Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

19 abril 2013

Brutal, cru e verdade.

..quero fugir.
quero fugir-me.
quero fugir-te.
quero ir sem regresso
e vir regressada de mim
vazia de ti
despojada de mim
esgotada do que esgotaste.


(...) Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.


Herberto Helder
...boa pergunta...
talvez um dia eu consiga a resposta a isso...

18 abril 2013


Sei que darei ao meu corpo os prazeres que ele me exigir. Vou usá-lo, desgastá-lo até ao limite suportável, para que a morte nada encontre de mim quando vier.


Al Berto 


[aproveitar tudo a que temos direito, sugar a vida até ao tutano, quando a morte nos apanhar já tudo de bom foi gasto em nós, usado até quase perder a cor, até ficar puído de tanto uso, até nos cansarmos e querermos afinal o descanso de ter vivido em pleno: ter sentido até aos ossos, que  nos sobreviverão, o bom e o mau.]





Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires,
Por que queres tu que eu fique,
Porque é preciso,
Não é razão que me convença,
Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar,
Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto,
Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei,
Olhaste-me por dentro.

José Saramago, in "Memorial do Convento".


[o encanto é olhar alguém por dentro, e esse alguém sentir-se, por dentro, olhado, tocado, amado]
Bom Dia!!

17 abril 2013



No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.

Alejandra Pizarnik

[tão perto que queima, 
tão perto que corta, 
tão perto que morre por dentro o pedir,
tão perto que alagando-o seca o olhar.
tão perto que sentir de longe o longe é esperança]

16 abril 2013

Aiiiiiii.... o Verão....
Que bom!!!

..tenho sonoooooo!!!
Estava tão quentinha, tão bem na cama, que raio tinha de me levantar??
Quero ronha e levantar-me só quando chegar de ronha e apetecer comer ao sol...
Bom Dia

15 abril 2013

Seguias de carro atrás de mim, ligaste-me para me dizer que estavas a pensar com os teus botões 
"com esta mulher eu ia para qualquer lado... pensava eu nisto e começa a fazer a curva  a direito..." - eu respondi que pronto, assim já tinha desculpa para não ir comigo a lado nenhum... E é isso, há sempre uma desculpa, sempre houve uma desculpa, para não ir comigo para lado nenhum, há sempre uma desculpa em todo lado para ti.

12 abril 2013


(...)
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, 
e esse medo infantil de ter pequenas coragens.

Vinicius de Moraes



[a coragem face a grandes terrores,que aparece sem avisar, invade-nos, toma-nos as atitudes e acordamos depois como se tivessemos hibernado num canto de nós enquanto alguma alma superior tomou conta de nós e das ocorrências. Nunca sabemos como tivemos coragem. E o medo que nos afugenta as pequenas coragens que nos mudam as miudezas da vida, ou que não nos deixam mudar nada, tal o medo das pequenas mudanças que podemos contornar e acomodar como se não mudássemos nada: e quando vamos a ver nada está na mesma, mas nada foi consciente e fruto duma qualquer decisão; é uma verdade que nos vai conquistando como quem invade o quintal do vizinho: pela calada e de mansinho. Estas miudezas de coragem parecem aterrorizar mais do que o terror de viver sem vida nenhuma. O cair uma e outra vez na desilusão. Não ter outro remédio senão levantarmo-nos para mais umas chapadas: é uma questão de tempo, e cada vez que nos levantamos sabemos que voltaremos a cair, e levantamo-nos para continuar a circular o labirinto, sem nunca perceber que o labirinto somos nós.]
Parece que hoje há sol...vamos dar um passeio??
Levas-me no bolso?
Eu não peso, não faço barulho e ainda te aqueço...
Leva-me, anda, quero ir no teu bolso, já que não te caibo no coração.
Bom Dia!

11 abril 2013

- Ahhhhh...'tás muito gira hoje!!!!!
- Sim!!! fui ao cabeleireiro, virei as pontas para fora,  vês??? 
Sempre que vou ao cabeleireiro a minha auto-estima supera-se, vês pelo meu sorriso parvo??
ahahahhaha
Bom Dia!

10 abril 2013

Vi isto e pensei que era aqui que me apetecia - um dia destes, um fim de semana destes - tomar o pequeno almoço ao meio dia: com a luz a iluminar tudo, com a vida a sentir-se além da flor da pele, mas também à flor da pele, ali à mão de semear, de colher numa festa que se encontra por acaso na pele do outro, pelo peso da ternura nas pestanas que nos faz baixar os olhos e abrir um sorriso desabrido, pelo mel que se traz no olhar para ser colhido por quem se olha... depois percebi -caiu-me como um raio que fulmina e arrasa tudo a cinzas - que há coisas que já nem pertencem à categoria de sonhos, mas só à de miragens, piscamos os olhos duas vezes, atentamos melhor, e vemos que não está lá nada, nem vale a pena caminhar nessa direcção, não está lá nada, nós não estamos, nem nunca estaremos lá. Ainda que um dia possa ir precisamente a este sítio, sentar-me até nesta mesa, nunca o que eu vi quando vi esta fotografia, nunca isso deixará de ser uma miragem, e das que doem. 
Ainda que um dia eu vá, nunca chegarei onde queria ir. 
O destino às vezes não é um lugar, 
é uma memória que fabricámos num futuro que não existe.
Às vezes o destino é uma miragem.
..e cada vez menos.

05 abril 2013


Quantas vezes te esperei neste lugar
quantas vezes pensei que não chegavas
quantas vezes senti a rebentar
o coração se ao longe te avistava.
Quantas vezes depois de teres chegado
nos colámos no beijo que tardava
quantas vezes trementes e calados
nos entregámos logo sem palavras.

Quantas vezes te quis e te inventei
quantas vezes morri e já não sei.

Torquato da Luz
Os sonhos numa mão, o passado na outra, os dois olhos no futuro.
Com o caminho vamos deixando pesos para trás - uns largam primeiro os sonhos, outros, para manterem as mãos livres para agarrar os sonhos, vão largando pedaços de passado que atrasam e prendem; fica só o que se aprendeu, para usar no caminho, para escolher o que melhor chega aos sonhos, 
mesmo que estes nunca cheguem à vida.
E a nossa vida pareça nunca chegar.
Bom Dia

04 abril 2013


Um dia
sem ouvir a tua voz
é como descobrir
que o mar morreu.

David Mourão-Ferreira

03 abril 2013



(...)
Ah, meu amigo
Que límpida paixão
Que divina vontade
Fervor feito de lava
Fogo sobre a tua fronte
Tanto amor
E não te deram nada.
(...)

Hilda Hilst, Poemas aos Homens do Nosso Tempo

[Quantas vezes tudo se resume a nada, 
e os nadas a tudo? 
Quantas vezes queima o fogo 
e quantas acalenta? 
Quantas vezes corta o gelo 
e quantas nos refresca? 
Quantas vezes nos consumimos em fogo,
e quantas nos alimentamos de silêncio?


Quantas vezes me silencias do teu amor 
e quantas mo sussurras? 
Quantas vezes me foges 
e quantas te entregas? 

Quantas vezes nos repetimos
e quantas vezes nos voltaremos a repetir?
Quantas repetições fazem os nadas, que fazem o tudo,
diluir-se no tudo chegar a nada?]