Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

15 agosto 2015

Chego e todos os dias peço o mesmo: "um café e um copo de água, se faz favor". Hoje cheguei e não tive de pedir, surge-me com o café, o copo de água e um cinzeiro. Não só sabe o que peço como reparou que o cinzeiro é-me necessário, mesmo que nunca o tenha pedido, geralmente levanto-me e vou-o buscar.... Porque é que a vida não é assim? 
"Era isto, menina?"
Era, era isto... Sorri a acompanhar o "obrigado"... 
Mas aquele "menina", pôs-me de novo a pensar: porque é que a vida não me trata assim?

Bom dia.

13 agosto 2015


... E é isto.
Vale-me o sentido de humor, normalmente, não ficar entalado...

Bom dia!


Saudade: substantivo que se sente verbo do passado conjugado no presente meramente indicativo.

[tenho saudades de mim, saudades de me sentir eu inteira, inteira de falhas sem medo de as mostrar. Saudades de poder ser eu e de olhar o horizonte com esperança na ansiedade que o medo faz apertar mas que não asfixia. Saudades de acreditar nas pessoas, na vida, num qualquer equilíbrio justo do viver. Saudades de querer acordar e não me importar de não dormir. Saudades das gargalhadas destravadas e desavisadas. Saudades de não ter tantas saudades como se o passado me guardasse e o presente fosse um repetir-se mecânico inabalável e meramente indicativo: agora, hoje; amanhã será também agora, hoje, tal como hoje, tal como amanhã, tal como sempre, porque o passado, algures, ficou com os dias: com aquele dia, e o outro, e o tal, e o dia disto, o dia daquilo, o dia em que o nada foi tudo, o dia em que tudo deu em nada... dias com luz dentro mesmo à noite. Guardou-os numa gaveta fechada com a chave de saudades. Só assim se abre, mas nunca de lá saem. Talvez seja melhor que uma gaveta vazia, ou talvez não.]

12 agosto 2015


Toca-me como se fosse tua
Toca-me como se te fizesses meu
Toca-me como se me conhecesses
Toca-me como se me quisesses todos os dias desde sempre
Toca-me como se fosse tua rainha e tua serva
Toca-me como se fosses meu senhor e meu escravo
Toca-me como se nada mais importasse
Toca-me como se os teus dedos fossem só alma
Olha, 
olha-me, como se nunca me pudesses tocar.
Toco-te?



(Foto @real_simple)



Disseram-me que um dia me iriam escrever a explicar tudo.

Recebi a carta quando já nada esperava.
Era só uma palavra...
...inexplicável.


Dizia tudo, explicava tudo, era tudo

E não dizia nada, não explicava nada, não era nada.

Eu não quis perceber.
Eu não percebi.


Ainda não percebo.

11 agosto 2015

Hoje trocamos, conduzes tu.
Eu deixo. Hoje.
(Foto @zeosor)

Há memórias poisadas, 
espalhadas pelos sítios onde ando. 
Levantam-se como poeiras à minha passagem 
para me aterrorizar de felicidades passadas 
à espera de poisar.

10 agosto 2015

"Tudo isto deve ser tido por verdadeiro sem quaisquer provas; por outro lado, seria difícil demonstrar o contrário."

Ítalo Calvino, in Palomar

[...este, diria eu, é o problema em muita coisa. Em demasiadas coisas. O acreditar, pensar-se até que se sabe, apenas porque não é possível (ou muito difícil) a prova do seu contrário. Por outro lado, resume a fé em todas as suas roupas e com todos os seus perigos. O contrário dos impossíveis é difícil de provar. Talvez por isso se diga que não há impossíveis... ]

Há rotinas de que gosto. Mesmo. 
Acordar, sem pressas; tomar o pequeno almoço, sem pressas; arranjar-me sem pressas e sair de casa rumo aos barquinhos. Munida de um livro e tempo para parar. Pedir um café, sem pressas bebê-lo ao sol, pensar se me apetece ler, dar por mim, afinal, a escrever e a ver o que está à volta. Dar conta das mãos masculinas nas duas mesas que aconchegam a minha; surpreendentemente gostar dos dois examplares. Parar, para mais uma vez atentar nesta minha mania das mãos, e achar cada vez mais que as mãos são essenciais. Ainda procuro perceber o que lhes procuro. 
Parar, parar e estar comigo. 
Gosto destes cafés de manhã tardia sempre a tempo, enfunados nas velas recolhidas dos barquinhos que me guardam as viagens parada.

Bom dia
Há muitos anos que me sento aqui, nesta varanda, onde o céu aparece recortado, emoldurado entre as paredes  dos prédios que parecem fechá-lo, e ao mesmo tempo protegê-lo, cingi-lo, quase num abraço. É um pedaço de céu, mas não é céu com toda a propriedade e extensão, ainda que o seja, que seja da mesma matéria do outro que se perde de vista. A nossa vista é que muda - a nossa vista é que muda sempre tudo. Escrevo isto e dou-me conta que com as pessoas é o mesmo, às vezes esquecemo-nos que a parte pequena que vemos é parte do todo - que há um todo. A matéria de que somos feitos é só uma, mas é preciso saber ver, quando nos cingem num quase abraço ou quando nos dão largas a toda a imensidão da alma. Quando nos dão rédea solta para sermos o que somos, com toda a propriedade e extensão. Tudo é, talvez, uma questão de saber ver, e, na essência, querer ver. E este céu, que aqui vejo numa moldura de arestas incertas e travessas, já o conheço, e por isso noto que está diferente. Este céu, visto neste sítio particular, costuma ser doce, costuma ter a cor do algodão doce, daquele que povoa a minha infância e que é pintado em cor de rosa menina. Hoje não é de menina a sua cor, tem a cor de negro esbatido, vêem-se, perdidas, apenas duas ou três estrelas mais afoitas. Mas daquele rosa que me fazia sorrir e lembrar de algodão doce, só há vestígios na memória. Hoje não há reflexos rosa na neblina, as luzes mudaram, ou a neblina dissipou-se demais. Às vezes há coisas que nos fazem dissipar as ideias doces, às vezes começamos a ter na boca demasiado tempo o sabor amargo das tantas tortuosidades do caminho para nos conseguirmos lembrar daquela nuvem que se derrete na boca, que é feita de açúcar, sorrisos quentes e sonhos mágicos. Quando os engolimos ficamos doces e desaparecem, fica só a ideia deles e o calor das memórias, se a boca não nos amargar demasiado com a vida. Olho para o céu e fecho os olhos para os abrir para a memória, para ver por dentro do que vivi e me ficou, vejo um céu fofo, parece de algodão, e pela cor é doce. Dou por mim a pensar que em crianças nos deram a todos esse pedaço de algodão doce, mas demorámos a perceber que não era um pedaço: era o todo. E agora andamos a vida toda à procura do resto, da doçura a perder de vista. E muitos há que se perdem, outros esqueceram ao que sabe, outros desistiram de procurar esse açúcar que derrete na boca e nos engole de magia. Outros olham para o céu e perguntam por ele, na esperança disso querer dizer que não desistiram, e que o travo amargo da vida não os trava nessa procura tão inglória quanto mágica e incerta. Mas, parece-me, que já que nos podemos perder, ao menos que seja na busca de algo que faça sentido ser doce e mágico... E que não tenha sentido nenhum, como olhar o céu e faltar-nos na boca algodão doce. Cor de rosa menina.

Boa noite

09 agosto 2015


... ronhaaaaa não tira férias, e ainda bem!.. Anda-se aqui, vira-se de um lado para o outro, cheira-se a almofada de várias perspectivas sonolentas, deixamo-nos ficar sem saber porquê, e a vida vai-nos passeando pela cabeça em pensamentos matinais. É o que estraga, pois, pensar estraga muita coisa, mas também resolve muitas. Infelizmente nem todas, eu estou aqui a pensar que a mim me tem calhado a parte podre da maçã, e que depois de livre da parte má, alguém - que não eu - aproveita a parte boa. Parece as vezes que ando no mundo a melhorar o que nunca sou eu a beneficiar... A trabalhar para os outros e mal tratada. E isso dá-me uma ligeira irritação, que dá, não há como negar. E que tal aparecer-me alguém que me faça crescer e melhorar? A mim, euzinha aqui... Hum? E que não deixe isso para outro alguém aproveitar? Que tal trabalhar a par e em par? Uma variação das boas, quem sabe... Ando bastante precisada de variações das boas na minha vida... Se ando!

Bom dia

08 agosto 2015


Era um café destes, se faz favor!
Não tem... assim a pedido?! Não dá para encomendar???
Ohhhh... Traga-me um dos outros, pronto...

07 agosto 2015


Para onde vais tu, Eva?
... Não sei... Estou indecisa... Acho que vou abancar aqui para um café a pensar no destino...

E agora, ao fim do dia feito, ia um banho assim... Não, não é preciso água, um banho de luar em beijos, em que não comparecendo a lua, ficam os beijos pela noite dentro. Banho de imersão. 

04 agosto 2015


Quebrada, mas não presa... Navega-se a esperança, voa-se nas asas do azul adocicado de branco algodão doce.
Quebrada, mas não presa.
Pior de quem está preso, quebrado de desesperança. Não voa, só finge estar no céu.

Bom dia.

31 julho 2015





Nao sei de mim
Não sei de ti

Perdi-me no tempo
Do espaço que nos separa

Encontro-te no espaço
Do tempo que nos junta

Sei que onde tu começas
Eu não acabo

Sei que quando tu começas
Eu não sei acabar.


[só pode ser a lua que me faz fazer estas coisas, porque sei de mim e do resto, mas estes compassos de espera para ir banhar-me de luar fazem as palavras brincar aos pensamentos e os pensamentos às palavras, e numa varanda com a companhia dum cigarro aparecem-me estas coisas... Não liguem, ando com a alma na lua a passar férias...em noites de lua assim dizem-se muitos disparates, alguns, dos melhores que se podem dizer e ouvir...]

29 julho 2015

"A lua é o mais mutável dos corpos do universo visível e o mais regular nos seus complicados hábitos: nunca falta aos seus encontros e pode-se sempre esperá-la no caminho; mas se a deixas num sítio encontra-la noutro e se te lembras da sua cara virada para um lado, ei-la que já mudou de pose, por pouco ou muito que seja. De qualquer forma, se a seguirmos passo a passo, não nos apercebemos de que ela nos vai imperceptivelmente fugindo.(...)
Corre a nuvem, de cinzenta que era passou a ser leitosa e brilhante, o céu atrás dela tornou-se negro, é noite, as estrelas acenderam-se, a lua é um grande espelho resplandecente que voa. Quem reconheceria agora nela a lua de algumas horas atrás? Agora é um lago de luminosidade, que espalha raios de luz à sua volta, entornando no escuro um halo de fria prata e inundando de branca luz o caminho dos noctívagos."

Ítalo Calvino, in Palomar

[eu gostava de ser lua. Será que se eu quiser muito consigo ser lua? Nunca na mesma mas sempre a saberem o que esperar de mim? Quanto mais fechada a noite mais brilhante a minha luz, a minha alma? Irreconhecível comparada com semanas, anos, atrás? Será? ]

28 julho 2015

A luz brinca nas paredes 
O sol fecha-se no horizonte. 
Eu conto-me em janelas por abrir.

26 julho 2015

Toca-me, mas não me faças chorar
a minha música quero que seja outra:
as notas de riso
as lágrimas de felicidade.
a minha música quero que seja a nossa:
a minha dança o teu olhar
o teu tocar as minhas cordas.
...as minhas costas já não são piano.