Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

29 outubro 2015


" (...) talvez um dia quem sabe o destino
volte a ter novos contornos e nos olhe de frente
e ainda sobre tempo para reaprender a soletrar correctamente
todas as palavras que admitiam ter nascido
do teu corpo da tua voz do sabor da tua boca
tempo para povoar de novos sons os velhos discos de vinil
e sonhar com mundos à espera de serem salvos
pelas nossas palavras

tempo para nos olharmos e encontrarmos
sem remorsos
a maneira de nos perdermos de novo nos caminhos
que levam ao coração absoluto da terra

talvez um dia quem sabe eu volte
a faltar às aulas para esperar por ti"

Alice Vieira

O que está perdido, tempo nenhum devolve. O que está perdido não se recupera. Uma mesma curva não se curva de forma igual nem por duas vezes, à segunda vez já a conhecemos.
O meu olhar de hoje não olha como olhava ontem. O meu olhar de hoje viu coisas que ontem ainda não tinha visto.
Hoje não sou igual a ontem,mas sou a mesma.Continuo a mesma -a faltar a umas coisas para não perder as que realmente me fazem falta. Hoje, como ontem, como amanhã são sempre frutos de escolhas, que são prioridades, as nossas prioridades.
O tempo não se perde, mas perdem-se para sempre as coisas que deixámos de fazer, trocadas por outras, que feitas nesse mesmo tempo, não se perderam.
O que deixámos de fazer, está perdido, tempo nenhum devolve. Fazer ontem não é o mesmo que fazer hoje. Fazer hoje e não ontem é uma escolha,  já não podemos fazer hoje, da mesma maneira, o que poderíamos ter feito ontem. O nosso olhar não é o mesmo, já viu que ontem a escolha foi não fazer, foi trocar por fazer uma outra coisa. 
Hoje já não seria como ontem, amanhã já não será como hoje
No entanto nada muda. Tudo na mesma, ainda que nada igual.




A esta hora já estou exausta, cansada. Discussões a mais para problemas que não vejo. Coisas que dificilmente consigo entender. A única coisa que entendo, hoje e agora, é a minha falta de capacidades para estar onde estou, como estou, a fazer o que faço. Não tenho perfil, não tenho jeito, só pode ser isso, mas resta saber para o que terei jeito. Deve ser um talento tão escondido, sobre alguma coisa tão desconhecid, que ou nunca existiu ou morreu asfixiada... à nascença. E fazer o quê da vida? Pois, não sei...
E acordei tão bem disposta, mas, a esta hora, já parece que o dia inteiro, pesado, aflito, me desabou pela cabeça abaixo.
Preciso realmente de me formatar, só pode.

28 outubro 2015


Há pessoas em que é notória a falta de companhia, e não entendo isso, as pessoas que têm pavor de ficar sozinhas, estar sozinhas, de serem vistas sozinhas. Eu não padeço desse mal, prefiro estar sozinha a estar na companhia de quem não a faz, de quem nem me expulsa da solidão nem ma deixa gozar no pleno das suas faculdades. Em nome de quê? Duma solidão que fere mais cada vez que se ouve a voz, a respiração, o riso de alguém que faz numero mas não faz par? Irrita-me isso, isso é que não me deixa à vontade. Eu, em podendo escolher, escolho estar à vontade, e isso ou é partilhando o tempo com quem gosto, ou estando sozinha. Talvez, para mim, seja tudo uma questão de intimidade, de cumplicidade, de bem estar. Para fretes e obrigações já basta os restantes departamentos da vida.

Ontem a minha mãe dizia-me "filha o que vai ser de ti quando não estivermos cá? vais ficar sozinha? quem te ajuda, com quem conversas, partilhas, resolves os problemas? Se calhar não te devias ter separado... afinal toda a gente tem defeitos, não há ninguém perfeito, e ele até tinha algumas qualidades... se calhar és muito exigente..."; e eu respondo que prefiro sozinha do que com uma companhia com quem não me sinta melhor do que sozinha. Só deixo de estar sozinha para estar melhor do que sozinha, não pior, até porque cada vez tenho menos pachorra para as pessoas. 

Depois fiquei a pensar naquela cena e o que me ocorreu foi que devia ter respondido que quando eu encontrar alguém que a minha mãe, ou quem quer que seja, até encontre defeitos, se calhar muitos, mas defeitos que eu possa entender, assimilá-los como parte dum todo que não se duvida de tão positivo, de tão bom. Que eu, conhecendo-os, diga que não faz mal, que defenda a criatura mesmo sabendo que até tem mais defeitos (uma vez disseram-me que quando se ama defende-se quem se ama, e hoje de manhã no banho lembrei-me disso a propósito de outra coisa, mas agora volto a recordá-lo aqui), mas que gosto dele, que estou melhor com ele do que sozinha, que pode não ser perfeito mas que me faz sentir perfeitamente bem. Faz-me sentir perfeita para ele, e isso torna-o perfeito para mim. Isto sim, vale a pena para partilhar a vida, o tempo e o que vier. Venha o que vier. Venha quem vier.

[talvez tenha razão, talvez seja demasiado exigente, mas pelo menos por enquanto é isto que sinto e penso]
Estava a ouvir uma entrevista ao Lobo Antunes e aquele homem é extraordinário. Mesmo. É uma delícia de ouvir e bruto sempre que pode. Tive vontade de parar o que estava a fazer para escrever frases que me punham a sorrir atrás dos óculos escuros, onde ninguém vê, mesmo que não os traga. Falava da beleza, do que pode ser para ele, ou para qualquer um, a beleza, o sentir-se atraído, e ele dizia que toda a gente falava de beleza interior, mas e o que era isso de beleza interior? que toda a gente parecia falar e usar, e ele não sabia. Para ele atraente, como uma casa, era aquilo ou quem nos dava vontade de habitar, mais, que sabíamos poder habitar, onde nos sentíamos confortáveis, em casa. Esta foi uma das frases que me ficou "a mulher que eu possa habitar". Houve mais, muitas mais, que ficaram perdidas naquele sítio em que sorrio sem se ver, sem me verem. E eu que não queria escrever nada no silêncio que me habita, o António Lobo Antunes obrigou-me a gravar o que me deu hoje, há pouquinho mesmo. A vida é assim mesmo, sem planos ou só de planos furados, também ele o dizia e lembro-me agora que também ele dizia que uma pessoa apaixona-se verdadeiramente quando verdadeiramente não dá jeito nenhum... A vida não deixa fazer planos, e é isso que assusta, e isso que lhe dá gosto, que a faz valer a pena. Eu acho, mas não dá jeito nenhum.

Post original publicado a 28/10/2012 

Post publicado há três anos neste dia, por curiosidade fui ver o que se publicava aqui por essas alturas, deparei-me com isto e lembro-me perfeitamente do dia em que no carro ouvi esta entrevista, de manhã, num dia em que o sol obrigava a óculos escuros, o que hoje de manhã não aconteceu. O resto continua o mesmo, continuo a gostar do homem, do que diz, da sua doçura que enxota à bruta. Fica aqui e inaugura uma nova etiqueta "REpost". Gostei da recordação, de me lembrar como se fosse hoje. Sem esta publicação isso não seria possível, é também talvez por isso que gosto tanto deste blog, tenho aqui os registos do que fez a minha vida, e do que a vida me fez, nos últimos anos.

Bom Dia

27 outubro 2015


ahahahah...
Dei uma gargalhada das boas quando pus os olhos nisto.
A resposta foi em termos imobiliários, pois é verdade que gosto muito do meu andar, espaçoso, mais do que suficiente para mim e meu rebento, com uma varanda que me descansa o olhar numa vista razoável. Estranho é dizer tal coisa sem o conhecer... ehehheh
Deu para entrar bem no dia - valha-nos isso e o saber desconversar, para fugir a temas que não queremos aprofundar...
Fiquei a pensar o que verá nesse andar alguém que diz tamanha taralhoquice... penso, e fico com a certeza que não me vê. Não é o observador certo, por certo.
Não sei porquê volta e meia as pessoas fazem comentários à minha forma de andar, uns positivos outros negativos, é conforme os gostos, como tudo na vida. Há quem diga que tenho passo firme de personalidade e pise com o calcanhar, ou que tenho um andar desenvolto e rápido, e há quem diga que me abano ou que sou desengonçada... Mas uma coisa é certa, a minha maneira de andar, de pôr os pés no chão, de pisar os caminhos que faço, fala de mim, do meu estado de espírito, da minha disposição, tal como o olhar, o sorriso, cada gesto que emudeço e cada movimento que deixo escapar. Chamam-me expressiva e nisso acho que têm razão, uma boa observação denuncia-me cada recanto  do estado de alma. Felizmente há poucos verdadeiramente bons observadores, e acabo sempre camuflada entre os instantes do dum dia e outro, entre uma gargalhada que rompe e uma lágrima que vou a tempo de recolher. 
Tento esconder a alma sempre que posso, protegê-la, mas sai-me toda pelo corpo.

[apaguei obviamente o nome do remetente e o segundo borrão é o nome aqui do burgo]



Esta lua despudorada, clara, límpida, com um magnetismo que nos cola o olhar no tecto da noite sem telhados, de fel é que não é... Mas se calhar depende do olhar da alma de cada um... a minha, agora, parece querer espreguiçar-se noite adentro.

Boa Noite

26 outubro 2015

. . . -te

Olho e encaixa:
Ler-te
Ver-te
Ter-te
Dar-te
Ato-te
Amo-te
...
Mas a primeira que leio 
Que a minha boca diz
Para dentro 
da alma que já nao ouve,
não é nenhuma destas é
Sou-te
Que a razão, abananada,
logo abana pela raiz desfeita
E o tempo, 
presente mas incerto, 
corrige e duvida entre
Fui-te
Era-te
Sem saber do passado
Se perfeito
Se imperfeito.

... Devia estar pendurado na minha porta. Hoje estou com um requintado mau feitio (até o mau feitio é requintado hein?? Que maravilha eheh), mas sou tão boazinha que aviso (sou uma boa alma, é o que é...).  Menos a quem respondi agora a uma mensagem, não o avisei, mas acho que vai perceber depressa, compensando rapidamente a falta do aviso pendurado. Digo eu, sei lá. Há pessoas que fazem que não entendem. Às vezes têm sorte, o mau feitio há dias em que até passa depressa. Pode ser que este tenha sorte...

Então mas eu ando parvinha e ninguém avisa? Hoje quando chego ao carro e vejo a hora e quase salto do banco porque estava tramada se fossem aquelas horas... é que percebo que mais uma vez troco sempre esta coisa das horas e não perdemos uma hora, ganhámos uma hora!!... Ora mais uma vez deve ser o destino, porque entendendo tudo ao contrário lá deixei a oportunidade escapar!!... bolas!! e ninguém avisa?? obrigadinho, hein? Ontem quase não saí de casa, e os relógios lá de casa todos tão espertos e automáticos acertaram-se sem que se dê conta se foi para a frente ou para trás... são tudo sinais, é o que é, pequenos e fatais já dizia o outro. A fatalidade de não se saber às quantas se anda, a fatalidade de andarmos a vários tempos porque afinal o tempo anda para trás de vez em quando; a pequena fatalidade de não sabermos qual, na verdade, é o nosso tempo, a nossa hora, o nosso momento. Podemos deixá-lo passar. Eu este fim-de-semana deixei passar uma hora sem dar por ela... quantas mais coisas terei deixado passar? Quantos tempos em espera, quantos tempos que não me esperaram? O tempo, o tempo, dizem que não anda para trás e que todos os dias têm 24 horas. Enganam-se, ou esquecem-se. Nos últimos dias as duas coisas se provam erradas... ou talvez não.

25 outubro 2015


... Ora bolas!!
Anda uma pessoa a fazer planos para começar uma vida mais saudável, 
fazer desporto, correr, essas coisas cansativas e atribuladas... 
E cortam-nos as voltas, ou melhor dizendo as horas!!...
Aquela hora destinada precisamente a esse fim...
Não há direito!! Deve ser um sinal... 
Sinal que o meu destino nao passa pelo ginásio nem por correr, assim, sem destino....
Eheheh
Já apetecem mantas, o crepitar da lareira, a meia luz que se agrava ao final da tarde. 
Volta a apetecer-me ler, voltam a apetecer-me coisas que me fazem. Até escrever. Pareço aos poucos regressar-me, reconhecer-me, ainda que haja dias que o caminho parece perder-se, volta-se a ele da mesma forma: sem saber como. Somos o que somos, regressamo-nos sempre. Às vezes, quando as ausências são longas, tão longasque podem até durar meia vida, não encontramos tudo como deixámos, algumas coisas perderam-se outras estão fora do sítio, mas vamo-nos arrumando segundo o nosso código genético, segundo as raízes da alma, que não acredito que mude. Não mudamos, arrumamo-nos, e a algumas ideias, de forma diferente, para dançar os dias que a vida nos vai dando. O difícil, para mim, não é lidar com o que tenho, é saber a música das vidas que não dançarei. Mas, se calhar, basta saber a melodia, senti-la, pensá-la, para que se dance na nossa cabeça, cá dentro. O corpo quase a dançar de ouvido.
Afinal, se pensamos em pássaros a chilrear, ouvimo-los, mesmo que não estejam a cantar. 
Mas um dia pode ser que cantem mesmo. A minha alma precisa de pássaros que cantem, que me façam o sorriso, de alma e corpo, dançar. Isso não muda ou mudará.

Bom Dia
Acabar a noite com um copo de vinho e uma conversa com as estrelas escondidas por trás das nuvens. Sei que estão lá, até oiço o que me querem dizer e não quero ouvir. 
Bebo mais um golo, quase como trégua nas negociações do que não deve ser dito mas deve ser ouvido, e o que sendo dito nao tem de ser ouvido. O que não gostamos, dito ou não, fingimos fingir nao perceber, num jogo de gato e rato que não saem do sítio. 
Calo-me dentro do meu silêncio, sei que me sabem, não vale a pena fingir. Nem fugir do que me sei.

24 outubro 2015


Amanheci com ovos mexidos na cabeça, não no prato. Ovos que mexi para alguém que mexeu comigo. Parti os meus ovos, mexi-os com carinho, desejo e amor. Juntei uma pitada de esperança na vida. Não deixei que passassem do ponto. Servi-os na cama, acompanhados dum sorriso doce e incerto, à espera que acordasse em ti uma nova vida na tua alma de sempre. Nada em ti acordou. Comeste os ovos, disseste-os muito bons. Devo tê-los mexido bem. Restaram-me as cascas, vazias, partidas, do que, de tão mexido, já não mexe. 
Vou fazer uns novos, deitar as cascas velhas fora, acordar a incerteza de uma vida nova com um certo sorriso que agora se espreguiça. 
Talvez vá pela omelete desta vez... ;)

Bom dia!

23 outubro 2015

... ahhh é?
Olá, coisa boa...
...tinha de haver uma razão para as coisas boas me atraírem... 
finalmente está explicado!
eheheheh

Bom Dia!


"Todo o meu corpo está a arder quando chamo o teu nome e tu estás nua dentro dessas sílabas. 
É então que mais quero fazer amor, para confirmar que os teus braços fazem parte de uma luz antiga que despe o meu olhar."

Joaquim Pessoa


Despido o olhar 
Fica a alma nua
  Presença completa
  Na falta de ausências
A pele abre cada poro
ao amor
Bebe-o
Incorpora-o 
É-o
São-se
Fundem-se
 num amor
Despido deles
Que só eles são
Medida única
Indivisa desmedida

21 outubro 2015

... Experimenta, mas devagar, ainda que sem excessivos toscos cuidados. Esquece tudo, olvida-te do que não és, aprende que és os teus quereres e não o que crês querer ser. Tira tempo para lentamente lhe apreciares a cor, medires bem as formas curvas de semente inchada de firmeza. Sente-a entre as mãos, conhece-a pela ponta dos dedos, percebe-lhe a consistência. Cheira-a de olhos fechados para seres inundado do seu perfume, alimento do pecado. Prepara os dentes para a polpa de fortes apetites. Sonha primeiro em trincá-la, sonha sem pressas em fazê-la tua entre os lábios e entre estridentes entredentes selvagens. Depois, mal a vontade vença o sonho, espeta-a, trinca-a  sem cerimónias, com vontade, com desejo de a teres por dentro. Saboreia-a boca adentro, lambe até à última gota o sumo que escorre prazeroso pela pele. 
Cede à tentação, é a única maneira de ela te libertar. 
Experimenta a maçã, trinca a tentação, é para isso que tens dentes, não sabias?

Hoje, ao que parece, é dia da maçã. 
Escolhe bem a tua e não (te) tentes, faz.

Eheheheh ;)

Bom dia

20 outubro 2015



meio comédia,
meio tragédia

alegria toda,
dor inteira.

transbordante do que sinto sem conter,
trancando dentro, contido, tudo por sentir

Palavras escritas
guardam o que recusaram dizer

Olhos que se fecham para ver aberta a cor da alma
De quem só respira de peito aberto

Olhar que devora tudo
Olhares que me entregam toda

Dúvidas que me consomem
Da certeza consumida.


Bom Dia
"- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti."

Mia Couto, in Venenos de Deus, Remédios do Diabo

Recuperado dum post de maio do ano passado, que revisitei agora, donde ainda não regressei.
Já estive quase a dormir no sofá, já estive na cama e o sono resolveu esconder-se, o que me apareceu na cabeça foi este post, este post antigo com esta frase que não me largava. Lembrei-me dela esta noite quando respondia a um comentário, esperou que me deitasse para não me deixar dormir. Agora estou na varanda, não há sono nem frio, estou muito bem, só não sei se regressei do sítio onde nunca estive.

[espero que agora, esvaziada desta frase, o sono regresse...]

19 outubro 2015

- Prazer. Pode-me dizer onde é que posso arranjar um colete desses?

(foto @oreeeo)

"Eu tenho a minha loucura,
eu vivo em outra dimensão
e eu não tenho tempo para coisas que não têm alma.”

Charles Bukowski.

[tenho a minha loucura, quero-a, gosto dela, quero mantê-la sã para poder ser louca, 
poder ter alma e exigir para mim escolher nada menos do que coisas que a toquem. 
Cada vez mais acho uma loucura ter alma nos dias de hoje, querer mantê-la, 
sustentá-la a raros tragos de oxigénio que desencantamos nas coisas mais pequenas e escondidas dentro do mortalmente comum dos dias. Mas não tenho, nem quero ter, tempo para o resto, para querer o desalmado resto, matando tudo o que me resta de mim.]

Bom Dia

18 outubro 2015

(Roubado @algumfrancisco)

...fechados.

Boa Noite
Há qualquer coisa de belo na força. Talvez, aliás, toda a beleza esteja na força: na força da natureza, na força de carácter, na força de vontade, na força de um olhar.
Sento-me junto à janela que dá para a rua, da cama ouvia a força da chuva e precisei vê-la, quis vê-la cair com determinação, com força. Sim, precisava de ver, de sentir esta força, de sentir que somos todos pequenos, de ouvir esta melodia acelerada do gotejar que corre das beiradas. Precisava de me sentar aqui a ver a chuva forte que lava as ruas, que apaga o ontem, o há pouco, o ainda agora. Leva tudo, arrasta tudo, lava tudo.
Há qualquer coisa de belo na força, de delicado, de frágil, talvez seja a sua atracção pela fraqueza, pela fragilidade, pela delicadeza. Talvez seja essa a sua fraqueza, talvez seja isso que equilibra as forças. O forte precisa do fraco para saber da sua própria força e proteger aquilo que lhe falta, o fraco precisa da força que pensa que não tem, e às vezes não tem e precisa que alguém o leve pela vida, protegido de si mesmo, ou se tem, alguém forte que lha faça sentir e saber e confiar. Tudo tem o seu equilíbrio e os mecanismos próprios e naturais (e demorados) de ajustamento. Os mecanismos de auto regulação da natureza são perfeitos, tanto que nos podem vir a ser fatais.
E agora vou voltar para a ronha, só mais um bocadinho entre lençóis e calor, para apreciar a sinfonia da chuva maestrina.

17 outubro 2015

(Foto @wildfiresss)

Corre uma brisa cinzenta e pesada.
Há qualquer coisa de nada que dança no ar
Que se atabalhoa
Por desabar.
A rua vazia,
Eus por preencher,
Dias por fazer,
Tempo por desfazer.
À espera que chova
Sem esperar chuva.

[...mais um sábado de ronha preguiçosa...]
...maybe.

16 outubro 2015

(...alguém sabe a morada??.
... para ver se se apressa o recebimento da correspondência...
aqui, agora, só correspondendo mesmo...)

Bom Dia

15 outubro 2015

Amor não é merecimento
Amor não é recompensa
Amar não é uma escolha
Amar é a força
Que nos faz fracos e invencíveis
Viver o amor é escolher
Ser fraco e invencível,
Vulnerável e à prova de tudo.

(Acabou de sair com o café à minha frente. E eu que não quero escrever, as palavras perseguem-me, cercam-me. Prendem-me porque se querem libertar. Amar nao é para todos, algumas escolhas também não, acrescento depois de ler. )

Bom dia
(foto @blackandwhiteisworththefight)

"O que a gente não entende, se resolve com amor"
Clarice Lispector

[... e eu com tanta coisa por entender...]

Boa Noite

09 outubro 2015

Faz hoje um ano. Tenho isto guardado nas notas desde 14 de Novembro do ano passado. Fui à procura, tenho coisas nas notas que vou escrevendo e apagando, algumas não chegam a ser nada, outras são pontos de partida para outras coisas que depois escrevo. Este ficou intacto, e hoje, um ano depois de ter perdido mais um que me faz falta, leio isto e o tempo não passou pelas palavras. Nem sequer por aquelas que recordo de ti. Tenho saudades tuas, muitas das nossas conversas, tanto do teu carinho e desmesurada loucura. Lembro-me vezes sem conta daquela tua frase que não me larga "eles nem em bicos dos pés te chegam aos calcanhares", sinto falta deste carinho das entrelinhas, do sentido de protecção escancarado, até do enviesamento que cega a análise de quem gosta, é tão raro ser genuíno...
Porque é que todos os que preciso me vão deixando? Poucos me restam, e de mim sinto restar tão pouco. 
Espero que onde estejas estejas a dar cabo da cabeça ao pessoal, que continues com o teu sentido de humor inteligente e desconcertante, que continues a fazer do mundo música, e música do mundo. Do mundo que agora é teu. 

07 outubro 2015



O corpo, sei-lhe o traçado de olhos fechados.
Os beijos, sei-os de cor.
A pele, terreno mapeado com a ponta dos dedos.
Os sentidos, tão sentidos que dão o norte
Que a razão perde,
Para a alma encontrar
O seu lugar.
Como a primeira vez, 
Sempre.
Perco-me nesses caminhos;
Nesses caminhos me encontro.
Sempre.
Para nunca me levarem a destino algum
Nunca.

06 outubro 2015

É com agrado que constato a melhoria de qualidade dos espelhos em algumas casas portuguesas. De facto, denota-se nessa grande plataforma social, emoldurada em tons de azul o melhor, o mais bem aproveitado uso das distâncias nas fotos. Ou da distância entre a máquina que captura o momento e o objecto do momento (neste caso a própria pessoa que se identifica na dita plataforma através da referida fotografia), ou, em igualmente lúcida alternativa, da distância temporal entre o momento actual e o momento que há anos ficou registado. Em ambos os usos da distância ficam os objectos beneficiados, ainda que mais das vezes não favorecidos nos impiedosos registos fotográficos.
Apraz-me conferir que não faço estes usos das distâncias (nem sempre com bons resultados...).
Não me apraz perceber que poderá haver um "ainda" latente na frase anterior...

E ao escrever isto dou por mim a pensar que espero francamente que os espelhos de minha casa, onde me  vejo e avalio longe dos olhos alheios, continuem a reflectir sem mentiras o que vêem e que isso não mude, ainda que a imagem reflectida se vá alterando. E que sempre me veja de perto, não me esconda em distâncias que me disfarcem os defeitos. Mas isto já nada tem a ver com fotografias públicas e sim com o aceitar da fotografia que nos tiramos em frente ao espelho,  não tanto com o gostar ou não da estética do que vemos, mas de o aceitar pacificamente enquanto conjunto de defeitos e virtudes, que nos fazem, que somos, e que não foge nas distâncias. Ou se calhar até tem.
...humm... tipo euzinha?
mas é só tropeçar, sim?!
ehehehe

Bom Dia!

05 outubro 2015

(desenho @unskilledworker)
Com o Outono nos olhos
ela Primaverou o cabelo.

Bom Dia

... É melhor ir para a cama já, antes que dêem as três badaladas,
para ver se me livro de alguma das acusações....



Ontem, num serão de boa conversa e cheio de músicas, surgiu esta, e de repente transportei-me para outra noite, outra sala, quase outra vida. Uma música que tocava no escuro, que não lembro, que não era esta, mas que este som me fez lembrar, pelo que diz, pelo tom quente em que é cantada, não sei. Alguma coisa trouxe à tona o calor dum abraço que não se dançou, mas que me enlaçou, que me ficou, tanto que ontem me veio à ideia... I got ideas (too), é o que é.
Hoje fui à procura e deixo-a aqui, adoro.

Boa Noite

04 outubro 2015


Domingos de Outono. 
Em casa, melancólicos, cinzentos.
Apenas com o silêncio da chuva a bater nos vidros, o arfar do vento que não se cansa, o rosnar quente da lareira que não nos morde e outros silêncios que não se dizem...

(Mas hoje só depois de votar, ou antes.)

Bom dia


03 outubro 2015

...ronhaaaaa....
Ainda na cama cheia de lentidão no corpo, a luz entra pela janela, amolece no cortinado fino e lembra-me que há sol apetitoso lá fora mas que os meus apetites estão todos cá dentro. Fico mais um bocado, dou mais uma volta ao corpo na cama, penso no banho, no que hei-de vestir e que já vou chegar atrasada. Não gosto de fim‑de‑semana com compromissos que tenham horas, não gosto. Acho que devia haver um cortinado para as horas no fim‑de‑semana se esbaterem, como a minha vontade de me apressar.
Tenho de ir. 
Ainda não sei o que vestir depois do banho, acho que vou aqui ficar a pensar só mais cinco minutinhos. Está-se taaaaaaoooo bem. Sou tão preguiçosa, pois sou. Paciência, preciso destes bocadinhos ensonados e lentos para me equilibrar a semana.

Bom dia
Não se procura o que só te agarra se te surpreender. 
Agarra-me.

Boa Noite

02 outubro 2015

eheheheheh
Bom conselho... mas pouco seguido, pelo menos pelas pessoas que conheço 
que se enquadram nas características de excepção... 
estão-me sempre a surpreender na forma como se superam excepcionalmente nesta matéria...

Bom Dia

Na varanda com o meu último cigarro, oiço música ao fundo, concertos não muito longe. Fui ver, parece que há vários concertos pela cidade, parece que é o dia da música e passou-me ao lado. Acendi o cigarro e penso que às vezes a melhor música é o silêncio. E de certa forma, a música que oiço ao fundo não me perturba o silêncio. Há muitas espécies de silêncio como o há de música. Este meu silêncio hoje não se perturba com a música de fundo, sabe-me bem, é um silêncio sem gente indesejada que nos quebra o silêncio sem nos acrescentar nada. Só para dizer que bonito, que bom, que profundo, sublime, que intenso, que especial e outros que tais. É melhor deixar esses comentários em silêncio e deixarem-nos fazê-los para nós, apreciando realmente os momentos por dentro. Os instantes que mais nos tocam são silêncios intensos, cheios de mensagens onde as palavras não cabem, onde o som fere a comunicação. Poucas pessoas se entendem em silêncio, têm de falar a mesma língua, onde o silêncio é o espaço exíguo em que se tocam sem se sentirem confinados e onde o vazio não tem lugar. Apenas a música que os faz.