Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

30 março 2014

"Era como se tivesse uma agulha assassina num certo sítio dos pulmões e se respirasse com cuidado podia evitar senti-la. Mas de vez em quando tinha de inspirar fundo, e ainda lá estava."

Alice Munro, in Fugas
... E assim de repente lembro-me duma vez em que disseste que te foste deitar mais cedo para ficar a falar comigo por mensagem. Lembro-me, lembro-me bem desse dia - noite, melhor dizendo-, lembro-me onde estava e que tu estavas aí. Lembro-me bem, mas às vezes acho que me devo enganar, e deve ser só uma leve ideia de qualquer coisa, de uma outra vida. 

28 março 2014



Perguntaram-me: onde vais?
E não sei onde vou, só sei que tu me prendes.

Geraldo Bessa Victor
in As raízes do nosso amor

[...sem me prenderes, sem te agarrar,sem me quereres agarrar.]

27 março 2014


"Porque nos apaixonamos?

(...)
De cada vez, pensas que estás apaixonado pela mulher, mas depois percebes que estavas apaixonado por outra coisa.
Apaixonas-te pela idéia de estar apaixonado, pela idéia de Amor; pela simplicidade das relações sem compromisso; ou pela imagem que os têm de ti, pelo facto de quase te idolatrarem; por uma sintonia de gostos e de poetas e de autores e de coisas que gostam de fazer; por uma idéia e um conceito e um plano de “família”; por uma afinidade de histórias de vida e pela capacidade de rir juntos.



E um dia percebes que te apaixonaste e desta vez não sabes porquê. Um dia, se tiveres sorte, estás apaixonado sem o saber explicar. Sem perceber porque aconteceu nem como aconteceu, sem conseguir pensar em uma ou em três ou em cinco razões para sentires o que sentes.
E o tempo não te ajuda a perceber razões – porque nessa altura o tempo não te dá distância, apaixonas-te novamente todos os dias.
Talvez as coisas que não têm razões sejam as que são feitas de todas as razões.
Talvez estejas realmente apaixonado por alguém exactamente quando não saibas escolher uma ou duas ou três coisas de que gostas nela. 
Talvez seja mesmo assim quando se ama; não é por causa “disto”, nem apesar “daquilo”."


Já tantas vezes disse isto, do gostar sem razão, gostar sem saber qual a razão, sem saber enumerar as razões, e essa, ser a melhor razão de todas. Aliás, acho que a única quando se fala em estar realmente apaixonado, quando se fala em gostar realmente de alguém. Mas a sério. Gostar a sério.
É por isso que fico tão triste quando me apontam qualidades, quando gostam de mim por isto ou aquilo, porque gostam de estar comigo, porque dizem que nos damos bem, porque comunicamos, porque assim e assado - em vez de dizer "eu gosto dela, ponto final", espraiam-se em razões (que mais parecem justificações) tão gizadas a regra e esquadro, e racionalizam o que se quer selvagem e sem fronteiras definidas, porque quando se gosta, se barreiras havia, desfizeram-se no caminho, caíram por terra. E o que se ergue em força, de pedra e cal, é isso: o gostar, ponto final.
Amar, afinal.

25 março 2014

Sim, voto nisto.
E faço por isso.
E tu?


Um dia,
quando a única regra
for a ternura da manhã
acordarei entre
os teus braços,
a tua pele será
talvez demasiado bela,
e a luz compreenderá
a impossível
compreensão do amor.

Um dia, quando a chuva
secar na memória,
quando o inverno
ficar tão distante,
quando o frio responder
devagar com a voz
arrastada de um velho,
estarei contigo e cantarão
pássaros no parapeito
da nossa janela.

Sim,
cantarão pássaros,
haverá flores,
mas nada disso será culpa minha,
porque eu acordarei
nos teus braços e não
direi nem uma palavra,
para não estragar
a perfeição da felicidade.

José Luís Peixoto

[...quero a minha perfeição da felicidade... e é parecida com esta... "quando a única regra for a ternura".
Não preciso do inverno distante, de pássaros ou flores, ainda que goste, só quero não conseguir distinguir os meus braços dos teus, ou a minha boca do teu sorriso, ou o teu beijo da minha pele. Não distinguir a realidade da felicidade, pelo menos pela manhã e ao anoitecer. Pelo menos todos os dias. Pelo menos.]
Bom Dia!!

24 março 2014


"O amor não tem de cumprir critérios, só tem de nos fazer felizes. Mas se encontras com quem ser pleno, abre-se dentro de ti uma porta que nunca mais vais conseguir fechar: depois de encontrares alguém em quem consigas ver o arco-íris, a escala musical, todas as matrioshkas ao mesmo tempo, nunca mais nada vai ser igual na tua vida, nem nunca mais vais conseguir ver ninguém com os mesmos olhos**.

E esse amor com as notas todas é coisa para te fazer feliz, e é coisa para fazeres durar."

** é o efeito descrito por Platão no livro VII da República, na chamada Alegoria da Caverna


E o Menino sempre a lembrar-me o que quero esquecer que sei, e não consigo. 

Há coisas que depois de sentidas, vividas, não dá para apagar da alma; ficam gravadas, e mesmo o tempo que passa apenas as torna mais esbatidas, mais escondidas em nós, mais ilegíveis aos outros, mas sabemos sempre - pior, sentimos -,o que são aquelas inscrições que nos ficaram gravadas por dentro do código genético da vida, da nossa vida. 
A mais pequena memória afunda-nos em recordações, em comparações sempre perdidas, em sorrisos tristes avessos ao presente, em vontades sempre desfeitas. Deixamos de acreditar que o impossível é possível, porque vivemos esse impossível, porque o conjugamos no passado, e curiosamente, vamos deixando de acreditar nele, mas mais nada nos serve, nos servirá,  "nunca mais nada vai ser igual na tua vida, nem nunca mais vais conseguir ver ninguém com os mesmos olhos". 
E é uma pena, e ao mesmo tempo, hoje em dia, penso ser uma bênção também. 
Aceita-se melhor a vida depois de desistir dela.
O impossível - a plenitude-, rouba-nos todas as outras possibilidades, o possível - o comezinho-, torna-se para nós impossível de viver, torna-se sobrevivência. Mas sobreviver é instinto, viver é vontade. 
É mais fácil sobreviver (ou assim me ando a convencer...).

23 março 2014

"Aquele amor sem libertinagem era para ele qualquer coisa de novo, e que, fazendo-o sair dos seus costumes fáceis, lisonjeava ao mesmo tempo o seu orgulho e a sua sensualidade. A exaltação de Ema, que o seu bom senso burguês desdenhava, parecia-lhe, no íntimo, encantadora, pois se dirigia à sua pessoa. Então, certo de ser amado, deixou de se constranger, e insensivelmente as suas maneiras mudaram.
Já não tinha, como outrora, daquelas palavras tão meigas que a faziam chorar, nem daquelas veementes caricias que a enlouqueciam; de modo que o grande amor em que vivia mergulhada pareceu diminuir no seu íntimo, como a água dum rio que fosse absorvida pelo próprio leito, e Ema avistou o fundo lodoso. Não queria acreditar; redobrou de ternura; e Rodolfo escondia cada vez menos a sua indiferença."

Gustave Flaubert, in Madame Bovary

18 março 2014


— É pecado sonhar?
— Não, Capitu. Nunca foi.
— Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?
— Divindade não destrói sonhos, Capitu. Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer.

in Dom Casmurro, Machado de Assis

14 março 2014


Ama.
Lavar os dentes ao lado de quem amas.
Apalpar-lhe descaradamente o rabo.
Comer chocolates até te fartares.
Passar a noite a dizer asneiras.
Beijar sempre de língua.
Passar o dia a dizer asneiras.
Mandar o chefe bugiar.
Passar a vida a dizer asneiras.
Deixar declarações de amor escondidas pela casa.

(...)

Beijar incansavelmente.
Não te levares minimamente a sério.
Dispensar quem te chateia.
Tocar um instrumento qualquer.
Perdoar quem é humano.
Desistir do que não te serve.
Lutar pelo direito à parvoíce.
Escrever um livro.
Dar prioridade ao prazer.
Ler um livro.
Nunca desistir de quem amas.
Aprender desvairadamente.
Fazer cadeirinha com quem amas.
Ensinar desvairadamente.
Perder a respiração pelo menos uma vez por dia.
Nascer pelo menos mais uma vez do que as vezes em que morreres.
Viver desvairadamente.
Te.


Pedro Chagas Freitas

[era isto. e mais umas coisas. nossas, só nossas. 'tá bem. Te.
mas nada, nada em ti, para ti, te faz dizer Te. este Te. um Te de ti que seja só meu, só possa ser meu. como o meu Te de ti. namorar-Te. viver-Te. amar-Te. ser-Te.  Te.]

08 março 2014

" O que a exasperava, era que Carlos não parecia ter a mínima suspeita do seu suplício. A convicção em que ele estava de a fazer feliz parecia-lhe um insulto imbecil, e a segurança que afectava, uma ingratidão. 
(...)
Desejaria que Carlos lhe batesse, para poder detestá-lo com justiça, vingar-se dele. Por vezes surpreendia-se com as conjecturas atrozes que lhe vinham ao cérebro; e era preciso continuar a sorrir, ouvir-se a si própria dizer que era feliz, fingir que o era, deixar que os outros acreditassem?
entretanto, repugnava-lhe essa hipocrisia. Assaltavam-na desejos de fugir com Léon para qualquer sitio, muito longe, onde tentaria um novo destino; mas logo na sua alma se cavava novo abismo, cheio de escuridão.
-Afinal, ele já não me ama - pensava ela -; que fazer? Que socorro esperar, que consolação, que alívio?"

Gustave Flaubert, in Madame Bovary

[... e para apaziguar a alma, acalentar o coração, aliviar a angústia, pergunta-se se se perdeu a pessoa??... e depois? ]

"Teriam só aquilo para dizer? Nos olhos de ambos, todavia, desenhava-se um dialogo mais serio; e enquanto se esforçavam por encontrar frases banais, sentiam a mesma languidez invadi-los aos dois; era como um murmúrio da alma, profundo, ininterrupto, que dominava o das vozes. Tomados de espanto por aquela nova sensação de suavidade, não pensavam em comunica-la nem em descobrir-lhe o motivo. As felicidades futuras, como as margens dos rios tropicais, projectam na imensidade que as precede a sua indolência natural, espécie de brisa perfumada, e nessa embriaguez adormecemos, sem nos inquietarmos com o horizonte que ainda se não vê."
(...)
" Quanto a Ema, não perguntava a si própria se o amava. O amor, pensava ela, deveria chegar de repente, no meio de esplendor e fulgurações - tempestade celeste que se abate sobre a vida, a subverte, extirpando as vontades como folhas e arrastando para o abismo os corações. Ema ignorava que, nos terraços das casas, a chuva forma lagos quando as goteiras estão obstruídas; e assim se convenceu de estar em segurança, quando, subitamente, descobriu uma fenda na parede."

Gustave Flaubert, in Madame Bovary