A lua a despertar atrás do telhado, a empoleirar-se numa chaminé a olhar para mim... E eu para ela...
Eva me chamaste
Fizeste das minhas costas o teu piano
Dos teus desenhos as minhas curvas
Da minha boca a tua maçã
Dos meus olhos o teu mar
Do meu mundo os teus braços
(...)
Fizeste das minhas costas o teu piano
Dos teus desenhos as minhas curvas
Da minha boca a tua maçã
Dos meus olhos o teu mar
Do meu mundo os teus braços
(...)
14 julho 2014
(...)
Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.
Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar
a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.
Joaquim Pessoa.
[... e hoje apetecia-me mar. apetecia-me saber a mar. ]
Sento-me no degrau da varanda enrolada na manta que ontem me enrolou, trago um Porto de que ontem bebi mais de três copos, acendo um cigarro e penso que perdi conta aos que ontem durante toda a noite acendi. Sento-me e penso que dizem que o tempo cura tudo, que volta a pôr tudo no lugar, e eu cada vez mais acho que o tempo não cura nada, e a pôr no lugar não é nunca no lugar antigo porque o que o tempo faz é mudar tudo de lugar. O lugar antigo, depois do tempo correr por ele, corre com ele, deixa de existir, porque uma coisa não fazemos, não podemos fazer, é apagar o tempo que passou, que nos mudou e que mudou tudo de sítio. E o tempo em cima do tempo que correu é corre traz-nos sempre à tona, faz-nos sempre emergir quando nós nos queremos submergir nos dias, na vida, em que não nos somos verdadeiramente. E fá-lo à força se o queremos contrariar, quanto mais o contrariarmos maior a violência com que nos força. O que o tempo também faz é ensinar, mas não é por ensinar que todos aprendem. Tanto não aprendem que tentam voltar a lugares que o tempo apagou em nós. Não há maneira de apagar o tempo, de parar o tempo, não há maneira de negar o que o tempo trouxe, só há aprender com tudo o que fizemos e nos mudou com o tempo. O tempo não cura nada e encontra-nos sempre. Só nos surpreendemos com isso quando não queremos aprender o que ele nos ensinou. E eu aqui pergunto-me o que é que ele me ensinou. O que eu sei. Sei-te. E tu?
13 julho 2014
..hum hum
a minha deve ser daquela arte moderna que ninguém entende, só o autor e mesmo assim... por muito que explique o significado escondido, obscuro, e profundo, a reacção natural de alguém normal é cara de parvo. muito parvo mesmo.
Que é a minha todos os dias da minha vida quando penso nela, na vida.
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Tonta...
É engraçado estar agora aqui a ver o dia entrar com pezinhos de lã pela janela, com esta luz cinzenta que vi tantas vezes neste mesmo sofá, enroscada em alguém, ou só encostada, ou só sentada neste mesmo sítio, mas a conversar com alguém ao mesmo tempo que deixava as mãos passear pela pele, a minha ou a dele, se é que na altura não eram, para mim, uma mesma pele. E agora também aqui estou, a fumar o último cigarro ao fim de horas de filmes, e afinal dantes também eram filmes; filmes que fazia na minha cabeça com realização a cargo da alma, essa que não sei onde pára, perdeu-se da pele na pele que agora é uma só, e onde não passeiam mãos e não há conversa. Só eu e o dia a nascer ao fim de uma noite só. Só uma coisa nunca muda, continuo a ir sozinha para a cama dormir, ou tentar.
Bom dia.
III
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
(...)
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.
(...)
Hilda Hilst
Boa Noite, de lua sôfrega...
Boa Noite, de lua sôfrega...
12 julho 2014
ahhhhhh.... ronha abençoada!!
a ronha é sempre uma coisa boa,
mas uma ronha com a pessoa certa é uma coisa abensonhada* de boa....
falta-me essa, e quero.
Bom Dia
*palavra bem criada por Mia Couto.
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Ronha...
11 julho 2014
outra cama
outra mulher
mais cortinas
outro banheiro
outra cozinha
outros olhos
outro cabelo
outros
pés e dedos.
todos à procura.
a busca eterna.
você fica na cama
ela se veste para o trabalho
e você se pergunta o que aconteceu
à última
e à outra antes dela…
é tudo tão confortável —
esse fazer amor
esse dormir juntos
a suave delicadeza…
após ela sair você se levanta e usa
o banheiro dela,
é tudo tão intimidante e estranho.
você retorna para a cama e
dorme mais uma hora.
quando você vai embora é com tristeza
mas você a verá novamente
quer funcione, quer não.
(...)
Charles Bukowski
10 julho 2014
...pois.
efeitos colaterais.
Antes sarcástica que má, maquiavélica e manipuladora,
mas há quem goste desse género.
Enfim cada um com a sua.
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Tonta...
"Tenho medo de viajar (...) Não de andar de avião ou de qualquer outro meio de transporte, mas de encontrar o que não conheço, ou, pior, o que deixou de ser o que era e se modificou.",
Pedro Paixão, "A Cidade Depois"
Olha eu não, e cada vez menos...
quero viajar da minha vida, sair, encontrar o que não conheço,
modificar o que conheço e não quero mais conhecer...
enfim tirar férias de mim e desta vida estranha que me vive.
09 julho 2014
"é sempre
uma história de amor:
a árvore
que se afeiçoa ao pássaro
o sol
que se liga à água
os olhos
que se prendem ao mar"
gil t. sousa
que se liga à água
os olhos
que se prendem ao mar"
gil t. sousa
[os fins de dia, o cair do entardecer no horizonte, o peso do dia (ou da noite?) a descer aos ombros, o olhar dos nossos olhos a poisar de novo em nós, a alma que alua antes da lua.
coisas que combinam com este poema, coisas que este poema me traz devagarinho, arrancando dos dedos as palavras que estas linhas me traçam, em que me emaranham os sentidos que sentem além dos sentidos...
coisas que combinam com este poema, coisas que este poema me traz devagarinho, arrancando dos dedos as palavras que estas linhas me traçam, em que me emaranham os sentidos que sentem além dos sentidos...
simplicidade no sentir o que se vê,
simplicidade no ver o que se sente.
simplicidade no ver o que se sente.
claramente.
de olhos fechados, como de olhos abertos
de olhos fechados, como de olhos abertos
como a cor alaranjada do calor que se sente mas nem sempre se vê. ]
Só mesmo Menino para dizer isto, e dizê-lo assim.
Aliás, andamos a roubar coisas ao moço desde sei lá que tempos (desde que lhe descobri o blog e acho que foi logo ao inicio), aqui o tasco começa a ser apenas uma sucursal daquela morada... mas que fazer? há coisas que ele diz que eu gosto de ler, e que gostava de ouvir... e o que uma pessoa gostava de ouvir também a define, tanto como aquilo que diz ou - mais ainda - que gostava de dizer, e tantas vezes tem de calar. Por isso tantas vezes nos definimos tanto pelos sonhos que temos, que desejamos como pelo que fazemos nos dias que nos fazem a vida, querer uma coisa é ser um pouco essa coisa. Eu devo gostar que quando me viro alguém (aquele determinado e certo, tão cert, alguém) tenha vontade de me apalpar o cú. Mas que isso seja também uma faceta de querer envelhecer comigo, e já agora com o meu cú...
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