Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

02 dezembro 2014

...preciso tanto de me pirar daqui, deixar a estrada pegar-me e segui-la sem pensar no onde ou no porquê. Eu, um bom livro e alguma coisa para escrever. Tenho tantas palavras para me gastar, e ando a guardá-las para me desperdiçar no tempo de nunca as chegar a entender. Tenho coisas para tentar escrever, assim consiga vencer a preguiça da inércia e convencer-me que me despejarei nesse por escrever depois de escrito. 
Preciso de me pirar daqui, só comigo, e trazer um sorriso cheio de palavras por dentro da boca que quebraram o silêncio pelos dedos.... Ahhhh 2015 se te apanho fujo contigo. Contigo, comigo, com um livro na mão e palavras nascidas por nascer. 

... sim, e então o ressabiamento aparece. E bolas, um homem ressabiado é 1000 vezes pior que uma mulher, e uma mulher ressabiada já é insuportável mesmo à distância, imagine-se ter de lidar com um homem ressabiado, que de repente se acha.. se acha tanto, se acha melhor, se acha tanto que nunca chegou a ser, mas tenta atirar para cima dos outros o que pensa que é, em contraposição às grandes falhas que gostaria de ver, ou que acha que vê, nos outros.... e onde estava ele quando tinha medo da própria sombra? onde estava ele quando acreditava mais no Pai Natal do que nele próprio e nas suas capacidades? onde estava ele quando não sabia que a sua cabeça era uma coisa que funcionava autonomamente? Caramba, porque é que me dou ao trabalho de fazer crescer as pessoas, de as tentar fazer ver o que são e o que valem, e valem sempre mais do que pensam, e a paga que tenho numas é umas costas voltadas e indiferença e desprezo, e noutras é o ressabiamento que me quer esfregar na cara que são tão melhores, mais responsáveis, mais zelosos do que eu... eu, a irresponsável que o ajudei a crescer e a chegar donde agora me fala com sobranceria, e eu só tenho pena, na verdade não tenho mais nada senão pena de as pessoas serem assim e não terem vergonha disso. Tenho tantos, tantos defeitos, mas irresponsável não me parece que seja um deles, e que fosse, talvez merecesse que mo fosse apontado com menos ressabiamento e ar de superioridade. Afinal de contas tanto zelo extremoso agora, que só se revelou depois de conhecerem a porta apenas do lado de fora. De eu a ter fechado por dentro, com o que não queria mais a ficar trancado do lado de fora... deve ser difícil de compreender por quem se acha tanto, tendo tanta dificuldade em encontrar alguma coisa (se se desse ao trabalho de procurar) daquelas coisas que não se vendo, fazem toda a diferença no que encontram em nós. Lamento não ajudar, já não me atinges, só me feres de pena de ti e dos teus ares de superioridade tão ocos e bacocos.  És melhor do que isso - ou quero continuar a acreditar que sim-, pena que não o vejas e principalmente que não o pratiques, mas falta-te alguém que te faça ver o que não se vê, mas que faz crescer. Maturidade, equilíbrio, estabilidade, densidade no ser. E a mim, a mim também me falta alguém ao lado para me colmatar os defeitos, me fazer sentir que não serão tão graves assim, que tenho coisas boas, fazer-me rir de mim, alguém que valorize, sem sombra de dúvidas, muito mais as qualidades que eu possa ter (ou ele vê-las), do que as falhas que me falham a cada dia, tanto e tanto, e eu não nego. Alguém que possa ser às vezes o apoio que parece ser o que todos vêem em mim, antes de virar costas, por opção ou obrigados. Alguém que me faça crescer, rir, amadurecer, tranquilizar e equilibrar, que goste de gostar e de ser gostado, e que me dê paciência para aturar meninos ressabiados com ares de adultos ofendidos. Não há pachorra.

01 dezembro 2014

... E assim sem aviso olha-se para o lado a acabar um cigarro e vê-se isto... Coisa mai'linda... Gostar assim de alguém com o mimo a comer letras. E as letras a comerem-me a alma de inveja. É feio, pois é, mas "goto mto de ti" é lindo. E o sorriso guardado nas gavetas da memória também. A minha inveja presente do pretérito perfeito que ainda guardo. E que ainda me guarda de amargar.

Queres cortar o fio, todos os fios, seja. Não quero que te falte nada. Mas quero que saibas que nunca estive presa por fios, não a ti. Que quando se ama não há fios, porque os fios podem-se cortar, podem ser cortados. Não aprendeste isso porque não amaste. Ou se calhar sim, não sei. Mas não a mim. Pois seja, não é coisa que se obrigue, force ou se conquiste (lembro-me de dizeres que não sabias conquistar ninguém, que não sabias, nem fazias ideia, de como isso se poderia fazer. Acho que finalmente te entendi. Há coisas que não se conquistam, ou são ou não são. Ou nascem já sendo, ou não se fabricam - fabricando nunca chegam a ser). Ou acontece ou não acontece. Quando acontece não há fios. Há um ar que nos envolve que se respira, que se alimenta e nos alimenta; um mar em que se mergulha, para onde nos virarmos ele envolve-nos, cerca-nos, e dá, ao mesmo tempo, a liberdade de não ter chão, de tudo ser possível, e isso parecer impossível. E se calhar é, mas respira-se, nada-se sem ar, mergulhadores de profundidade ou não. Quando se ama não há fios, nem tempo, por isso nunca se espera aguardando - aguardar é saber que o tempo passa, senti-lo passar -, mas espera-se sempre sem saber que se espera ou sem querer sequer esperar, vivendo, um dia a seguir ao outro. Ou talvez a espera seja da vida por nós, para que estejamos em condições de a viver, de a receber. Porque os fios não se cortam, não há fios. Mas talvez um dia, sem saber, ou perceber como, nos vejamos mergulhados noutro mar, respiremos outro ar, o chão nos fuja dos pés e das mãos, e o tempo volte a não existir. Os fios foram cortados. Só há fios quando (já) não se ama.
Deixámos a cidade de Novembro atrás de nós, ainda mal se despegou dos calcanhares e já um Dezembro em pontas dos pés nos espera... ansioso de despedidas e de lareiras e de renovações metradas em 365 dias. É sempre em Dezembro que nos despedimos das mesmas coisas, Janeiro fica com os "olás", com as páginas em branco cheias de curiosidade do que o futuro vai escrever, e quem o irá ler, ler com a alma - viver. Em Dezembro acontece-me sempre muita coisa, mesmo que nada aconteça. Nem tudo o que acontece é bom, ou quase nada é bom, e cada vez menos. E passa sempre mais um ano. Sempre. E talvez isso seja uma coisa boa. Os anos passam à frente, que não passem só à minha frente, que os saiba pôr nos lugares certos, o passado atrás, o agora para ser já, e o futuro todo por estrear. E eu também.

Bom Dia

... então, será coisa de pombos?
(... as coisas de que me lembro... não há explicação... )
Mas tenho saudades, muitas, de tantas coisas. Saudades de momentos, de dias, de noites, de jantares, de conversas sem fim, de olhares indizíveis, de mãos atrevidas, de copos de vinho à lareira, de  almofadas no chão e estrelas no tecto de fora, de mil folhas divididos,  de fins de tarde bem conversados, dos colos pedidos e dos colos dados em recebê-los, dos beijos demorados, dos "olá" que eram recomeços a meio das conversas não essenciais, das gargalhadas bem partilhadas, da paz - tantas saudades da paz. E do que eu sentia, dessa mistura incalculável e imprópria de ternura, desejo, intensidade, carinho, tesão, e a leveza de tudo isso na paz dum aconchego quente.  Dum beijo na testa, das mãos dadas,  dum colo mudo, do olhar que nos entra e sussurra todas as coisas que as palavras não aprenderam a dizer. 
Tenho saudades de sentir o que não se calcula, não se espera,  não se finge, não se mede, não se conquista, não se procura, mas se teve. Tudo. 
Tenho saudades desse lugar que éramos. E os lugares não se apagam com o tempo. Talvez as saudades se apaguem do lugar.

Boa noite

30 novembro 2014

A tentar absorver o sol com a pele. Tentar despir-me o mundo fechando os olhos. Vestir-me de mais um dia que não me assenta. Pinto o céu de azul à volta das nuvens, apago as estrelas e escondo a lua, atrevidamente fora de horas, com o sol.
Aqui sentada numas escadas que não sobem nem descem, que não levam a lado nenhum, o sol parece não saber nada, e o dia mudo. Percebo que a pele não me chega dentro. E que não me chega. Apenas existo, como o dia que não fala e o sol que não passa além da epiderme. É uma forma de respirar, que não sabe inspirar e não sente expirar.

29 novembro 2014


... True.
E hoje é dia para deixar algumas fechadas, 
aproveitar o frio do dia disfarçado de sol da maneira mais quente que se encontrar. 
Dizem que rir faz bem e gente que goste de nós também...
Bom Dia

28 novembro 2014



- Que procuras? – Tudo.
- Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

Cecília Meireles

[Viajo sozinha. Como sempre. E gosto... às vezes não gosto, mas sei que sozinha é a minha escolha de não estar com quem não me arranca a solidão de dentro. E, sendo assim, prefiro sozinha: já que não arranco a solidão de ninguém que eu queira, e de ninguém que eu queira sou escolha. Sozinha então, que sozinha vai-se bem. E estou a precisar de ir sozinha, de novo, um dia destes qualquer que o mundo me largue e eu possa fugir para longe, para mais um dia de tempestade quem sabe. As tempestades andam atrás de mim, perseguem-me porque não lhes fujo, ainda que cheia de medo, às vezes a vociferar entredentes, não lhes fujo. Também não as procuro, apenas sigo o meu caminho, aquele que eu escolher. E vou. Se alguma tempestade me seguir, ela que me apanhe, não é difícil. 
Não ando perdida, não procuro nada, ainda que deseje o tudo do meu todo (que é tão pouco). Não ando perdida, mas não serei fácil de encontrar, poucos calçam estes caminhos desencontrados de não procurar nada de tudo que mais se deseja. Porque o que mais se deseja não se pode procurar, e nem sequer se sabe que se deseja, surpreende-nos, encontra-nos nos desencontros da vida. Se me encontrarem, apanhar-me é o mais simples, então se for tempestade, é o raio mais certeiro. ]

Bom Dia

27 novembro 2014


"É tão fácil não gostar. Não querer. Não correr. Permanecer naquilo que já conhecemos. Que não nos surpreende. Saber de cor os dias. e ter as noites controladas. Ter o passo seguinte traçado e o caminho meio rabiscado. É tão simples prescindir e não lutar. É tão fácil querer viver no vazio. É simples esquecer sentir. Optar não tentar.
É tão parvo não gostar quando se gosta. É idiota não querer quando se quer. É estúpido não arriscar. É triste o medo ganhar.
É pequenino não querer ser grande."

Rita Leston

[será tudo isso tão simples? não a essas coisas todas? não sei. 
Será tão mau assim preferir o cómodo e não arriscar? não sei. 
...não arriscam a pele, não arriscam perdê-la por deixar de senti-la, ainda que ela continue no seu lugar, intacta; não hipotecam a alma sem saber quando a recuperarão, ainda que a saibam sua. Nunca são verdadeiramente infelizes nessa comodidade acomodada, nem nunca saberão o que é poder perder a felicidade que se tem, que se sente, que nos mostra como a vida pode correr nas veias e o coração saltar obstáculos. Mas também quem é que quer isso? Essa aposta alta de vida? Essa roleta russa contra as probabilidades?...é tão melhor um seguro da vida que não se chega a viver e uns chinelos amarfanhados, de quem anda na guerra, ainda que pouco gastos onde chamam casa, e onde nunca sentimos estar com os dois pés. 
Não sei o que é melhor. Não fiz o seguro, e a minha guerra é procurar os chinelos para os dois pés quando não quero andar descalça.
Talvez um dia. Depois saberei. ]

Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.

Rosa Alice Branco
[Aceitar o que vier, e o que não vier também. 
Atravessarmo-nos até ao outro lado de nós, onde já estamos e nos esperamos sem saber o que esperar de nós, mas sabendo que lá chegaremos, que não nos faltaremos no que de nós sempre resta. Que nos chegaremos, que nos bastaremos, e que isso chega para respirarmos dia a dia, o dia que vem e tudo o que vai. Respirar até um dia - e pode ser mesmo só um dia - o dia nos respirar e a vida nos encher os pulmões da alma que sabemos que sente, que foi feita para sentir, e isso nada nos tira, pode adormecer, pode até adoecer, mas o que é verdadeiramente nosso não se perde, nem nos podem roubar. Mesmo que nos roubem o chão que nos enxuga as lágrimas, as lágrimas são nossas, o sorriso que as seca também, como a alma que nos habita e não nos morre. A alma é o que somos, é o nosso último reduto, a nossa essência, o que fica quando tudo o que pode ir vai, quando nada mais nos acresce além de nós. E há dias em que nos basta para aceitar o dia e agasalhar as noites. Sabermos quem somos. Mesmo que nos pareça pouco, nos pareça pequeno, nos pareça frágil. Mesmo que não consigamos ver em nós o que nos vêem. 
Nos dias em que não se acredita, aceitar. O que vier, e o que não vier também.]

Bom Dia

"-Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti,
mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo..."

Al berto

[dá-me um nome,
um que seja meu,
que sinta meu,
que seja eu,
eu pelos teus olhos
e que seja eu.
Que sejam os meus olhos,
o meu olhar,
a minha pele
e a tua sede de vida.
Chama-me com paixão,
sussurra-me de ternura,
berra o teu grito por mim, por ti.
Agarra-me pelo nome,
chama-me pelas mãos.
Chama-me como me queres.
Chama-me o que quiseres,
mas chama-me tua,
a tua vontade,
o teu desejo,
o teu sonho,
o teu amor.
Chama-me.]

Boa Noite

26 novembro 2014

.. a sério isto hoje está de partir dentes ao murro!!
Por que é que as pessoas são tão medíocres e tão pouco gente?
Por que é que não têm tomates para dizer o que pensam... ahhh espera... já sei, é porque não conhecem essa actividade, quanto mais praticá-la, mas depois seguem a manada... 
a sério, hoje estou capaz de emigrar e ver se encontro gente decente e que fuja da mediocridade como eu hoje fujo desta gente para não ter de decentemente lhes partir os dentinhos todos...
haja pachorra para tanto palerma!!
...E para tanto burrice, hipocrisia e falta de tomates.
Irrrrrraaaa!!


As horas voam quando a languidez não se apressa. 
Os beijos alongam-se onde o amor se demora.

Boa Noite

25 novembro 2014


Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar

Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir

E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Eu sei que nenhuma vai ganhar


[Entrei no carro quase a acabar uma música. Por instinto, para me calar os pensamentos, para me afogar os olhos de claridade, para a poesia me aquecer a alma e fazer nascer o dia em mim, aumentei o volume. Apareceu-me esta música. Esta que não é nada minha a não ser quando atravesso a ponte para a outra margem de mim, onde encontro outros sapatos que tantas vezes calcei para lhes sentir a forma, as partes gastas, onde doía e onde serviam, onde aquecia e onde a água entrava quando chovia, para tentar perceber como às vezes chovia lá dentro quando chovia pouco, e chovia o mesmo quando choviam tempestades. Habituei-me a fazer essa travessia como quem visita outro lado duma casa minha, em que moro sem habitar todas as divisões, portas que abro para ser visita da casa, para perceber o todo, para perceber o nós. Talvez como uma parte de mim  por empréstimo, por afinidade, mas que nunca fui eu, e que nunca foi meu. Lugar que conheço bem, acho que sim, mas que não me habita.
Há uma música para tudo, para cada situação, para cada estado de espírito, para cada falha da alma, e cada fala da alma, e esta faz-me sentido há tanto tempo... alguém fazer a cama na encruzilhada e fazer casa desse lugar, no meio de nada e na encruzilhada de tudo, deixar o tempo decidir que não decide. O tempo nunca decide nada é a sua única decisão, só nós decidimos, algures no tempo, depois dizemos que o tempo decidiu, porque as mãos perderam a razão e o chão perdeu-nos os pés. E almas em guerra não dão paz a ninguém. E esta música não me dá paz, mas não me faz guerra. Entendo-a. Entendo-te. Mas há olhares que me dão paz que não entendo.
(E sim ainda ando a ouvir Jorge Palma. Por enquanto.) ]

Bom Dia


24 novembro 2014

... o acaso e o destino...
Um não se procura o outro nunca se perde...

(e ando com um projecto pensado, que me anda a moer os espaços vazios da consciência, uma coisa inesperada, nunca programada, nunca prometida, talvez fruto do acaso, talvez parte dum destino que não adivinhava. Mas nasceu, de repente a ideia estava acabada sem a notar embrionária, como se já nascesse completa, de corpo inteiro e alma à medida do corpo. Há alturas em que a vida nos larga da mão os sonhos ( será possível largar mão dos sonhos? os sonhos não se agarram e não são para agarrar, são a luz que se persegue, nunca se agarra, é a luz que orienta, que nos ilumina na escuridão dos dias iguais e tão pouco nossos... será que podemos abrir mão deles?) para podermos agarrar de mãos vazias, mas sedentas, projectos de encher as mãos de coisas que se transformam em vida, na nossa vida, em nós. E eu ando a pensar nisso. E talvez agarre com as duas mãos, só tenho medo de perceber que as minhas mãos não chegam para segurar e concretizar tudo o que gostaria. O medo, o medo de nós e do que pensamos não ser capazes é o maior obstáculo que inventamos para nos atrapalhar, para nos protegermos do fracasso. 
Mas medo é sempre medo, só se assusta se o enfrentarmos.)

Bom Dia

21 novembro 2014



"Dias Bons:

o despertador toca, olho para as horas, espreguiço-me e levanto-me. no duche, cantarolo músicas cujas letras desconheço. olho-me ao espelho e “converso-me”: are you talking to me? you are so stupid! e sorrio. qualquer roupa me fica bem e ao pequeno almoço oiço na TV que está trânsito e que o tempo vai piorar e por isso escolho ir de metro e sem guarda-chuva, porque há beleza na chuva e ainda vai dar para ler o jornal durante a viagem.
chego um pouco atrasado ao trabalho e o chefe diz “isto são horas?”, respondo com um sorriso “horas e minutos” e o chefe sorri dizendo entre dentes “que engraçado que ele está.”
ao almoço, a sopa vem fria, peço educadamente “oh Sr. Manel eu sei que lá fora está frio, mas a sopa está de simpatia com o tempo?”, o Sr. Manel oferece-me a sopa no fim. de tarde, um colega de trabalho pede-me “oh pá, preciso que faças este trabalho até às 17h” e eu respondo “não te preocupes, eu dou conta do recado como de costume”.
depois do trabalho vou para o metro e oiço música que me inspira a escrever. Chego a casa e a namorada diz “vamos jantar fora”, ao que respondo no imediato “onde?”. de volta a casa, é a minha vez de levar o cão à rua, voltar à chuva e à inspiração. ligamos a TV e vemos um filme. a meio do filme fazemos amor e dormimos agarrados um ao outro.

Dias Maus:

o despertador toca, apetece-me atira-lo contra a parede. no banho, deixo a água escorrer-me pelo corpo enquanto fico de cabeça baixa a tentar acordar. olho-me ao espelho e não penso, desligo a luz. qualquer roupa me fica mal e de tanto escolher, escolho a pior. ao pequeno almoço oiço na TV que está trânsito e que o tempo vai piorar, penso em voltar para a cama.
chego um pouco atrasado ao trabalho e o chefe diz “isto são horas?”, respondo de forma rabugenta “horas passei eu enfiado no carro a aturar gente maluca. anda tudo a dormir na estrada. vou trabalhar!”
ao almoço, a sopa vem fria, resmungo “oh Sr. Manel o raio da sopa está gelada! espero que o resto da comida não venha assim!“ o Sr. Manel pede desculpa e vai-se embora. de tarde, um colega de trabalho pede-me “oh pá, preciso que faças este trabalho até às 17h” e eu respondo “é sempre a mesma coisa, tudo em cima do joelho, depois queixam-se! não faço milagres, não prometo nada, mas sim, faço isso até às 17h.”
depois do trabalho vou para o carro e oiço na rádio que está trânsito. o tipo do carro da frente demora uns segundos a arrancar do sinal vermelho e eu já estou a apitar. chego a casa e a namorada diz “vamos jantar fora”, ao que respondo no imediato “acabei de chegar! não me apetece sair”. jantamos qualquer coisa aquecida no micro-ondas. ela diz que é a minha vez de levar o cão à rua e eu digo-lhe que estou de pantufas e que não vou para a chuva. ligamos a TV e vemos um filme. a meio do filme adormeço e duas horas depois vou para a cama sozinho. dormimos separados um do outro."

daniel camacho

[...há quanto tempo não tenho um dia, um dia inteiro bom, não um bocado, não um instante, não uma eternidade bem encaixada entre horários, mas um dia, do acordar ao adormecer, que possa dizer que foi um dia bom? 
Penso, e sei que tive dias bons, dias que gostei, que me assentaram bem, ou em que eu consegui assentar bem neles, vesti-os como eles me vestiram, foi uma boa troca, dias de sorrir para dentro, de me fartar do de fora, de me cansar de tudo que não me é, com a plenitude de sentir o que tenho em mim, só do que tenho e é meu. Porque o que é nosso são só coisas que não nos podem tirar, roubar ou pilhar, o que não perdemos. O que podemos perder não é nosso. 
Sim, tive dias assim. Sozinha. Dias em que gostei de estar sozinha, em mim, comigo. Tive alguns dias bons, onde me senti bem, ainda que não plena, não completa; dias em que os dias são bons porque lidamos melhor com a saudade, porque nos esquecemos do desamor, das dúvidas do que nos querem ou até do que temos. Dias em que optamos por querer estar sozinhos porque desistimos de não nos sentirmos sozinhos com alguém ao lado, de estarmos com alguém e isso nos arrancar da solidão e não aumentar apenas o número de presenças (ou ausências assistidas?). Desistimos - naquele dia -, de querer mais do que se tem, desistimos de querer a plenitude e optamos pelo dia bom, quando ele nos deixa e nós o deixamos deixar... Mas os momentos felizes - não os bons, os felizes -, esses foram instantes, janelas de luz paradas no tempo, carimbadas de eternidade, coisas acontecidas no meio de outras, no meio dos dias compridos corridos, nas noites curtas estancadas no tempo de várias horas e tantas conversas. E um dia assim já não me lembro de ter, em que me sinto eu comigo, sem estar sozinha, em que me sinto plena na outra parte de mim que alguém me traz na extensão do que sou mas não tenho (sou mas não tenho - será meu??...) Tenho em ti, tenho-me plena em ti comigo, e às vezes parece-me que sem ti não me tenho senão amputada do que sendo (m)eu, eu não tenho.
E tu? Há quanto tempo não tens um dia bom? Um dia desde que acordas até que adormeces? Quando foi o último dia? E um dia feliz? E um momento pleno? Lembras-te, sabes? Quando foi? Estavas sozinho em numero ou acompanhado de solidão? 
(lembro-me de um dia me responderes a isto sem to ter perguntado; pergunto-me se o que me disseste era verdade, se era mentira, ou se nem tu sabes, e se a tua resposta ainda é a mesma... perguntas, sempre perguntas, é o que é!!)

Bom Dia

20 novembro 2014



Não sei o que faço aqui, é um facto. Não sei. Mas paro aqui e fico-me comigo. Ponho-me a pensar, a remoer vontades e verdades. Penso que a única coisa que não se controla é a vontade. Nem o próprio controla a vontade que sente, sente e pronto; como tudo o que é sentido, realmente sentido, em modo selvagem e sem filtros da razão, que atrapalha atitudes mas não afasta as vontades. Por muito que se julgue que se controla alguma coisa, a vontade de alguém é incontrolavel, é o instinto mais íntimo a dizer, a gritar-nos, o que quer. Mesmo que tentemos não ouvir, mesmo que tentemos assobiar para o lado a cada dia, os dias não parecem levá-la e não conseguem calá-la. E arranja sempre maneira de respirar por nós e calar-nos os assobios.

.... Que tal este milagre? Vê-se bem?
Começar o dia assim, B
Ou acabá-lo?... Ao dia, pahhh tu não acabes o moço que senão é milagre de pouca dura...
(este nosso português só te digo... é preciso ter muito cuidado com ele ahahahah)

Bom Dia
(Está melhor assim? Menina B?, vamos a animar, sim?)
(...)
Brandamente, por vezes, te desvio
de mim, para melhor, depois, sentir
que és bem tu que eu agarro, acaricio,
bem tu que eu pude, em mim, fundir.
(...)

José Régio

[...agarrar como se a vida me escapasse das mãos, tão bem como guardo as palavras que não digo.]

Boa Noite