Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

25 novembro 2014


Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar

Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Eu sei que nenhuma vai ganhar


[Entrei no carro quase a acabar uma música. Por instinto, para me calar os pensamentos, para me afogar os olhos de claridade, para a poesia me aquecer a alma e fazer nascer o dia em mim, aumentei o volume. Apareceu-me esta música. Esta que não é nada minha a não ser quando atravesso a ponte para a outra margem de mim, onde encontro outros sapatos que tantas vezes calcei para lhes sentir a forma, as partes gastas, onde doía e onde serviam, onde aquecia e onde a água entrava quando chovia, para tentar perceber como às vezes chovia lá dentro quando chovia pouco, e chovia o mesmo quando choviam tempestades. Habituei-me a fazer essa travessia como quem visita outro lado duma casa minha, em que moro sem habitar todas as divisões, portas que abro para ser visita da casa, para perceber o todo, para perceber o nós. Talvez como uma parte de mim  por empréstimo, por afinidade, mas que nunca fui eu, e que nunca foi meu. Lugar que conheço bem, acho que sim, mas que não me habita.
Há uma música para tudo, para cada situação, para cada estado de espírito, para cada falha da alma, e cada fala da alma, e esta faz-me sentido há tanto tempo... alguém fazer a cama na encruzilhada e fazer casa desse lugar, no meio de nada e na encruzilhada de tudo, deixar o tempo decidir que não decide. O tempo nunca decide nada é a sua única decisão, só nós decidimos, algures no tempo, depois dizemos que o tempo decidiu, porque as mãos perderam a razão e o chão perdeu-nos os pés. E almas em guerra não dão paz a ninguém. E esta música não me dá paz, mas não me faz guerra. Entendo-a. Entendo-te. Mas há olhares que me dão paz que não entendo.
(E sim ainda ando a ouvir Jorge Palma. Por enquanto.) ]

Bom Dia


24 novembro 2014

... o acaso e o destino...
Um não se procura o outro nunca se perde...

(e ando com um projecto pensado, que me anda a moer os espaços vazios da consciência, uma coisa inesperada, nunca programada, nunca prometida, talvez fruto do acaso, talvez parte dum destino que não adivinhava. Mas nasceu, de repente a ideia estava acabada sem a notar embrionária, como se já nascesse completa, de corpo inteiro e alma à medida do corpo. Há alturas em que a vida nos larga da mão os sonhos ( será possível largar mão dos sonhos? os sonhos não se agarram e não são para agarrar, são a luz que se persegue, nunca se agarra, é a luz que orienta, que nos ilumina na escuridão dos dias iguais e tão pouco nossos... será que podemos abrir mão deles?) para podermos agarrar de mãos vazias, mas sedentas, projectos de encher as mãos de coisas que se transformam em vida, na nossa vida, em nós. E eu ando a pensar nisso. E talvez agarre com as duas mãos, só tenho medo de perceber que as minhas mãos não chegam para segurar e concretizar tudo o que gostaria. O medo, o medo de nós e do que pensamos não ser capazes é o maior obstáculo que inventamos para nos atrapalhar, para nos protegermos do fracasso. 
Mas medo é sempre medo, só se assusta se o enfrentarmos.)

Bom Dia

21 novembro 2014



"Dias Bons:

o despertador toca, olho para as horas, espreguiço-me e levanto-me. no duche, cantarolo músicas cujas letras desconheço. olho-me ao espelho e “converso-me”: are you talking to me? you are so stupid! e sorrio. qualquer roupa me fica bem e ao pequeno almoço oiço na TV que está trânsito e que o tempo vai piorar e por isso escolho ir de metro e sem guarda-chuva, porque há beleza na chuva e ainda vai dar para ler o jornal durante a viagem.
chego um pouco atrasado ao trabalho e o chefe diz “isto são horas?”, respondo com um sorriso “horas e minutos” e o chefe sorri dizendo entre dentes “que engraçado que ele está.”
ao almoço, a sopa vem fria, peço educadamente “oh Sr. Manel eu sei que lá fora está frio, mas a sopa está de simpatia com o tempo?”, o Sr. Manel oferece-me a sopa no fim. de tarde, um colega de trabalho pede-me “oh pá, preciso que faças este trabalho até às 17h” e eu respondo “não te preocupes, eu dou conta do recado como de costume”.
depois do trabalho vou para o metro e oiço música que me inspira a escrever. Chego a casa e a namorada diz “vamos jantar fora”, ao que respondo no imediato “onde?”. de volta a casa, é a minha vez de levar o cão à rua, voltar à chuva e à inspiração. ligamos a TV e vemos um filme. a meio do filme fazemos amor e dormimos agarrados um ao outro.

Dias Maus:

o despertador toca, apetece-me atira-lo contra a parede. no banho, deixo a água escorrer-me pelo corpo enquanto fico de cabeça baixa a tentar acordar. olho-me ao espelho e não penso, desligo a luz. qualquer roupa me fica mal e de tanto escolher, escolho a pior. ao pequeno almoço oiço na TV que está trânsito e que o tempo vai piorar, penso em voltar para a cama.
chego um pouco atrasado ao trabalho e o chefe diz “isto são horas?”, respondo de forma rabugenta “horas passei eu enfiado no carro a aturar gente maluca. anda tudo a dormir na estrada. vou trabalhar!”
ao almoço, a sopa vem fria, resmungo “oh Sr. Manel o raio da sopa está gelada! espero que o resto da comida não venha assim!“ o Sr. Manel pede desculpa e vai-se embora. de tarde, um colega de trabalho pede-me “oh pá, preciso que faças este trabalho até às 17h” e eu respondo “é sempre a mesma coisa, tudo em cima do joelho, depois queixam-se! não faço milagres, não prometo nada, mas sim, faço isso até às 17h.”
depois do trabalho vou para o carro e oiço na rádio que está trânsito. o tipo do carro da frente demora uns segundos a arrancar do sinal vermelho e eu já estou a apitar. chego a casa e a namorada diz “vamos jantar fora”, ao que respondo no imediato “acabei de chegar! não me apetece sair”. jantamos qualquer coisa aquecida no micro-ondas. ela diz que é a minha vez de levar o cão à rua e eu digo-lhe que estou de pantufas e que não vou para a chuva. ligamos a TV e vemos um filme. a meio do filme adormeço e duas horas depois vou para a cama sozinho. dormimos separados um do outro."

daniel camacho

[...há quanto tempo não tenho um dia, um dia inteiro bom, não um bocado, não um instante, não uma eternidade bem encaixada entre horários, mas um dia, do acordar ao adormecer, que possa dizer que foi um dia bom? 
Penso, e sei que tive dias bons, dias que gostei, que me assentaram bem, ou em que eu consegui assentar bem neles, vesti-os como eles me vestiram, foi uma boa troca, dias de sorrir para dentro, de me fartar do de fora, de me cansar de tudo que não me é, com a plenitude de sentir o que tenho em mim, só do que tenho e é meu. Porque o que é nosso são só coisas que não nos podem tirar, roubar ou pilhar, o que não perdemos. O que podemos perder não é nosso. 
Sim, tive dias assim. Sozinha. Dias em que gostei de estar sozinha, em mim, comigo. Tive alguns dias bons, onde me senti bem, ainda que não plena, não completa; dias em que os dias são bons porque lidamos melhor com a saudade, porque nos esquecemos do desamor, das dúvidas do que nos querem ou até do que temos. Dias em que optamos por querer estar sozinhos porque desistimos de não nos sentirmos sozinhos com alguém ao lado, de estarmos com alguém e isso nos arrancar da solidão e não aumentar apenas o número de presenças (ou ausências assistidas?). Desistimos - naquele dia -, de querer mais do que se tem, desistimos de querer a plenitude e optamos pelo dia bom, quando ele nos deixa e nós o deixamos deixar... Mas os momentos felizes - não os bons, os felizes -, esses foram instantes, janelas de luz paradas no tempo, carimbadas de eternidade, coisas acontecidas no meio de outras, no meio dos dias compridos corridos, nas noites curtas estancadas no tempo de várias horas e tantas conversas. E um dia assim já não me lembro de ter, em que me sinto eu comigo, sem estar sozinha, em que me sinto plena na outra parte de mim que alguém me traz na extensão do que sou mas não tenho (sou mas não tenho - será meu??...) Tenho em ti, tenho-me plena em ti comigo, e às vezes parece-me que sem ti não me tenho senão amputada do que sendo (m)eu, eu não tenho.
E tu? Há quanto tempo não tens um dia bom? Um dia desde que acordas até que adormeces? Quando foi o último dia? E um dia feliz? E um momento pleno? Lembras-te, sabes? Quando foi? Estavas sozinho em numero ou acompanhado de solidão? 
(lembro-me de um dia me responderes a isto sem to ter perguntado; pergunto-me se o que me disseste era verdade, se era mentira, ou se nem tu sabes, e se a tua resposta ainda é a mesma... perguntas, sempre perguntas, é o que é!!)

Bom Dia

20 novembro 2014



Não sei o que faço aqui, é um facto. Não sei. Mas paro aqui e fico-me comigo. Ponho-me a pensar, a remoer vontades e verdades. Penso que a única coisa que não se controla é a vontade. Nem o próprio controla a vontade que sente, sente e pronto; como tudo o que é sentido, realmente sentido, em modo selvagem e sem filtros da razão, que atrapalha atitudes mas não afasta as vontades. Por muito que se julgue que se controla alguma coisa, a vontade de alguém é incontrolavel, é o instinto mais íntimo a dizer, a gritar-nos, o que quer. Mesmo que tentemos não ouvir, mesmo que tentemos assobiar para o lado a cada dia, os dias não parecem levá-la e não conseguem calá-la. E arranja sempre maneira de respirar por nós e calar-nos os assobios.

.... Que tal este milagre? Vê-se bem?
Começar o dia assim, B
Ou acabá-lo?... Ao dia, pahhh tu não acabes o moço que senão é milagre de pouca dura...
(este nosso português só te digo... é preciso ter muito cuidado com ele ahahahah)

Bom Dia
(Está melhor assim? Menina B?, vamos a animar, sim?)
(...)
Brandamente, por vezes, te desvio
de mim, para melhor, depois, sentir
que és bem tu que eu agarro, acaricio,
bem tu que eu pude, em mim, fundir.
(...)

José Régio

[...agarrar como se a vida me escapasse das mãos, tão bem como guardo as palavras que não digo.]

Boa Noite

19 novembro 2014

(da página Poeme-se, aqui)

..." falar contigo é uma tentação demasiado grande."
Há frases que fecham bem o dia.
Ainda há coisas boas como conversar, ouvir coisas destas e sorrir.
Sentirmo-nos bem.
Só porque sim.

Boa Noite 

18 novembro 2014

... e nem sempre é fácil distingui-los, só vos digo.
(mas a frase é unisexo, sejamos justos)

Bom Dia


"... Este vestido é mesmo bom para fazer assim..."

... E tanto que haveria a dizer sobre isto e sobre tanta, tanta coisa...
Mas o silêncio é uma coisa boa.
Não se ouve e nem se vê, mas às vezes apalpa-se.
Calemo-nos então e fechemos os os olhos...

Boa Noite

17 novembro 2014




"Já dizia Clarice: A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre. E concordo com o velho Buk, se parássemos para pensar nisso, quem sabe podíamos amenizar um pouco dessa agonia toda? Todo momento de nossaodia é uma escolha, e como disse o Jô Soares em entrevista recente: Escolher é perder sempre. Mas cabe a nós decidirmos o que vale a pena perder, já que não temos todo o tempo do mundo. Que diabos, nem ao menos sabemos quanto tempo nos resta!

Se cada escolha significa uma renúncia, não está em tempo de pensarmos melhor sobre nossas perdas? Em pensar menos no volume, na quantidade, e mais na qualidade daquilo que estamos escolhendo? Vários colegas ou um bom amigo? Várias risadas forçadas em uma festa ou uma noite com risadas sinceras de doer a barriga? Muitas transas vazias ou poucas transas com possibilidades do aconchego do depois? Que tal menos ‘doer’ e mais ‘doar’?

Não estou dizendo que devemos deixar de fazer outras coisas triviais. Não devemos ser sérios sempre, nem filosóficos sempre, nem ser altruísta sempre – mas aprendi que a vida nos da dois caminhos de aprendizagem: o da dor e o do amor. E enquanto eu puder escolher, fico com o segundo, ainda que pareça que ele dói às vezes, o caminho do amor é sempre a melhor opção. E já que não temos escolha sobre a morte, que ao menos a gente possa escolher as possibilidades que deixam a vida mais leve. Daqui a gente não leva muita coisa mesmo."

Apanhado aqui.

[Tema já recorrente aqui no tasco... as escolhas, o cada sim ter o seu não equivalente, o cada não ser um outro sim noutro sentido. No fundo o que diz Jô Soares: "escolher é perder sempre." É isso, para escolher o que queremos ter, o que queremos agarrar e viver, temos de escolher o que perder, a alternativa de que abdicamos. Ver o que mais valorizamos, o que mais nos poderá fazer felizes. Que felicidade escolhemos, afinal. Mas é sempre uma escolha, sempre. Escolham bem. Nunca se sabe quanto tempo temos para corrigir os erros que poderíamos não ter feito. O mundo gira, às vezes até pode girar na nossa mão, ou parecer, mas não volta atrás, nem pára de girar.]

16 novembro 2014


"- Vais deixar de gostar de mim, e não te censuro quando deixares.
-Poderei vir a odiar-te mais, mas nunca te amarei menos"

(... Grande frase. Ouvido num filme.)

"(...)

(Até que passem muitos anos
sairás de dia à rua
em busca de quem esperam que tu sejas –
e acharás que não o achar
é falha tua

E depois passarão anos
até que entendas:

Que te querem para o que não és, pelo que não tens
Que te querem mas não é a ti –
Querem o outro que acham que devias ser

E tu deixaste que te quisessem assim
e tu aceitaste que te quisessem mudado
como se alguém estar com alguém
fosse um favor e não uma oferta

E no que não mudaste,
no que não conseguiste,
ainda sentiste culpa)


Até que passem muitos anos
submetes-te ao teu captor: dás-lhe razão

Até que passem muitos anos
e a alma mude
e o corpo mude

Ou até que acordes um dia
do sono acordado, do rapto do ego,
e compreendas
a independência dos corpos
a independência das almas

E entendas
que a vida é um jardim de inverno
onde poucos te plantam algo
onde outros vêm colher, sem ter plantado,
e afinal ainda se queixam da escassez"
Roubado do Menino 
(a pilhagem continua, e continuará, enquanto escrever assim e a dizer o que também penso e sinto...)
Bom Dia

15 novembro 2014

Há coisas que quanto mais se tenta aprender menos se sabe. 
A espontaneidade, as coisas que se fazem com alma e da alma. Podem ler enciclopédias, citá-las de cor, ir a todas as cidades e melhores museus, nada disso ensina a deixar escapar uma gargalhada de dentro, livre. Ou a roubar um beijo no incerto momento certo nunca esperado, mas que acontece espontaneamente quando temos a alma nos lábios. Quando temos alma. Viva. Espontânea.

O vento corre fora da janela, vai com pressa e alarido. Assusta, assusta-me. Nunca gostei de vento, quando enfurecido leva tudo à frente. Refugio-me no quentinho da cama, faço ronha até não poder mais, até o dia me obrigar a levantar e a acordar. Mas não me apetece. O calor aqui é doce e tranquilo. Só me falta aqui um abraço de quatro braços e pernas e uma só vida. Falta-me. 
Faltas-me. Ainda.

(E acho que agora já são mesmo horas de levantar...)
"Não me dá tesão a espera. não sou dos que acredita que o prazer é tanto maior quanto é mais antecipado. gosto das coisas longas, sim, não sempre lentas, mas longas (excepto aquelas que são momentos roubados no carro, na rua, num elevador ou no escritório de alguém, na casa de banho dos bares – e as outras em que o desejo mútuo é fogo que não admite preliminares). mas alongo-me contigo, não sem ti. não me alongo na espera. tolero-a, como se tolera a vida e os seus factos. mas por minha vontade, estavas aqui e era agora. neste chão."


Do Menino, a falar por mim.

Boa Noite

14 novembro 2014

... Eu sabia que afinal devia haver alguma coisa que eu podia fazer bem na cozinha!!!
Está combinado, parece-me um bom programa para hoje. 
Eu levo o vinho..E até trato da sobremesa, e pode ser na cozinha... Enquanto tentas fazer o jantar...
Eheheheh

Bom dia!!

                                                                [foto de yusuke sakai]

"a sombra das coisas que tu vês sou eu."

Joaquim Manuel Magalhães

[... nunca me viste,
será que agora me vês onde não estou?
nas sombras claras
a que falta o sol para fazer sombra?
nos passos que me roubaste
dum caminho que não sentiste?
nas nuvens espessas que cobrem o sol
mas deixam passar uma luz dorida
e cansada?
será que me vês agora?
onde nunca me sentiste?
e sempre me soubeste?
e agora que não sabes nada,
agora que sabes o que é não saber nada,
sentes? vês?
ainda respiras?
ou só brincas com o ar indeciso?
...entra, sai...
enquanto olhas para as sombras,
onde me vês e eu não estou? ]

Boa Noite

13 novembro 2014


(...)
É que enquanto o criminoso tem uma certa tendência natural p´ra ser vitimado
Jeremias nunca encontrou razões p´ra se culpar
(...)
Como um poeta ele desarranja o pesadelo p´ra lá dos limites legais
Foragido por amor ao que é belo e por vocação
(...)
Gosta de tesouros e mapas sobretudo daqueles que o tempo mais mal tratou
Gosta de brincar com o destino e nem o próprio inferno o apavora
Não estando disposto a esperar que a humanidade venha alguma vez a ser melhor

Jeremias escolheu o seu lugar do lado de fora

Jorge Palma

[Ando há dias, muitos dias, a ouvir Jorge Palma. Assento arraiais logo de manhã na poesia deste homem, que gosto, de quem aprecio a loucura meia mágica, e talvez esta noção "do lado de fora" - do inferno que não teme e, por isso, do destino que desafia dia a dia, de peito aberto munido apenas do amor ao que é belo, sem culpas por lhe faltarem ambições. Tem leis próprias e a consciência que o mundo é um mundo para viver do lado de fora, e às vezes - tantas - esse é o lado certo, assumido, sofrido, mas tornado poesia. Sempre o belo: a poesia, a música a magia de certa loucura. A beleza para quem tem coragem de a ver e a perseguir: para quem tem coragem, ou vários copos atestados de litros de ilusão que a noção da realidade já não nos deixa ter... 
...beleza... será a beleza apenas ilusão?, será a ilusão bela?, ou toda a beleza apenas uma ilusão que pode ser até eterna em tanta coisa? e uma ilusão eterna não é uma realidade?... o amor será dessas?... eu e as perguntas... adiante... 
Tenho ouvido este senhor, e gosto deste personagem fora da lei, sorrio com ele quando olho o mundo, sorrio quando os semáforos todos, numa brincadeira de criança me fazem parar e assim dizer-me que não te falto, que não te lembras, que não te estou... e rio-me, rio-me da parvoíce destas perguntas, destes jogos de criança que já não devia ser.  rio-me dos semáforos sempre tão corados para mim, rio-me deles, rio-me de mim, rio-me de ti e rio-me de cada vez mais querer não querer saber. Não querer saber se me queres, se te quero, se há sequer querer aqui. Não querer saber nada. Não querer saber de nada, mas de ainda fazer perguntas parvas a semáforos demasiado corados e tímidos com a vida... ou então é só comigo. ]

Bom Dia

11 novembro 2014

Beijos que falam
Com palavras que não faltam
No silêncio que se ouve 
Por dentro dum beijo que diz tudo

Boa Noite.

10 novembro 2014


"Não sonhas. Morres um pouco de manhã e ao meio do dia quando o sol mais queima. Tens de continuar. Tens de esquecer. Não aguentas mais. Tens de acabar, matar, recomeçar a viver. Só que ela está presa por dentro e tu agarrado a ela por um nó da garganta e não sabes o que deves deitar fora, arrancar, vomitar para que ela te saia de dentro. Sais à noite com definitivos propósitos de não voltares sozinho. Compões dentro da cabeça uma mulher com um bocadinho disto e um bocadinho daquilo e esperas que bata certo. Levas um bocado do tecido rasgado e queres encontrar o todo. Mas não encontras ninguém. Pior, encontras alguém que te vem provar sem remissão que não a vais poder substituir tão facilmente porque não há mais nada no mundo inteiro depois dela senão um deserto de tempo que se estende à tua frente onde tudo se torna insignificante e pequenino. Começas a beber, a fazeres-te mal, porque estás triste e não acreditas em nada senão na dor."

Pedro Paixão, in Nos teus braços morreríamos

[há dias em que estou assim, não acredito em nada senão na dor, não bebo, ou nesses não bebo especialmente, nem para isso me dá, porque a consciência da dor não me deixa distrair. Agarra-me por todas as consciências que queria caladas e paralisadas, apagadas e inofensivas. Nesses dias fecho-me, calo-me, apago-me. às vezes tento falar sozinha, para dentro, às vezes consigo e escrevo - que é como falo comigo tantas vezes, e tantas vezes me explico a mim mesma, como se eu fosses tu e tu fosses eu, ou fosse tudo a mesma coisa, sei lá, porque às vezes parece que é. Outras não. Mas "explico-me-nos" - e esta palavra faz-me lembrar do nosso dicionário próprio e duma viagem cheia de palavras novas que tenho aqui num rascunho guardado neste blog, e lembro-me de tantas coisas parvas que não me são nada parvas, mas que podem parecer a quem não tem esse dicionário nascido debaixo daquela prega do coração que faz cócegas e nos faz sorrir aqueles sorrisos tontos que ninguém entende, nem eu entendo, nem quero, prefiro sorrir só (mas adiante) - explico, ou tento, em diálogos imaginários e explanações teóricas quase praticamente provadas no imaginário que somos nós, ou nso... porque não somos nada, nem isso, mas prova-se tudo na mesma. Aliás normalmente acabamos a provar-nos, mas é tudo imaginário, ou não, sei lá. Tu sabes?...  e eu que já nem sei o que comecei a querer dizer que já me perdi, os dedos seguem o rumo da cabeça e a cabeça vai para lá duma eternidade que não tem rumo, mas tem sonhos, ou sonho, e a cabeça atrás da alma anda sempre para aquelas bandas, perde-se por lá como se não conhecesse aquele território melhor que as mãos, melhor que as palavras que me saem sem as pensar enquanto aqui estou e olho só as letras e nem penso... pensar o quê? O que há para pensar? Não sei pensar, não nisto, pensei o dia todo, esgotei pensamentos, esgotei-me em pensamentos, agora dou-me em palavras que me saem como quem respira e nem sabe por quê....só sei que saem palavras porque os beijos estão longe e só tenho as palavras à mão, tão vazia das tuas mãos, que não me lembro já o que queria dizer, sei que li este texto e  na última frase lembrei-me de ti, mas para o esquecer quis-me lembrar de mim, porque há dias em que só a dor me encolhe em mim, e fujo de mim e dos dias e de tudo, porque nem as palavras me falam, nem elas me acodem às vezes, e procuro as palavras dos outros para me dizerem o que quero dizer, o que quero dizer-te, e então começam a sair como quem responde a um chamamento que ninguém chama - como quando dizes que me chamas, ou chamavas -, é como apanhar inesperadamente a ponta da linha duma baínha desesperada que não sabíamos ter, começar a puxar e de repente temos um novelo que já não tem ponta, não tem ponta por onde se lhe pegue, como este texto. Que veio daquele ali de cima, porque me lembrou de ti a última frase, porque te vi na última frase, como se viesse com a morada do teu olhar nalgumas noites que te vejo mas mal te olho, mas o resto, o resto do texto, infelizmente, lembra-me só o que sinto na minha dor que se cala quando a quero gritar. Cala-se, mas não morre. a sacana. Mas passo-a para aqui pelo passador das palavras e pesa-me menos. Muito menos.]

Bom Dia
(pois é estranho, mas é assim)