Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

28 janeiro 2015



Hoje ouvi uma frase que me explica e que explica tanta coisa nos meus últimos anos. Já aqui disse e repeti essa mesma ideia, mas ouvi-lo fez-me bem, como se alguém percebesse o que tento dizer e ninguém que me conhece parece entender quando o digo. Como se não encaixasse, como se não encaixasse no que entendem de mim - e eu entendo que deveria entender de mim, mas entendo porque não o consigo entender assim... Foi a propósito do filme sobre a vida de Stephen Hawking, baseado no Iivro que a sua primeira mulher escreveu, a quem perguntavam como é que ela aguentou os tempos em que tinha os filhos pequenos, o marido já com um grau avançado da doença e ainda a fazer o seu doutoramento sobre poesia medieval espanhola (acho que era isto, mas não interessa em quê, eu fiquei a pensar que no meio daquilo era o escape dela), e ela respondeu simplesmente: "porque não tinha alternativa! Que havia de fazer? Matar-me? E o que seria dos meus filhos? e do meu marido? Não podia. Não tinha alternativa".
E é isto. Não conceber alternativa. Eu também não conseguia conceber, a alternativa era matar um eu que eu gostava, que me fazia - que me deixava - ser quem eu gosto de ser. E era sempre matar uma parte de mim com as minhas próprias mãos. Não conseguia conceber essa alternativa, logo não era alternativa. Não havia hipótese de ser considerada alternativa. A única coisa possível era aguentar como podia e me permitia, de acordo com o que sou, com o que penso, e sob a luz dos princípios que me fazem. Não magoar ninguém, não obrigar ninguém a nada, não provocar situações complicadas, mas fazer entender o que sentia e como sentia. Deixava-me no meu canto e aguentava o que houvesse para aguentar, enquanto eu quisesse aguentar, enquanto não concebesse outra alternativa. E se concebesse não era ameaça, não era jogo, não era estratégia, era porque genuinamente tinha, e sentia, uma alternativa àquele aguentar. Como agora não tenho. Agora é só outro aguentar, aguentar coisas diferentes, outras, e mais. Infelizmente mais, e tristes, e complicadas. Mas alternativa não se avista. Atirar-me da ponte não posso - a noção de deixar sobrecarregadissimo alguém quem gosto muito e não merece, só porque não me apetece mais aguentar, é pesada demais para o egoísmo de que sofro. Então não há alternativa senão aguentar. O que me lembra uma frase que alguém me disse há dias, quando perguntei a meia dúzia de pessoas que me conhecem de formas e intensidades diferentes como me descreveriam (as características comuns que atravessam as frases de quem nunca me viu senão pelas letras, e de quem muito me viu, são engraçadas...Mas isso agora não interessa para aqui, pode ser que dê um post um dia) e que dizia
"tu és uma idealista estóica que precisa que lhe ensinem a ser feliz. estoicismo é, acima de tudo, a capacidade de aguentar. de aguentar calado, geralmente. tu aguentas mais calada do que parece. isso do blá blá e da resmunguice é fachada. as coisas a sério tu aguenta-las calada. depois mandas vir é com tudo o resto."
E eu fiquei a pensar nisto por várias razões. Primeiro, nunca me tinha passado pela cabeça que alguém me pudesse tomar por estóica. Depois acho que não me calo muito, e escrever, escrevo até demais de mim, e finalmente porque foi uma coisa que eu ouvi muitas vezes acerca de outra pessoa: que era estoico, que aguentava, e que aguentava cada vez mais, tantas vezes calado, sem se queixar. No fundo, que era obrigado a aguentar. Mas não era. Havia alternativa, e estava nas mãos dele. Acho que ele também nunca concebeu a alternativa. Como eu nunca consegui conceber a alternativa de matar a parte de mim onde ele estava. Onde eu estava com ele, onde estavam estas e outras conversas, onde estava muito do tudo que eu consigo conceber como o todo.
O que é que eu podia fazer? Aguentar.

(o que me lembra uma resposta minha a uma pergunta - "enquanto tu quiseres e eu aguentar." Mas também é daquelas coisas que só eu me lembro, e estou sentada agora precisamente no sítio em que disse isto, só não tenho a lareira à frente, e falta-me o olhar que recebi depois da frase)

Boa Noite

6 comentários:

eusouassim disse...

Até quem tem uma doença grave e com destino já traçado e não consegue aceitar o facto tem uma alternativa. Aceitar o facto e aproveitar o que ainda tem para viver.

Alternativa há. Difícil é optar por ela.

Beijos

Eva disse...

:) sim, isso é aquilo a que eu chamo não conceber alternativa, por isso nem a considerar como tal... Como atirar-me da ponte, foi o que tentei dizer.
No que dizes, se a pessoa não consegue aceitar o facto como é que a sua alternativa é aceitar o facto? Não, a única alternativa é aceitar o que consegue e aguentar. Talvez a vida algures a faça aceitar o facto, e então, nessa altura ela tenha outra alternativa.
As alternativas, como as escolhas, não são eternas e imutáveis, porque nós também não somos.

Bom dia!

eusouassim disse...

:-) Isso é o discurso do fado, do destino...talvez a vida a faça um dia aceitar o facto.
Não é a vida, é ela. Ela é que tem que aceitar o facto. E "criar" uma vida diferente.
Aguentar não deve ser a opção...aguentar é fado.
E repito: isto é muito fácil de dizer! Difícil é fazer ;-)

Bom dia e beijos

Eva disse...

pronto, não lhe chames vida, que não seja a vida a fazê-la aceitar o facto, mas o que a vida fez dela, se quiseres, ou a visão da pessoa da vida mudar, ou, ou, ou... uma coisa é certa: algo nela tem de mudar, mas uma mudança de dentro para fora. o querer que seja assim só porque é melhor, sem o sentir e só para dizer que sim, que aceitou, que andou para a frente, e que vai aproveitar o que resta; dizê-lo só porque dizem que isso é que sim, isso é que é alternativa das boas, mas sem isso lhe vir de dentro, não vale de nada, é só um engano, um teatrinho para si e para os outros. As pessoas mudam perspectivas, mas mudam-nas porque algo aconteceu nelas para que mudassem, algo lhes muda o olhar sobre o mundo. Não se muda a nossa estrutura interior porque se quer, não obedece à vontade.... à vontade obedecem comportamentos, mudança de hábitos, nunca o modo como vês a vida, isso é resultado, é o fim do processo do que te faz e altera. Inverter esse sentido, forçando dizer que se mudou para se ver e sentir as coisas de forma diferente, não vale de nada. E isto é provavelmente a razão porque eu não obrigo ninguém a nada, não forço, não pressiono... as pessoas se não chegarem lá por elas, se a mudança não vier de dentro para fora, é postiça... e, bom, dura uns meses, com sorte um anito se for muito resistente e teimosa... mas tu sucumbes sempre ao que és, não ao que te convences que é melhor quereres ser.
"criar" uma vida diferente é possível, criando comportamentos diferentes, rotinas diferentes, companhias diferentes, mas ao fim do dia, quando fechas os olhos quem te está dentro, o que te faz o que és, terá mudado? Talvez, e se te mudou amanhã terás mais alternativas. :) depois de teres mudado

[as respostaas que me fazem dar... e nem vou rever que não tenho tempo, paciencia perdoem os erros eventuais e a crónica falta de pontos, virgulas e afins, é escrito a correr sem revisão...]

eusouassim disse...

Eu concordo com o que dizes e sobre a forma de mudar. Mas como tu própria dizes, até os teatrinhos e o forçar podem às vezes ajudar a mudar rotinas e mais tarde a mudar qualquer coisa. Claro que depende também do que estamos a falar...uma doença? Um desgosto de amor? Uma dependência (jogo, alcool, etc)? AS pessoas e as receitas são naturalmente diferentes...o que não resulta em ti, pode resultar na perfeição noutra pessoa! ;-)

Eva disse...

Pois, talvez. Comigo os teatrinhos não costumam funcionar... Ao fim do dia o que falta continua por preencher. E sim talvez seja uma dependência, uma espécie de dependência. Dizem que a felicidade vicia.