Bom Dia.
Eva me chamaste
Fizeste das minhas costas o teu piano
Dos teus desenhos as minhas curvas
Da minha boca a tua maçã
Dos meus olhos o teu mar
Do meu mundo os teus braços
(...)
Fizeste das minhas costas o teu piano
Dos teus desenhos as minhas curvas
Da minha boca a tua maçã
Dos meus olhos o teu mar
Do meu mundo os teus braços
(...)
15 janeiro 2015
À espera em frente a uma porta fechada. Pego nas letras, restam-me sempre as letras. Não, nem sempre. Penso que do que aqui me trouxe nada levo. Resta-me esperar pelo café com dois dedos de prosa a puxar poesia, que a porta fechada guarda. A caminho daqui, depois de não resolver o que resolver vim, vinha a ver por quem passava, quem se via no mesmo caminho em sentido inverso, ou diverso. Vi mulheres a servir a pele ao frio, com aspecto árvore de natal fora da época natalícia, mas destas há-as de vários tipos, desde as próprias dos grandes salões às das esquinas. E nem sempre é fácil distinguir quando baralham os horários, ou os sítios. Mais à frente, um homem sentado em frente a uma cadeira vazia à espera que alguém se sente para dar graxa. Continuei a andar passei por uma miúda, ao longe com um sinal à Monroe, de perto com um piercing atarefado em enfeitar uma cara atarefada em falar ao telefone. Logo a seguir um homem desfigurado, acidentado da vida do destino ou da estrada, não sei. Não sei se faz diferença. Passei por a mãe com uma menina pequenina pela mao que olhava para tudo e todos. Olhou para mim. Sorri enquanto me desaparecia do olhar que continuava o meu caminho. Penso na estranheza que estranhei em todos os olhares graúdos que me retribuíram, percebo que todos olhámos com o mesmo olhar, a mesma estranheza apressada. Todos nos estranhámos por nos acharmos diferentes dos que são estranhos. Oiço um olá por trás destes pensamentos. O café já chegou. A estranheza foi-se. O olhar ficou.
14 janeiro 2015
...finalmente um bocadinho de sossego.
Hoje o dia correu, e ainda bem, e também correu bem, porque quando o dia corre o tempo não se sente, e então não se sente nada. Não se pensa em nada que possa parar o tempo, não se pode parar o que nem sentimos existir. E o que sentimos, tantas vezes não sabemos parar.
Agora faço-me ao caminho e é como ir descendo devagar aos andares subterrâneos de mim. A noite ajuda, a música embala-me. O que me lembra do que vinha a pensar de manhã no caminho inverso: apetrechei-me de música que não me tocasse as cordas da alma, encontrei um cd que, apesar de me ter sido oferecido há muito tempo, ainda não o tinha ouvido. Fui deixando-o ficar porque foi-me dado, foi copiado para mim, mas não foi feito para mim, para falar comigo. Foi copiado de outro, de um amigo que não conheço, que tinha bom gosto na música. E tinha; gosto do cd, duma faixa única, seguida, misturada. Gosto também porque são músicas sem memórias, não arrastam consigo os beijos, as conversas, os silêncios gozados num colo doce, as gargalhadas, os "adoro-a" a meio das conversas quando nada o previa, os "olá" que faziam reboot às conversas... estas músicas não trazem nada disso. Ouvi-as pela primeira vez há pouco tempo. Foi copiado para mim, foi-me dado, mas não foi feito para mim como outros, que - esses sim - logo minuciosamente ouvia tentando perceber nas entrelinhas algum significado que me fosse destinado, como tinham todos os que fiz para dar. Para lhe dar. E sei que percebia as entrelinhas quando lhe ouvi que tudo o que eu fazia tinha uma mensagem, desde as músicas à ordem por que estavam gravadas, e percebeu, percebeu-me. Soube-me por dentro do que eu nem sabia que tinha, mas descobri ao descobri-lo, e dei. Tudo. E quando ouvi esta frase não consegui deixar de sorrir por dentro, por me topar, pelo conforto que dá ser percebida e gostar, e gostarem. De não ter medo, e querer, que me vejam como sou, e ver que é assim que me vêem.
Dos CDs que eram feitos para mim gostava da música, das músicas, mas o que eu adorava, o que me prendia nos sítios a que os ouvidos não chegam, era que tivessem sido feitos a pensar em mim; cada música escolhida, cada ritmo, cada letra. Em mim, para mim. Não uma composição copiada, não a cópia integral de algum cd, que também os tive assim. Alguns para me mostrar que eu tinha o exacto ritmo dos Portishead (que não conseguia ouvir sem se lembrar de mim, que aquilo era eu: a languidez, dizia); a alma dos Tindersticks (a nostalgia, a melancolia, que me era feita à medida); ou sonoridades que combinavam comigo, como os XX (que uma das vezes não aceitei, e só não o mandei à merda na altura porque não calhou; deixou-mo depois, em minha casa na sala, sem eu dar por isso; encontrei-o dias depois, e lembro-me disto e sorrio e acho-me estranha, como se tivesse sido ontem e já foi há anos, dois?, três? mais?.. não sei...); depois algumas letras de músicas que hoje são das minhas preferidas e de que agora fujo muitas vezes. Fujo para não me arrastarem para estas memórias que agora aqui me escorrem pelos dedos...
Gostei muito, tanto, dessas prendas surpresa, sem data, sem altura, sem dia próprio, mas próprio de qualquer dia de quem gosta e quer dizer que se gosta, e que me faziam o dia, a semana, e se prolongavam e repetiam de cada vez que os ouvi. Eram feitos para mim, a pensar em mim, à minha medida, num nós em que me sentia realmente eu. E era, e as músicas que me escolheram provavam que me viam como sou, como eu sinto. Com aquelas bandas sonoras ou sem elas.
(e andei a escapar o dia todo de coisas como estas e agora de pensar num cd o que me sai, senhores, não há esperança, a estupidez está demasiado entranhada...)
Bom Dia
13 janeiro 2015
12 janeiro 2015
... Exactamente....(entre outras coisas...)
Hoje apetece-me sofá e manta e um chocolate quente...
Não inclui tratar da loiça...ainda se fosse a quatro mãos (de mãos certas, claro)...
Bom, se fosse nada, era a mesma coisa...
... Bom a mesma coisa não era, a não ser para a loiça...
... Que se .........
(foto de Tazio Secchiaroli)
"Existiram sempre em mim pelo menos duas mulheres, uma desesperada e desnorteada, que se sentia a naufragar, e outra que queria apenas trazer beleza, graciosidade e vida às pessoas, e que estava pronta a entrar em cena como no teatro, pronta a ocultar as suas verdadeiras emoções, porque elas eram fraqueza, desamparo, desespero, e apresentar ao mundo apenas um sorriso…”
Anaïs Nin
Apanhado aqui.
[Não, nunca fui assim, não sou duas mulheres, sou uma; ainda que essa uma tenha muitas mulheres diferentes, que sou eu sempre. E sou sempre a mesma. Nem todos as conhecerão a todas, ou a mim quase inteira, nem têm de conhecer, nem merecem conhecer. Talvez por isso possa parecer mulheres diferentes em ocasiões distintas, mas sou uma só. Os comportamentos são respostas às situações e às pessoas, não me ferem a consistência, nem me baralham a existência. Poucas pessoas tiveram acesso ao meu eu completo, ou quase. Acesso ao processador dos comportamentos que geram diferentes perspectivas da mesma mulher. Ao que se chama conhecer por dentro, conhecer os processos mentais e emocionais que nos caracterizam e nos dão as respostas às medidas das situações. Claro que sempre faltará uma parte, há sempre coisas só nossas, ainda que não as escondamos. Mas as pessoas de quem gosto não chegam a conhecer a minha frieza e vontade de distância, não porque queira esconder essa faceta minha, mas porque eles não ma suscitam (e quando a vêem em relação a outros, às vezes, não conseguem esconder a surpresa, o que eu acho alguma piada ao mesmo tempo que me traz a insegurança de não saber até que ponto ficam baralhadas...). Os outros, de quem não gosto, não se baralham, sabem que não me entraram nas simpatias e não disfarço, não tenho porque disfarçar, nem quando gosto, nem quando não gosto. Sou o que sou, gosto de quem gosto, não gosto de quem não gosto.
Isto tudo veio-me à cabeça com este texto, porque no outro dia alguém me dizia, entre interrogação e afirmação: "tu até pareces bem, mas estás mesmo?" e eu respondi, não, na verdade não estou nada bem. Mas eu percebi a pergunta porque já tinha dado por mim a questionar-me sobre que ideia daria eu nos dias que correm. Eu sou tão transparente que quando estou neura, ou chateada, ou irritada, olha-se para mim e vê-se, não há que enganar. Eu não ando assim, nada me chateou, nada aconteceu que me irritasse, nada suscitou uma reacção dessas que me ficam estampadas na expressão, no olhar, não sei onde, mas ficam, e vêem-se. Não, o que eu trago é só uma tristeza subterrânea, uma coisa que a superficialidade dos dias não alcança e que até protege. Uma superficialidade que chego a agradecer como se agradece a sombra num dia tórrido e asfixiante. Posso até rir, posso até fazer rir, posso atirar-me a qualquer coisa com vontade e às vezes pode até parecer ganas, mas não, é só a mecânica dos dias a trabalhar, e eu a fazê-la trabalhar para mim. Assim, a parecer estar bem e efectivamente a não estar mal - a ser o dia-a-dia.
Quando os dias páram, mais ou menos a esta hora, a maré subterrânea começa a subir e a submergir a superficialidade dos dias. É quando surgem todas as perguntas, as mesmas e diferentes; arranja-se sempre mais uma, mais uma estupefacção, ou mais uma estupidez para adoração. Arranjei um saco onde despejo estas coisas da alma, fechado, hermético, mas que às vezes pontapeia por dentro, durante o dia, desavisadamente, a um qualquer sinal que nos submerge num instante para nos roubar um momento que já tivemos, já vivemos, e já perdemos. É uma gravidez sem termo que há anos se nos mexe por dentro, cada vez mais dentro, cada vez mais longa. Fora esses pontapés que nos roubam o que lhes demos, a alma cala-se durante os dias que me fazem mexer sem sair do lugar, para quando abre a noite me fazer parar e o desassossego espernear na alma. O saco abre-se, respira e asfixia-me. Mas agora, aqui, sozinha, ninguém vê e ninguém sabe se estou bem, se estou mal, ou se nem me sinto. Ninguém me sabe, eu sinto.]
[Não, nunca fui assim, não sou duas mulheres, sou uma; ainda que essa uma tenha muitas mulheres diferentes, que sou eu sempre. E sou sempre a mesma. Nem todos as conhecerão a todas, ou a mim quase inteira, nem têm de conhecer, nem merecem conhecer. Talvez por isso possa parecer mulheres diferentes em ocasiões distintas, mas sou uma só. Os comportamentos são respostas às situações e às pessoas, não me ferem a consistência, nem me baralham a existência. Poucas pessoas tiveram acesso ao meu eu completo, ou quase. Acesso ao processador dos comportamentos que geram diferentes perspectivas da mesma mulher. Ao que se chama conhecer por dentro, conhecer os processos mentais e emocionais que nos caracterizam e nos dão as respostas às medidas das situações. Claro que sempre faltará uma parte, há sempre coisas só nossas, ainda que não as escondamos. Mas as pessoas de quem gosto não chegam a conhecer a minha frieza e vontade de distância, não porque queira esconder essa faceta minha, mas porque eles não ma suscitam (e quando a vêem em relação a outros, às vezes, não conseguem esconder a surpresa, o que eu acho alguma piada ao mesmo tempo que me traz a insegurança de não saber até que ponto ficam baralhadas...). Os outros, de quem não gosto, não se baralham, sabem que não me entraram nas simpatias e não disfarço, não tenho porque disfarçar, nem quando gosto, nem quando não gosto. Sou o que sou, gosto de quem gosto, não gosto de quem não gosto.
Isto tudo veio-me à cabeça com este texto, porque no outro dia alguém me dizia, entre interrogação e afirmação: "tu até pareces bem, mas estás mesmo?" e eu respondi, não, na verdade não estou nada bem. Mas eu percebi a pergunta porque já tinha dado por mim a questionar-me sobre que ideia daria eu nos dias que correm. Eu sou tão transparente que quando estou neura, ou chateada, ou irritada, olha-se para mim e vê-se, não há que enganar. Eu não ando assim, nada me chateou, nada aconteceu que me irritasse, nada suscitou uma reacção dessas que me ficam estampadas na expressão, no olhar, não sei onde, mas ficam, e vêem-se. Não, o que eu trago é só uma tristeza subterrânea, uma coisa que a superficialidade dos dias não alcança e que até protege. Uma superficialidade que chego a agradecer como se agradece a sombra num dia tórrido e asfixiante. Posso até rir, posso até fazer rir, posso atirar-me a qualquer coisa com vontade e às vezes pode até parecer ganas, mas não, é só a mecânica dos dias a trabalhar, e eu a fazê-la trabalhar para mim. Assim, a parecer estar bem e efectivamente a não estar mal - a ser o dia-a-dia.
Quando os dias páram, mais ou menos a esta hora, a maré subterrânea começa a subir e a submergir a superficialidade dos dias. É quando surgem todas as perguntas, as mesmas e diferentes; arranja-se sempre mais uma, mais uma estupefacção, ou mais uma estupidez para adoração. Arranjei um saco onde despejo estas coisas da alma, fechado, hermético, mas que às vezes pontapeia por dentro, durante o dia, desavisadamente, a um qualquer sinal que nos submerge num instante para nos roubar um momento que já tivemos, já vivemos, e já perdemos. É uma gravidez sem termo que há anos se nos mexe por dentro, cada vez mais dentro, cada vez mais longa. Fora esses pontapés que nos roubam o que lhes demos, a alma cala-se durante os dias que me fazem mexer sem sair do lugar, para quando abre a noite me fazer parar e o desassossego espernear na alma. O saco abre-se, respira e asfixia-me. Mas agora, aqui, sozinha, ninguém vê e ninguém sabe se estou bem, se estou mal, ou se nem me sinto. Ninguém me sabe, eu sinto.]
A memória será uma mentira?
A memória é apenas a nossa verdade da realidade, que pode não ser verdade.
Agora nada parece verdade.
A memória arquiva-nos a vida que já não é vida; alguma vez terá sido? Assim? No entanto, a memória é o que sabemos, o que aprendemos, o que guardámos, o que somos, quem somos.
A memória arranja-se desarranjando-nos. Engana-se enganando-nos. Mente-nos repetindo-nos a nossa verdade. Mas uma verdade só nossa não será mentira?
Todos me avisaram do engano, eu achava-os enganados.
Agora nada parece verdade, devia ser verdade. O engano. A mentira.
Boa Noite
11 janeiro 2015
(...)
And summoned now to dealWith your invincible defeat,
You live your life as if it’s real,
A Thousand Kisses Deep.
(...)
[De tanto gritar por dentro emudeci a voz pelo avesso; tal o barulho ensurdecedor dos ossos que estalam, da dor que cerra os dentes e não chora, do desespero que incha e não rebenta, que sinto tanto as costuras, que sinto-as mais que a mim, mais que tudo, e todo o alguém que me chega sem chegar perto. Sinto-as tanto, que as sinto à beira de não se sentir mais. De não me costurarem mais, de mais não me manterem junta, já que inteira há tanto que não sou. Há tanto tempo em queda no precipício, a olhá-lo nos olhos de olhos abertos, a vê-lo e ele a ver-me, que não sabemos mais o que fazer um com o outro. Um ao outro. Mas eu continuo a cair, e ele, qual dueto, a afundar-se mais. Como os beijos que trago dentro por abrir. Nenhum de nós acaba. ]
[De tanto gritar por dentro emudeci a voz pelo avesso; tal o barulho ensurdecedor dos ossos que estalam, da dor que cerra os dentes e não chora, do desespero que incha e não rebenta, que sinto tanto as costuras, que sinto-as mais que a mim, mais que tudo, e todo o alguém que me chega sem chegar perto. Sinto-as tanto, que as sinto à beira de não se sentir mais. De não me costurarem mais, de mais não me manterem junta, já que inteira há tanto que não sou. Há tanto tempo em queda no precipício, a olhá-lo nos olhos de olhos abertos, a vê-lo e ele a ver-me, que não sabemos mais o que fazer um com o outro. Um ao outro. Mas eu continuo a cair, e ele, qual dueto, a afundar-se mais. Como os beijos que trago dentro por abrir. Nenhum de nós acaba. ]
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E agora??;,
Música
10 janeiro 2015

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
Manoel de Barros
[...eu também.]
Bom Dia
09 janeiro 2015
[Foto de Rune Hartvigsen]
Às vezes as palavras desaparecem-me, perdem-se de mim, ou eu perco-me a caminho delas.
Às vezes o tempo de repente pára, e eu apercebo-me porque percebo que deixo de respirar, ou melhor, percebo que é preciso respirar. Percebo que há coisas inatas que às vezes têm de ser pensadas, como respirar.
Às vezes as palavras desaparecem-me quando o tempo pára, e eu percebo que parar essa inércia do tempo, que me leva na corrente dos dias, sem um dia que se preze de ser "um dia, aquele dia, aquele sorriso, aquele momento", me faz cair em queda livre para dentro de mim. Faz-me mergulhar no buraco negro em que os dias que correm parados me fizeram. E posso mergulhar sem perigo de me despedaçar de encontro ao chão, nem tanto por nada restar para despedaçar, mas porque ainda não o encontrei. Ou sequer avistei.
Às vezes dou por mim numa tristeza imensa em que me podia afogar, e nessas alturas aprendi a assobiar baixinho para o lado: trocar a tristeza por trabalho, por coisas que me arranjo para respirar sem perceber, livros que me entretêm as letras que me fogem, ou de que quero escapar, quem sabe? Agarro-me, com a réstia de unhas que tenho na espinha, ao que quero de mim, para não me deixar ser o que não sou, nem quero ser. Nunca. Ainda menos agora. Não quero raiva, não quero ódio. Ainda que me acenem cada vez mais a cada anoitecer, a cada amanhecer que fica prometido sem nunca se cumprir um novo dia: um dia, aquele dia, aquele sorriso, o momento em que o dia amanhece, seja qual for a hora. Aquele momento que faz os dias não precisarem de calendário para serem lembrados. Nesse calendário onde havia dias em que eu ainda sentia. Agora não sinto nada, e as palavras fogem-me talvez por isso. Desapareci das palavras e do tempo. Desapareci. Desapareci-me. E não me sinto a falta. Nem eu, nem ninguém.
Às vezes não tenho saudades, não por ter tudo, mas por perceber que não tive nada do tudo a que me dei. Só tive o que dei, nada mais. E disso não tenho saudades, porque é meu, trago-o vestido por dentro da pele que me veste, mesmo quando o tempo pára e me leva as palavras que não quero que me falem de saudades.
Às vezes as coisas têm de ser esquecidas, como ter aprendido que amar é inato e que respirar é preciso. Às vezes.
07 janeiro 2015
"Vamos repetir o estribilho de que a realidade ultrapassa a ficção e, uma vez mais, mencionar as enxaquecas de que sofre o comum dos escritores em busca de enredo que lhe permita escrever o sonhadobestseller e escapar de vez ao martírio de uma inspiração que demora, e as mais vezes nunca chega.
O dia-a-dia, esse não sofre de writer's block, enredos e peripécias tem de sobra. Conte-se então o caso verídico e, pelo que sei, neste momento ainda sem desenlace.
Pai, mãe, duas raparigas ainda nos vinte, boa gente, vivendo nas alturas confortáveis em que os problemas de dinheiro se limitam ao aborrecimento muito relativo das flutuações da Bolsa, já que a base iguala a solidez das pirâmides do Egipto.
O combinado era passarem o Natal no apartamento que têm em Paris, pelo que a mãe e a filha mais nova saíram de Amsterdam na semana anterior. A má sorte fez a sua entrada quando já tinham passado Arras e, sem explicação plausível, o carro se despistou matando a mãe.
A filha escapou com ligeiros ferimentos, mas facilmente se imagina o ambiente em que passaram o Natal.
A 26 de Dezembro a má sorte voltou. A filha mais velha recebeu o resultado do diagnóstico que aguardava: no ponto em que se encontra a doença que lhe constataram terá de ser submetida a uma transplantação de células-tronco. O doador mais indicado é o pai.
Só ele, pobre e desesperado amigo, sabe que dentro em breve, imparável, a má sorte de novo lhes vai bater à porta quando se negar a ser o doador de que a filha precisa, e tiver então de confessar que nenhuma delas lhe pertence, ambas geradas por alguém que desconhece e com quem a mãe o enganou.
O enterro está marcado para de amanhã a oito."
O dia-a-dia, esse não sofre de writer's block, enredos e peripécias tem de sobra. Conte-se então o caso verídico e, pelo que sei, neste momento ainda sem desenlace.
Pai, mãe, duas raparigas ainda nos vinte, boa gente, vivendo nas alturas confortáveis em que os problemas de dinheiro se limitam ao aborrecimento muito relativo das flutuações da Bolsa, já que a base iguala a solidez das pirâmides do Egipto.
O combinado era passarem o Natal no apartamento que têm em Paris, pelo que a mãe e a filha mais nova saíram de Amsterdam na semana anterior. A má sorte fez a sua entrada quando já tinham passado Arras e, sem explicação plausível, o carro se despistou matando a mãe.
A filha escapou com ligeiros ferimentos, mas facilmente se imagina o ambiente em que passaram o Natal.
A 26 de Dezembro a má sorte voltou. A filha mais velha recebeu o resultado do diagnóstico que aguardava: no ponto em que se encontra a doença que lhe constataram terá de ser submetida a uma transplantação de células-tronco. O doador mais indicado é o pai.
Só ele, pobre e desesperado amigo, sabe que dentro em breve, imparável, a má sorte de novo lhes vai bater à porta quando se negar a ser o doador de que a filha precisa, e tiver então de confessar que nenhuma delas lhe pertence, ambas geradas por alguém que desconhece e com quem a mãe o enganou.
O enterro está marcado para de amanhã a oito."
[Às vezes, e tantas ao final do dia, o dia parece acabar connosco mais do que com a luz que o sol leva. Nesses dias parece-nos a vida uma injustiça cega e estúpida (e hoje tanto...). Faz-se tempo não se sabe para quê, porque fazer tempo faz o tempo crescer quando queremos que ele passe sem querer, e nos entretantos da nostalgia, lemos isto seguido às notícias do dia. Concluímos, com amargo de coração, que injustos somos nós e que cego é quem não percebe que há tanto para ver na escuridão do dia que passou. Na dor que ainda não se sentiu. Mas parece que só se sente a dor, e nunca se sente que não dói, como se o contrário do avesso não existisse. Mas existe, ainda que nem sempre seja o direito.]
Era como se a cada passo eu me rasgasse um pouco,
porque a minha pele, tinha ficado presa
naquela mulher
Chico Buarque
porque a minha pele, tinha ficado presa
naquela mulher
Chico Buarque
[... e os passos já foram tantos... a pele é já tão pouca.
Os passos por caminhar tão longe, e apertada a pele, rasgada tão perto. Apertada por dentro, por não a apertarem por fora, com a força do querer, as mãos que de longe se sentem perto. E a distância tem todo o comprimento dum rasgo.]
06 janeiro 2015
“Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face… E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa… mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver… para viver?”
Florbela Espanca
[ quantas vezes já não pensei quase exactamente isto?
com palavras quase exactamente parecidas.
Só não sei exactamente porquê... mas as palavras de Florbela sempre me pareceram raízes minhas. palavras dela que seriam minhas antes de o ser, por serem dela mas falarem de mim. ]
[ quantas vezes já não pensei quase exactamente isto?
com palavras quase exactamente parecidas.
Só não sei exactamente porquê... mas as palavras de Florbela sempre me pareceram raízes minhas. palavras dela que seriam minhas antes de o ser, por serem dela mas falarem de mim. ]
“Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros.
Como te chamas, breu?
Tempo.”
Hilda Hilst
[O tempo vive no passado, só coube tempo no que foi, no que sabemos ter sido. Amanhã não sabemos se há tempo para caber o que ainda não foi. Para a frente a escuridão come-nos o olhar. O depois não se sabe, não se vê, não se adivinha. O futuro não é uma tela em branco, é uma tela em negro. Ausência de luz, ausência de cor. Para se ver branco tem de haver luz, tem de se ver - a escuridão é não ver, não saber. E só sabemos do tempo que foi nosso. Do que foi, do que fomos, do quanto fomos o que somos - do que agora sabemos poder ser.
Amanhã é escuridão, a única luz é a memória. A memória somos nós. Escureçam-me esta luz, apaguem-na, para eu não saber do tempo em que, inteira, me perdi do medo do escuro.
Só depois da luz se teme a escuridão.]
05 janeiro 2015
"O meu olhar te descobre mesmo quando esconde e se refugia nos teus pensamentos.
É quando eu mais te descubro.
Não haverá em ti lugar em que eu não habite.
Trilho pelas tuas pegadas e é em teu interior minha morada."
Mariana Gouveia
[ Sem abrigo, sem morada, sem lugar. Não há refúgio onde escapar do que escapou. Esconder-me do que podia ser. Descobrir o que o meu olhar descobriu. Trilho-me caminhos onde o meu olhar já não se descobre, velado pelos véus apunhalados duma alma que nunca se cobriu. E nunca ninguém viu. E eu habito desabitada.]
Boa Noite
Boa Noite
04 janeiro 2015
«A nossa Vida só faz sentido quando temos a capacidade e a liberdade de fazer o que queremos.
De tomar decisões movidas pela nossa sincera vontade».
António Lobo Antunes
[é verdade que não sei fazer ou viver doutra maneira, tomo as decisões de acordo com a minha vontade, que é o resultado do que sou, do que quero, do que acredito. Cada decisão é um pouco de nós, revela-nos e aos nossos mecanismos de ponderação, do que valorizamos mais e do que não admitimos, filtrado pelos nossos princípios, de acordo com os nossos fins. Agora dizer que assim a vida faz sentido é um exagero. Hoje em dia, para mim, só se for mesmo o sentido contrário.]
Bom dia
03 janeiro 2015
"Não consigo, nunca vou conseguir. A não ser que tenha amnésia, que consiga não me lembrar. Doutra maneira é impossível".
Afinal não há mesmo impossíveis, mas pelos vistos há amnésias sob medida, e esquecer é apenas não se lembrar que se esqueceu. Ou que sequer havia alguma coisa para esquecer. Não havia nada, nunca houve... Só para mim não há medida de amnésia possível. Nunca houve. Mas não há impossíveis, ao que parece. Pode ser que um dia me toque também a mim. Eu que sempre disse que quando se quer não há impossíveis, lá me deram razão. Outra vez.
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Flashes
02 janeiro 2015
"O tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. Apenas persistirá o jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se perdeu contra o meu corpo."
Al Berto
[A sedução nunca termina, não pode terminar. Apenas se altera, amadurece, aperfeiçoa-se, talvez. Torna-se cada vez mais cúmplice, cada vez mais intima, cada vez mais nossa. Com códigos próprios, onde as palavras cada vez dizem menos, e as que se usam não dizem o que se ouve, ou ouve-se o que não dizem. Significados nossos, próprios, quase neologismos feitos à nossa medida, fruto que o mundo fechado de duas pessoas faz nascer. Duas pessoas que fazem um mundo. Ninguém percebe, ninguém entra, e quem o fez apenas sente, sente-se no seu lugar, inteiro, e sem medo. Sente muito, tanto. não, a sedução não termina, como não termina a vontade do outro, e de retornar sempre e tanto a esse mundo em que a morada é o colo do outro, o olhar que se troca, o beijo em que se entregam, os sonhos que partilham e a realidade que dividem, entre risos, brincadeiras, dores e lágrimas. Onde cabe tudo, onde há espaço para tudo para caberem inteiros e transparentes, onde o sentido da vida cabe no enlaçar das mãos, que se encaixam sem se dar por isso. Quase inconsciente, quase magnético, totalmente desejado. Onde não precisa de explicação o abraço que se abraça sem estender os braços, o beijo que se beija num olhar que tem boca, para perto aquecer quem o sente. Os beijos - a língua mais quente e rica para falar de amor com amor. Mesmo em silêncio, tantas vezes sem boca. Antídoto do frio e do desespero. Aquieta e inquieta, baralha e clarifica, recebe-se pleno só se se der inteiro. ]
Ohhh pahh ....
Ohhh pahhh... a minha alma está parva.... não é que o Senhor Pipoco pôs aqui a morada do Tasco ali naquela listinha que aparece do lado direito de quem lhe lê a fineza irónica, ou a ironia fina, vá-se lá saber... mas que é bom, é.
E isso não se discute.
Isto é que é começar o ano com surpresas...
Isto promete... eheheh
Bom Dia
01 janeiro 2015
... E é isto.
Agora temos todo um ano para exercitar o vice-versa,
ou na loucura das loucuras, o oposto disto.
Que era o desejável, pois claro.
Entretanto o primeiro pequeno almoço do ano foi tomado na varanda (com um sol insuspeitado pelas temperaturas polares que ontem à noite me eriçaram a pele e regelaram o nariz), sem nenhuma pompa e toda a circunstância que envolveu pijama, roupão e meias...
E um café com sabor a canela e o cigarro da praxe.
2015... Acho que temos umas contas para acertar... Take your best shot!
(Se tiver tanta pontaria como o meu cupido estou safa...)
Bom Dia.
31 dezembro 2014
30 dezembro 2014
... hoje que todos falam no ano que está a acabar, e que a renovação se espera e deseja, eu vejo esta imagem, e o que sugere é a ideia perfeita que faço do próximo ano.
Eu, que em tão poucas coisas sou supersticiosa, sempre o fui com a passagem de ano, como se a visse como um prenúncio de como o ano vai correr. Se estiver bem, animada, e rodeada das pessoas que me fazem risos e sorrisos, e eu com vontade de futuro fico com a sensação que posso ter esperança, que o ano vai ser uma lufada de ar fresco, e que pelo menos essa sensação nos renova um bocadinho... mesmo que seja apenas uma espécie de jogo mental, uma espécie de mentirinha motivadora inocente, porque o certo é que os dias nascem uns dos outros sem nada que uma data modifique significativamente, mas se nos mudar a nós um bocadinho, pode ser nós mudemos também o que está à nossa volta, o que fazemos, e o que deixamos de fazer.
Este ano parece que nem dou pelo fim do ano, ou melhor, não dou pelo começo de outro, não dou por começos, não dou por nada, não dou nada, tudo me parece meio amorfo e igual, parado, mas no fundo está tudo diferente, e do que se avizinha mudar nada é para melhor.
2015 parece-me apenas um barril de pólvora a brincar com fósforos. E eu a ver.
Veremos.
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E agora??;,
Tonta...
[adoro esta música, talvez tenha sido esta música,
ou os últimos dias do ano, o que fica o que vai, não sei...]
ou os últimos dias do ano, o que fica o que vai, não sei...]
O caminho é o mesmo... faz-se todos os dias mas nenhum dia é o mesmo.
Hoje não sei porquê, talvez uma parte do caminho, as cores que se assemelharam, qualquer coisa, que não sei o quê, me levou para àquele dia. Fazia este mesmo caminho, cheia de medo e feliz. Tão feliz quanto o medo me deixava, me prendia nas garras que se sentem quando nos sentimos grandes e leves, mas não seguros. Era talvez medo da felicidade que sentia e não queria sentir, por medo. E disse-o - pela primeira vez assumi abertamente a alguém que estava com medo -, não um medo vago, medo de acreditar na pessoa, medo dele e de tudo aquilo: do que me dizia, da certeza que aparentava, do discurso todo diferente, mas seria diferente?...e nem sei o que sinto quando percebo o que fizeram com isso, como pegaram nesse medo, o multiplicaram, o enraizaram em mim, o semearam para sempre (será para sempre ou parece só que é para sempre??), medo das pessoas, de acreditar, de me entregar às pessoas, ao Amor, à esperança na felicidade. Mataram-me o medo, substituíram-no pela certeza de não esperar, não acreditar, de ver mentira onde se devia confiar no sentir, no querer, no abraço que me deram, no meio do nada, dum sítio perto de coisa nenhuma, mas perto um do outro. Onde me disse que se sentiu em casa quando me abraçou, o abraço como um lar que acolhe com doçura, onde disse que teve a certeza, onde concluiu dizendo que não conseguia estar sem mim, que tinha saudades, que queria ficar comigo... onde me perguntou se eu tinha saudades e se o queria, e brincámos por eu não querer responder, porque fiquei tantas vezes sem resposta a tanta coisa que também ele teria de saber o que era trocar uma pergunta, o querer saber, por silêncio. Por incerteza, por insegurança, por medo de não saber do outro. E falámos de férias e de viver junto, de ele querer um futuro, porque sem mim não conseguia. Sem mim nada fazia sentido. E hoje o caminho fez-se, sem sentido, na confusão de sentidos e sentimentos sentidos que não se desembrulha de mim, dos dias que passam, do caminho igual todos os dias, da música que se percebe que se ouve no meio de tudo isto, de todas as imagens e sons que hoje o caminho me trouxe, tendo-me deixado no meio do nada com os carros parados, há meses atrás, num abraço que foi uma casa que alguém quis muito para abandonar. No meio do nada, com nada.
Chego ao destino e penso no destino de me teres esquecido e de eu por momentos me ter esquecido de te esquecer. Por momentos. Amanhã o caminho será o mesmo, mas será diferente. Não o teu destino, mas o meu.
Chego ao destino e penso no destino de me teres esquecido e de eu por momentos me ter esquecido de te esquecer. Por momentos. Amanhã o caminho será o mesmo, mas será diferente. Não o teu destino, mas o meu.
Bom Dia
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Bom Dia,
Música
29 dezembro 2014
"Encontrei isto num livro: os rios arrastam com eles a imagem das cidades que atravessam.
Amo-te,
Mário."
Al Berto, "Os Jardins do Paraíso"
[tem piada saber que alguém ficou desde ontem a pensar nesta frase porque antes de lhe oferecer o livro pedi que lesse dois ou três paragrafos, e parou nesta frase... A dizer "esta frase tem qualquer coisa..." E eu perguntei-lhe de jacto "e o que achas que ela quer dizer?"
Porque me lembrei que me disse que faço poesia com o meu dia-a-dia nas minhas descrições rápidas impensadas, e que lhe ensinei a ler poesia, a sentir o além palavras que as palavras dizem sem dizer, que está na poesia. Que é a poesia. Sentir mais que perceber.
Oferecer um livro dum autor que gosto, cuja escrita transpira poesia, mesmo que prosa, e a pergunta, reguila quase em desafio, para ver se tinha aprendido realmente. E ri-me, e não respondeu. Hoje, há pouco, disse-me que a frase não lhe saiu da cabeça. E não descansou enquanto não respondi à minha própria pergunta, que recebeu de cara estampada de quase espanto... Acrescentando, fartei-me de pensar e tinha muitas hipóteses de interpretação naquele contexto, nenhuma era essa, mas bolas tens razão. Acabo sempre a dar-te razão. E eu ri-me. Pensei em todas as vezes que não quis ter razão e ma deram, ou a vida acabou por ma estampar na cara. E eu sabendo-o era como se nunca o esperasse, sabendo estar sempre à espera.
A vida tem uma ironia fina a que sempre tiro o chapéu. E o sorriso.]
Boa Noite
28 dezembro 2014
Meiga e viva, sim.
Magoo- me e cicatrizo.
Assim espero.
Há coisas boas, a vida - quando se sente nas veias e a dar trabalho ao coração -, é uma delas.
Assim seja, e continue assim.
Com o dia a entrar-me pelas janelas agora e o dia a invadir-me a retina, quente e quase sorridente, vou fechar os olhos e esperar que amanhã seja pelo menos tão bom como hoje. Chorei e ri.
É bom poder ser eu até aos ossos e não ter medo disso.
Medo que cedam, que mos partam ou torçam.
É bom. Ser eu. Só.
Há coisas boas. Ainda.
Boa noite
27 dezembro 2014
"Não procuro vantagem nem me interessa
tirar qualquer benefício
de te amar.
Apenas busco um ombro onde a cabeça
retome o exercício
de acreditar.
E não desejo outro ofício
em que me ocupar."
Torquato da Luz
[... "o exercício de acreditar"... Será um exercício, uma vocação, um defeito ou uma virtude?
Era bom que fosse um exercício, uma prática, que se pudesse desenvolver, ou até partilhar, mas como tantas coisas, parece-me que não se exercita, nao se procura, não se força, ou não funciona. Ou se acredita ou não, sem razão aparente ou fundamentada, é uma questão de fé. Fé no coração do ombro que a nossa cabeça quer. Sem razão aparente ou fundamentada.]
Boa Noite
26 dezembro 2014
"O Destino, esse nome que por vezes damos às coisas aleatórias, diz o que nos acontece, não nos diz como reagir. A nossa vida é tão fruto do destino como da vontade, cada um deles agindo de forma distinta sobre coisas diferentes, às vezes sobre as mesmas coisas, em momentos diferentes.
É também do destino e do acaso que falo de cada vez que digo que há coisas que não se procuram, só se encontram. E o amor é uma dessas, talvez a principal. Por mais que o procuremos em toda a parte, é ele que nos encontra, por vezes sem sabermos como, por uma série de coincidências impossível de provocar. Mas a sobrevivência das coisas, aleatórias ou predestinadas, não nasce do acaso, mas da capacidade de se adaptar ao mundo, à vida, à realidade, a nós. E isso não o torna, de uma forma ou de outra, menos mágico, menos belo, menos feliz, nem menos importante.
Maktub só se escreve no passado. Só no passado conseguimos encontrar os pontos que, unidos, nos trazem, por vezes sem saber como, ao lugar em que estamos. E sim, acredito, e é possível, que o que nos uniu seja o destino. Mas o que nos vai fazer ficar juntos é a vontade."
Pela mão do Menino
[alguém me dizia há uns dias que era o karma. O meu karma, esta coisa de passar assim pelas coisas, por andar há tempos com a vida a cair-me ao chão aos bocadinhos, a escorrer-me aos soluços pela pele, de dentro para fora, a evaporar-se entre um dia e outro. É karma, dizem-me, esta coisa de andar assim há tanto tempo, que o universo equilibra tudo e terei feito mal a alguém para andar a penar assim... e eu fiquei a pensar, juro que fiquei, aliás como fico quando normalmente me dizem algo que não entendo, que não me encaixa, ainda mais se vindo de alguém que considero, que oiço. E fiquei-me a pensar, a moer, e não entendo. Não entendo que se for suposto um equilíbrio, o meu karma seja este, partindo do pressuposto agradável - quase doce e prazeroso -, de que o mundo é justo e as energias se equilibram, o bem e o mal, o que eu duvido e cada vez mais, e quase sempre que olho à minha volta. A ideia encanta-me, porque pela amostra, o que estaria por vir seria muito bom, tenho uns créditos acumulados... bastantes, mesmo. Porque realmente posso ter feito sofrer alguém, sim, mas só tenho consciência de ter magoado uma pessoa, e não com esse propósito ou intenção, não faço nada para prejudicar ou magoar ninguém conscientemente, mas há vezes em que as nossas acções poderão magoar e não havendo alternativa melhor, têm de ser feitas sob pena de todos ficarmos pior. E tenho a certeza, e a plena consciência, de que essa pessoa agora está muito melhor, melhor duma maneira que não poderia estar comigo, porque eu não era a pessoa certa para aquela vida. Eu já não estava bem onde estava, não estava feliz, e não estando feliz não poderia fazer ninguém feliz. Insistir nisso só faria toda a gente mais infeliz durante mais tempo. Sofreu, talvez, mas eu também sofri para chegar ao ponto de saber que ali já não estava bem, já não era feliz, sentia-me vazia e fora de mim, calçada nuns sapatos que não me cabiam. Já tinha sofrido demasiada desilusão, já me tentara moldar demais, já tinha dado tudo o que tinha, e nunca nada parecia chegar, até que encolhi os ombros e deixei de tentar, abri os olhos e vi que já não estava ali, já não era eu, nem nada do que queria para mim. Sofri, sofri até chegar a esse ponto e sofri muito depois também, mas, ou talvez por isso mesmo, virei a vida - toda, mesmo toda, e em todos os quadrantes - do avesso, e hoje sei que não estou feliz, mas não estou amarrada a uma infelicidade que me sufoca e prende os sorrisos onde deviam nascer. Não estou feliz, mas estou livre para a poder encontrar em qualquer esquina, a qualquer momento desavisado, porque estou despojada daquelas grilhetas que prendem mesmo quando já nada nos faz sentir presos: os afectos, o gostar, o querer, o ansiar estar junto. Só isso prende alguém, o resto são armas de fazer reféns, opressoras de vida se o permitirmos. Mas temos escolha, por isso escolhemos, por isso escolhi. Houve sofrimentos de parte a parte, acho que se o karma é essa coisa do equilíbrio, nós os dois devemos estar quites, por isso... lá está, não entendo. Porque se entretanto mais alguém sofreu não foi culpa minha, não foi nada do que possa ter feito, porque não fiz nada, fui vivendo a minha vida sem ter de dar satisfações a ninguém - sem grilhetas nem justificações-, e sendo assim não se pode magoar ninguém. Nós só podemos ser magoados realmente por quem nos está perto, por isso esta coisa de magoar os outros por dentro, com a vida, os (des)afectos, as palavras e as atitudes, é comparada sempre a guerras corpo a corpo, para se apunhalar é preciso estar ao alcance da mão. É preciso estar perto para magoar por dentro da pele, onde se chora baixinho, berrando a todo o coração. Se alguém magoou alguém não fui eu, mas a mim magoaram-me bastante, e eu deixei porque me mantive perto, ao alcance da mão que magoa por dentro enquanto esvazia os sonhos e os bolsos do amor. Tive a minha culpa, que assumo, na minha mágoa, aliás só me culpo mesmo a mim e à minha estupidez por ter sido magoada tanto tempo, a mais ninguém... mas agora onde está o equilíbrio? quem mais, e mais gente, fez sofrer é quem melhor está. E ainda bem, não lhe quero mal, só não percebo porque raio este mecanismo, esta coisa do karma, só comigo, e com quem me está perto, é que acha que ainda tem de fazer penar mais e mais... para equilibrar o quê? o quê senhores??????....
....Karma, a sério, deslarga-me pahhh... estou farta, sim? irraaa!!... não há pachorra!! ou então, sei lá, na loucura, muda de flanco e começa a dar coisas boas... ]
"podes levar os dias que trouxeste
os pássaros soterraram agosto
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue
podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois
daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido
não, é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites
as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca
podes levar os dias que trouxeste"
Pedro Sena-Lino
e sem lugar um homem cega pela janela
o mar que jura ter tocado com o sangue
podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois
daqui onde o grito surdo incendeia
a refutação da madrugada
donde o crânio esmaga o coração
um homem corta pela janela
a própria certeza de ter sido
não, é tarde demais para uma manhã
que foi a enterrar em tantas noites
as escadas morreram de sede
a terra caiu em nunca
podes levar os dias que trouxeste"
Pedro Sena-Lino
[... "Nunca foi tão tarde ser depois", tarde até para levares o que for, nada do que pudesses levar me parece teu, e tu nunca trouxeste nada. hoje - particularmente hoje, amanhã não sei - parece-me que nunca trouxeste nada, apenas vieste buscar tudo o que tinha, tudo o que tinha de melhor, tudo o que tinha meu de teu, talvez. Levaste tudo, não me restaste nada, não me trouxeste nada, apenas, qual sanguessuga, vieste à procura do que precisavas, do que querias, e nunca fui eu, mas a vida que me corria nas veias, o brilho que iluminava o olhar de quem ama. Era sempre a tua sobrevivência, o teu equilíbrio, as tuas faltas, as tuas sedes, as tuas fomes. O que levaste foi-se daqui e nem tu o guardas, esfumou-se. Já desapareceu no sorriso que agora sorris e trocas por dias-a-dias, nas mãos que dás, nos abraços que apertas, e trocas por amnésias de noite, ou insônias a toda hora, não sei. Não quero saber, hoje não quero saber nada. Só sei que podias levar os dias que trouxeste, se não os tivesses enterrado antes de nascerem, levaste dias que eu pensava que trazias, tiraste noites que eu pensava que me davas, esgotaste-me as perguntas sem resposta, e nunca me perguntaste nada, não trouxeste nada, não quiseste nada, deixaste ficar tudo, foi sempre tudo meu. Nada teu. ]
Boa Noite
25 dezembro 2014
"gostos de filmes que são espelho. daqueles em que me vejo no ecrã. daqueles filmes que nos fazem pensar na nossa vida, em que passamos mais tempo dentro das personagens, do que apenas a olhar a história. no ultimo que vi, mr jarvis cocker sai-se com uma observação filosófica: 'a vida é igual para todos, o que nos distingue é a dose de imaginação que cada um põe nela'. tão simples. e é para isso que servem os filmes, quase uma forma de nos vermos nas palavras dos outros, na forma de viver de outros. e, se pensar um pouco, se calhar é assim que faço nos dias: ando sempre por perto dos espelhos em que gosto de me ver. é um bom conceito.
com o que vemos no reflexo das pessoas, definimo-nos, não pelo que queremos ser, mas pelo que somos de verdade. não pela intenção, mas pelo resultado dessa coisa tão delicada que se chama intimidade. são mais tristes as pessoas que não têm espelhos. ou que os evitam porque não se querem ver. ou pior, porque não gostam de se ver. porque custa confiar no vidro. é frágil. e às vezes os espelhos partem, e por mais que se cole, que se remende, fica lá sempre aquele risco, feito cicatriz, a cortar a imagem limpa. faz parte do jogo. aliás, é aqui que entendo que muito do que somos, devemos aos outros. porque há pessoas que me fazem mais - mais divertido, mais leve, mais homem. há pessoas que me tornam um ser melhor, apenas pela forma como me entendem, me percebem, pela forma como tornam fácil partilhar essa intimidade. são espelhos em que nos fazemos bonitos. deve ser por isso, que gosto tanto de te dizer: 'és tu, quem me faz mais inteiro..'
mas, o que vibro mesmo, é ser o espelho das pessoas que gosto. saber que em mim sorriem, choram, descobrem, emocionam-se, excitam-se, amam. vivem. quase vício, é um privilégio sermos o reflexo de alguém. quase emoção, é ver alguém a ganhar expressão por nós, a ter aquele briho nos olhos quando nos vê, a soltar aquele sorriso tonto, feito berro, quando dizemos uma tolice. a escorrer uma lágrima por nossa causa, daquelas boas, quando se sabe que não se pode ser mais feliz, do que ali, naquele momento. mas curioso, nos espelhos "humanos" não vemos o nossa imagem reflexo. pelo contrário, vemos apenas o que a nossa presença provoca nos outros. é menos narcísico e muito mais doce. porque é isso amar: é projectar no outro todo o bem que lhe queremos. e sermos realizados assim. "em ti, faço-me feliz!" - deve ser a frase mais bonita, não de se dizer a alguém, mas de se sentir em alguém.."
[... E se nos rodearmos de pessoas que não são o nosso espelho? Onde não nos vemos? Onde não nos sentimos? Começaremos o tornar-nos espelhos do que nos rodeia? Dos que nos rodeiam? Para que a imagem que vemos reflectida se torne real? Ainda que não realmente nós?
Penso que isto me aconteceu durante muito tempo, tentar ser o que me viam, ou queriam ver. Corresponder ao que deveria ser o meu espelho sem o ser, tornar-me uma imagem de mim que não me abarcava, pelo menos não o todo que sou, que posso ser. Ainda que quisesse ser como queriam que eu fosse, porque me faziam crer, ou eu pensava, que aquele reflexo era o melhor de mim, mas o melhor de mim tem partes que me queriam abafar, ou então, asfixiavam-no, mesmo sem querer. Não sei, sei que continuamos o processo para não desiludir, para não partir o (suposto) espelho, porque parece mais seguro sermos quem esperam que sejamos. E evitamos o olhar de desilusão de não sermos o que esperavam, o medo de sermos piores, de nos acharem piores, sem perceber que diferente do que esperam pode não ser pior, apenas diferente, mas verdadeiro porque mais inteiro, mais nós. E que aquele não é o nosso espelho, enganaram-se, enganámo-nos nós também se o pensámos ser. E um dia abrimos brechas, ficamos riscados, partidos, sentimo-nos aprisionados nesse espelho que não é nosso afinal, no entanto, a quem nos vê, parecemos intactos, mas por dentro, em nós, percebemos que é o espelho intacto em que nos têm que nos faz partir, prender, perder partes de nós que precisamos, abdicando da inteireza do ser. Normalmente é quando nos deparamos com um espelho que de facto nos vê, nos vê inteiros, e de repente podemos ser felizes assim: inteiros e nós, com espelhos à volta que nos vêem, que nos querem ver, e que nos fazem mais e melhor.
Hoje, e desde que voltei a escrever, penso que me rodeio muito mais dos espelhos que me reflectem, e espero que vejam o mesmo em mim, que os faça verem-se a si mesmos no melhor que têm e são, e que é também por isso que os mantenho perto. Porque essa intimidade mo pede e mo permite. Porque me vêem como sou, como quero ser, e ficam. Os que ficam. ]
24 dezembro 2014
Fumar um cigarro à janela, a ver as antigas árvores novamente despidas. Despedem-se todos os anos das folhas que deixam de ser novas, e que todos os anos nascem novas embora diferentes, e sempre na mesma as perdem. E eu aqui, a fumar outro cigarro como há muitos anos atrás, na mesma janela mas com um copo de vinho a acompanhar o cigarro de refúgio na solidão apetecida. Acaba-se o cigarro com as árvores um pouco mais despidas e o copo um pouco mais vazio. Tudo o resto na mesma. Ou quase.
Bom Natal a todos.
Que o partilhem com quem gostam e querem, com saúde e boas gargalhadas.
Que aproveitem tudo à que têm direito.
E pronto, o meu espírito natalício não dá para mais que isto. Estou falida de palavras e sentimentos bons, espero que aqueles a que eu teria direito, e não chegaram cá, ou eu os perdi, ou pronto, desapareceram-me, tenham ido para alguém que os mereça e os aproveite.
Bom dia, Feliz Natal.
23 dezembro 2014
Uma pessoa tenta, tenta acreditar naquela coisa do pensa positivo, do bom atrai o bom, aquilo a que eu chamo treta de optimistas, o não querer ver a realidade e substitui-la por uma coisa mais bonitinha e menos amarga, e quando tenta fazer isso percebe que era melhor, muito melhor, a racionalidade dos pessimistas, em que se espera o pior, preparamo-nos para o pior, e talvez a vida não nos consiga arranjar pior que isso, e então lidamos com o que contamos, se tivermos um bocadinho de sorte, com melhor do que o que contávamos. São menos desilusões, menos baldes de realidade amarga pela goela abaixo. Mas eu caí nesse erro, de esperar o melhor, de achar que a vida me daria uma trégua, que me deixaria respirar e restabelecer, que me deixaria voltar a abrir um sorriso sentido antes de me pôr a chorar outra vez, antes de me fazer desabar de novo. E no meio de lágrimas, choradas e por chorar, vem-me à ideia uma frase, completamente fora de contexto, completamente fora do tema que as lágrimas choram, mas de longe a frase sussurra-me perto "se é para tentar tudo, tem de ser tudo, tenho de fazer tudo." É então que percebo que a vida não é só cruel e péssima de timings, é abusadora e de mau carácter, trai e pisa quem já está no chão, lembra-nos o que queremos esquecer em alturas que só nos apetece fugir. Fugir do sítio para onde vou agora, tenho de ir, é minha obrigação. E só queria um peito onde encostar a cabeça, e uma cabeça para encostar ao meu peito, e esquecer-me que existe vida, cruel, amarga ou o que for, esquecer apenas. Como quem deixa de existir.
“Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. (…) Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. (…) Pretendia apenas lhe contar o meu novo carácter, ou falta de carácter. (…) Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu… em que pese a dura comparação… Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. (…) Uma amiga, um dia desses, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou essa calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinquenta anos. (…) o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.”
Clarice Lispector | Carta a Tânia - Irmã de Clarice - 1947
[... O nó vital, aquele que não deslaça e enlaça o ser. Não se desfaz às circunstâncias, não se faz pelos outros nem nos outros, prende-nos ao que somos, não nos permite desistirmos de nós mesmos. Depois de nos encontrarmos, de olhos abertos nos vermos, nos sabermos, nada fica como dantes, e o nó aperta ainda mais o nós à consciência do que somos e do que queremos. Descobrimos o nó que nos faz nós. E mais nos prende quanto mais se aprende (de nós). ]
Boa noite
[... O nó vital, aquele que não deslaça e enlaça o ser. Não se desfaz às circunstâncias, não se faz pelos outros nem nos outros, prende-nos ao que somos, não nos permite desistirmos de nós mesmos. Depois de nos encontrarmos, de olhos abertos nos vermos, nos sabermos, nada fica como dantes, e o nó aperta ainda mais o nós à consciência do que somos e do que queremos. Descobrimos o nó que nos faz nós. E mais nos prende quanto mais se aprende (de nós). ]
Boa noite
22 dezembro 2014
"A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável."
Eugénio de Andrade, in Rosto Precário
[bem a propósito da solidão, como eu a vejo. Há dias em que não é bem assim, mas mesmo nessas alturas, a companhia que se deseja é sempre da pessoa que se deseja, que se quer perto, de quem ansiamos estar junto, e não encobri-la com uma companhia que apenas faz número e gasta as horas... a parte de gastar as horas é sempre assim: insuportável...]
Bom Dia
21 dezembro 2014
"-Hoje até fiz a barba..
- Ahh estou a ver, vai sair, é?
- Fiz para si, sua parva!"
(as memórias são tramadas e traiçoeiras, sem noção de tempo, de lugar ou de conveniência... Coisas boas, coisas boas que fazem sorrir com um travo amargo. )
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