Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

21 outubro 2015

... Experimenta, mas devagar, ainda que sem excessivos toscos cuidados. Esquece tudo, olvida-te do que não és, aprende que és os teus quereres e não o que crês querer ser. Tira tempo para lentamente lhe apreciares a cor, medires bem as formas curvas de semente inchada de firmeza. Sente-a entre as mãos, conhece-a pela ponta dos dedos, percebe-lhe a consistência. Cheira-a de olhos fechados para seres inundado do seu perfume, alimento do pecado. Prepara os dentes para a polpa de fortes apetites. Sonha primeiro em trincá-la, sonha sem pressas em fazê-la tua entre os lábios e entre estridentes entredentes selvagens. Depois, mal a vontade vença o sonho, espeta-a, trinca-a  sem cerimónias, com vontade, com desejo de a teres por dentro. Saboreia-a boca adentro, lambe até à última gota o sumo que escorre prazeroso pela pele. 
Cede à tentação, é a única maneira de ela te libertar. 
Experimenta a maçã, trinca a tentação, é para isso que tens dentes, não sabias?

Hoje, ao que parece, é dia da maçã. 
Escolhe bem a tua e não (te) tentes, faz.

Eheheheh ;)

Bom dia

20 outubro 2015



meio comédia,
meio tragédia

alegria toda,
dor inteira.

transbordante do que sinto sem conter,
trancando dentro, contido, tudo por sentir

Palavras escritas
guardam o que recusaram dizer

Olhos que se fecham para ver aberta a cor da alma
De quem só respira de peito aberto

Olhar que devora tudo
Olhares que me entregam toda

Dúvidas que me consomem
Da certeza consumida.


Bom Dia
"- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti."

Mia Couto, in Venenos de Deus, Remédios do Diabo

Recuperado dum post de maio do ano passado, que revisitei agora, donde ainda não regressei.
Já estive quase a dormir no sofá, já estive na cama e o sono resolveu esconder-se, o que me apareceu na cabeça foi este post, este post antigo com esta frase que não me largava. Lembrei-me dela esta noite quando respondia a um comentário, esperou que me deitasse para não me deixar dormir. Agora estou na varanda, não há sono nem frio, estou muito bem, só não sei se regressei do sítio onde nunca estive.

[espero que agora, esvaziada desta frase, o sono regresse...]

19 outubro 2015

- Prazer. Pode-me dizer onde é que posso arranjar um colete desses?

(foto @oreeeo)

"Eu tenho a minha loucura,
eu vivo em outra dimensão
e eu não tenho tempo para coisas que não têm alma.”

Charles Bukowski.

[tenho a minha loucura, quero-a, gosto dela, quero mantê-la sã para poder ser louca, 
poder ter alma e exigir para mim escolher nada menos do que coisas que a toquem. 
Cada vez mais acho uma loucura ter alma nos dias de hoje, querer mantê-la, 
sustentá-la a raros tragos de oxigénio que desencantamos nas coisas mais pequenas e escondidas dentro do mortalmente comum dos dias. Mas não tenho, nem quero ter, tempo para o resto, para querer o desalmado resto, matando tudo o que me resta de mim.]

Bom Dia

18 outubro 2015

(Roubado @algumfrancisco)

...fechados.

Boa Noite
Há qualquer coisa de belo na força. Talvez, aliás, toda a beleza esteja na força: na força da natureza, na força de carácter, na força de vontade, na força de um olhar.
Sento-me junto à janela que dá para a rua, da cama ouvia a força da chuva e precisei vê-la, quis vê-la cair com determinação, com força. Sim, precisava de ver, de sentir esta força, de sentir que somos todos pequenos, de ouvir esta melodia acelerada do gotejar que corre das beiradas. Precisava de me sentar aqui a ver a chuva forte que lava as ruas, que apaga o ontem, o há pouco, o ainda agora. Leva tudo, arrasta tudo, lava tudo.
Há qualquer coisa de belo na força, de delicado, de frágil, talvez seja a sua atracção pela fraqueza, pela fragilidade, pela delicadeza. Talvez seja essa a sua fraqueza, talvez seja isso que equilibra as forças. O forte precisa do fraco para saber da sua própria força e proteger aquilo que lhe falta, o fraco precisa da força que pensa que não tem, e às vezes não tem e precisa que alguém o leve pela vida, protegido de si mesmo, ou se tem, alguém forte que lha faça sentir e saber e confiar. Tudo tem o seu equilíbrio e os mecanismos próprios e naturais (e demorados) de ajustamento. Os mecanismos de auto regulação da natureza são perfeitos, tanto que nos podem vir a ser fatais.
E agora vou voltar para a ronha, só mais um bocadinho entre lençóis e calor, para apreciar a sinfonia da chuva maestrina.

17 outubro 2015

(Foto @wildfiresss)

Corre uma brisa cinzenta e pesada.
Há qualquer coisa de nada que dança no ar
Que se atabalhoa
Por desabar.
A rua vazia,
Eus por preencher,
Dias por fazer,
Tempo por desfazer.
À espera que chova
Sem esperar chuva.

[...mais um sábado de ronha preguiçosa...]
...maybe.

16 outubro 2015

(...alguém sabe a morada??.
... para ver se se apressa o recebimento da correspondência...
aqui, agora, só correspondendo mesmo...)

Bom Dia

15 outubro 2015

Amor não é merecimento
Amor não é recompensa
Amar não é uma escolha
Amar é a força
Que nos faz fracos e invencíveis
Viver o amor é escolher
Ser fraco e invencível,
Vulnerável e à prova de tudo.

(Acabou de sair com o café à minha frente. E eu que não quero escrever, as palavras perseguem-me, cercam-me. Prendem-me porque se querem libertar. Amar nao é para todos, algumas escolhas também não, acrescento depois de ler. )

Bom dia
(foto @blackandwhiteisworththefight)

"O que a gente não entende, se resolve com amor"
Clarice Lispector

[... e eu com tanta coisa por entender...]

Boa Noite

09 outubro 2015

Faz hoje um ano. Tenho isto guardado nas notas desde 14 de Novembro do ano passado. Fui à procura, tenho coisas nas notas que vou escrevendo e apagando, algumas não chegam a ser nada, outras são pontos de partida para outras coisas que depois escrevo. Este ficou intacto, e hoje, um ano depois de ter perdido mais um que me faz falta, leio isto e o tempo não passou pelas palavras. Nem sequer por aquelas que recordo de ti. Tenho saudades tuas, muitas das nossas conversas, tanto do teu carinho e desmesurada loucura. Lembro-me vezes sem conta daquela tua frase que não me larga "eles nem em bicos dos pés te chegam aos calcanhares", sinto falta deste carinho das entrelinhas, do sentido de protecção escancarado, até do enviesamento que cega a análise de quem gosta, é tão raro ser genuíno...
Porque é que todos os que preciso me vão deixando? Poucos me restam, e de mim sinto restar tão pouco. 
Espero que onde estejas estejas a dar cabo da cabeça ao pessoal, que continues com o teu sentido de humor inteligente e desconcertante, que continues a fazer do mundo música, e música do mundo. Do mundo que agora é teu. 

07 outubro 2015



O corpo, sei-lhe o traçado de olhos fechados.
Os beijos, sei-os de cor.
A pele, terreno mapeado com a ponta dos dedos.
Os sentidos, tão sentidos que dão o norte
Que a razão perde,
Para a alma encontrar
O seu lugar.
Como a primeira vez, 
Sempre.
Perco-me nesses caminhos;
Nesses caminhos me encontro.
Sempre.
Para nunca me levarem a destino algum
Nunca.

06 outubro 2015

É com agrado que constato a melhoria de qualidade dos espelhos em algumas casas portuguesas. De facto, denota-se nessa grande plataforma social, emoldurada em tons de azul o melhor, o mais bem aproveitado uso das distâncias nas fotos. Ou da distância entre a máquina que captura o momento e o objecto do momento (neste caso a própria pessoa que se identifica na dita plataforma através da referida fotografia), ou, em igualmente lúcida alternativa, da distância temporal entre o momento actual e o momento que há anos ficou registado. Em ambos os usos da distância ficam os objectos beneficiados, ainda que mais das vezes não favorecidos nos impiedosos registos fotográficos.
Apraz-me conferir que não faço estes usos das distâncias (nem sempre com bons resultados...).
Não me apraz perceber que poderá haver um "ainda" latente na frase anterior...

E ao escrever isto dou por mim a pensar que espero francamente que os espelhos de minha casa, onde me  vejo e avalio longe dos olhos alheios, continuem a reflectir sem mentiras o que vêem e que isso não mude, ainda que a imagem reflectida se vá alterando. E que sempre me veja de perto, não me esconda em distâncias que me disfarcem os defeitos. Mas isto já nada tem a ver com fotografias públicas e sim com o aceitar da fotografia que nos tiramos em frente ao espelho,  não tanto com o gostar ou não da estética do que vemos, mas de o aceitar pacificamente enquanto conjunto de defeitos e virtudes, que nos fazem, que somos, e que não foge nas distâncias. Ou se calhar até tem.
...humm... tipo euzinha?
mas é só tropeçar, sim?!
ehehehe

Bom Dia!

05 outubro 2015

(desenho @unskilledworker)
Com o Outono nos olhos
ela Primaverou o cabelo.

Bom Dia

... É melhor ir para a cama já, antes que dêem as três badaladas,
para ver se me livro de alguma das acusações....



Ontem, num serão de boa conversa e cheio de músicas, surgiu esta, e de repente transportei-me para outra noite, outra sala, quase outra vida. Uma música que tocava no escuro, que não lembro, que não era esta, mas que este som me fez lembrar, pelo que diz, pelo tom quente em que é cantada, não sei. Alguma coisa trouxe à tona o calor dum abraço que não se dançou, mas que me enlaçou, que me ficou, tanto que ontem me veio à ideia... I got ideas (too), é o que é.
Hoje fui à procura e deixo-a aqui, adoro.

Boa Noite

04 outubro 2015


Domingos de Outono. 
Em casa, melancólicos, cinzentos.
Apenas com o silêncio da chuva a bater nos vidros, o arfar do vento que não se cansa, o rosnar quente da lareira que não nos morde e outros silêncios que não se dizem...

(Mas hoje só depois de votar, ou antes.)

Bom dia