Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

29 outubro 2015


" (...) talvez um dia quem sabe o destino
volte a ter novos contornos e nos olhe de frente
e ainda sobre tempo para reaprender a soletrar correctamente
todas as palavras que admitiam ter nascido
do teu corpo da tua voz do sabor da tua boca
tempo para povoar de novos sons os velhos discos de vinil
e sonhar com mundos à espera de serem salvos
pelas nossas palavras

tempo para nos olharmos e encontrarmos
sem remorsos
a maneira de nos perdermos de novo nos caminhos
que levam ao coração absoluto da terra

talvez um dia quem sabe eu volte
a faltar às aulas para esperar por ti"

Alice Vieira

O que está perdido, tempo nenhum devolve. O que está perdido não se recupera. Uma mesma curva não se curva de forma igual nem por duas vezes, à segunda vez já a conhecemos.
O meu olhar de hoje não olha como olhava ontem. O meu olhar de hoje viu coisas que ontem ainda não tinha visto.
Hoje não sou igual a ontem,mas sou a mesma.Continuo a mesma -a faltar a umas coisas para não perder as que realmente me fazem falta. Hoje, como ontem, como amanhã são sempre frutos de escolhas, que são prioridades, as nossas prioridades.
O tempo não se perde, mas perdem-se para sempre as coisas que deixámos de fazer, trocadas por outras, que feitas nesse mesmo tempo, não se perderam.
O que deixámos de fazer, está perdido, tempo nenhum devolve. Fazer ontem não é o mesmo que fazer hoje. Fazer hoje e não ontem é uma escolha,  já não podemos fazer hoje, da mesma maneira, o que poderíamos ter feito ontem. O nosso olhar não é o mesmo, já viu que ontem a escolha foi não fazer, foi trocar por fazer uma outra coisa. 
Hoje já não seria como ontem, amanhã já não será como hoje
No entanto nada muda. Tudo na mesma, ainda que nada igual.



8 comentários:

Outro Ente disse...

Talvez um dia, quem sabe, espere por mim o alguém por quem ontem eu esperei. Hoje, já não espero.

Eva disse...

Nem eu, mas este seu comentário remeteu-me para a noção de tarde... Quando é que é tarde? Há quem diga que "mais vale que nunca", mas a mim parece-me que quando é (realmente) tarde não há (grande) diferença para o nunca...
Bom dia, Outro Ente

Outro Ente disse...

Não estou seguro de que "amor tardio equivale a denegação de Amor". Também não tenho qualquer certeza do inverso.
Bom fim de semana,
Outro Ente.

Anónimo disse...

Concordo...
Tarde demais não tem volta. Nem reviiravolta.
Boa noite Eva

Nanda

Eva disse...

Querido Outro Ente, certezas também não tenho muitas, mas as vezes acho que há diferença entre chegar atrasado e chegar tarde. Atrasado chega-se ao ponto de encontro fora da hora, quando é tarde talvez já não haja ponto de encontro. Tarde é, talvez, ser já desencontro.
Bom dia.

Eva disse...

Olá, Nanda!!
Há tanto tempo que não te via por aqui...
Sim também me parece, a minha única dúvida é saber quando é que é já tarde.
Bom dia!

Filipa disse...

Olá Eva,

Acho que a expressão "mais vale tarde do que nunca" aplicada ao amor significa uma pessoa apaixonar-se, sentir-se a amar verdadeiramente pela primeira vez, aos sessenta anos, por exemplo.

Quanto ao tarde, no sentido que me parece que estás a dar, acho que, ou é um amor não correspondido e nesse caso é obviamente tarde, ou então só é tarde se o sentimento morrer, se se deixar de amar, e não pelo motivo de não dar jeito. Ok,também podemos decretar o fim do amor, formalizar a coisa dizendo que é tarde, mas o Amor não vai nisso, não é?

Depois também há um tarde por morte da esperança, por exemplo o caso das pessoas que tinham uma ideia sobre o tipo de pessoa que gostavam de encontrar e amar e isso não aconteceu, há o desencanto, a desistência do que não encontraram.

Espero ter ajudado, se só compliquei ainda mais, desculpa. :)

Beijinhos, Eva.

Eva disse...

Olá Filipa,

Para mim o tarde não é a idade, não há idade para amar, não há um tempo certo para te entregares ao amor, para isso todo o tempo é certo e nunca será tarde. O tarde, para mim, é talvez quando já nao há encontro de vontades, de quereres, de disposição para te entregares porque há um tal desfasamento, que um mero atraso que todo o amor toleraria, passou purisimplesmente a desencontro, a desesperança, a desamor. Por isso nesse ponto é que tarde ou nunca vai dar ao mesmo. Quando é realmente tarde é porque a janela de tempo, de vida, de confiança, de vontade, de disposição passou, fechou-se, e com isso transformou-se uma hipótese, uma esperança, uma espera, numa porta fechada, num desencontro permanente.
Mas não, o amor não acaba por decreto, morre aos poucos e com a complacência de quem o assiste morrer e escolhe não fazer nada para que não morra. Há até quem finja que não vê, porque acha que o amor morrer não muda nada, que a vida continua e a relação subsiste, e se assim for não há problema, para essas pessoas o amor não é essencial é apenas uma ideia romantizada com que às vezes simpatizam, outras alturas até almejam (talvez de jeito ou pareça bem nessas alturas, não sei), mas não fazem a mínima ideia como se vive isso, não sabem amar simplesmente. Decretar o fim do amor não o mata, o que o mata é não se importarem que ele morra enquanto o vêem morrer, depois de morto resolvem tentar ressuscita-lo e achar que afinal era importante, depois de tanto tempo a vê-lo definhar, morrer, sem lhe dar a mão, quando tentam já é tarde, todas as razões para o manter vivo foram mortas pelo descaso ao longo do tempo. Enquanto uns o tentavam fazer subsistir e sobreviver foram ignorados depois a morte chega de mansinho e perde o caminho de volta, não sabe, não quer nem acredita.
Acho que é isto. Mas continuo sem saber quando é tarde talvez dependa da resistência de cada um e do amor que tem. Não sei. Ou talvez saiba mas é coisa que se sente na pele. Já o senti uma vez.
Beijinhos.