Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

31 janeiro 2015

(Catherine Deneuve, por Helmut Newton)

Para atrasar a morte vamos abrir a noite
com música de jazz
Percorrê-la depois
num barco de borracha
Celebrar o segredo
Enforcar a memória
Descobrir de repente
uma ilha que nasce dentro do teu vestido
Chamar-lhe Madrugada
Adormecer contigo

David Mourão-Ferreira

[sim, abrir a noite com música, melhor se daquela que se sente e não se ouve; percorrê-la com o ondular meigo, do mar enamorado da lua, nos lábios. Enforcar a memória que embriaga de realidade o que se quer sonhado. Explorar o corpo do meu vestido, território submerso das tuas mãos. Acordar contigo a pele e adormecer nos braços da tua alma.]
Isto sim, é que é programa...
.... Uiiiii preciso disto!! Café e sol...
... A caminho! (espero eu...)

Bom Dia!
... Parece que hoje, ou melhor ontem, foi o dia da saudade. Quem deu um dia à saudade não deve fazer ideia do que é... Quando há saudade, todos os dias são saudade, todo o dia. É uma coisa que se nos pega à pele e se cola ao olhar, que impregna o pensamento e toma conta de nós. É um estado de alma, não um dia de calendário... Quem dera que assim fosse. Um dia por ano sentirmos saudade, e depois da meia noite, qual sapato da cinderela, descalçar-se, perder-se, quebrar-se o encanto... 
Quem dera. Assim seria fácil para quem não quer sentir saudades, lembrar-se de ontem com vontade de hoje.

Boa noite

30 janeiro 2015


Ahahahahah.... 
O que eu já me ri com isto!!
Muito bom!!
É preciso rir e fazer rir!!...
....amorzinho!!!! 

Bom Dia!

29 janeiro 2015





Quando uma pessoa não consegue dormir, não arranja posição, dá voltas e revoltas, e o conforto lhe foge de todas as maneiras, dá por si sem querer a lembrar-se das vezes sem fim que teve nas costas o calor dum peito que era o toque do conforto, da intimidade, do enrolar os corpos e as almas se misturar em. E, de repente, percebe que o conforto que a alma foi à procura sem querer nas sensações vivas dessas memórias adormecidas, dão uma saudade desconfortável do que talvez não tenha existido assim para toda a gente. Apenas para mim, apenas nas minhas costas, apenas na imaginação da minha alma. Mas o desconfortável, percebo, não é saber isso, mas sim descobrir saudades onde já não as quero. Sentir, ainda, o desconforto do nunca mais para sempre.
Hoje, de tão exausta, não me lembrarei de nada; e espero sonhar com o futuro, para o futuro. Onde partilharei memórias hoje ainda por fazer, memórias partilhadas ao adormecer no conforto dum abraço, a duas peles, que nos veste a alma. Aos dois.

Boa Noite

Uma fachada antiga cheia de janelas a espreitar entre os toldos.
Gosto.
É preciso abrir janelas, arejar, deixar o sol entrar.

Bom Dia




Cabeça quase encostada ao vidro, pelos olhos passa o mundo a correr, mas deixo de o ver, o meu olhar faz ricochete no vidro a fazer-se de espelho, devolve-me o olhar - vejo-me. Algo em mim mudou, não sei precisar, não consigo explicar, mas o mundo lá fora passa a correr e eu, no espelho disfarçado de vidro,vejo uma mulher. Quase não me reconheço, nao sei do paradeiro da miúda que me emprestava o cartão de visita, e pergunto-me por ela. Vejo-me mulher no vidro que vira espelho. Nunca cheguei a ser bonita, mas chegaste a fazer-mo sentir. Pouca gente o conseguiu, muito pouca. E só nessas alturas desejei mesmo sê-lo, para que não te enganasses ao enganar-me. Para que estivesses certo, se era isso que gostarias de ver, que gostavas de ver. E eu gostava que gostasses de ver, e de to ver no olhar e ler na ponta dos dedos, na temperatura da pele, e na falta de espaço entre eu e tu. Esse espaço que agora sobra e não é nada, sendo o mundo todo que corre desenfreado na noite lá fora, e o vidro a fazer-se espelho que não engana.
Às vezes o espaço da distância parece coisa que a vista alcança mas ao olhar não chega. Há olhares que fazem ricochete. E cá dentro não há espaço. Mesmo que tudo esteja vazio.

Boa noite

28 janeiro 2015

...sim, é isto...
%&!#?%$#$&%?... caramba já chegava, não?
 o dia ontem esboçou-me um sorriso....
...e pimbas o hoje já me lembrou que os dias sorrirem-me 
é assim coisa para não se tornar um hábito... irra!
Karma, estimo que te fod@s! 
(porque a mim estás farto de me lixar...)
Pronto era isto.

Bom Dia aos restantes mortais mais abençoados!


Hoje ouvi uma frase que me explica e que explica tanta coisa nos meus últimos anos. Já aqui disse e repeti essa mesma ideia, mas ouvi-lo fez-me bem, como se alguém percebesse o que tento dizer e ninguém que me conhece parece entender quando o digo. Como se não encaixasse, como se não encaixasse no que entendem de mim - e eu entendo que deveria entender de mim, mas entendo porque não o consigo entender assim... Foi a propósito do filme sobre a vida de Stephen Hawking, baseado no Iivro que a sua primeira mulher escreveu, a quem perguntavam como é que ela aguentou os tempos em que tinha os filhos pequenos, o marido já com um grau avançado da doença e ainda a fazer o seu doutoramento sobre poesia medieval espanhola (acho que era isto, mas não interessa em quê, eu fiquei a pensar que no meio daquilo era o escape dela), e ela respondeu simplesmente: "porque não tinha alternativa! Que havia de fazer? Matar-me? E o que seria dos meus filhos? e do meu marido? Não podia. Não tinha alternativa".
E é isto. Não conceber alternativa. Eu também não conseguia conceber, a alternativa era matar um eu que eu gostava, que me fazia - que me deixava - ser quem eu gosto de ser. E era sempre matar uma parte de mim com as minhas próprias mãos. Não conseguia conceber essa alternativa, logo não era alternativa. Não havia hipótese de ser considerada alternativa. A única coisa possível era aguentar como podia e me permitia, de acordo com o que sou, com o que penso, e sob a luz dos princípios que me fazem. Não magoar ninguém, não obrigar ninguém a nada, não provocar situações complicadas, mas fazer entender o que sentia e como sentia. Deixava-me no meu canto e aguentava o que houvesse para aguentar, enquanto eu quisesse aguentar, enquanto não concebesse outra alternativa. E se concebesse não era ameaça, não era jogo, não era estratégia, era porque genuinamente tinha, e sentia, uma alternativa àquele aguentar. Como agora não tenho. Agora é só outro aguentar, aguentar coisas diferentes, outras, e mais. Infelizmente mais, e tristes, e complicadas. Mas alternativa não se avista. Atirar-me da ponte não posso - a noção de deixar sobrecarregadissimo alguém quem gosto muito e não merece, só porque não me apetece mais aguentar, é pesada demais para o egoísmo de que sofro. Então não há alternativa senão aguentar. O que me lembra uma frase que alguém me disse há dias, quando perguntei a meia dúzia de pessoas que me conhecem de formas e intensidades diferentes como me descreveriam (as características comuns que atravessam as frases de quem nunca me viu senão pelas letras, e de quem muito me viu, são engraçadas...Mas isso agora não interessa para aqui, pode ser que dê um post um dia) e que dizia
"tu és uma idealista estóica que precisa que lhe ensinem a ser feliz. estoicismo é, acima de tudo, a capacidade de aguentar. de aguentar calado, geralmente. tu aguentas mais calada do que parece. isso do blá blá e da resmunguice é fachada. as coisas a sério tu aguenta-las calada. depois mandas vir é com tudo o resto."
E eu fiquei a pensar nisto por várias razões. Primeiro, nunca me tinha passado pela cabeça que alguém me pudesse tomar por estóica. Depois acho que não me calo muito, e escrever, escrevo até demais de mim, e finalmente porque foi uma coisa que eu ouvi muitas vezes acerca de outra pessoa: que era estoico, que aguentava, e que aguentava cada vez mais, tantas vezes calado, sem se queixar. No fundo, que era obrigado a aguentar. Mas não era. Havia alternativa, e estava nas mãos dele. Acho que ele também nunca concebeu a alternativa. Como eu nunca consegui conceber a alternativa de matar a parte de mim onde ele estava. Onde eu estava com ele, onde estavam estas e outras conversas, onde estava muito do tudo que eu consigo conceber como o todo.
O que é que eu podia fazer? Aguentar.

(o que me lembra uma resposta minha a uma pergunta - "enquanto tu quiseres e eu aguentar." Mas também é daquelas coisas que só eu me lembro, e estou sentada agora precisamente no sítio em que disse isto, só não tenho a lareira à frente, e falta-me o olhar que recebi depois da frase)

Boa Noite

27 janeiro 2015


Gosto de fotografia, gosto principalmente a preto e branco, e talvez por isto: as fotografias com cor enganam mais porque as tomamos pelo real. Engano, umas vezes para melhor, outras para pior. Neste caso acima para pior. O céu, como os meus olhos vêem a realidade, está em tons de rosa, vários tons, entre o calor e a doçura, entre o sorriso cândido e o atrevimento malandro, quente. E aqui não se vê nada disso, mas eu vejo. Mas eu vejo tanta coisa que não há, que nunca houve... A preto e branco sabemos sempre que a realidade tem mais tons, mais cor, mais ruído; é talvez mais teatral, mas enquanto representação parece-me mais verdadeira por assumir completamente o não querer reproduzir de forma fidedigna o que os olhos vêem, mas uma realidade própria. E eu prefiro. As realidades próprias. Sabendo que o são. Sem pretensões a uma verdade única, a uma realidade que nunca engana. Como se cada um não tivesse a sua própria paleta de cores nos olhos.

Bom dia

...A lua para companhia do último cigarro.
... e o frio que se embrulha em nós difíceis de desfazer.

BoaNoite

"Deixa-me ficar só assim, vamos ficar só assim, e o teu corpo ajeitava-se naquele espaço, encostado ao meu, sabíamos que existia mundo lá fora mas não queríamos saber dele, e na verdade, alheio a nós, girava como sempre. E porque não? O nosso sofá tinha rodas, levava-nos para todos os sítios, e eu acho que tu só querias carinho, naquele momento só querias as minhas mãos a dizer-te que tudo estaria bem. Sabias que eu falava muito com as mãos, pelos desenhos que elas faziam em ti. Deixa-me ficar só assim, aninhada em ti, e às vezes conseguias, outras não. Às vezes era só uma intenção, mas cedo se cedia ao desejo, que não se guarda muito tempo uma fechadura que tem chave certeira. E se isto faz parte de nós, se nos é próprio, resiste, aguenta a passagem do tempo, da água, do vento, de todas as coisas que nos orbitam."


Palavras a falar por mim...
...deixa-me ficar só assim... antes de se ceder ao desejo, ou depois, antes do cansaço ceder ao sono, em descanso, naquela que foi a minha melhor almofada de sempre. só não para sempre.

26 janeiro 2015

... E vontade de jantar?.... Nenhuma... Nicles.

(já a lua estaria boa para se comer...)
Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho o rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.

António Franco Alexandre
in Duende

[...coração demente e dormente... Onde andas tu? que não te sinto? Os lugares onde te deixei estão vazios.]
... quando esta música começa e estamos precisamente a entrar na via rápida, com o sol a bater de frente e a aquecer a vista por trás dos óculos de sol, algo em nós se alvoroça para se acabar num sorriso que nos faz crer que a música tem razão, ou queremos - e queremos tanto, tanto - acreditar que sim. Quase sem pensar, como resposta automática, carregamos no pedal, não por pressa de chegar, mas com pressa de sentir a pressa de alguma coisa, duma urgência que nos queima os lábios como um sorriso que já não sabíamos ter há tempos demais. Pedal a fundo, a velocidade na ponta dos pés, e logo um engraçadinho (não cheguei a ver se era...mas vamos crer que sim, que tem mais piada...) que se pica com a nossa urgência, também tem pressa de alguma coisa, ou não, sei lá... ultrapassou-me, e depois, eu já quase a duzentos à hora, passei-o de novo, pouco depois ele acabou por cortar na saída seguinte (ohhhh....)... e eu continuei até onde a estrada deixava, a velocidades tão pouco recomendadas... lembrei-me quando há dias me montei em 325 cavalos, deram-me essa oportunidade, sabem que adoro conduzir e que gosto da adrenalina da velocidade, fizeram-me o gosto e sei que tiveram gosto nisso. E aí, bom, aí devo dizer que se o meu carro demora um bocadinho a chegar aos 200, aquele chega lá só enquanto pensamos nisso... o que dá aquela sensação arrepiante das costas se colarem ao banco e o sorriso à pele que o sol hoje resolveu aquecer... 
(nunca poderei ter um carro daqueles, matava-me num instante...o que me parece uma boa desculpa para não o comprar... o facto do preço ter dígitos a mais para mim, não tem nadinha a ver...eheheh)
... a música dura uns minutos, e a nós apetece-nos tanto acreditar que sim, que estes dias acabaram, enquanto o ritmo e a sonoridade ainda se passeia pelos ossos e nos mastiga a alma devagar nesse sabor doce, mas a música dura só uns minutos... e seja quanto for, nesses minutos esteve-se bem, houve uma espécie de felicidade que nos invadiu, e se se pode aproveitar mesmo que só uns minutos, e não prejudica ninguém, tem de se aproveitar até ao tutano, mesmo que acabe logo a seguir. Os momentos que não se aproveitam não existem, há que aproveitar o que nos faz sentir bem. Eu sempre fui assim, ainda que tenha tantos momentos sombrios, também esses os aproveito à minha maneira, tantas vezes também até ao tutano - é um problema de intensidades. Para os dois lados. E hoje, hoje o dia começou bem... mesmo que possa acabar mal, ou que amanhã comece pessimamente, não sei. Agora não me interessa, só me interessa agora  o agora. Hoje o sol já me entrou nos ossos, mesmo que (só) por uns minutos.

Bom Dia!
(The Lovers, Rene Magritte)

"Não preciso de te ver, encontro-te os passos pela língua, descubro-te o corpo pelo toque. Dizem-me que sou cego porque me inspiro no amor, digo-lhes que de mim sou tudo o que levo para a morte. Carrego prédios inteiros do que não se vê..."

Daniel Camacho 

Boa Noite

25 janeiro 2015



Afinal tens razão - estragaste-me a vida. Só não tens a razão que pensas, porque não me estragaste a vida que tinha, essa só eu e quem fazia parte dela a poderia estragar. Não padeço dessa falta de inteligência que comodamente inverte o sentido entre causa e consequência. Não sofro dessa, mas sofro doutras, e como sofro por elas... Estragaste-me pela vida que vi, a vida que me mostraste, que me deste, que vivemos. Estragaste-me, e agora não há vida que me encaixe, que me sirva, que me reste, porque tudo me sobra. Sobra-me espaço, sobra-me vazio. O Lobo Antunes diz que as pessoas são como casas, nem todos os quartos estão habitados. Eu tinha quartos que não sabia até os escancarares, e juntos os habitarmos. Entrámos, despojámo-nos, abrimos janelas com vistas conversadas de mundo, daquele que se via fora das janelas e janelas adentro, tivemos o prazer da pele ao sol, dos banhos de luar quente, do silêncio que era só paz, dos beijos que encostavam as almas. Agora, tudo desabitado - a lua fugiu do céu, o sol veste-se de luto e o silêncio enche-se de vazio por ser. Bateste a porta por fora, carregas as chaves num bolso esquecido da alma que emprestaste, ou que devolveste à morte que sobrevive. Não, não tens a razão que pensas, não me estragaste a vida, apenas aumentaste a extensão de vazio que ocupa espaço. Estragaste-me a mim, desarrumaste-me uma casa que não sabia ter, trancaste o sol num roupeiro e arrumaste a lua numa gaveta sem estrelas, embrulhada num papel escrito na língua do silêncio - desabitaste-me. Desabitada, estragada na arquitectura que não sei viver, sobrevivo, sobreviverei, como sempre. Só me soçobra espaço ocupado de vazio. Sobrevivida ao vazio -um dia quiçá -, sairei mais bem apetrechada se alguém me entrar em casa, me invada sem aviso, de chave mestra nas mãos feitas para só tratar bem, com um sol desempoeirado pendurado em cada gesto quente, um luar em cada olhar que me banhe, e cheio de beijos de alma que me habitem. E que fique, e que eu queira que ele fique tanto ou mais do que ele queira ficar. Que me habite sem hábito de certezas, na certeza que esse querer não é um hábito. Talvez, talvez, possas não ter razão nenhuma, afinal.
Cores do outono tão minhas todo o ano...
Sons do Outono debaixo dos pés - há tanto que não os ouvia -, a acordarem o Inverno que mora em nós e a infância que não queremos deixar adormecer e ainda não esquecemos. Como os dias frios com sol.

Bom dia.
E o sono que teima em não aparecer.
E as memórias em desaparecer.
Vamos fechar-lhe os olhos e fingir que dormem...
Fingir...

Boa Noite

24 janeiro 2015

(Foto @thislittlecorner)
Modo fim‑de‑semana. Pijama, meias grossas, trincar alguma coisa na cozinha, deixar-me ficar a beber o chocolate quente... A muito custo decidir que temos de nos arranjar e deixar o sol ver-nos. Mas antes que alguém nos veja falta um banho, quente como se quer... Depois segue-se um café "à pinha", esperando, que tal como na foto (foi a legenda que me ocorreu, que querem... Tontices...), não esteja apinhado de gente e se reduza ao essencial. Café, silêncio, boa companhia, sol, e uma pinha para atirar à pinha de alguém nao desejado que mexa com estes essenciais...
Reduzirmo-nos ao essencial é sempre coisa traiçoeira... Saberemos avaliar bem o que é essencial para nós? E o nosso essencial? A nossa essência...sabemos? Saberemos? Será?

Bom dia.



Essa mulher é uma casa secreta.
Em seus cantos, guarda vozes e esconde fantasmas.
...
Quem entra nela, dizem, não sai nunca mais.

Eduardo Galeano

[... que não fique dentro por lhe trancarem as portas, mas por, de porta escancarada, gostar de ficar dentro, estar dentro, ser dentro.
ser dentro em cada canto guardado  dessa casa, na voz do segredo quente sussurrado, que é fantasma para quem é de fora.
quem é de dentro é da casa.]

Boa Noite



23 janeiro 2015


"O que é determinante aqui é que nenhuma das opções se destaca isoladamente como uma vencedora a milhas de distância. Muito bem, que fazem então as pessoas que se encontram perante tais opções? Possivelmente, congelam. São reduzidas a um imobilismo em que não conseguem decidir no estrito domínio da razão. Podemos no entanto isolar dois tipos de pessoa. Quem não queira ou seja capaz de traçar cenários na sua cabeça, vivendo o imediato e pouco além, talvez se lance por ímpeto para uma delas. Quem queira e consiga traçar cenários, vivendo o imediato e o depois disso, poderá ter dificuldade acrescida em decidir. Não decidindo, acontece aquilo que muitos dizem: a vida decide por ti. Em rigor, a vida não é uma entidade viva, não é uma coisa que pense e actue sozinha, sabemo-lo todos. O que isso significa é que se ficamos imóveis perante duas (ou mais) opções sobre as quais não tomamos uma decisão, somos ultrapassados pelos eventos. Tudo aquilo que continua a acontecer à nossa volta enquanto estamos a pesar prós e contras, vai acontecendo, e as variáveis alteram-se, e as nossas opções podem muito bem ser-nos retiradas no processo, e quando chegamos a uma conclusão, abrimos a gaveta e a gaveta está vazia. É isso que significa a vida decidir por nós.
(...)
Há uma reflexão ligeira sobre a escolha, sobre como a todos é fácil optar entre coisas muito desequilibradas, e sobre como se torna tão complexo decidir quando o plano entre opções é menos inclinado e custa isolar uma em detrimento da outra. E sobre como isso diz, verdadeiramente, algo sobre nós. Porque se num plano muito inclinado a decisão é simples, num plano pouco inclinado a luta pessoal é muito mais complexa, e jogamos todo um conjunto de valores que nos definem, e nem sempre fazemos aquilo que nos dará a maior satisfação mas podemos ver-nos empurrados para aquilo que julgamos ser um dever, independentemente de ser permanente ou transitório. Numa escolha pode residir um profundo paradoxo. Uma escolha pode nem sequer ser uma escolha, pode ser uma imposição, uma situação de necessidade, de sobrevivência, ou uma ultrapassagem. Numa escolha de plano pouco inclinado provavelmente nem existem soluções win/win, é muito natural que sejam sempre lose/lose (resisti ao duplo ‘oo’, um lapso meu muito frequente, ando sempre a pensar em loose), particularmente se a demora ou a incapacidade de decidir fizer a vida passar-nos por cima dado o nosso imobilismo. É certo, quero crer, que nenhum imobilismo dura para sempre. Ou as opções desaparecem, e com elas o imobilismo – o que sempre deixará um lamento e amargura, excepto se o sujeito da experiência nunca tiver verdadeiramente desejado optar, o que também dirá muito sobre ele, e não creio que de bom -, ou inevitavelmente uma das opções – das originais ou novas – prevalecerá. O imobilismo toda uma vida é insustentável porquanto a dado momento o sofrimento de ficar imóvel torna-se superior ao sofrimento de optar. E aí, sempre se opta. Mesmo que tarde."

Sobre as curvas das/nas escolhas, vale a pena ler, aqui, o geógrafo João.

Ficou-me esta frase "sempre deixará um lamento e amargura, excepto se o sujeito da experiência nunca tiver verdadeiramente desejado optar, o que também dirá muito sobre ele" - e pus-me a pensar... e eu, fiz as minhas escolhas? ou deixei a vida decidir? pergunto-me, e penso que sempre decidi não abandonar o que queria, e de todas as vezes decidi não ir atrás quando me abandonavam. decisões minhas. aparentemente. olho, penso e parece-me que decidi, que fiz as minhas escolhas. mas sempre deixei que voltassem... e isso não é imobilismo? nunca houve uma acção do meu lado, nem de abandonar - porque não tenho por feitio abandonar aquilo que quero, e luto por isso como posso, e segundo os princípios que tenho, mas só assim, não de qualquer maneira - nem de ir atrás, de insistir,  de tentar vencer pelo cansaço, de tentar interferir, de tentar convencer a ficar, ou ao que fosse. Mas sempre estive onde me deixaram quando voltavam. Eu continuava lá, no mesmo sitio, a querer a mesma coisa, que não era aquela que se calhar - bom, de certeza, na verdade - me queriam dar quando me procuravam. Escolher estar no mesmo sítio, da mesma forma, foi uma escolha?  ou foi apenas reconhecer que não conseguia escolher outra coisa, que não conseguia escolher? e deixava que alguém resolvesse voltar ou ir embora, retirando-me a mim de qualquer decisão? 
Na verdade eu nunca quis que a decisão fosse minha, porque não estava nas minhas mãos decidir, eu sabia o que queria e como queria, mas não dependia de mim. Então esperei, nunca provoquei situações limite, nem encostei ninguém à parede (bom, para decidir o que fosse, bem entendido, já noutras situações, encostei e que bem decidido que isso era... bom, adiante que não são coisas para me lembrar agora... ai) para decidir sob pressão uma coisa que acho que tem de se chegar a uma resposta pelos seus pés e tempo próprio. As decisões que tive de tomar na minha vida, tomei-as antes de tudo isto, no meu tempo ao meu ritmo, não as entreguei a ninguém porque eram escolha minha, afectavam a minha vida, o que queria dela e o que não queria mais nela, e estavam nas minhas mãos decidir. Escolhi, ou melhor reconheci a escolha que me estava já feita por dentro, e decidi. Depois não, eu só podia decidir entre virar costas e abandonar - indo contra o que queria e quem queria e gostava -, ou esperar que quem tinha a decisão nas mãos decidisse, ainda que também a minha vida saísse afectada e decidida. De cada vez que decidiu aceitei a decisão, fiquei no meu canto, e deixei a vida correr. Não decidi nada, ou decidi que não queria fazer nada. Apenas ficar onde estava a roer razões e porquês sem resposta. Não me mexi, não corri, não fugi, não fui atrás. Fiquei-me. E deixei-me ficar de cada vez que voltaram. Decidi sempre deixá-lo decidir. E agora não sei se isto é imobilismo. Deixou-me a pensar isto.
(é por estas coisas que me dizem que eu penso demais... se calhar têm razão)
(foto de Jens-Wilhelm Janzen, roubada aqui)

Está decidido. Vou voltar ao Yoga... já andava a pensar nisso e vou voltar; preciso, sinto os ombros pendurados nas orelhas de tanta tensão, preciso de me mexer, esticar, "elasticar"... 
só ainda não sei para onde vou... mas vou. Tenho de mudar algumas coisas na minha vida, começar a tratar do corpo que anda tão esquecido é um bom ponto de partida, isso e ver se consigo ganhar uns kilitos... temos de começar por algum lado e gosto do yoga, faz-nos mexer e não andamos aos saltos com o coração a saltar-nos pela boca e os bofes de fora... not my type...
Bom Dia
Fui agora, por acaso, até aos posts de final de Junho de 2012 e é incrível... Tudo. Eu lembrar-me da cena que deu origem a certo post, que acabava com alguém a dizer "tenho de me ir embora daqui", como aliás depois está escarrapachado nos comentários ao post. Lembro-me até exactamente do toque no braço com a ponta dos dedos que me fez voltar a lembrar que o manto que tenho em cima do esqueleto é pele, e que a pele sente. É suposto sentir. Lembro-me de ouvir que tinhas de ir embora dali, lembro-me que não te disse para não ires, como nunca to disse, como nunca pedi para ficares. Há coisas que não se pedem porque não devem ser feitas para fazer a vontade a alguém, têm de ser vontade, sim, mas apenas do próprio, não são próprias para se fazerem concedendo, ou cedendo a pedidos de ninguém. Leio, e lembro-me das brincadeiras, de como tudo se tornava uma brincadeira em que acabávamos a rirmo-nos juntos, e tantas vezes agarrados, colados, nariz com nariz, respiração a passo, silêncio a par. Lembro-me dos nossos nomes parvos, de te chamar tanto mula sem cabeça como coisa boa, e de tu me chamares biscoito. Lembro-me de passares no café onde tínhamos ido tomar café num domingo à  tarde, de te ver à  distância passar de carro, quando uns dias antes estavas sentado comigo na mesa, com um café à frente e muita conversa no meio. Depois apanhámos a estrada impedida, um cortejo ou uma procissão, disso não me lembro, e fomos um atrás do outro a mandar mensagens enquanto os carros não podiam andar.  Lembro-me de me falares dessa tarde muitas vezes, de me dizeres que tinhas gostado tanto...Lembro-me de me adorares, e não sei como isso é possível, como poderá ser possível lembrar-me disso, que nunca foi... Lembro-me de tudo. Como? Ainda sei as tuas mãos de cor. Porquê? Ainda sinto o calor dos nossos beijos. Para quê? 

Deixa-me soltas as mãos
e o coração, deixa-me livre!
Deixa que meus dedos corram
pelos caminhos do teu corpo.
A paixão -sangue, fogo, beijos-
incendeia-me a labaredas trémulas.
Ai, tu não sabes o que é isto!
É a tempestade de meus sentidos
subjugando a selva sensível
de meus nervos.
É a carne que grita com suas
ardentes línguas!
É o incêndio!
E estás aqui, mulher,
como uma madeira intacta,
agora que voa toda minha
vida feito cinzas
para teu corpo cheio, como
a noite, de astros!
Deixa-me livre as mãos
e o coração, deixa-me livre!
Eu só te desejo, eu só te desejo!
Não é amor, é desejo que se
esgota e se extingue,
é precipitação de fúrias,
proximidade do impossível,
porém tu estás,
estás para dar-me tudo,
e para dar-me o que tens para
à terra vieste
como eu para conter-te,
e desejar-te,
e receber-te!

Pablo Neruda

[...o desejo. vai vem e esgota-se. quando é só desejo.
quando o desejo anda a par do amor, e do desejo de amar e ser amado, quando se ama amar com desejo, é amor embrulhado em desejo que não se esgota. enquanto não morrer o amor. depois morre tudo. distancia-se a proximidade do impossível para se aproximar a distância do possível. ]

Boa Noite

22 janeiro 2015


"Nunca tive um sítio a que chamasse casa, talvez por isso chamasse casa a tantos.
(...)
Só percebi mais tarde que casa é um lugar que se faz com as mãos. Que só chamas casa ao que abre os braços para te receber. Que só chamas casa ao que te faz sentir em casa do outro lado do mundo. Que casa é um lugar no peito de alguém. Que estar em casa é deitar a cabeça no teu colo. Tu a tua no meu. Que essa é a verdadeira casa. Que tudo o resto interessa pouco. Que a geografia, essa, não interessa nada."

Roubado ao Menino

[... casa. o que é aquilo a que chamamos casa? casa é onde estamos bem, onde somos nós sem medo de sermos o que somos, onde nos sentimos protegidos, onde nos refugiamos e de que não nos escondemos, é o sítio para onde fugimos e de que nunca escapamos. Não é onde precisam de nós, mas onde não sendo precisos, somos queridos, somos parte, nos sentimos parte e, ao mesmo tempo, todo.
Casa é uma noção independente de coordenadas geográficas.
Não é onde temos um lugar para nós - é onde nós somos o lugar, e o lugar somos nós. Sozinhos ou em partilha sem distinção de partes.
Sentimo-nos casa em casa. E casa não é um sítio com geografia, é o sítio onde sentimos poder aninhar a alma sem solidão.
...às vezes casa é uma pessoa que, em qualquer sítio, nos faz chegar a nós e não nos faltarmos.
e sentirmos que não nos falta...]

(Foto de Sophia Hsin)

Agora é o que eu preciso. 
O café arranjo não tarda muito.
O resto o tempo dirá, agora tenho mesmo é de ir ao banho e trincar qualquer coisa 
(depois do banho, entenda-se... se bem que não era mal pensado, não... Eheheh)

Bom Dia!

Mulher feita (ou quase) a assustar os medos. Alguns.
Fazendo o caminho certo hei-de chegar aonde chamamos casa. É fazê-lo. Sozinha.
Estrada deserta. Música. Sem sono. Ainda.

21 janeiro 2015


Vive-se sozinho, meio acordado, numa espécie de torpor. E no interior das pálpebras fazemos aparecer o rosto amado.
Gostaríamos que estivesse aqui, ao alcance das palavras que reinventamos para lhe sussurrar, ao alcance da mão e da boca, ao alcance dos sentidos e do desejo imediato.
Um ardor estranho sobre a pele e nos olhos impedem-me de continuar vivo. Morro sem pressa. Começo por cegar para conservar o teu sorriso (...)

Al Berto

[cada vez gosto mais deste senhor.. sombrio, é certo. mas intenso. denso. profundo de sentidos e significâncias. gosto. ofereci o livro e agora, de vez em quando, vão chovendo frases que me transcrevem, e eu convenço-me de que tenho de o comprar para mo oferecer. para ler as frases todas, não só as que retinem na cabeça de outro alguém que de manhã me deixa mensagem só a dizer que esta ou aquela frase não o larga. e eu oiço-o, leio as frases, e leio-as como quem reconhece uma vida que já teve, que já sentiu, que já teve aquelas frases a correrem-se no sangue quente de um sorriso que se vive. daquele sorriso que tenho de cegar para conservar. para nada me distrair, para nada mo levar. é que uma pessoa pode-se desapaixonar de repente, dizem-me. Apaixona-se, está apaixonada - muito, muito, não consegue esquecer nem viver sem - e depois, um mês, dois, depois já não está apaixonada por ninguém. por nada. será que se ouvissem estas frases as reconheciam? ou sempre foram cegos e não conservaram nada. de ninguém?
...e isso, isso, desapaixona-me também... a falta de densidade, de intensidade, da profundidade do que se sente, e a leveza do que se diz, sem nada se sentir, nem de leve... ]

20 janeiro 2015


Definitivamente preciso dum gajo, acabei de ficar sem modem ou o raio, achei que era o transformador, lá fui tentar enganar o bicho mas a entrada era diferente. Experimentei um modem antigo ligou as luzinhas todas e tudo, mas net ou televisão nicles... Lá abanei o outro, chamei-lhe uns impropérios, voltei a ligar et voilá... Deu. Estava só armado em parvo. E fiquei a pensar que realmente há coisas para que um gajo faz falta, se bem que estas coisas sempre fui eu mesma a fazer... Mas lembrei-me que tenho uns cortinados para pendurar e do berbequim fujo, penduro quadros, troco fios, faço quase tudo, desde que não meta aquele bicho ao barulho... Tenho medo dele, não lhe pego. Então lembrei-me disto http://maridoaodomicilio.com/... Pode ser que apanhe uma campanha, ou assim, com direito a bónus, sabe-se lá... Pode dar jeito... É que há coisas para que um gajo faz falta, e para pilotar o berbequim e abrir frascos teimosos, fazem alguma falta... Será que também fazem massagens ou só se dedicam a canalizações e Electricidade?... Pois sim, tenho de explorar melhor o site, 'tá visto.
(e arranjar uma foto a condizer com a falta de juízo do post não foi fácil... Há coisas para que não tenho mesmo jeito para procurar... Irra!! Só com ajuda mesmo...)

E hoje já chega de disparates... 
Boa Noite

... Apetece-me voltar aqui.
 Mesmo que aqui não seja este sítio, mas um lugar em mim, que de perdido não se perde. 
Apetece-me sair daqui e voltar ali, aquela paz, aquela paisagem de dentro, aquela companhia metade silêncio, metade letras. Do longe que está perto, do doce que aquece. 
A doçura que parece que me fugiu, que mesmo quando a tento dar se esfuma no ar, 
foge-me sem a chegar a agarrar para dar a quem ma merece.
Às vezes parece que nem me lembro de ter sido doce.
E do que me lembro nunca fui tanto eu.
Tenho de me pirar daqui.
(Só dispenso a tempestade no caminho, vá)
...e comer-te em cima da mesa,
da cadeira e/ou do sofá, o que calhar se se conseguir passar do hall entrada... 
e dar tempo de poisar os sacos.
(isto é que é programa, hein?? 
e pode-se alterar a ordem dos factores que o resultado resulta sempre...
até dava gosto ir a correr para casa... um dia destes apanho-me a ir a correr para casa assim... nunca se sabe, temos de ser optimistas, dizem-me...
e agora vou a correr, vou, mas só porque é tarde mesmo.)
ehehehhehe
Hoje apeteceu-me a varanda outra vez, mesmo com frio, enrolada na manta esburacada. O balanço do dia, o peso dos pensamentos que me correram no dia. Uma coisa boa, uma notícia que acalenta e me deu alguma esperança, e um funeral que me trouxe memórias de infância. Uma velhota que nunca foi nova aos meus olhos, que me faz recordar os brioches quentes para pequeno almoço, aquecidos no forno, dentro duma caixa de metal dourado com desenhos a cores. O açúcar por cima, meio derretido, o doce que aquece a boca e me faz um sorriso antigo. Ainda hoje. A sala era grande, as portas da varanda corrida enormes para o tamanho dos meus olhos. Lá fora, em baixo, o pátio onde corríamos e saltávamos. A casa do caseiro mais abaixo, onde uma vez um cão preso numa corrente me rasgou a roupa quase nova. Tinham-me avisado, eu achava que ele ia perceber que eu ia fazer-lhe festas para se esquecer da corrente. Achei mal... Os dentes não chegaram à carne, e eu não cheguei a ter medo, acho que percebi no fim que tinha mais medo de mim que eu dele. E agora que penso nisso talvez fosse uma lição para a vida que nunca aprendi... Quem tem medo é que ataca e morde. E o cão teve mais medo de mim que eu dele, mas quem ficou sem roupa nova fui eu, e ele deve ter continuado com o medo dele. Também me lembro do quarto com várias camas onde dormíamos, com soalho de tábuas largas corridas, e umas janelas antigas que sobem para abrir, e se sustentam num trinco. Janela aberta que alguém achou por bem fechar, um ano mais nova que eu, ficou com a mão entalada debaixo do peso da janela que não conseguiu segurar. Aquele ano a mais deu-me para achar que tinha de a salvar, e não vou de modas, consigo levantar a janela o suficiente para a mão dela se soltar e trocar pela minha, pela minha falta de inteligência... A janela era pesada, disso lembro-me e de lhe pedir para ir chamar alguém de juízo, enquanto a miúda chorava... Lembro-me de depois toda a gente me gabar o não chorar, e o ter tirado a outra mão mais pequenina de debaixo da janela... E hoje dei por mim a pensar que, se calhar, esta coisa de não chorar onde os outros vêem já é coisa do tempo das janelas antigas... e de me entalar também.
Cá fora, logo à porta de casa, havia um castanheiro enorme a dar as boas vindas com os ouriços no chão para fazer asneiras, depois um corredor enorme de mata a cheirar a eucalipto. Se fechar os olhos acho que ainda consigo cheirar aquele corredor, com um tanque a fazer de piscina de meninas a meio. No fim do caminho o começo duma vista deslumbrante, o Douro mesmo aos pés, um miradouro que adorava revisitar. E os brioches também. Doces, quentes.
Ao tempo que não me lembrava de nada disto, e de estar a jogar ao jogo das palavras, nós as duas e um tio, e era a minha vez, animais começados pela letra "L" e, já com umas rodadas de animais contadas, estava difícil. Alguém apareceu, e o comentário do meu tio para o senhor intruso foi "o que ele quer são lulas"... E eu safei-me. Dessa vez. Ele safou-me, também dessa vez.
(e está frio, está, sou uma doida, pois sim)

Boa noite.

19 janeiro 2015

(Foto de Máté)

Há alturas em que as palavras deixam de ser ponte e passam a ser casa.


As mãos. Quietas, sobressaltaram-me por dentro, sem poder assustar a calma por fora. Reconheci as mãos que tantas vezes vi nos extremos daquele olhar profundo de dor de alma e corpo, e intacta de dignidade madura, de fim de vida. Vi essas mãos hoje, outra vez, ao meu lado na mesa e não pude fugir de as lembrar, as que já não estão e agora se repetem. E agora aqui as deixo e ao sobressalto que me apertou dentro, apertando lágrimas sem consciência de as prender mas que se soltam quando as queremos largar. Soltam-se devagar, quase quietas, lambem a pele sem cair. Chorar, daquele chorar que limpa, que alivia, que nos soluça a alma, e depois de nos abanar e esgotar nos deixa mais leves, mais cheios dum vazio por preencher em vez dum vazio que nos preenche. Com esse ainda não fui abençoada. Mesmo quando vejo ainda, agora, na memória aquelas mãos. Quietas, inchadas, doentes por dentro. Eu só não estou inchada e a doença que trago dentro é só diferente. Nenhuma tem cura. Só se pede que se aguentem.

Pernoita-me.
Perdia-me.
Agora-me.
Sempre.

[só as palavras me escutam. só elas me falam]

Boa Noite

17 janeiro 2015

True...
Ou tentar. Mas não é a mesma coisa, talvez seja até uma tentativa de as saborear apenas duas vezes. De as escrever e deixá-las nas palavras, nas letras. Quietinhas. 
Não resulta, não como deveria, mas ajuda.


...tempo bom para a ronha... Só falta a chuva a bater nas janelas a embalar o calor da cama.
Também falta alguém para dividir o calor, multiplicando-o...
... E, já agora, também falta livrar-me destas dores de cabeça matinais de fim de semana.... Passam, mas enquanto nao passam, moem. 
E agora é levantar e ir fazer o dia.

Bom dia.

16 janeiro 2015

True.
E se calhar a pior...
[e por hoje já chega de trabalho, a semana passou a voar. Hoje de manhã, pouco depois de acordar parecia-me que ainda ontem tinha sido segunda feira, e já estamos quase na segunda feira seguinte. Dizem que é bom quando o tempo passa a correr. O problema é que a mim só me parece que correu muito quando acaba semana, ou quando acaba o dia, nessas alturas parece que o relógio se distrai de andar.... fica-se a embasbacar, a enrolar-se em si mesmo.Tempo que olha o tempo só faz tempo, mas esquece-se de fazer andar o tempo, a vida, e parece que pára. Parece, só parece. Parece que se habituou aquilo, parar nos fins. Morrer-se sem se matar. Mas o andamento do tempo não tem contemplações. E o fim do dia, como agora, é o começo duma viagem. Agora. E agora também é tempo. Só não parece que corre. Mas anda.]


... e de repente aparece-me isto no facebook, 
numa página dum restaurante cá do burgo de que recebo notícias no feed... 
e eu rio-me... Parece para mim, feito à medida. 
Que coincidência, não é? 
Parece alguém a querer substituir o nome do blog por "Eva com o abacate"... ou com o melão... será "Eva com o melão?" Eu prefiro, gosto de melão, já abacate... realmente... e o nome deste blog foi um nome que uma pessoa me deu, por eu ser uma tentação: uma mistura de pureza e pecado... e eu gostei. Continuo a gostar, na verdade. Do nome.
Realmente a imagem até pode ter alguma graça, agora os escritos que acrescentaram ao post é que não consegui perceber a piada... alguém me explica? Eva com uma serpente, ou com um melão, ou com um abacate ficaria mais sedutora?? Bem, realmente há Evas que ficam sedutoras com qualquer coisinha...  Lá isso é verdade (quem me pôs o nome este nome assim dizia desta Eva...)
E realmente "Eva com o melão" não soa tão bem como "Eva com a maçã", mas pode ficar igualmente sedutora... depende da Eva.
Assim de repente a falta de piada até parece uma private joke, ou assim para pior... mas numa página comercial??... seria tão pouco profissional!!... Deve ser a senhora do restaurante que entre tachos e panelas lá acumula a função de ir pondo um post ou outro... o próximo há-de sair melhor. 
Com mais piada pelo menos. 
Vamos fazer votos que sim!!

[até estou aqui a pensar que se calhar vou lá fazer um "gosto" naquilo (quem sabe até um pequeno comentário) com a conta de facebook do blog, assim todos os familiares, amigos e afins, do dito restaurante podem ficar a saber que há um blog que parece à medida do post...  por onde podem navegar e explorar e ver todos os posts e comentários desde 2009... hummm vou pensar...]

Bom Dia!
Boa Noite

15 janeiro 2015


não se sai do abismo,
aprende-se a sua linguagem

vasco gato

[...deve ser isso que me falta. Não devo ser boa em línguas. Ou então tenho esperança de sair do abismo... ou que ele saia de mim... entretanto olhamos um para o outro. Talvez aprendamos a falar assim, numa língua sem língua. Também há, já experimentei. Depois conheci o abismo. ]


À espera em frente a uma porta fechada. Pego nas letras, restam-me sempre as letras. Não, nem sempre. Penso que do que aqui me trouxe nada levo. Resta-me esperar pelo café com dois dedos de prosa a puxar poesia, que a porta fechada guarda. A caminho daqui, depois de não resolver o que resolver vim, vinha a ver por quem passava, quem se via no mesmo caminho em sentido inverso, ou diverso. Vi mulheres a servir a pele ao frio, com aspecto árvore de natal fora da época natalícia, mas destas há-as de vários tipos, desde as próprias dos grandes salões às das esquinas. E nem sempre é fácil distinguir quando baralham os horários, ou os sítios. Mais à frente, um homem sentado em frente a uma cadeira vazia à espera que alguém se sente para dar graxa. Continuei a andar passei por uma miúda, ao longe com um sinal à Monroe, de perto com um piercing atarefado em enfeitar uma cara atarefada em falar ao telefone. Logo a seguir um homem desfigurado, acidentado da vida do destino ou da estrada, não sei. Não sei se faz diferença. Passei por a mãe com uma menina pequenina pela mao que olhava para tudo e todos. Olhou para mim. Sorri enquanto me desaparecia do olhar que continuava o meu caminho. Penso na estranheza que estranhei em todos os olhares graúdos que me retribuíram, percebo que todos olhámos com o mesmo olhar, a mesma estranheza apressada. Todos nos estranhámos por nos acharmos diferentes dos que são estranhos. Oiço um olá por trás destes pensamentos. O café já chegou. A estranheza foi-se. O olhar ficou.

Bom Dia.

14 janeiro 2015

...finalmente um bocadinho de sossego.
Hoje o dia correu, e ainda bem, e também correu bem, porque quando o dia corre o tempo não se sente, e então não se sente nada. Não se pensa em nada que possa parar o tempo, não se pode parar o que nem sentimos existir. E o que sentimos, tantas vezes não sabemos parar.
Agora faço-me ao caminho e é como ir descendo devagar aos andares subterrâneos de mim. A noite ajuda, a música embala-me. O que me lembra do que vinha a pensar de manhã no caminho inverso: apetrechei-me de música que não me tocasse as cordas da alma, encontrei um cd que, apesar de me ter sido oferecido há muito tempo, ainda não o tinha ouvido. Fui deixando-o ficar porque foi-me dado, foi copiado para mim, mas não foi feito para mim, para falar comigo. Foi copiado de outro, de um amigo que não conheço, que tinha bom gosto na música. E tinha; gosto do cd, duma faixa única, seguida, misturada. Gosto também porque são músicas sem memórias, não arrastam consigo os beijos, as conversas, os silêncios gozados num colo doce, as gargalhadas, os "adoro-a" a meio das conversas quando nada o previa, os "olá" que faziam reboot às conversas... estas músicas não trazem nada disso. Ouvi-as pela primeira vez há pouco tempo. Foi copiado para mim, foi-me dado, mas não foi feito para mim como outros, que - esses sim - logo minuciosamente ouvia tentando perceber nas entrelinhas algum significado que me fosse destinado, como tinham todos os que fiz para dar. Para lhe dar. E sei que percebia as entrelinhas quando lhe ouvi que tudo o que eu fazia tinha uma mensagem, desde as músicas à ordem por que estavam gravadas, e percebeu, percebeu-me. Soube-me por dentro do que eu nem sabia que tinha, mas descobri ao descobri-lo, e dei. Tudo. E quando ouvi esta frase não consegui deixar de sorrir por dentro, por me topar, pelo conforto que dá ser percebida e gostar, e gostarem. De não ter medo, e querer, que me vejam como sou, e ver que é assim que me vêem.  
Dos CDs que eram feitos para mim gostava da música, das músicas, mas o que eu adorava, o que me prendia nos sítios a que os ouvidos não chegam, era que tivessem sido feitos a pensar em mim; cada música escolhida, cada ritmo, cada letra. Em mim, para mim. Não uma composição copiada, não a cópia integral de algum cd, que também os tive assim. Alguns para me mostrar que eu tinha o exacto ritmo dos Portishead (que não conseguia ouvir sem se lembrar de mim, que aquilo era eu: a languidez, dizia); a alma dos Tindersticks (a nostalgia, a melancolia, que me era feita à medida); ou sonoridades que combinavam comigo, como os XX (que uma das vezes não aceitei, e só não o mandei à merda na altura porque não calhou; deixou-mo depois, em minha casa na sala, sem eu dar por isso; encontrei-o dias depois, e lembro-me disto e sorrio e acho-me estranha, como se tivesse sido ontem e já foi há anos, dois?, três? mais?.. não sei...); depois algumas letras de músicas que hoje são das minhas preferidas e de que agora fujo muitas vezes. Fujo para não me arrastarem para estas memórias que agora aqui me escorrem pelos dedos...
 Gostei muito, tanto, dessas prendas surpresa, sem data, sem altura, sem dia próprio, mas próprio de qualquer dia de quem gosta e quer dizer que se gosta, e que me faziam o dia, a semana, e se prolongavam e repetiam de cada vez que os ouvi. Eram feitos para mim, a pensar em mim, à minha medida, num nós em que me sentia realmente eu. E era, e as músicas que me escolheram provavam que me viam como sou, como eu sinto. Com aquelas bandas sonoras ou sem elas. 
(e andei a escapar o dia todo de coisas como estas e agora de pensar num cd o que me sai, senhores, não há esperança, a estupidez está demasiado entranhada...)

Bom Dia

12 janeiro 2015

... Exactamente....(entre outras coisas...)
Hoje apetece-me sofá e manta e um chocolate quente... 
Não inclui tratar da loiça...ainda se fosse a quatro mãos (de mãos certas, claro)...
Bom, se fosse nada, era a mesma coisa...
... Bom a mesma coisa não era, a não ser para a loiça...
... Que se .........
(foto de Tazio Secchiaroli)
"Existiram sempre em mim pelo menos duas mulheres, uma desesperada e desnorteada, que se sentia a naufragar, e outra que queria apenas trazer beleza, graciosidade e vida às pessoas, e que estava pronta a entrar em cena como no teatro, pronta a ocultar as suas verdadeiras emoções, porque elas eram fraqueza, desamparo, desespero, e apresentar ao mundo apenas um sorriso…”

 Anaïs Nin

Apanhado aqui.

[Não, nunca fui assim, não sou duas mulheres, sou uma; ainda que essa uma tenha muitas mulheres diferentes, que sou eu sempre. E sou sempre a mesma. Nem todos as conhecerão a todas, ou a mim quase inteira, nem têm de conhecer, nem merecem conhecer. Talvez por isso possa parecer mulheres diferentes em ocasiões distintas, mas sou uma só. Os comportamentos são respostas às situações e às pessoas, não me ferem a consistência, nem me baralham a existência. Poucas pessoas tiveram acesso ao meu eu completo, ou quase. Acesso ao processador dos comportamentos que geram diferentes perspectivas da mesma mulher. Ao que se chama conhecer por dentro, conhecer os processos mentais e emocionais que nos caracterizam e nos dão as respostas às medidas das situações. Claro que sempre faltará uma parte, há sempre coisas só nossas, ainda que não as escondamos. Mas as pessoas de quem gosto não chegam a conhecer a minha frieza e vontade de distância, não porque queira esconder essa faceta minha, mas porque eles não ma suscitam (e quando a vêem em relação a outros, às vezes, não conseguem esconder a surpresa, o que eu acho alguma piada ao mesmo tempo que me traz a insegurança de não saber até que ponto ficam baralhadas...). Os outros, de quem não gosto, não se baralham, sabem que não me entraram nas simpatias e não disfarço, não tenho porque disfarçar, nem quando gosto, nem quando não gosto. Sou o que sou, gosto de quem gosto, não gosto de quem não gosto.
Isto tudo veio-me à cabeça com este texto, porque no outro dia alguém me dizia, entre interrogação e afirmação: "tu até pareces bem, mas estás mesmo?" e eu respondi, não, na verdade não estou nada bem. Mas eu percebi a pergunta porque já tinha dado por mim a questionar-me sobre que ideia daria eu nos dias que correm. Eu sou tão transparente que quando estou neura, ou chateada, ou irritada, olha-se para mim e vê-se, não há que enganar. Eu não ando assim, nada me chateou, nada aconteceu que me irritasse, nada suscitou uma reacção dessas que me ficam estampadas na expressão, no olhar, não sei onde, mas ficam, e vêem-se. Não, o que eu trago é só uma tristeza subterrânea, uma coisa que a superficialidade dos dias não alcança e que até protege. Uma superficialidade que chego a agradecer como se agradece a sombra num dia tórrido e asfixiante. Posso até rir, posso até fazer rir, posso atirar-me a qualquer coisa com vontade e às vezes pode até parecer ganas, mas não, é só a mecânica dos dias a trabalhar, e eu a fazê-la trabalhar para mim. Assim, a parecer estar bem e efectivamente a não estar mal - a ser o dia-a-dia.
Quando os dias páram, mais ou menos a esta hora, a maré subterrânea começa a subir e a submergir a superficialidade dos dias. É quando surgem todas as perguntas, as mesmas e diferentes; arranja-se sempre mais uma, mais uma estupefacção, ou mais uma estupidez para adoração. Arranjei um saco onde despejo estas coisas da alma, fechado, hermético, mas que às vezes pontapeia por dentro, durante o dia, desavisadamente, a um qualquer sinal que nos submerge num instante para nos roubar um  momento que já tivemos, já vivemos, e já perdemos. É uma gravidez sem termo que há anos se nos mexe por dentro, cada vez mais dentro, cada vez mais longa. Fora esses pontapés que nos roubam o que lhes demos, a alma cala-se durante os dias que me fazem mexer sem sair do lugar, para quando abre a noite me fazer parar e o desassossego espernear na alma. O saco abre-se, respira e asfixia-me. Mas agora, aqui, sozinha, ninguém vê e ninguém sabe se estou bem, se estou mal, ou se nem me sinto. Ninguém me sabe, eu sinto.]
... experiência fornecemos, no problem.
Só é pedida vocação... e muita vontade!!
eheheheh

Bom Dia!



A memória será uma mentira? 
A memória é apenas a nossa verdade da realidade, que pode não ser verdade.
Agora nada parece verdade. 
A memória arquiva-nos a vida que já não é vida; alguma vez terá sido? Assim? No entanto, a memória é o que sabemos, o que aprendemos, o que guardámos, o que somos, quem somos.
A memória arranja-se desarranjando-nos. Engana-se enganando-nos. Mente-nos repetindo-nos a nossa verdade. Mas uma verdade só nossa não será mentira?
Todos me avisaram do engano, eu achava-os enganados. 
Agora nada parece verdade, devia ser verdade. O engano. A mentira.

Boa Noite

11 janeiro 2015


(...)
And summoned now to deal
With your invincible defeat,
You live your life as if it’s real,
A Thousand Kisses Deep.
(...)

[De tanto gritar por dentro emudeci a voz pelo avesso; tal o barulho ensurdecedor dos ossos que estalam, da dor que cerra os dentes e não chora, do desespero que incha e não rebenta, que sinto tanto as costuras, que sinto-as mais que a mim, mais que tudo, e todo o alguém que me chega sem chegar perto. Sinto-as tanto, que as sinto à beira de não se sentir mais. De não me costurarem mais, de mais não me manterem junta, já que inteira há tanto que não sou. Há tanto tempo em queda no precipício, a olhá-lo nos olhos de olhos abertos, a vê-lo e ele a ver-me, que não sabemos mais o que fazer um com o outro. Um ao outro. Mas eu continuo a cair, e ele, qual dueto, a afundar-se mais. Como os beijos que trago dentro por abrir. Nenhum de nós acaba. ]

10 janeiro 2015




A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Manoel de Barros

[...eu também.]
Bom Dia

09 janeiro 2015

[Foto de Rune Hartvigsen]

Às vezes as palavras desaparecem-me, perdem-se de mim, ou eu perco-me a caminho delas. 
Às vezes o tempo de repente pára, e eu apercebo-me porque percebo que deixo de respirar, ou melhor, percebo que é preciso respirar. Percebo que há coisas inatas que às vezes têm de ser pensadas, como respirar.
Às vezes as palavras desaparecem-me quando o tempo pára, e eu percebo que parar essa inércia do tempo, que me leva na corrente dos dias, sem um dia que se preze de ser "um dia, aquele dia, aquele sorriso, aquele momento", me faz cair em queda livre para dentro de mim. Faz-me mergulhar no buraco negro em que os dias que correm parados me fizeram. E posso mergulhar sem perigo de me despedaçar de encontro ao chão, nem tanto por nada restar para despedaçar, mas porque ainda não o encontrei. Ou sequer avistei.
Às vezes dou por mim numa tristeza imensa em que me podia afogar, e nessas alturas aprendi a assobiar baixinho para o lado: trocar a tristeza por trabalho, por coisas que me arranjo para respirar sem perceber, livros que me entretêm as letras que me fogem, ou de que quero escapar, quem sabe? Agarro-me, com a réstia de unhas que tenho na espinha, ao que quero de mim, para não me deixar ser o que não sou, nem quero ser. Nunca. Ainda menos agora. Não quero raiva, não quero ódio. Ainda que me acenem cada vez mais a cada anoitecer, a cada amanhecer que fica prometido sem nunca se cumprir um novo dia: um dia, aquele dia, aquele sorriso, o momento em que o dia amanhece, seja qual for a hora. Aquele momento que faz os dias não precisarem de calendário para serem lembrados. Nesse calendário onde havia dias em que eu ainda sentia. Agora não sinto nada, e as palavras fogem-me talvez por isso. Desapareci das palavras e do tempo. Desapareci. Desapareci-me. E não me sinto a falta. Nem eu, nem ninguém. 
Às vezes não tenho saudades, não por ter tudo, mas por perceber que não tive nada do tudo a que me dei. Só tive o que dei, nada mais. E disso não tenho saudades, porque é meu, trago-o vestido por dentro da pele que me veste, mesmo quando o tempo pára e me leva as palavras que não quero que me falem de saudades. 
Às vezes as coisas têm de ser esquecidas, como ter aprendido que amar é inato e que respirar é preciso. Às vezes.

07 janeiro 2015

"Vamos repetir o estribilho de que a realidade ultrapassa a ficção e, uma vez mais, mencionar as enxaquecas de que sofre o comum dos escritores em busca de enredo que lhe permita escrever o sonhadobestseller e escapar de vez ao martírio de uma inspiração que demora, e as mais vezes nunca chega.
O dia-a-dia, esse não sofre de writer's block, enredos e peripécias tem de sobra. Conte-se então o caso verídico e, pelo que sei, neste momento ainda sem desenlace.
Pai, mãe, duas raparigas ainda nos vinte, boa gente, vivendo nas alturas confortáveis em que os problemas de dinheiro se limitam ao aborrecimento muito relativo das flutuações da Bolsa, já que a base iguala a solidez das pirâmides do Egipto.
O combinado era passarem o Natal no apartamento que têm em Paris, pelo que a mãe e a filha mais nova saíram de Amsterdam na semana anterior. A má sorte fez a sua entrada quando já tinham passado Arras e, sem explicação plausível, o carro se despistou matando a mãe.
A filha escapou com ligeiros ferimentos, mas facilmente se imagina o ambiente em que passaram o Natal.
A 26 de Dezembro a má sorte voltou. A filha mais velha recebeu o resultado do diagnóstico que aguardava: no ponto em que se encontra a doença que lhe constataram terá de ser submetida a uma transplantação de células-tronco. O doador mais indicado é o pai.
Só ele, pobre e desesperado amigo, sabe que dentro em breve, imparável, a má sorte de novo lhes vai bater à porta quando se negar a ser o doador de que a filha precisa, e tiver então de confessar que nenhuma delas lhe pertence, ambas geradas por alguém que desconhece e com quem a mãe o enganou.

O enterro está marcado para de amanhã a oito."



[Às vezes, e tantas ao final do dia, o dia parece acabar connosco mais do que com a luz que o sol leva. Nesses dias parece-nos a vida uma injustiça cega e estúpida (e hoje tanto...). Faz-se tempo não se sabe para quê, porque fazer tempo faz o tempo crescer quando queremos que ele passe sem querer, e nos entretantos da nostalgia, lemos isto seguido às notícias do dia. Concluímos, com amargo de coração, que injustos somos nós e que cego é quem não percebe que há tanto para ver na escuridão do dia que passou. Na dor que ainda não se sentiu. Mas parece que só se sente a dor, e nunca se sente que não dói, como se o contrário do avesso não existisse. Mas existe, ainda que nem sempre seja o direito.]
Era como se a cada passo eu me rasgasse um pouco,
porque a minha pele, tinha ficado presa
naquela mulher

Chico Buarque

[... e os passos já foram tantos... a pele é já tão pouca. 
Os passos por caminhar tão longe, e apertada a pele, rasgada tão perto. Apertada por dentro, por não a apertarem por fora, com a força do querer, as mãos que de longe se sentem perto. E a distância tem todo o comprimento dum rasgo.]
...para que não se nos escape a alma!!
pois!

Bom Dia!


Fecho a luz e espero que os olhos me fechem a mim. 

Boa noite

06 janeiro 2015

Porque é que a lua é tão redonda? se o redondo não pica,  mas o luar brilhante espeta-se assombrado num coração aluado?
Humm?
Corre-se tantas vezes debaixo da lua sem o luar cair em nós... Outras vezes o luar tropeça-nos no andar e a lua engole-nos o caminho.
Como agora.

“Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face… E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa… mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver… para viver?”

Florbela Espanca

[ quantas vezes já não pensei quase exactamente isto?
com palavras quase exactamente parecidas.
Só não sei exactamente porquê... mas as palavras de Florbela sempre me pareceram raízes minhas. palavras dela que seriam minhas antes de o ser, por serem dela mas falarem de mim. ]