Eva me chamaste

Fizeste das minhas costas o teu piano

Dos teus desenhos as minhas curvas

Da minha boca a tua maçã

Dos meus olhos o teu mar

Do meu mundo os teus braços


(...)

23 dezembro 2014



“Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. (…) Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. (…) Pretendia apenas lhe contar o meu novo carácter, ou falta de carácter. (…) Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu… em que pese a dura comparação… Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. (…) Uma amiga, um dia desses, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou essa calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinquenta anos. (…) o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.”

Clarice Lispector | Carta a Tânia - Irmã de Clarice - 1947

[... O nó vital, aquele que não deslaça e enlaça o ser. Não se desfaz às circunstâncias, não se faz pelos outros nem nos outros, prende-nos ao que somos, não nos permite desistirmos de nós mesmos. Depois de nos encontrarmos, de olhos abertos nos vermos, nos sabermos, nada fica como dantes, e o nó aperta ainda mais o nós à consciência do que somos e do que queremos. Descobrimos o nó que nos faz nós. E mais nos prende quanto mais se aprende (de nós). ]

Boa noite

22 dezembro 2014



"A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável."

Eugénio de Andrade, in Rosto Precário

[bem a propósito da solidão, como eu a vejo. Há dias em que não é bem assim, mas mesmo nessas alturas, a companhia que se deseja é sempre da pessoa que se deseja, que se quer perto, de quem ansiamos estar junto, e não encobri-la com uma companhia que apenas faz número e gasta as horas... a parte de gastar as horas é sempre assim: insuportável...]

Bom Dia

21 dezembro 2014

"-Hoje até fiz a barba..
- Ahh estou a ver, vai sair, é?
- Fiz para si, sua parva!"

(as memórias são tramadas e traiçoeiras, sem noção de tempo, de lugar ou de conveniência... Coisas boas, coisas boas que fazem sorrir com um travo amargo. )
.... Pois....
(Não sei quem é está moça, mas tem umas frases giras sim senhora eheheh)

Bom dia 
(...hoje está tanta luz porquê? Que falta de timing pahh...)

20 dezembro 2014


Uma pessoa fica na ronha até esta hora e agora percebe que o sol na varanda está bom, que o frio aqui também não se sente. E continua-se uma espécie de ronha no cadeirão da varanda, de pijama e roupão, e os olhos piscos da luz. E a vontade de mundo: a mesma: nenhuma. 
Mas daqui a nada terá de ser, por enquanto aproveita-se. Como tudo na vida, quando se pode aproveita-se.

Bom Dia!

19 dezembro 2014

Amén.

(Se bem que, na verdade, eu acho que é melhor para selar as pazes, ou para cerimónia inaugural de conversações... pazes, pazes, é a conversar sem ser uma conversa só de pele, que também é conversa - e da boa -, mas em que o único argumento é a vontade do outro e de estar bem; se nas outras conversas houver o mesmo, as pazes fazem-se bem...)

Bom Dia!

Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
parámos ambos como se parasse o tempo

Pedro Barroso

[...e parou.
E agora quem o põe a andar?
Quem mata o tigre?]

Boa noite

18 dezembro 2014


"Cala-te, a luz arde entre os lábios,

e o amor não contempla, sempre

o amor procura, tacteia no escuro,

essa perna é tua?, esse braço?,

subo por ti de ramo em ramo,

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme,

nunca o amor foi fácil, nunca,

também a terra morre."


Eugenio de Andrade

[..só não acho que o amor não seja fácil. Não há nada mais fácil que o amor, sente-se e pronto, não se faz nada para sentir, nem sequer pode haver esforço nisso, é e pronto. O amor é fácil, a relação é que pode  não ser; e não raramente a nossa própria relação com o amor, e com o que sentimos, não é pacífica, principalmente quando o tentamos contrariar, quando nos tentamos contrariar... porque se o que sentimos não se controla, tentar contrariar é só frustrarmo-nos... e isso é que nunca é fácil... ]
Pois sim...
mas espero que não seja aquele género de olhar 
e desejar que eu desapareça... assim por magia, sei lá...
Se for isso, nunca tive, mas também é uma ignorância que aprecio... e espero manter.
Se for da outra magia, da que dá estrelinhas no estômago, ou no olhar, ou onde quiserem (cada um com as suas estrelinhas, né?), dessa também nunca tive, mas nessa ignorância não quero morrer... aceitam-se candidaturas, portanto... mas não de ilusionistas, ok?

Bom Dia!

[devia haver uma etiqueta de "como estragar boas frases..." esta era etiquetada de certeza...]


Não tenho tudo, mas não me falta tudo. 
Não tenho tudo o que quero, mas quero tudo o que tenho*.
Daquilo que a vida nos deixa escolher querer ou não querer, de tudo o que não queria livrei-me. Fui deixando pelo caminho, abri a mão deixando cair, ou atirei. O que fica não é tudo o que quero, mas sei que quero o que tenho, e isso, vendo bem, já é alguma coisa, e não é tão pouco como isso. 
Nem toda a gente o pode dizer. 

(* não sei de quem é a frase, não é minha, li-a nalgum sítio e ficou-me, e hoje percebi que a sinto - que hoje senti isto -, e que isso dá uma tranquilidade doce. Como a noção de se ter feito tudo o que estava ao nosso alcance para caminhar para o horizonte que queremos. Que vamos querendo, que acompanha o caminho e o nosso olhar. Não cheguei lá, mas o que guardei, de tudo o que fui recolhendo ao longo do caminho, sinto meu, é meu, e quero-o.)

Boa noite.

17 dezembro 2014


... Lambuzo-me, sim, sempre que puder, e se o caso der até lambo os dedos. E o acaso que me lambuze.
E os acasos, esses grandes malucos, que me dupliquem os dedos para lamber, façam meus mais dedos e façam os meus de mais alguém. Os acasos fazem as vidas encaixar para nos lambuzarmos, se soubermos.

Bom dia!
E há momentos de que se tem saudades, momentos que se recordam com precisão de relógio, como quem esperava a meia-noite para para um beijo sem tempo e umas palavras desfeitas em sorrisos. Momentos em que se lembram os gestos exactos, as palavras no sítio certo dos silêncios, os silêncios correctamente aquecidos na paz do estar, de estar bem. E lembrarmo-nos como se fosse agora, aqui, como foi, como é? Será?... Há momentos em que as saudades são de momentos precisos, no resto do tempo tem-se saudades de tudo. No resto é sempre. E é tudo.

Boa noite

16 dezembro 2014

... e eu que ainda não montei a árvore de Natal este ano....
acho que podia ponderar montar esta, mas dispenso as luzinhas, 
ainda fundem, sei lá...
eheheheheh
Bom Dia!!

(agradecida à B pela ideia ;) ... é bom saber que me rodeio de pessoas tão tontas como eu, sempre rimos juntas, enquanto as árvores não aparecem... )

Há vezes, como hoje, em que uma pessoa sente tanto algumas coisas que parece sentir as paredes da alma arranhadas por um grito mudo a rasgar um momento desavisado, que se prolonga nas garras da memória pelo dia adentro. Como hoje. Sente-se tanto que dá a sensação de que não o estamos a sentir sozinhos, como se parte daquilo não fosse nosso mas chegasse a nós a sentir, como  se do outro lado do grito houvesse outra boca faminta, outra alma que rasga. Sente-se tanto que parece que sentimos por nós e por quem não sente, mas sentimos como se sentissem. É uma coisa que abalroa de dentro, que não se trava, mas que nos cristaliza. Quando ao fim do dia se expõe tudo à luz que o dia engoliu, percebe-se que a sensação é uma realidade inventada, que a sensação é só um engano. Um engano, que de tão sentido, se enganou anos a fio à procura da outra ponta do fio, onde o engano se desenganava e a realidade não se inventava. Vivia-se, a par, num grito de sentir tanto. Tanto engano, afinal.

Boa Noite

15 dezembro 2014

[...pelo menos.]

"O fato é que muita gente já morreu alguma vez e nunca desconfiou disso. Inclusive você, não obstante eu. Porque a gente morre quando levanta da cama e já corre para olhar o celular. Morre de monotonia, de inércia, de marasmo, de falta de sonhos e de sonhos não realizados. A gente morre de medo de por o dedo em riste na cara do próprio medo e de pegar a coragem e seguir caminhando.

Morremos de medo de trocar hábitos, de mudar de ideias, convicções, de ver as coisas por outra perspectiva e damos um repeat automático nos comportamentos viciados e ranzinzas. Morremos de medo de olhar para o espelho da consciência e encarar os olhos nada atrativos das verdades de nossa alma, pois os reflexos geralmente são indigestos e desagradáveis. Morremos de medo de colocar em pratos limpos as mazelas de uma relação corroída, mas sustentada, apesar do visível desgaste, devido à insistência do amor que já não é mais o mesmo, mas que poderia voltar a ser ainda melhor se fossemos viscerais e honestos com nós mesmo e com o outro. Morremos na reincidência infinita de conhecidos ranços e defeitos, dos outros, e nossos. Morremos quando não somos coerentes com o que sentimos.
(...)
Na verdade, vivemos cercados de óbitos commoditizados, sem cara nem desejos. E não sabemos de que forma sair de tão grande e paraplégica falta de competência de atitudes. Morremos de frio na alma e de falta de verdades. De amor encoberto e não depurado pela falta de coragem e por excesso de orgulho. De afeto endurecido e estancado. De gentileza não manifestada numa fala que deveria ser doce. Morremos de egoísmo e de falta de sensibilidade. Morremos de silêncios e escapismos. (...) Morre também quem permite que a paixão morra no sexo e que faz amor fingindo prazer, como quem come um mil folhas com o nariz completamente entupido. (...) Urgente! É preciso ter coragem e força de personalidade para olhar para dentro de si e, identificar essas pequenas mortes diárias. Fazer delas o combustível para catarses existenciais que melhorem cada um como ser humano. Que nos possibilite ver e ter uma vida com mais honestidade, ética, sensibilidade, poesia, densidade e amor".


[...é preciso tão pouco para ganhar o dia... e tão pouco para perdê-lo. Basta um olhar para ganhá-lo, ou perdê-lo.]

...deve ser o que estou a precisar...
...sinto a cabeça vazia (sim, é normal, já sei...) 
e à roda ( e não, não bebi nada com álcool, se bem que a ideia é tentadora, muito tentadora...)...
É certo que só fui almoçar, vulgo um folhado e um sumo (sim, sim, foi mesmo sumo)  às três e meia da tarde,
mas não sei se o problema será esse...
O meu único pedido é que se cair para o lado me arranjam um mocinho jeitoso, alto e espadaúdo que me leve a casa e me deposite no leito. Qualquer coisa menos que isso, não quero, e recuso-me a cair para o lado... enquanto puder, pelo menos.
A única vez que caí para o lado, acordar foi uma sensação muito boa, não me importava nada de repetir... mas nem vale a pena pensar nesse acordar, vou pensar é em ir emborcar um café, e ver se a cabeça deixa de rodar, irra!!

(isto anda tudo um bocado maluco, mas pronto, é o que se arranja por aqui, estou farta de tudo, mesmo. Há que animar as hostes, e ainda não é hora de beber uns copos, por isso, só com parvoeiras mesmo... e uma cabeça à roda...)

eheheheheh
... é uma maneira de ver as coisas!!
torna o cônjuge/respectivo uma espécie de meia de lã que aquece os pés...
...e hoje isto está demais de frio!!
está, está!!
...dava jeito assim uma meia quentinha... dava, dava

Bom Dia



"Entender e aceitar todas as dores da existência dá muito trabalho. Pensar resulta em incertezas, falta de respostas e consequentemente em angústias. Quem sofre com tudo isso é a psique, que de tão atormentada, pode posteriormente afetar o comportamento e a personalidade. Nietzsche diz enxergar a vida de forma tão profunda que se sente completamente sozinho. Com quem ele discutiria suas questões provenientes de uma visão tão reflexiva sobre a vida? Quem não tem esse mesmo nível de profundidade também não tem capacidade de viver com pessoas como Nietzsche.(...)
Tendo em vista pessoas pensantes como Nietzsche, é possível fazer uma relação com a sociedade pós-moderna, permeada por indivíduos que tem extrema dificuldade de ficarem completamente sozinhos. Hoje, com o avanço tecnológico, as pessoas tem o costume de estarem 24h por dia conectadas e em momentos em que seria essencial a solidão para reflexão, rapidamente recorrem a um aparato tecnológico, uma mensagem a um amigo ou uma foto que consiga likes o suficiente com o objetivo de suprir essa carência e mal-estar. Estar realmente sozinho chega a ser uma raridade de poucos atualmente.
Essas pessoas que dificilmente tem um momento de reflexão solitário, diferente dos Nietzsches, parecem ser mais leves, despreocupadas e até mais felizes - talvez por mascararem suas angústias ou simplesmente por nunca terem se deparado com elas. Refletir sempre vai resultar em dor e descontentamento. Quem pensa, se dá conta de que muita coisa na vida não tem sentido nenhum e pensar mais e mais pode só aumentar a agonia. É por esse motivo que os Nietzsches que andam por aí muitas vezes são vistos como pessoas amarguradas e estranhas. Na verdade, encarar as verdades da vida torna esses indivíduos mais críticos, pois continuam numa busca incessante por respostas que podem nunca alcançar. Dessa forma, se isolam da maioria por se sentirem completamente incompreendidos e desencaixados num mundo onde parece que ninguém os acompanha."

© obvious

...pois, ter demasiadas perguntas não é nada cómodo, não. Mas suponho que até isso poucos entendem de tantas respostas que têm. E sim, acho que as pessoas têm de ter níveis de profundidade parecidos para falarem a mesma língua e se entenderem no mesmo comprimento de onda de vida. 

[e não, não me estou a comparar aos "Nietzsches" de que o texto fala, apenas sei - e dizem-mo muitas vezes... -  que tenho muitas perguntas, e que penso muito sobre coisas demais, ou penso demais sobre muitas coisas, e isso de facto, se não o soubermos compartimentar e dosear no tempo, cria algum distanciamento de maior parte das pessoas, que não têm tantas perguntas nem gosto pelas interrogações, pela busca da verdade mais próxima... sim, como alguém me apelidou, eu sou um ponto de interrogação ambulante, mas vou andando assim, contribuindo para as minhas respostas e para novas perguntas... porque às vezes as novas perguntas respondem a alguma coisa das perguntas antigas, mas é preciso querer ver.
Algumas perguntas, se não são respostas completas e inteiras, acabadas, são contributos importantes que nos apontam uma direcção... é um caminho incerto, não é uma resposta certa. Mas também podemos dizer muito das pessoas pelas perguntas que fazem. E tanto, tanto, pelo que nunca perguntam, ou ao que fecham os olhos sabendo.]



Muitas pessoas confundem sexo com intimidade.
Há casais que vivem ‘juntos’ durante décadas, ‘dividem’ a mesma cama, fazem sexo diariamente e não são íntimos.
No entanto, há pessoas que se encontram por alguns minutos, trocam um olhar e, sem mesmo se ‘despirem’ ou ‘tocarem’, criam uma relação de intimidade.
Viver junto, não é morar na mesma casa.
Dividir não é partir ao meio.
Despir-se não é tirar a roupa.
Tocar-se não é encostar um corpo no outro.
Quando somos íntimos.
Mesmo com roupas, estamos despidos.
Mesmo à distância, estamos unidos.

Catarina Castro

[E é isto. Mesmo. Intimidade, cumplicidade, partilha, sentir-se perto, trocarem-se e tocarem-se num olhar que fala onde as palavras apenas ouvem onde não conseguem chegar. É encontrar no outro o caminho para aquela parte de nós que sozinhos não habitamos. E a paz que esta plenitude namora. ]

Boa Noite



14 dezembro 2014


O relógio marca
quarenta e oito horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer.

Alice Ruiz

[...marca?... Terão sido? Quarenta e oito? Ou setenta e duas? Ou cem?....
 Sem tempo nem horas.... o meu relógio tem as horas partidas... e os minutos todos chegados.
esqueço-me sempre que não tenho relógio, e que o meu tempo não se mede em segundos.
Não servem os relógios para contar infinitos.
O infinito, como o amor, é uma questão de fé.]

Bom Dia

"(...) Fecho os olhos e vejo-te como sei ver: os traços toscos com que tento pintar-te dentro de mim, sem nunca te abarcar. És sempre mais que isso, mais do que vejo, mais do que sei, és sempre mais. És sempre mais inteira e mais completa que os meus traços vagos, os meus traços toscos. Talvez nunca ninguém saiba outro alguém completamente. Talvez nem a nós nos saibamos, que é difícil ver-se inteiro visto de dentro. Pinto cada traço teu a cada gesto, a cada curva, a cada volta, cada traço teu que há por dentro. Dentro de ti és maior que por fora, dentro de ti és um universo e um futuro, dentro de ti és, dia a dia, uma surpresa, a surpresa das coisas pequenas, das coisas grandes, das coisas novas e das coisas repetidas, como um fractal de gente. Por vezes nem sei que te dizer, nem sei que te mostrar para não ser fosco, aborrecido, previsível. Por vezes não sei se sentes o que sinto, o conforto dos silêncios, se encontras calor nos hábitos, nos gestos repetidos.
(...)
Fecho os olhos e vejo-te dormir, a cada respiração és nova, vejo um pormenor de ti que me encanta de novo, como se te visse sempre pela primeira vez. E sei, intimamente sei, que quanto mais me foco em ti menos terei, do mundo externo, coisas para te trazer. Não te sei dizer palavras novas, porque as palavras que aprendo e invento são palavras sobre ti. Sou como um homem que explora um labirinto, e o labirinto apropria-o e consome-o, e à medida que ele aprende caminhos e meandros, é cada vez mais um com o labirinto e cada vez menos um consigo; à medida que os meus olhos se focam mais em ti menos interesse vês em mim, e eu sinto que não sei dizer-te mais sobre mais nada que não sejas tu.(...)"


[fecho os olhos e vejo-te. Sempre foi como te vi melhor. De olhos fechados. Abertos de cegueira. Abertos de mim fechados de mundo. Vê-se o que se sente, o que sinto, o que me fazes sentir, quando de olhos fechados estás à minha frente. É aí que te vejo melhor e talvez não te veja, talvez seja só eu a ver-te.
Fecho os olhos e vejo-te dormir enquanto durmo encostada a ti, com a cabeça no teu peito, a melhor almofada do mundo. E eu de olhos fechados. E vejo-te. Ou sinto-te. Ou sinto, só. Não sei, não quero abrir os olhos.]

Boa noite

13 dezembro 2014


Coisa boa.
Coisa boa pensar-se assim.
Ou tentar.

"Engana-te de propósito a fazer as contas. Falha o golo em frente à baliza. Despenteia-te. Escreve “sapo” com cê de cedilha: çapo. E também “sopa”: çopa. Inventa combinações de números quando o multibanco te pedir o código. Contraria o GPS. Põe sal no café. Telefona à tua mãe e diz que querias ligar para as finanças. Despede-te quando chegares e diz olá quando partires. Senta-te no chão. Veste a camisola ao contrário. E, por favor, calça o sapato do pé esquerdo no pé direito e calça o sapato do pé direito no pé esquerdo. Verás que não é assim tão desconfortável, que o calçado ortopédico é um exagero e que há muito mais do que aquilo que esperas naquilo que não esperas."

José Luís Peixoto

[...çerá?? ]

Bom Dia!!

12 dezembro 2014


Afinal, quem é que tem a pretensão
de não
ser louca?...
Loucos somos todos,
e livre-me Deus dos
verdadeiros ajuizados,
que esses são piores que o diabo!

Florbela Espanca.

[... exacto! Palavras sábias. E hoje foi um dia de dar largas à loucura boa e a deixar-me gargalhar, porque há muito ando a precisar. disso e de tantas coisas... mas esta resolve-se com um pouco de disposição e um sítio onde se podem escrever todos os disparates, e rir-me sozinha enquanto o escrevo, e o penso... e então se tiver quem alinhe na brincadeira, o dia alegra.
É isso, livrem-me dos verdadeiros ajuizados... eu gosto é dos falsos loucos, daqueles loucos que me fazem rir com vontade, os que sabem brincar, que têm um humor no mesmo comprimento de onda do meu, mesmo quando é tonto, ou acriançado, ou a ironia mais fina, ou o sarcasmo mais acutilante - os que (me) entendem. Aqueles com quem se pode brincar com tudo e falar de tudo, sério ou tontices, sem ter medo de julgamentos parvos ou bacocos, o à vontade duma cumplicidade que só vive na intimidade. E a intimidade é tantas vezes a partilha do riso genuíno, da gargalhada verdadeira.]

... já que é Natal e coiso e tal,  aquela ideia do espírito natalício, 
o bem da humanidade, o calor humano e o amor ao próximo 
(principalmente isto do Amor ao próximo faz aqui todo o sentido, só vos digo...)
... podiam-me dar um champô destes, era coisa para me dar jeito (muito mesmo)...
e de uma utilidade indiscutível no natal, passagem de ano, carnaval, páscoa, eu sei lá... sempre. É coisa boa de se ter à mão... às mãos, melhor dizendo, que só uma é muito desperdício por agarrar - coisa inadmissível num tratamento que se preze, e este eu parece-me que ia prezar 
(e sim, as vogais também, assim de repente, se me baralharam, mas estão na ordem certa,embora, convenhamos, a outra ordem, se calhar - ou mesmo de certeza -, ainda era mais certa: era na mouche, mesmo!!... ai ai)...
Não sei se tira "ex" da cabeça ou de algum outro sítio possível, ou até imaginário, 
mas se não tirar insiste-se... dizem que se insistirmos muito as coisas acontecem, sei lá, 
ou então pomos cara de que aconteceram, felizes e contentes, com tudo perfeito e maravilhoso,
 e toda a gente se convence, com sorte até nós... e sim Tuserve, Tuserve.... e se não servir insiste-se e persiste-se, que dado o calibre do tratamento não me parece assim um grande sacrificio... digo eu...
Tuserve, tuserve... anda cá que eu esfrego... 
só não se se se me esfrego se te esfrego... mas algo me há-de ocorrer!!! 
ehehehhee



.... Dizem que é Natal e eu ainda não dei por nada, e acho que vou continuar assim. Dantes gostava da época de Natal, agora não. Parece-me uma coisa cada vez mais pequena apesar de em todo o lado a queiram esticar mais e mais no tempo. Mas a magia parece encolher... Ou a mim parece. Já o café quentinho a aquecer este frio, é bom.

Bom dia 

11 dezembro 2014

Ainda não acendi a lareira este ano, coisa estranha em mim, muito estranha, porque adoro a luz da lareira, da nostalgia que nos aquece, das memórias que ainda queimam. E ainda não é hoje. Não ainda. Hoje são meias grossas até aos joelhos, um camisolao quente e uma manta para me embrulhar. Uma manta que me cobre e tanto me descobre... Os olhos a poisarem no par que me acompanha: um chá e um livro. Um  chá bem doce e morno, embrulhado numa caneca baptizada com uma frase que gostei mal bati os olhos. Por isso a escolhi. E o livro, o livro para ler e parar de ler para pensar no que se lê, e tantas vezes a reler e voltar a ler até me fazer sentido, porque não se entende à primeira, ou eu não. E depois moer e remoer ideias, mastigar e restar algo que me acrescente. É sempre para isso que acordamos: para nos acrescentarmos mais alguma coisa que não apenas um dia.

(Eu até podia dizer "Bom dia", mas é um bocado tarde, né?)

10 dezembro 2014





(...)
el corazón a veces nos despierta a los gritos
y uno se vuelve sordo de ternura
(...)

Mario Benedetti


[a alma a queimar gritos
a pele a derreter sussurros

lábios que não vêem
olhares que não ouvem.

palavras que não falam,
sonos que não dormem

beijos que despertam,
almas que fogem.

tempos que passam,
eternidades que ficam.

onde a saudade se demora
a ausência não mora.

se a distância aparece
de amor não se padece.


( leio duas linhas deste homem e o que não queria sair começa a correr-me pelos dedos...) ]
Porque às vezes as noticias não são tão péssimas como se estava à espera,
ficamos quase felizes. Quando o menos bom nos tira muitos quilos de peso de cima não há nada que esteja bem, mas temos a certeza de que poderia estar pior. Ou vamos acreditar que sim. Não sou uma mulher de fé, nem de esperança, nem de optimismos, acho que sou - ou tento ser - tão realista que me torno pessimista, porque a realidade tem essa coisa de normalmente nos tirar o tapete da pior maneira e nos enfiar um balde de água fria pela cabeça abaixo na pior altura. Depois há quem ache que dá a volta a tudo, que tudo acabará por correr bem e às mil maravilhas, e há quem sucumba perante a falta de chão, andando à procura dos pés durante uns tempos. Eu penso pertencer ao segundo grupo, caio, ando  uns tempos à procura não sei de quê, acho tudo uma valente merda, mas no caminho percebo que estar no chão não melhora nada, e depois de me deixar cair obrigo-me de alguma maneira a levantar. Mas não encaro normalmente as coisas com a ideia de que tudo vai correr pelo melhor, isso não, apenas de que vou fazer o melhor que possa, e depois logo se verá o que a vida me responde. Sendo que raras vezes ela não se tenha mostrado duma educação muito duvidosa... Portanto, não gosto de esperar grande coisa. Desde que me conheço que sou assim, e os anos só me têm reforçado a (des)crença.
Mas hoje estou uns quilos mais leve que ontem, e gostei deste mocinho quando lhe pus os olhos em cima... gosta do ar sério de gaiato traquina, a armar em solene só porque tem um ramo de flores entre os dentes e vontade de parecer grande.... a mim desarma-me. Dá vontade de dar festinhas e brincar com o gaiato e fazê-lo rir naquele ar solene que tenta pôr...Deve ser um grande parvo, é o que é. Normalmente são esses que me desarmam e nem precisam de vir com flores...
Bom Dia!
... E agora era isto. Colo. Estar perto e estar junto.
Voltar a respirar fundo, sem nós na garganta.
A aflição afrouxa e o espírito descansa, contentando-se com o melhor do pior, quando já só esperávamos o pior do pior. E, então, com o fim do dia, o sofá, e a descompressão, a vontade da paz do colo em silêncio aparece inteira. Ter alguém, não para nos aliviar do que não é bom na vida, do que é nossa responsabilidade, mas para nos fazer aproveitar o que é bom e vale a pena, e nos permite equilibrar o peso de aguentar tudo o resto. 
E aproveitar o que é bom também é responsabilidade nossa. 
Se tivermos calor para dar, e paz, e colo. 

Boa Noite

09 dezembro 2014

Hoje de manhã, tal era o frio, enquanto andava perdida em busca de cumprir uma missão, deixei de sentir as mãos, e dei por mim a pensar que não eram só as mãos que deixavam de sentir, de sentir o que tocavam, o que por fora lhes chegava, o que agarravam e deixavam até cair, sair de mim e deixá-las ir. Toda eu parece que deixei de sentir, a alma congelou algures nestes tempos recentes, cristalizou num momento que não recordo, mas que chego a agradecer. Gelaram-me as mãos de afectos, os lábios de sorrisos sentidos, o olhar do que o fazia brilhar quente, cabreirinho ou meigo. Agora o que surge parece não nascer. As mãos perderam os gestos, ou perderam-se dos gestos que escrevem afectos, perderam-se na mecânica dos movimentos que nos sobrevivem. Que não sentem nem fazem sentir. Nada. 
Cheguei a pensar, enquanto navegava o frio, que tinha dúvidas se o frio que me adormecia as mãos vinha de dentro ou de fora. Melhor, se hoje em dia eu tenho ainda um dentro e um fora. A fronteira já não sei onde fica, ou se existe.
 A alma está tão gelada como a pele. 
Dormente duma dor que mente porque se cala.
Gela como se não doesse.

... Nós não controlamos nada, ou quase nada, do que realmente importa.
Saber lidar com essa impotência é aprender a viver.

Boa Noite

07 dezembro 2014


... Sento-me aqui, com o frio a comer-me as mãos e refastelado na alma, e penso que não sei a que horas despontaram os primeiros raios de luz, que fazem o céu alto de azul bebé que para mim não nasceu. É o fim dum dia sem noite, ou com uma noite esburacada, desdentada sem dentes que mordam, mas que me espapaçam os ossos e me tiram o sangue que não dei. Sangue. Pilhas novas para dois ou três dias, ouvi é fiz por não escutar. E dou por mim a lembrar-me que me pus a lavar a loiça, não sei porquê, não é coisa que me dê, mas tinha de fazer alguma coisa, ou parecer-me que estava a fazer alguma coisa, que podia fazer alguma coisa. Lembro-me do que pensei na altura, da associação de ideias, e de pensar como a vida é estúpida. E agora aqui recordo a frase de quem não me lembro de ver chorar, a não ser há praticamente um ano, e passado um ano, eis que o vejo de novo assim, por minutos rendido ao que nos derruba, e diz apenas "há coisas na vida que podemos escolher, outras não temos escolha". E a lua a esconder-se e o sol que não se vê.

06 dezembro 2014

E de repente o chão falta, os olhos não vêem porque só vêem para a frente e tudo nos foge. O que virá por aí? Que tempestade me espera? Que mais me espera? Quantos mais me fugirão? Como me resto? Em que apoio me posso cair? Que força para ser eu o apoio? Onde está o chão?
Hoje o sol pôs-se às quatro e cinquenta e seis minutos na minha varanda, até lá estava-se bem aqui, de pijama e roupão, meias até ao joelho, uma manta e as mãos frias. A preguiça consegue estas coisas, apanhar o exacto minuto em que sombra se instala onde estamos, em que sol se esconde por trás do horizonte das casas. O exacto instante a partir do qual o frio se instala e a única luz que resta é a que tivermos e nos refugiamos onde encontramos calor.
... Ronha quentinha, que lá fora o sol está frio e aqui o calor aconchega-se a mim. 
Depois de trincar alguma coisa que cale a barriga vou calar a cabeça voltando a fechar os olhos.
(bem sei que a foto não é muito convidativa com o frio que se faz sentir, 
mas há pessoas que nos despem o frio com a roupa, sei disso com a certeza de quem o viveu.
Enquanto não encontro outro desses espécimes ando de meias até as orelhas...
 Mas continuo a gostar das fotos. E de despir o frio com vontade.)

Bom Dia


"A felicidade é uma questão de pontaria."
Mia Couto

Mas se não atirarmos nunca saberemos da nossa pontaria.
A minha é péssima. E péssima comprovada. 
Também é certo que quando (me) atiro é sempre de olhos fechados. 
Exupery não dizia que o essencial é invisível aos olhos? Pois parece que à pontaria também. 
... Ou não. Se calhar o alvo certo ainda não apareceu e a pontaria acertou em errar o alvo.

Boa Noite

05 dezembro 2014


"(...)E não são as palavras que apagam as distâncias, e não são as respostas que apagam as perguntas. Gosto do enigma de não saber da infância, do milagre de um beijo. Até o paraíso precisa de morte. Gosto do toque perigoso do teu suor, da respiração de víbora do desejo. A catástrofe é o abraço. E só as catástrofes me fascinam."

António de Deus-Rosto

[...deve ser isso, eu devo ser catastrófica, uma queda para a catástrofe, digamos assim. 
A verdadeira catástrofe, para mim pelo menos, é todos acharem uma catástrofe essa queda, em vez de caírem em mim e eu numa outra catástrofe parecida de alguém. Mas não, eles caem sempre neles, e eu sou obrigada apenas a cair em mim. E uma catástrofe que podia ser uma queda tão boa... uma queda no abraço que se sente casa, no beijo que nos esfuma os dias, no desejo que morde os sorrisos por dentro, no suor de tocar a pele certa. O desejo explodido como uma pequena morte feita paraíso. Uma catástrofe.]

"Eu a amava, em suma.
E era infeliz.
Mas como poderia ela algum dia entender essa minha infelicidade?
Há aqueles que se condenam ao cinzento da vida mais medíocre porque tiveram alguma dor, alguma desgraça; mas há também aqueles que o fazem porque tiveram mais sorte do que poderiam suportar..."

Ítalo Calvino

[Não consigo entender esta lógica, este princípio de vida que me parece mais um fim da vida, lento e em agonia. Cinzento por opção, paz podre por escolha cómoda, zona de conforto infeliz. Não entendo, ainda não entendo, e tenho esperança de nunca, mas nunca, vir a entender. Ainda menos quando o fazem por medo de serem felizes, de não saberem se conseguem, ou sabem, ser felizes. Pelo medo de poderem descobrir que afinal tudo era uma ilusão que um dia nos cai pela cabeça abaixo, feita desilusão que nos arrasta, como se escolher a agonia não fosse já essa certeza, essa desilusão já mais que amargada, medida, testada e assegurada. Essa miséria bem encaixilhada, não mais que uma miséria em que nos habituámos a viver, a lidar, onde já não esperamos perder nada, porque simplesmente já não esperamos nada. De nada. Onde a cobardia de fugir à possível dor da desilusão se torna na coragem mal maquilhada do sacrifício duma vida por viver, em nome de algo que não conhecemos nem pelo nome.

Adquiri dois livros deste senhor, um para oferecer (à espera de o ler na mesma, claro...), e outro para consumo pessoal. Aconselharam-me este senhor, que era bom e eu ia gostar... depois digo. Agora ainda ando aos saltos no Rayuela, que gosto, gosto muito. Anda-me a apetecer outra vez ler, ler muito. É sempre a mesma coisa... mergulhar na vida onde a há, se não na minha na que vivo através das histórias que alguém escreve e que vivemos pela mão de alguém mas na primeira pessoa. Aprende-se na mesma, sofre-se também, e pensa-se, pensa-se muito sobre aquela história e a nossa e as que não chegaram a ser nossas, mas de as pensarmos já o são, um pouco pelo menos. E pensamo-nos e conhecemo-nos, e às vezes somos felizes fora de nós, ainda que por dentro da nossa visão duma história que fazemos nossa pelo olhar, e que nos faz fechar o livro e os olhos tantas vezes para nos imaginarmos, nos pormos na história, sermos a história sem deixarmos de ser quem somos. E eu voltei a isso. Sem vida é que não sei viver. Cada um a arranja onde pode, é o que é!!...]
... uma vez disseram-me:
"virar a mesa é muito diferente de virar apenas um guardanapo. 
E o que tu estás a querer é virar a mesa..."
Há uns tempos voltei a falar com ele sobre esta frase, e disse-me que quando mo tinha dito nunca pensou que eu o fizesse realmente, que o conseguisse, fizesse e assumisse.
Fiz, virei a mesa. 
Virei a vida do avesso. 
Ouvi os conselhos sensatos dos outros e  optei  pelos meus conselhos, ainda que pouco sensatos, de mesas viradas e vidas do avesso e corações de pernas para o ar.
Fiz, fiz o que sentia, e gosto muito da mesa virada e o avesso é talvez o meu direito,
 e o direito de o ser. Permiti-me, não fugir dos conselhos sensatos, não, não foi isso, foi apenas seguir-me, seguir o que sentia, ser eu. Onde estava não era mais eu, não me sentia mais eu.
 Arrisquei a felicidade, não a ganhei, 
mas o que perdi também não foi felicidade. 
E ganhei-me, ainda que para me perder, mas ganhei-me.  Inteira.
Às vezes temos de nos encontrar perdidos para nos descobrirmos inteiros e autênticos.
Vale a pena. Ainda assim, vale a pena tentarmos viver como somos, tentar agarrar a felicidade que nos faz felizes.
E enquanto for assim ainda estamos vivos e acreditamos que podemos viver melhor. E vivemos esse sonho, de arriscar realidades.

Bom Dia


"O amor é – tem de ser – presente com esperança de futuro; preferir e bastar; não é passado."

Preferir e bastar. 
Preferir o presente porque o passado já não se sujeita a preferências. É o que foi, preferência acabada, e basta-se assim. 
Para o futuro ser bastante não basta preferir no presente, mas preferir o presente.
Preferir e bastar, é isso, isso basta. 
Basta-me.
Preferir-me presente.
Fazer-me futuro.
Presente com futuro.
Amor.]

04 dezembro 2014

... não, mas se também for é melhor. 
Muito melhor...
É estar perto junto.
Uma sem a outra é ficar a meio caminho de lado nenhum.

Bom Dia!


03 dezembro 2014

Vejo-a chorar à minha frente e apercebo-me de que se me gastaram os abraços. Já não tenho braços para tanto tamanho, para tamanha vida. Quando os braços eram mais pequenos eu ainda achava que lá cabia tudo, talvez eu fosse maior quando era pequena, ou ao contrário do que dizem, o mundo me parecesse mais pequeno e menos avassalador de dor,  e os abraços não se gastavam, nem se cansavam, nem se desistiam, como as lágrimas parecem nunca se cansar. Uma pessoa pensa que a vida nos gasta as lágrimas mas arranja-nos sempre mais. A vida só nos gasta a nós em tantos nós que nos faz engolir. Seca-nos nos intervalos de tantas lágrimas.

02 dezembro 2014

...preciso tanto de me pirar daqui, deixar a estrada pegar-me e segui-la sem pensar no onde ou no porquê. Eu, um bom livro e alguma coisa para escrever. Tenho tantas palavras para me gastar, e ando a guardá-las para me desperdiçar no tempo de nunca as chegar a entender. Tenho coisas para tentar escrever, assim consiga vencer a preguiça da inércia e convencer-me que me despejarei nesse por escrever depois de escrito. 
Preciso de me pirar daqui, só comigo, e trazer um sorriso cheio de palavras por dentro da boca que quebraram o silêncio pelos dedos.... Ahhhh 2015 se te apanho fujo contigo. Contigo, comigo, com um livro na mão e palavras nascidas por nascer. 

... sim, e então o ressabiamento aparece. E bolas, um homem ressabiado é 1000 vezes pior que uma mulher, e uma mulher ressabiada já é insuportável mesmo à distância, imagine-se ter de lidar com um homem ressabiado, que de repente se acha.. se acha tanto, se acha melhor, se acha tanto que nunca chegou a ser, mas tenta atirar para cima dos outros o que pensa que é, em contraposição às grandes falhas que gostaria de ver, ou que acha que vê, nos outros.... e onde estava ele quando tinha medo da própria sombra? onde estava ele quando acreditava mais no Pai Natal do que nele próprio e nas suas capacidades? onde estava ele quando não sabia que a sua cabeça era uma coisa que funcionava autonomamente? Caramba, porque é que me dou ao trabalho de fazer crescer as pessoas, de as tentar fazer ver o que são e o que valem, e valem sempre mais do que pensam, e a paga que tenho numas é umas costas voltadas e indiferença e desprezo, e noutras é o ressabiamento que me quer esfregar na cara que são tão melhores, mais responsáveis, mais zelosos do que eu... eu, a irresponsável que o ajudei a crescer e a chegar donde agora me fala com sobranceria, e eu só tenho pena, na verdade não tenho mais nada senão pena de as pessoas serem assim e não terem vergonha disso. Tenho tantos, tantos defeitos, mas irresponsável não me parece que seja um deles, e que fosse, talvez merecesse que mo fosse apontado com menos ressabiamento e ar de superioridade. Afinal de contas tanto zelo extremoso agora, que só se revelou depois de conhecerem a porta apenas do lado de fora. De eu a ter fechado por dentro, com o que não queria mais a ficar trancado do lado de fora... deve ser difícil de compreender por quem se acha tanto, tendo tanta dificuldade em encontrar alguma coisa (se se desse ao trabalho de procurar) daquelas coisas que não se vendo, fazem toda a diferença no que encontram em nós. Lamento não ajudar, já não me atinges, só me feres de pena de ti e dos teus ares de superioridade tão ocos e bacocos.  És melhor do que isso - ou quero continuar a acreditar que sim-, pena que não o vejas e principalmente que não o pratiques, mas falta-te alguém que te faça ver o que não se vê, mas que faz crescer. Maturidade, equilíbrio, estabilidade, densidade no ser. E a mim, a mim também me falta alguém ao lado para me colmatar os defeitos, me fazer sentir que não serão tão graves assim, que tenho coisas boas, fazer-me rir de mim, alguém que valorize, sem sombra de dúvidas, muito mais as qualidades que eu possa ter (ou ele vê-las), do que as falhas que me falham a cada dia, tanto e tanto, e eu não nego. Alguém que possa ser às vezes o apoio que parece ser o que todos vêem em mim, antes de virar costas, por opção ou obrigados. Alguém que me faça crescer, rir, amadurecer, tranquilizar e equilibrar, que goste de gostar e de ser gostado, e que me dê paciência para aturar meninos ressabiados com ares de adultos ofendidos. Não há pachorra.

01 dezembro 2014

... E assim sem aviso olha-se para o lado a acabar um cigarro e vê-se isto... Coisa mai'linda... Gostar assim de alguém com o mimo a comer letras. E as letras a comerem-me a alma de inveja. É feio, pois é, mas "goto mto de ti" é lindo. E o sorriso guardado nas gavetas da memória também. A minha inveja presente do pretérito perfeito que ainda guardo. E que ainda me guarda de amargar.

Queres cortar o fio, todos os fios, seja. Não quero que te falte nada. Mas quero que saibas que nunca estive presa por fios, não a ti. Que quando se ama não há fios, porque os fios podem-se cortar, podem ser cortados. Não aprendeste isso porque não amaste. Ou se calhar sim, não sei. Mas não a mim. Pois seja, não é coisa que se obrigue, force ou se conquiste (lembro-me de dizeres que não sabias conquistar ninguém, que não sabias, nem fazias ideia, de como isso se poderia fazer. Acho que finalmente te entendi. Há coisas que não se conquistam, ou são ou não são. Ou nascem já sendo, ou não se fabricam - fabricando nunca chegam a ser). Ou acontece ou não acontece. Quando acontece não há fios. Há um ar que nos envolve que se respira, que se alimenta e nos alimenta; um mar em que se mergulha, para onde nos virarmos ele envolve-nos, cerca-nos, e dá, ao mesmo tempo, a liberdade de não ter chão, de tudo ser possível, e isso parecer impossível. E se calhar é, mas respira-se, nada-se sem ar, mergulhadores de profundidade ou não. Quando se ama não há fios, nem tempo, por isso nunca se espera aguardando - aguardar é saber que o tempo passa, senti-lo passar -, mas espera-se sempre sem saber que se espera ou sem querer sequer esperar, vivendo, um dia a seguir ao outro. Ou talvez a espera seja da vida por nós, para que estejamos em condições de a viver, de a receber. Porque os fios não se cortam, não há fios. Mas talvez um dia, sem saber, ou perceber como, nos vejamos mergulhados noutro mar, respiremos outro ar, o chão nos fuja dos pés e das mãos, e o tempo volte a não existir. Os fios foram cortados. Só há fios quando (já) não se ama.
Deixámos a cidade de Novembro atrás de nós, ainda mal se despegou dos calcanhares e já um Dezembro em pontas dos pés nos espera... ansioso de despedidas e de lareiras e de renovações metradas em 365 dias. É sempre em Dezembro que nos despedimos das mesmas coisas, Janeiro fica com os "olás", com as páginas em branco cheias de curiosidade do que o futuro vai escrever, e quem o irá ler, ler com a alma - viver. Em Dezembro acontece-me sempre muita coisa, mesmo que nada aconteça. Nem tudo o que acontece é bom, ou quase nada é bom, e cada vez menos. E passa sempre mais um ano. Sempre. E talvez isso seja uma coisa boa. Os anos passam à frente, que não passem só à minha frente, que os saiba pôr nos lugares certos, o passado atrás, o agora para ser já, e o futuro todo por estrear. E eu também.

Bom Dia

... então, será coisa de pombos?
(... as coisas de que me lembro... não há explicação... )
Mas tenho saudades, muitas, de tantas coisas. Saudades de momentos, de dias, de noites, de jantares, de conversas sem fim, de olhares indizíveis, de mãos atrevidas, de copos de vinho à lareira, de  almofadas no chão e estrelas no tecto de fora, de mil folhas divididos,  de fins de tarde bem conversados, dos colos pedidos e dos colos dados em recebê-los, dos beijos demorados, dos "olá" que eram recomeços a meio das conversas não essenciais, das gargalhadas bem partilhadas, da paz - tantas saudades da paz. E do que eu sentia, dessa mistura incalculável e imprópria de ternura, desejo, intensidade, carinho, tesão, e a leveza de tudo isso na paz dum aconchego quente.  Dum beijo na testa, das mãos dadas,  dum colo mudo, do olhar que nos entra e sussurra todas as coisas que as palavras não aprenderam a dizer. 
Tenho saudades de sentir o que não se calcula, não se espera,  não se finge, não se mede, não se conquista, não se procura, mas se teve. Tudo. 
Tenho saudades desse lugar que éramos. E os lugares não se apagam com o tempo. Talvez as saudades se apaguem do lugar.

Boa noite

30 novembro 2014

A tentar absorver o sol com a pele. Tentar despir-me o mundo fechando os olhos. Vestir-me de mais um dia que não me assenta. Pinto o céu de azul à volta das nuvens, apago as estrelas e escondo a lua, atrevidamente fora de horas, com o sol.
Aqui sentada numas escadas que não sobem nem descem, que não levam a lado nenhum, o sol parece não saber nada, e o dia mudo. Percebo que a pele não me chega dentro. E que não me chega. Apenas existo, como o dia que não fala e o sol que não passa além da epiderme. É uma forma de respirar, que não sabe inspirar e não sente expirar.

29 novembro 2014


... True.
E hoje é dia para deixar algumas fechadas, 
aproveitar o frio do dia disfarçado de sol da maneira mais quente que se encontrar. 
Dizem que rir faz bem e gente que goste de nós também...
Bom Dia

28 novembro 2014



- Que procuras? – Tudo.
- Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

Cecília Meireles

[Viajo sozinha. Como sempre. E gosto... às vezes não gosto, mas sei que sozinha é a minha escolha de não estar com quem não me arranca a solidão de dentro. E, sendo assim, prefiro sozinha: já que não arranco a solidão de ninguém que eu queira, e de ninguém que eu queira sou escolha. Sozinha então, que sozinha vai-se bem. E estou a precisar de ir sozinha, de novo, um dia destes qualquer que o mundo me largue e eu possa fugir para longe, para mais um dia de tempestade quem sabe. As tempestades andam atrás de mim, perseguem-me porque não lhes fujo, ainda que cheia de medo, às vezes a vociferar entredentes, não lhes fujo. Também não as procuro, apenas sigo o meu caminho, aquele que eu escolher. E vou. Se alguma tempestade me seguir, ela que me apanhe, não é difícil. 
Não ando perdida, não procuro nada, ainda que deseje o tudo do meu todo (que é tão pouco). Não ando perdida, mas não serei fácil de encontrar, poucos calçam estes caminhos desencontrados de não procurar nada de tudo que mais se deseja. Porque o que mais se deseja não se pode procurar, e nem sequer se sabe que se deseja, surpreende-nos, encontra-nos nos desencontros da vida. Se me encontrarem, apanhar-me é o mais simples, então se for tempestade, é o raio mais certeiro. ]

Bom Dia

27 novembro 2014


"É tão fácil não gostar. Não querer. Não correr. Permanecer naquilo que já conhecemos. Que não nos surpreende. Saber de cor os dias. e ter as noites controladas. Ter o passo seguinte traçado e o caminho meio rabiscado. É tão simples prescindir e não lutar. É tão fácil querer viver no vazio. É simples esquecer sentir. Optar não tentar.
É tão parvo não gostar quando se gosta. É idiota não querer quando se quer. É estúpido não arriscar. É triste o medo ganhar.
É pequenino não querer ser grande."

Rita Leston

[será tudo isso tão simples? não a essas coisas todas? não sei. 
Será tão mau assim preferir o cómodo e não arriscar? não sei. 
...não arriscam a pele, não arriscam perdê-la por deixar de senti-la, ainda que ela continue no seu lugar, intacta; não hipotecam a alma sem saber quando a recuperarão, ainda que a saibam sua. Nunca são verdadeiramente infelizes nessa comodidade acomodada, nem nunca saberão o que é poder perder a felicidade que se tem, que se sente, que nos mostra como a vida pode correr nas veias e o coração saltar obstáculos. Mas também quem é que quer isso? Essa aposta alta de vida? Essa roleta russa contra as probabilidades?...é tão melhor um seguro da vida que não se chega a viver e uns chinelos amarfanhados, de quem anda na guerra, ainda que pouco gastos onde chamam casa, e onde nunca sentimos estar com os dois pés. 
Não sei o que é melhor. Não fiz o seguro, e a minha guerra é procurar os chinelos para os dois pés quando não quero andar descalça.
Talvez um dia. Depois saberei. ]

Aceitar o dia. O que vier.
Atravessar mais ruas do que casas,
mais gente do que ruas. Atravessar
a pele até ao outro lado. Enquanto
faço e desfaço o dia. O teu coração
dorme comigo. Agasalha-me as noites
e as manhãs são frias quando me levanto.
E pergunto sempre onde estás e porque
as ruas deixaram de ser rios. Às vezes
uma gota de água cai ao chão
como se fosse uma lágrima. Às vezes
não há chão que baste para a enxugar.

Rosa Alice Branco
[Aceitar o que vier, e o que não vier também. 
Atravessarmo-nos até ao outro lado de nós, onde já estamos e nos esperamos sem saber o que esperar de nós, mas sabendo que lá chegaremos, que não nos faltaremos no que de nós sempre resta. Que nos chegaremos, que nos bastaremos, e que isso chega para respirarmos dia a dia, o dia que vem e tudo o que vai. Respirar até um dia - e pode ser mesmo só um dia - o dia nos respirar e a vida nos encher os pulmões da alma que sabemos que sente, que foi feita para sentir, e isso nada nos tira, pode adormecer, pode até adoecer, mas o que é verdadeiramente nosso não se perde, nem nos podem roubar. Mesmo que nos roubem o chão que nos enxuga as lágrimas, as lágrimas são nossas, o sorriso que as seca também, como a alma que nos habita e não nos morre. A alma é o que somos, é o nosso último reduto, a nossa essência, o que fica quando tudo o que pode ir vai, quando nada mais nos acresce além de nós. E há dias em que nos basta para aceitar o dia e agasalhar as noites. Sabermos quem somos. Mesmo que nos pareça pouco, nos pareça pequeno, nos pareça frágil. Mesmo que não consigamos ver em nós o que nos vêem. 
Nos dias em que não se acredita, aceitar. O que vier, e o que não vier também.]

Bom Dia

"-Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti,
mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo..."

Al berto

[dá-me um nome,
um que seja meu,
que sinta meu,
que seja eu,
eu pelos teus olhos
e que seja eu.
Que sejam os meus olhos,
o meu olhar,
a minha pele
e a tua sede de vida.
Chama-me com paixão,
sussurra-me de ternura,
berra o teu grito por mim, por ti.
Agarra-me pelo nome,
chama-me pelas mãos.
Chama-me como me queres.
Chama-me o que quiseres,
mas chama-me tua,
a tua vontade,
o teu desejo,
o teu sonho,
o teu amor.
Chama-me.]

Boa Noite