa outra metade. confusa esta coisa de viver: quando se está longe de quem queremos, sentimo-nos sozinhos no meio dos amigos, mas completos nos momentos de solidão.."

Escritos destes momentos

Tão verdade, pelo menos para mim.
Estar sozinho é muitas vezes uma opção, é preferir a nossa companhia ao ter alguém ao lado que pouco nos diz e nada, ou quase, nos acrescenta - alguém que na verdade não queremos. Grande parte das vezes que estou sozinha é opção minha, sempre, e de cada vez, que me sinto só não. A solidão não é opção, é um estado de alma que nos lembra que sentimos falta de uma parte de nós. Nso conseguimos escolher não o sentir, não é opção faltar-nos, se nos falta é porque não sabemos onde reencontrar essa parte que nos fugiu, ou sabendo, nao a podemos alcançar. Curioso é que quando a alma está nesse estado, estamos menos mal sozinhos, parece que os outros nos atrapalham a solidão mas não a afastam de nós. Então afastamo-nos, escondemo-nos na nossa solidão, onde encontramos o sítio do que nos falta, onde estamos à vontade com as nossas vontades, onde estamos sozinhos. Por opção.

Boa Noite

11 julho 2015


(Foto @adolfovalente)

A luz entra devagar pela janela, o vento corre com pressa lá fora, saio da cama ainda entorpecida do calor dos lençóis, que, vagaroso, me vai abandonando a contragosto. Gosto de acordar devagar, de gozar a lentidão permitida dos fins de semana sem horários, das obrigações sem horas, dos deveres reduzidos ao mínimo para dar espaço à liberdade de nos dispormos no tempo como se ele não existisse. Fazermos o que queremos dentro do que podemos fazer. Gozar, afinal, a nossa liberdade. A esta hora ainda mal a cama saiu de mim, e eu, talvez por isso, ainda não me tenha enfiado completamente em mim, ainda me passeio nua de mim, numa languidez preguiçosa de mundo. Quando a pele acordar e a cabeça despertar vou precisar dum café ao sol, de ver gente, de sentir o vento na pele, de a cobrir com coisas leves e frescas, que ondulem atrevidas ao vento, e que não me acordem a consciência da vida de repente, antes a guardem e esqueçam onde. Começar um fim de semana como se nao fosse fim, mas início. De tudo. De nada. De mim outra vez eu.

Bom Dia

10 julho 2015

Há quem já o tenha começado. Também gostava de começar o descanso mais cedo, com boas perspectivas e vontade, e orçamento adequado, pois claro (mas eu é que pago as minhas contas e isso enfim encolhe um bocadinho as coisas que se podem querer fazer... ); mas eu só agora começo a pensar em modo de fim de semana...
Bom fim de semana!! Que seja assim, com esta boa disposição, e braços lançados aos céus!!



“Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música. 
Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. 
Tem o peso de uma lembrança. 
Tem o peso de uma saudade. 
Tem o peso de um olhar. 
Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. 
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."

Clarice Lispector

[há dias em que a minha alma também pesa isto tudo, pesa-me nisto tudo.
Hoje estou assim, será do tempo? Não da falta de sol (ainda que também), mas do tempo que não passa, e o tempo que não nos passa tem um peso terrível, prende-nos o olhar, embarga-nos os movimentos, enrola-se como um novelo na garganta. Há-de passar. O tempo, e eu sentir-me assim. Chamam-me intensa, e nestes dias o que não dava para não o ser...]

09 julho 2015

- As pessoas juntam-se normalmente por um objectivo comum, ou é isso principalmente que as mantém juntas, não é gostarem muito uma da outra, pelo que vejo. As pessoas acomodam-se, e nem se chateiam, aliás é por isso que não se chateiam.
- Achas que ele casou mas não gosta dela?
- Ele gostar, gostou realmente duma pessoa, por essa realmente ele correu atrás, depois não deu certo, ela não sentia o mesmo. Mas não digo que não goste da pessoa com quem casou, eles dão-se bem, queriam os dois casar e ter filhos... querem as mesmas coisas, ou coisas parecidas.
- Sabes, acho que a partir do momento em que gostas a sério de alguém, em que achas que encontraste "aquela pessoa", qualquer outra serve perfeitamente. É como se a partir daí todas fossem igualmente erradas, nenhuma é a que elegeste como "a certa", o que as faz todas igualmente certas. Estão todas feridas da mesma falha, nenhuma será "aquela pessoa". Por isso, no fundo, qualquer uma é certa.
- Acho que é mesmo isso. De certa forma, depois, qualquer uma, ou quase, nos contenta, por sabermos que nenhuma nos fará feliz. Escolhe-se alguém com objectivos comuns e vive-se com isso.
- Pois... Vive-se com isso. Não sei se consigo "isso" para viver...

[Tive esta conversa há uns dias e agora, aqui, lembrei-me disso: como a partir de certa altura é tudo um bocado indiferente. Como os dias, talvez. Antes de esbarrarmos com certas coisas achamos que podemos escolher melhor ou pior, pensamos que há escolhas mais acertadas que outras para a pessoa certa para nós, racionalizamos. Depois percebemos que só se pode escolher mais acertadamente ou menos a pessoa que nunca será a certa, porque essa, infelizmente não se escolhe, sente-se.]




O dia está a ir-se embora, dissolve-se no ar como o fumo deste cigarro, e no ar não fica nada a não ser o cheiro. Nada mais resta, nada mais há.
 Já não sei sair de mim, fico-me em mim como se assim me perdesse menos, mas o que encontro em mim faz-me perder ainda mais. Não me encontro, não sei se me resto, não sei se de mim algo mais ficou além do cheiro, que as janelas abertas varrem do ar, esquecem.

Boa Noite

08 julho 2015

Apaixonei-me... estou tramada!! 

Porque é que estas coisas me aparecem à frente, humm???
eu que tenho uma pancada por bikinis... 
de repente apanho isto, assim desavisada!... Não há direito!!


 Não sei de qual gosto mais... 
"eu tenho dois amores"... 
e não vou comprar nenhum que são caros que dói!!!....
(daqui)
e a mim também não me ficariam assim, pois claro...não tenho sorte nenhuma... bahhhh
(é muito raro pôr aqui coisas relativas a trapos e afins,
mas estes são tãaaooooo giros!!... quero!!, queria, melhor dizendo...)

... Se nunca o tiverem usado, se não souberem como funciona, não me perguntem e não se aproximem. Não tenho as instruções. 
(Os outros são bem-vindos... aproximem-se eheh)

Bom Dia!


- Posso falar consigo?
- Vem nu?
- Ahahah... sua taradona!
- Não é esse nu, é o outro, aquele que me prometeu um dia... E se há aqui alguém tarado não sou eu, seu taradão!
- Tarado por si, só por si, já lhe disse mil vezes.
- ..... Pois sim.

[as coisas que me aparecem na cabeça não têm explicação... Mas mais realista era difícil, seria facilmente exactamente assim... O rir, as perguntas em aberto, as frases recorrentes, as brincadeiras de parte a parte... Enfim rio-me sozinha com estes assaltos de coisas parvas e tontas à cabeça... E com isto quase oiço chamarem-me tonta (entre outras coisas igualmente tontas...), e isso ser carinhoso, ser bom, eu gostar e ser tratamento recíproco, sempre bem disposto... Será que o próximo me vai chamar tonta?... Ou será que vou deixar de ser tonta? Naaaa não acredito... Nem quero.]

07 julho 2015

...Vamos passear?
... andar um bocadinho pela beira mar com as calças arregaçadas, o sorriso rasgado, 
e o olhar a servir de sol depois do sol se pôr??...
Até que era um bom programa não programado, depois duma tarde fechada numa sala em reuniões chatas e que só dão preocupações, e assim: decidido à última da hora, espontaneamente, perguntado de repente, sem apelo nem agravo: "queres?" e logo respondido sem cerimónias: "vamos"... 
...era bom, mesmo que nem sempre dê para acontecer, a vida nem sempre nos liberta assim, mas em dez vezes talvez uma se consiga, e desde que se vá alternado quem lança a primeira pergunta (sim, sim, que isto de puxar carroças é para bois...), e que a vontade esteja sempre no irmos, é bom...
 digo eu, que não percebo nada disto.... parece-me que são programas pouco apreciados, sei lá... como a ronha de fim de semana... Onde raio se arranjam criaturas para estes programas sem programa?

Há dias a ouvir uma banda à espera do concerto que queríamos ouvir, depois de comentarmos que a banda não valia nada, uma amiga vira-se e diz:

- oh não sejas assim, pelo menos são músicas originais, deles, não achas??
- acho pois... É que ninguém ia copiar esta merd@...

lembrei-me agora... Nem sei porquê desta cena cómica porque quem estava comigo desatou-se logo a rir, percebeu-me logo, e eu gosto disso, estar com gente com sentido de humor e o mesmo comprimento de onda. Muitas vezes apercebo-me que não percebem, e estar com gente dessa é uma seca...

[parece que isto hoje está para a parvoeira... Há dias assim, paciência, ao menos que dê para rir...]
Ahshahahahah...
Oh pahh tão bom, mas tão bom!! 
Como se lembram destas coisas para dizer não faço ideia, mas que tem piada tem... 
Se mo dissessem a mim não faria ideia do que responder 
(o que, convenhamos, não costuma ser coisa fácil, geralmente) 
mas se calhar é por isso que ainda me estou a rir ... eheheh... 
Cara feia já é punição suficiente, e uma boca destas é letal... Mas muito, muito boa!!

Bom dia
[uma volta na cidade atrás da lua e encontrei-a melhor onde te encontrava... Coisas tontas, muito tontas]

Uma volta na cidade de noite, com pensamentos a correr o seu curso sem conhecer destino ou foz, depois de quase uma garrafa de vinho levezinho e conversa de amigos, é coisa boa. Não a coisa boa que agora me apetecia ao sair, mas coisa boa, sim, e porque não?! Como dizia Caetano saudades é "melhor que caminhar vazio, tenho o sonho em minhas mãos. Amanhã é um novo dia"... (Ou qualquer coisa assim sou péssima a decorar, guardo só o sentido das coisas... Antes decorasse, as citasse correctamente, em vez de tão perfeitamente lhes sentir o sentido, se calhar...)

06 julho 2015


"É inevitável a separação pela viagem. Vamos rompendo e recomeçando aflitos regressos. Começamos, cada vez mais cedo, os espaços interpostos por resoluções definitivas. 
Dura-nos a abstinência um impaciente sossego contrariado. Retornas-me e dou tréguas à prudência. Suspendo a premeditação."


Há palavras que vemos escritas que reconhecemos trazer gravadas por dentro, lê-las é reconhecer uma parte de nós que não líamos assim, não as saberíamos dizer assim, mas que é exactamente assim que nos estão gravadas na memória dos dias, das noites, à sombra dos anos que passaram. Lemos e sentimos o que na altura sentimos a cada "espaço interposto por resoluções definitivas", sempre definitivas, sempre a dar luz ao "sossego contrariado", sempre o retorno a tudo e a suspensão de tudo o que é definitivo. Sempre os aflitos e urgentes regressos esmagados nos abraços que se fundem e se tornam casa, na pressa da vontade de nos sentirmos no outro, encostados, engolidos, tão colados que a pele se confunde e baralha, sentindo-se no lugar certo até à resolução definitiva seguinte - a separação, sempre. E  sempre que o retorno me batia à porta, eu abria. Sempre entendi que vinham por quererem, por gostarem. À minha porta nunca houve obrigações, dependências, manipulações, insistências, se me batiam à porta era porque me queriam, porque gostavam, me gostavam, sempre e de cada vez. Nunca fui bater à porta de ninguém, nunca pedi que ma abrissem, nunca fui atrás de nada, mas deixei sempre que viessem atrás, e sempre abri a porta que nunca cheguei a fechar, sempre dei tréguas à prudência que na verdade nunca tive, e nunca usei de premeditação. Devo ter sido a única.
....GRRrrrrr 
a sério há gajos tão, mas tão estúpidos que para além duma bênção à humanidade, era um favor aos próprios que emudecessem, que se calassem, que se poupassem a debitar alarvidades, a sério... irra que há gente estúpida que só serve para chatear, atrasar e inviabilizar qualquer melhoria, nem para eles são bons!!.... não há pachorra... ou eu não tenho, detesto gente estúpida...


... Se cada um tem o que merece, 
como é que raio eu não acordei aqui?? Hum? 
Eu mereço pahh!! 
Onde é que eu reclamo, hein?

Bom Dia
[foto de Ryan Muirhead]

“Tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados
tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido
e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado.”

Alice Ruiz

[a vaga impressão de alguém nor ter ficado só se sustenta se houver a impressão que do outro lado também nos guardam, senão a sensação - todas as sensações que guardamos de memória -, desbotam como fotografias de momentos que se viveram, cristalizados no tempo e presos num papel, que vai perdendo a cor, tal como a memória do momento: o sabor, o cheiro, o toque.
 Alguém nos ficar sem lhes ficarmos é um desperdício de afecto, de amor, de vida. Cansa e esgota-nos. Um dia esgota-se. ]

Boa Noite

05 julho 2015


Passeios a céu aberto, boa música, companhia que ri connosco, sol e um Domingo a começar bem depois de uma noite dormida a correr. Gosto quando os dias começam depois duma noite dormida a correr mas a valer a corrida. Afinal vale sempre a pena se a alma não é pequena (se não é exactamente assim que Pessoa o disse, é parecido, a ideia é essa).

Bom Domingo, deixem o sol lamber-vos a alma, é o que vou tentar fazer :)

04 julho 2015

... Sim, como o ar quente, as almas que guardam calor levantam-se sempre. Há uma qualquer força, algo que, mais tarde ou mais cedo, as impele a isso, e renascem das cinzas que a lucidez sopra, na verdade que não se nega, não se escamoteia e não se alinda. Talvez o amor ao que é verdadeiro as leve a levantarem-se sempre. Por dura que seja a verdade, prezam-na demais para se deitarem, acomodados, na mentira fofa. É preferível enfrentá-la e rumar ao desconhecido navegando incertezas, do que ceder à fraqueza cômoda e sem espinha da mentira certa, do fechar dos olhos na hipocrisia de se fingirem abertos e despertos, num teatro encenado onde apenas resta um silêncio vazio, uma solidão desoladoramente acompanhada, quando cai o pano. Depois de se terem aberto os olhos para certa vida, não se consegue mais fechá-los ao que se viveu, ainda que se guarde tudo embrulhado no maior silêncio fechado por dentro da pele, o olhar que se verte para o mundo nunca mais é o mesmo: o mundo nunca mais é o mesmo. Nós também não.
As almas grandes - acredito -, não negando o que viveram, o que sentiram, o que se deram, o quanto amaram e sofreram, são fortes o suficiente para depois de sucumbir à vivência, depois da queda, se levantarem, e ainda que doridas e cambaleantes, seguir para a vida com vida dentro. Essa vida, essa essência quente e verdadeira, que as deixa cair é a força que as levanta.


[talvez quem me disse ser de alma grande tivesse alguma razão, espero que sim]

Bom dia

03 julho 2015


"Há muito que furtivamente lhe contemplava os lábios, e o resto, e está seguro de ter fantasiado e imaginado o impensável com aqueles lábios e com o resto, antes de ter a sombra da sua realidade diante de si. Ter imaginado aqueles lábios, e ainda o resto, noutros lábios e noutros corpos tem sido também uma penitência. Acto de contrição: um dia ainda viverá somente a sonhar com ela. Um dia."


Estava eu naquela disposição de pôr aqui uma parvoeira tonta para me rir e fazer rir, quando resolvo dar uma espreitadela ali nos vizinhos do blogroll... e deparo-me com isto do JM na sua Elasticidade do Tempo... e fico-me por aqui, por estas linhas - prendem-me a atenção, soltam-me pensamentos. "Um dia viverá somente a sonhar com ela"... será assim o tempo tão elástico, e será isso um acto de contrição?... 
...Estou na mesma, continuo cheia de perguntas, de interrogações, de cada vez mais pairar entre palavras e ideias, tentativas de entender o que não será de entender. Mas, como dizia alguém: "eu sou assim". Pois, e eu sou assim, na verdade ninguém muda, já se sabe. Quanto muito moldamo-nos um pouco para acomodar diferenças e mudanças, mas nunca mudamos a nossa essência... a minha é ser um constante ponto de interrogação (como também alguém me costumava dizer a rir).
Não fica aqui nenhuma parvoeira para rir mas fica este texto que me fez parar o dia por instantes.

Bom Dia.


... Que lua enorme, linda a fazer esquecer o frio, a aquecer a alma embalada pelos sons. E eu que não tiro a mão do queixo por muito que queira, mas há estrada para andar e tem de se continuar, "enquanto houver ventos e mar". E pode ser que me tirem a mão do queixo. Ainda não me entreguei à infelicidade como sentença do destino escolhido. Escolho não me entregar a nada se não me fizer feliz. Escolho não desistir de viver (-me). 
Não será fácil, mas mais difícil é desistir. Alguém que eu gosto muito dizia-me no passado fim de semana: "tu nunca escolhes o caminho mais fácil, escolhes sempre aquele que achas que é certo, por muito difícil que ele pareça, ou não. É o que sentes ser certo, e vais." 
Não serão fáceis os tempos que se avizinham, e nao há ventos para enfunar as velas, mas como diz o provérbio (sou fã de provérbios...) "quando não há vento, o remédio é remar". É o que terei de fazer. Por enquanto vou descansar, deixando-me ir com a maré, foram muitos anos a remar contra muitas marés. Agora a maré é minha, ou eu dela, será o mesmo por enquanto.

Boa noite

02 julho 2015

"Love me two times girl
One for tomorrow, one just for today
Love me two times I'm goin' away"

Vi isto e lembrei-me de receber esta música no meu mail, em vésperas de férias ou de coisas desse género. Engraçado, pensava nisto e recebo um convite para ir amanhã à tarde esplanar, que vêm para estas bandas. Querem passar a tarde numa esplanada, entrar de fim de semana mais cedo, estar comigo, ouvir a minha gargalhada pura, confirmar a minha originalidade e continuar a surpreender-se com o meu ser destravado. E eu sorrio - meia sem jeito, que ao telefone não se vê e eu não digo - e fico a pensar que já não me lembro de alguém se lembrar de mim para passar uma tarde de sexta a esplanar, a incluir-me nos seus planos, ou ter vontade disso; já não me lembro do que é ser uma qualquer espécie de prioridade para alguém. E nisto percebo que se fosse há uns tempos, e a mensagem doutra proveniência, eu arranjaria maneira de, sem dúvida nenhuma - nem poria outra hipótese, quando se quer mesmo, arranja-se maneira -, ter tempo para esplanar na sexta feira à tarde, em frente ao mar, e a um prato de ameijoas, ou qualquer coisa boa com sabor a mar e a soar a mar, e a amar estar. Percebo, com alguma amargura, que sempre fiz prioridade de quem nunca me fez coisa nenhuma na sua vida. E tenho pena de não ter a mesma vontade de fazer deste convite uma prioridade, mas tenho muita vontade de ter essa vontade, talvez por isso vá tentar espreitar o mar na sexta feira, e ouvir alguém dizer-se surpreendido comigo, que me acha original, com piada, e com uma gargalhada que vale a deslocação. Isso agora para mim talvez seja a minha prioridade, mas não é a prioridade certa, eu sei. Mas sabe-me bem e temos de começar por algum lado... e a ver o mar, ainda que não me saiba a mar, pode ser um bom principio. O mar faz-me sempre bem. 

... Estou exausta, esgotada, preocupada. Agora só queria uma dose de silêncio confortável, umas horas de colo doce de mimo e uma noite inteira encostada à minha almofada de sonho. Amanhã acordaria com outra força e muita vontade. 

Boa Noite

01 julho 2015

Ahahahah
Sim, é isso, por experiência própria (vasta, diga-se de passagem...) te digo, é a velocidade a que te consegue despachar, assim, simplesmente e sem espinhas... Mas com muito cálculo!... 

Bom Dia!

30 junho 2015


... Procurar poisar com o pôr do sol.
... Tentar aquecer com as cores.
... Falar o que não se diz, calar o que não foi dito.
... e agora, para desanuviar e descontrair, 
era ir dar uma volta neste belo animal!!
Isto sim era um bom final de tarde,
 a trote ou a galope, e depois a passo para descansar, 
ou ao contrário, sei lá... 
Só sei que era bem pensado e ainda melhor feito!!
(eheheheh)




"Copiaste? Fizeste bem.
Copia mais, sem canseira.
Copia, pilha, retém.
É a única maneira
De não escreveres asneira."


Fernando Pessoa
(heterónimo Joaquim Moura Costa, pode ler-se aqui)

Se há coisas que me irritam é a falta de honestidade, qualquer uma mas aquela que procura usar as coisas dos outros apenas para se parecer melhor aos olhos dos outros dá-me a volta ao estômago!! Quem precisa das ideias dos outros, das palavras dos outros, para parecer bem, para dizer coisas interessantes ou bonitas, para parecer inteligente ou sensível, deve-se sentir uma verdadeira merd@ por precisar do que não é seu para os outros o apreciarem, o elogiarem, o considerarem.... isso deve ser terrível, saber que precisam disso, porque sem isso afinal não são nada, ou não se acham nada!! Têm de enganar, mentir, manipular, para parecerem ser alguma coisa que acham que vale a pena. Entristece-me tanto isto quando o vejo vindo de alguém próximo, muito ou pouco, não interessa, é aí que percebo que é uma coisa tão disseminada, e tão rasteira, que vejo-a em todo lado. Mas nesta não me duvido, estou certa de que é deplorável... é tão feio, tão baixo, tão reles!!
Que não gostem do que eu escrevo, que chamem lamechice ou outros adjectivos que tais; que não concordem com as minhas ideias, que as refutem, contra argumentem ou ignorem; que gostem ou não gostem de mim; que me adorem ou me detestem... uma coisa eu tenho a certeza: é de mim e das minhas ideias, do que sou: o que vêem e avaliam sou eu. Prefiro que me detestem assim, genuinamente, do que me adorem se me fizer quem não sou... porque aí gostam de uma pessoa que não existe, é uma espécie de personagem-"artista", de teatrinho barato nada artístico, de desonestidade.
Bem sei que o maior elogio que nos podem fazer é copiarem-nos, eu sei; porque, lá está, quem não tem ideias próprias, ou cabeça para pensar, ou capacidade para dizer as coisas de certa forma, copia, e copia sem dizer de onde, fazendo-se passar por original, porque  de original não lhe sai nada, ou nada que os próprios achem de jeito, pronto. Copiarem é por isso sempre um elogio ao que é copiado, a quem é copiado, o problema é que quem o recebe não o merece. Raramente o elogio chega ao verdadeiro destinatário, porque raras vezes os copiados têm conhecimento (aliás como não o têm quando são válida e correctamente citados, mas aí ninguém está a roubar nada ). Eu fui copiada algumas vezes, e dessas soube algumas ( e sim foi um elogio, claro!!), mas sei de tantos casos desse género, que me irrita. E sempre que posso, corrijo-os. Acabei de fazer uma dessas correcções, e esta desiludiu-me, veio de demasiado perto e é demasiado feio, mau, reles, rasteiro. 
Que maneira de começar o fim de tarde, irra!!
Eheheh... Não, a esta hora ainda ninguém passou da primeira linha... 
(E isto lembrou-me quem passava logo para a última, e só depois se lembrava das outras, com mais tempo... Eheheh)

Bom Dia

"E outra coisa: isto que eu vi não é nada, mas, em contrapartida, é muito aquilo que entrevi e o que entrevi foi o risco de perder tudo. O Robledo não interessa. No fundo é um frívolo que nunca chegaria a interessar-lhe. A menos que eu não a conheça de todo. Bom, conhece-la-ei? O Robledo não interessa. Mas e os outros, todos os outros do mundo? Se um homem jovem a faz rir, quantos poderão enamorá-la? Se um dia ela me perder (a sua única inimiga será a morte, a maliciosa morte que nos tem marcados), teria a vida inteira, teria o tempo nas suas mãos, teria o seu coração, que será sempre novo, generoso, esplêndido. Mas se um dia eu a perder (o meu único inimigo é o Homem, o Homem que está em todas as esquinas do mundo, o homem que é jovem e forte e promissor), perderia com ela a última oportunidade de viver, a última respiração do tempo, porque se é certo que o meu coração agora se sente generoso, alegre renovado, sem ela voltaria a ser um coração definitivamente envelhecido.
(...) Levava comigo um vergonhoso temor do seu silêncio, sobretudo porque sabia de antemão que ainda que ela nada me dissesse, eu não iria investigar nem perguntar nem reprovar. (...)  Creio que a minha mão tremia quando rodei a chave na fechadura. «Porque é que chegaste tão tarde?», gritou da cozinha. «Estava à tua espera para te contar a última loucura do Robledo, que tipo, aquele! Há anos que não me ria tanto!» E apareceu na sala de estar com o seu avental, a sua saia verde, a sua camisola preta, os seus olhos limpos, cálidos, sinceros. Nunca poderá saber do que me estava a salvar com aquelas palavras."

Mario Benedetti, in "A Trégua"

[Nunca vi os olhos limpos, cálidos, sinceros, que me salvassem. Essa segurança de estarmos do outro lado dos olhos, do que dizem ser o espelho da alma, e vermo-nos nesse espelho, nas palavras, no cuidar, no importar-se, no querer saber e  às vezes ter medo de saber, por ter medo de um dia acordar com um coração ressequido e morto, ainda que a bater. O ciúme é o medo de perder o nosso lugar na alma do outro,  de termos de voltar sozinhos para a nossa alma, que o alberga ainda. O ciúme é o medo de quem ama, descobrir amar sozinho. É o medo que alguém veja o que nós vemos quando olhamos para quem amamos, e que quem amamos veja noutra pessoa o que não vê em nós, e gostem, e queiram. E por isso às vezes trememos, quando rodamos a chave na fechadura, quando começamos uma conversa que tememos o que nos revelará, quando ouvimos o que preferíamos não perceber. A única coisa que nos pode salvar são os olhares que nos abraçam, que nos fazem sentir a alma em casa, que nos afastam as nuvens da insegurança, do medo. É o que nos dizem os olhos que nos pode salvar. E às vezes nem isso.]

Boa Noite

29 junho 2015


Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.

Luis Filipe Parrado, in Entre a Carne e o Osso

Muito, muito, BOM.
Li e adorei, encaixou-me na alma tão perfeitamente, como o amargo da doçura, e o doce da amargura (que conheço bem demais).

[É mesmo isto, e é isto que dá este sabor amargo do viver, que de tão doce não se esquece. Talvez quem nunca trincou com ganas a casca saiba o que é isso do doce sabor do amargo que os dentes rasgam, arrancam, sofrem, mas bebem de doce. Talvez nem todos tenhamos dentes e unhas para arrancar o que é nosso dos sonhos para as mãos, para a boca, e ao mesmo tempo arriscar a fome. Talvez nem todos queiram alguma vez tanto uma coisa que a arranquem com vontade no sangue e nos gestos, com a força das convicções quase selvagens, quase impregnadas de instinto, não de sobrevivência, mas de Vida, arriscando unhas, dentes, sonhos, dias, noites, anos - vida. Arriscando tudo. Porque a faca de cabo preto, descasca sempre, mas não amarga e não adoça - o sumo não é o mesmo. Também não o é a dor, o medo e a amargura, ou não sabe ao mesmo. E o que interessa é ao que nos sabe, toda a gente sabe.
Talvez se pudessem avaliar as pessoas que padecem de instinto de vida pelos dentes e pelas unhas, talvez devesse haver uma maneira de se saber da cepa de quem nos toma os sonhos antes de lhes sucumbirmos com unhas e dentes, com dias, noites e anos - com a vida toda. Talvez devêssemos espreitar as gavetas: onde a faca faltar, é usada. Talvez devamos atentar no cabo do mero utensílio, onde exibam a faca e a sua qualidade, como artigo de (e em) si mesmo, onde isso importe e se cultive, se trate e se retrate, ela não só (mal) descasca, como se sobrepõe a todo o descascar da laranja, ao trincar, ao sumo que nos escorre pelo queixo, pelos dedos, pelas mãos, de quem a trinca e se lambuza. Na vida, só quem usa unhas e dentes se lambuza. E sabe como isso pode ser amargo.]

 
...Ou se está, não faço ideia onde!!
Mas eu ando a tentar ser mais arrumadinha, 
até ando numa de arrumações e tudo:
coisa rara nunca vista...

Bom Dia!
[temos de nos rir, e eu ando a precisar mesmo... disso, e doutras coisas,
 mas para o rir há estas coisas que se apanham por aí e que conseguem o objectivo, há que aproveitar...]

28 junho 2015

Parece-me que sim, que é a única hipótese.

Bom dia

Incendeia-me e dá ao fogo a tua água. 

Quero o fogo que a tua água apazigua e alimenta.

A fome que me comes
A sede que me bebes
O acordar que me despertas.


[é o que dá ouvir as letras das músicas, quando ouvi hoje "set me on fire" foi isto que me apareceu na cabeça, e que agora, a ler as estrelas que me olham, acabo de escrever. Maldita cabeça...]
Boa Noite


27 junho 2015

Não sou moça de muitas flores, mas enquanto esperava espreitei-as. Não encontrava as que gosto mais, encontrei muitas, algumas nem conhecia, mas não me importam os nomes, os rótulos, interessam-me os conteúdos. No fim lá as encontrei, as que gosto mais, e nem sei porquê. O mais simples às vezes parece tão difícil de encontrar... Porquê? Será o menos procurado? Lei da oferta e da procura? Rosas vermelhas havia em todas as bancadas. E não sucumbo a esse encanto. Não me prende... Porquê? Seria mais fácil, o mais simples parece sempre tão complicado de encontrar...



Bom Dia.

26 junho 2015

Eis um bom exemplo duma boa viagem de carro parado.
Entrem bem no fim de semana...


Há dias em que o acordar é uma desolação. Talvez por ser o dia seguinte a um dia anterior que nunca muda, onde cometemos os mesmos erros, ouvimos as mesmas coisas que nada dizem, percebemos as mesmas hipocrisias, e sentimo-nos impotentes perante tudo, talvez não sejamos, mas sentimo-nos como sendo, porque sempre parece faltar a coragem para o ontem não ser hoje, outra vez. Há dias em que acordamos mais lúcidos, mais cépticos, mais realistas e tão mais enevoados. Hoje é um dia desses, até agora.

... Não?!?
... Mas será que eu tenho de fazer tudo????....
 Tiro a tua, a minha... Irraaa!!
Tu fazes o quê??... Hum??... 
Ficas a ver, né?
...espertinho.
(eheheh)

Boa Noite

25 junho 2015

... e agora apetece um café.
Naquela esplanada, apelidada de chuta cus, ao sol, a caminho de casa.
Bebida atrás dos óculos de sol, o amargo do café 
com o doce do que já não se sonha mas ainda não se esqueceu. 
O sol sempre aquece, que a alma já não esquenta a pele.


"Não sei se é isto o amor, fazer contigo planos e projectos e todos incluírem foder-te. Há quem construa casas para morar, ou para exibir, ou só para as ter, eu tudo o que construo inclui a minha língua na tua, a tua mão na minha, eu dentro de ti como tu estás dentro de mim.
As histórias de amor parecem ser outra coisa; nunca ninguém falou da tesão de Romeu por Julieta, portanto, a julgar pelos livros, não deve ser isto o amor.
É que nos livros, quando o herói vê por vez primeira a que há de ser a sua amada, não diz “fodia esta gaija toda”. O amor à primeira vista costuma ter mais doce e menos sal e infinitamente menos esperma, nunca costuma ser dito com essas letras todas, com as letras que dizem “quero foder-te toda desde o primeiro minuto em que te vi, e continuar a foder-te até que o sol expluda e que o universo acabe”.
Mas é isto que temos, e eu gosto. Provavelmente não é amor, que isso do foder, dizem, é paixão, fogo de palha que o tempo apaga – o verdadeiro amor é o do depois, o que fica quando a tesão se esgota; se é assim, nunca te amei, nunca passou um dia em que não quisesse foder contigo."

Do Menino, sobre o amor, ou sobre o amor dele, como ele entende, e eu parece-me que o entendo.

Leio e oiço nas minhas memórias alguém dizer-me que mal me via só me queria encostar à parede, encostar os corpos na pressão da vontade, comer-me a pele por dentro, colher-me nos seus próprios lábios, invadir-me, ter-me, termo-nos. Via-me, e dizia que era isto que lhe passava pela cabeça, pela memória da pele, da ponta dos dedos, da língua, de tudo. Não sabia se era a maneira como me mexia, como olhava, não sabia, porque dizia que bastava ver-me, que havia uma ligação que se fazia, uma ponte que se atravessava, um atalho que se percorria para nos acharmos sozinhos, juntos, um no outro, na urgência da tesão, nos domínios do desejo, reféns da vontade recíproca. 
Sim, se calhar nunca foi amor. Também eu, poucos dias houve, em que vendo-te, não me apetecesse apetecer-te, agarrar-te esse apetecer para que não me fugisses, porque apeteces-me sempre nesse teu atrevimento doce, nessas brincadeiras malandras, nessa tesão que acarinho em nós e me consome quando vejo as tuas mãos. 
Amor não deve ser isto, deve ser outra coisa, ainda posso ter esperança. 
O amor ainda está para a frente, não o deixei já, perdido, na vida que já não é.


Receber uma mensagem que nos acorda é bom, não a parte de nos acordar, mas a parte de acordar com alguém a lembrar-se de nós. Mas não, não concordo contigo, deitar cedo e cedo erguer não dá saúde e faz crescer... Dá sono! Muito. Porque deitar cedo não é adormecer cedo, e levantar cedo é sempre acordar quando se dorme melhor.... E fico cá a pensar que quem mandou a mensagem não deve ser uma "ronha person" e isso não é bom, não... Mensagens para acordar é.  Está a modos que meio empatado, portanto.

Bom Dia
... Boa Noite.

[frase, das (muito) boas de "A Trégua"]

"Porque desta vez falei-lhe com toda a franqueza; o tema casamento foi discutido até à exaustão. «Antes de virmos para aqui, para o apartamento, eu apercebi-me de que, para ti, era penoso pronunciar essa palavra. Um dia, disseste-a, à entrada de minha casa, e tens toda a minha gratidão pelo facto de a teres dito. Serviu para que eu me decidisse a acreditar em ti, no teu carinho. Mas não podia aceitá-la, porque teria sido uma base falsa para este presente, que nessa altura era futuro. Ao aceitá-la também teria tido de aceitar que tu te submetesses, que te obrigasses a uma decisão para a qual ainda não estavas preparado. Em contrapartida, submeti-me eu, mas como é lógico, posso estar mais segura das minhas reacções do que das tuas. Eu sabia que, mesmo submetendo-me, não te guardaria rancor. (...) Por isso te digo que agora não tenho a certeza de que o casamento seja a nossa melhor solução. O que é importante é que exista algo que nos una; esse algo existe, não é verdade? Ora bem, não te parece mais poderoso, mais forte, mais bonito que aquilo que nos une seja isso que existe verdadeiramente e não uma simples formalidade (...) E, finalmente há o teu medo do tempo, de envelheceres e eu olhar noutra direcção. Não sejas tão melindroso. Aquilo de que eu mais gosto em ti é algo que o tempo não será capaz de te tirar.»"

Mario Benedetti, in A Trégua


"(...) ao aceitá-la também teria tido de aceitar que tu te submetesses, que te obrigasses a uma decisão para a qual ainda não estavas preparado. Em contrapartida, submeti-me eu, (...)" - esta frase foi talvez das que mais me marcou neste livro. Li, sorri, fechei o livro, percebi a sensibilidade do homem que o escreveu e o entendeu: o gesto de amor, dos mais belos e mais imperceptíveis. Acho que este pequeno grande pormenor passa ao lado de tanta, tanta gente; e este pequeno grande pormenor é amar, amar verdadeiramente. É incrível como isso passa tão despercebido, como não entendem, como quem vê de fora não percebe, que às vezes nos submetemos ao inimaginável para não submetermos, não obrigarmos, quem amamos ao que imaginamos não estarem preparados para fazer, para que, no fundo, afinal, não se submetam. Simplesmente não se submetam. E ao fazê-lo ser opção consciente, sem mágoa, sem exigência alguma, apenas por não querer provocar, ou de alguma forma forçar, uma reacção no outro que queremos que seja livre e espontânea: verdadeira. Só assim o admitimos - verdadeira -, seja qual for o tempo que precise para que nasçam em si certezas, porque só queremos alguém com a certeza genuína, que nasce por dentro, selvagem e livre, cheia de força. Só assim terá força, a força da vida que pulsa no sangue que o coração faz correr - que faz viver realmente. Provocar uma resposta não é responderem-nos, é reproduzirem o que queremos ouvir, não nos responde a nada, é uma espécie de monólogo estéril, que só contenta a quem gosta de se ouvir: quem não ama, não sabe amar. Porque quem ama só quer amar e ser amado - sentindo que ama e que é amado -, e isso nunca pode implicar submissão, a não ser ao próprio amor ("em contrapartida, submeti-me eu"...). Não se força, não se provoca, não se faz, surge, e quando surge tem a força que dá a certeza de ninguém ser obrigado a submeter-se - a não ser ao amor que os dois sentem, ou não vale de nada, não vale nada. E isto, isto que se sente assim, é uma coisa que o tempo não pode tirar, o que pode tirar - e tira certamente - é a certeza de que o outro nos deixa sempre submeter, sem nunca chegar o tempo, dentro do nosso tempo, de querer realmente ficar junto, e que "importante é que exista algo que nos una". E isso seja vivido.

24 junho 2015


[foto de Christopher Peddecord]

"Há mulheres que procuram um homem que lhes abra o mundo. 
Outras buscam um que as tire do mundo. 
A maior parte, porém, acaba se unindo a alguém que lhes tira o mundo."

Mia Couto

Já tive estes homens todos no mesmo homem.
Só quem nos pode dar um mundo novo, só quem nos tira deste mundo para uma redoma íntima, cúmplice, exilada dos dias cinzentos e amorfos, e tão nossa, nos pode tirar o mundo, aquilo que fizemos mundo, de que fizemos o nosso dia, a nossa casa, o nosso respirar fundo noutro olhar que não deixa de ser o nosso por estar noutros olhos. Outros olhos onde mora o nosso olhar sempre, mesmo que ele não nos traga dentro. 
E no fim de tudo, não nos devolve quem fomos antes, quem éramos antes de nos descobrirmos mais nós, antes de termos aberto os olhos para dentro dos nossos melhores recantos, antes de nos conhecermos mais inteiros num mundo tão nosso, mundo que perdemos para alguém que nem conhecemos. Que já não conhecemos. Que não sabemos se alguma vez chegámos a conhecer na realidade dum mundo que não existiu.
 E no entanto só se perde o que não nos é parte, nem todo. 

Bom Dia. 

Hoje não me apetece dizer mais nada. Estou em silêncio há horas.
Falar, agora, só se fosse assim.
Não sendo, vou tentar sonhar que falo. 
Mas a dormir, que acordada já não sonho nem falo. Não vale a pena.

Boa Noite

23 junho 2015

[os três últimos posts que escrevi, percebi agora, têm todos a mesma etiqueta. tonta. é coisa para estar para acontecer alguma coisa tonta, só pode... e não era mau, eu gosto de coisas tontas às vezes, quando são tontas e com piada. o que não quer dizer que seja o caso dos posts, que até não é, mas ainda hoje dei uma resposta tonta, e agora a ver estas etiquetas, lembrei-me disso... às vezes sou realmente tonta...]
Tinha dois vestidos pendurados por estrear, um tem cerca de um ano, ou talvez, sim,  precisamente, um ano, o outro tem mais. O que lá repousa há mais tempo vai ser estreado, foi a minha mãe que mo deu, não me deixou sair da loja sem ele porque disse que era giro e me ficava bem, por muito que dissesse que não tinha onde, ou por que, o vestir e ainda menos quem mo despisse, comprou-mo na mesma e disse que era doidinha e sem juízo. Se calhar tinha esperança, mais do que eu, de que não ficasse pendurada no cabide. E o vestido também. E o vestido, ao que parece, vai sair do cabide, tenho um baptizado daqui a uns tempos. O outro vestido ainda não sei, ainda não tem nada, é uma indumentária sem planos de vida. Foi comprado com um certo destino, ou melhor, com um certo pensamento, mas o destino dele foi ficar pendurado, como eu, aliás. Ainda tem a etiqueta (eu já não). Ainda não teve por que ser vestido, ainda não tive ninguém que eu quisesse que mo despisse, por isso não o vesti. Ainda. Entretanto, no fim de semana passado comprei outro, também preto, mas diferente: justo, mais curto, mas também liso. Esse parece que já tem dia marcado para ser estreado, um jantar de amigos e pessoas por conhecer, e um bom destino para ele seria o chão, pensamento é de certeza bom... Mas às tantas vai ser ficar pendurado no cabide. Sempre fazemos companhia uns aos outros.

Ontem fiquei até às três da manhã à conversa com um amigo, ele a tentar-me fazer ver que afinal sirvo para alguma coisa, que vale a pena andar por cá, e ia apontado as alturas em que no último ano eu o tinha puxado para cima sempre que se começava a deixar cair... porque lhe dizia que uma coisa que nunca senti foi que tivessem orgulho em mim, e que aceito e até entendo, não tenho nada demais para que sintam orgulho em mim, não fiz nada, não consegui nada, para ser merecedora disso. E enquanto falava com ele lembrava-me dum post que aqui escrevi em que falava nisso, em que dizia que quem ama sente orgulho, mesmo sem grandes razões palpáveis e concretas, apenas porque vê o outro assim... como uma coisa maravilhosa, linda, extraordinária, mesmo que seja a coisinha mais corriqueira do mundo. E era isso que eu, também, e entre outras coisas, gostava de ver no olhar que me olhasse. O que no fundo me deixa alguma esperança. Pode-se ter o maior orgulho na coisa mais corriqueira do mundo, só é extraordinária porque a vemos assim, porque a amamos assim... E então ele continuava, que eu devia perceber que o carácter que tenho, a minha maneira de ser, a maneira de ver as coisas, me deviam deixar orgulhosa, porque era bom e era raro, e etc etc, e que não devia precisar do reconhecimento ou orgulho de ninguém. E por muito que perceba a lógica, não chego lá, nunca cheguei (se calhar nem a mim me chego, não é só não chegar para os outros... lá está, eles têm alguma razão, está visto...até os percebo). E eu dizia: "mas isso não me faz chegar a lado nenhum (nem me faz sentir extraordinária porque me falta aquele olhar que me olha assim como se eu fosse o mundo... mas isto eu não disse, só pensei), atingir nada, ser nada... quanto muito a ter alguns amigos,  poucos e verdadeiros, e só." E então perguntei-lhe como me descreveria ele a alguém? e ele respondeu:

" um mundo de contrastes que não se está à espera; por um lado, pernas e património de categoria; por outro uma cabeça que funciona de forma notável; nada que o mundo nos ensine ser fácil de encontrar. assim de raspão, maior qualidade a honestidade; maior defeito ter dificuldade em receber com a mesma naturalidade com que dás, o resto fica para um dos nossos serões "

... e eu tive de me rir, pois, e depois fui dormir. E hoje foi muito sono de manhã.

(sono e toda partidinha... uma pessoa sabe que está a ficar velha quando uma caminhada, de cerca de meia praia, à beira mar, nos deixa com dores nas pernas, coxas, património e cansaço generalizado para pelo menos dois dias... irra!. Tenho mesmo de começar a fazer exercício... credo)

Bom Dia

22 junho 2015

Ando preguiçosa, muito preguiçosa, não me apetece escrever. Tenho vários posts alinhavados na cabeça, mas não me apetece costurar-lhes as letras, pensá-las, pensar-me até. 
Às vezes não me apetece nada, mesmo nada, nadinha, de absolutamente nada.
Mas hoje apetecia-me uma viagem assim, uma viagem destas, da fotografia.
Daqui até casa, ou maior se não chegasse, ou uma viagem com o carro parado. 
Apetecia-me viajar por mim, voltar a sítios de mim de que perdi o mapa, de que não sei o Norte ou Nascente. 
Apetecia-me desbravar sensações, cheiros, cores, lamber com os dedos, tactear com a língua, como se nunca se tivesse feito aquele caminho, como se tudo fosse novo, e, não sendo, fosse. 
Queria uma viagem que me surpreendesse, que me renascesse, que me arrancasse um amanhecer com uma estrela brilhante bem fixa no céu, que não fugisse, que desse o rumo, que me renovasse, que me redesenhasse os sonhos, e toda a viagem dum olhar que já não vê, duns olhos que já não sentem.
Apetecia-me uma viagem destas.

Bom Dia

21 junho 2015


... E pensar que há pouco mais de uma hora estava a suportar uma temperatura com mais dez graus, e agora molho os pezinhos e sabe bem. Muito mais fresquinho aqui. 
Depois duma caminhada à beira mar, parar num sítio de praia quase deserta como eu gosto, um livro e fones. Podia ser pior...
Bom dia.

O sangue que me corre nas veias também me corre daqui, também aqui me pertenço, me sou, e tão pouco me dou. Noite boa, quente, aconchegante, de gargalhadas aconchegada, põe-me a pensar, deitada sob um enorme céu habitado por minúsculas estrelas, que cada vez me acho melhor sozinha, sem a  preocupação de saber do bem de quem me acompanha, sem ter de saber se está bem, à vontade, se se sente bem ali, ao pé de mim, ou se a sua vontade já tem um pé na estrada para qualquer lugar. É uma espécie de conforto, é uma certa liberdade, um certo estar bem. Sem mais nada, só estando, a ouvir o coração bater e a olhar as estrelas, com conversas de fundo salpicadas de risos. Não sei se alguma vez encontrarei alguém com quem consiga estar assim, à vontade, nesta liberdade doce, onde a única amarra escolhida seria um olhar cúmplice, que nos descansa, que nos diz "estamos bem, estamos bem aqui". Um olhar em que cada um segreda ao outro "estamos bem em qualquer lugar em que tu estejas", um olhar que nos faz ponte e nos amarra na liberdade de estar bem. Cada vez acho isto mais impossível, e menos que esse impossível é-me cada vez menos possível.

Boa noite.

20 junho 2015


Mesmo com este calor que se cola à pele, há coisas a que não resistiria colar a boca assim. Metem-me estas coisas à frente e é isto que me dá para pensar... Devem ser os neurónios esturricados...

Bom dia